Quem e porquê promove o desemprego?

O Martim não teve o monopólio da ignorância, naquele que já é, seguramente, o debate do Prós e Contras mais discutido dos últimos tempos. No vídeo acima, tal e qual como escreve a Marta Madalena Botelho, do P3, fica claro que “empreendedores há muitos, humanistas é que nem por isso”. Chapeau!

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Se tivesse atingido os 200% era pior

PIB

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O menino e a doutora

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Esta segunda-feira (excepcionalmente, porque o programa passa demasiado tarde para os meus hábitos e frequentemente é desinteressante), vi o Prós e Contras na RTP1. O que vi ter-me-ia mandado para a cama mais cedo a não ser por uma coisa: a Raquel Varela (declaração de interesses: somos casados). Não fosse por ela, e o programa teria sido completamente soporífero. Foi a Raquel a única que produziu opiniões fundamentadas, apoiadas nos seus próprios estudos ou em estudos de outra gente séria que visivelmente conhece, em defesa do Estado social, do emprego, da dignidade de quem vive do seu trabalho, contra a emigração como ‘solução’. Apesar dos seus apelos, nenhum dos representantes do painel da direita defendeu uma ideia, uma sequer, com algum fundamento. O mais articulado deles três tentou levar a conversa para o campo da ideologia e das grandes abstracções, terreno mais propício para quem não faz os trabalhos de casa. Os grandes agradecimentos que a apresentadora Fátima Campos Ferreira fez à Raquel no final do programa só se explicam, aliás, por ser óbvio que a Raquel lhe «salvara» o programa.

Ora isto incomoda a direita (e até uma certa esquerda «alcatifada», como pode ver-se por aqui e aqui). Vai daí, o propagandista da Situação José Manuel Fernandes e um site do Millennium BCP tiveram uma inspiração ‘divina’: pegaram num fait-divers do programa (um miúdo de 16 anos, Martim Neves, que foi apresentado como exemplo de empreendedorismo por ter vendido pela Net um número indeterminado de sweat-shirts) e montaram todo um circo de propaganda anti-Raquel. Ora este circo tem a vantagem de expor com bastante rigor aquilo que é a direita portuguesa. Esta reedição apressada d’ O Menino entre os doutores’ (original em Lucas 2:42-51) apresenta-nos o menino Martim não a ser ouvido atentamente pelos doutores, como no episódio bíblico, mas, alegadamente, a «desfazer» de uma penada toda a argumentação da doutora. E é ver a hostilidade contra a ‘doutora’ (contra o conhecimento e o trabalho sério) que para aí vai destilada por esta direita ignorante, carroceira e chico-esperta, esta direita que deu ao mundo Relvas e Passos Coelho, esta direita que comanda um país com uma taxa de emprego de doutorados pelos nossos «empreendedores» de 2,6% (contra, por exemplo, 34% na Holanda ou Bélgica – Relatório da FCT citado pelo DN, 13-5-2013).

Mas que disse, afinal, o menino Martim, transformado em campeão da campanha de propaganda da direita: que mais valia ganhar o salário mínimo do que estar desempregado. E isto mereceu aplausos na sala! E que nos revela a ‘sabedoria’ precoce do Martim? Que o desemprego de 1,4 milhões de portugueses não é uma infelicidade, um triste acaso – ele serve mesmo para nos fazer aceitar salários inferiores a 500 euros e achar que podia ser pior. E não se pense que não existe uma base social relativamente alargada para estas ‘ideias’ bárbaras. Existe, sim. As dondocas que exploram uma loja num centro comercial que só é viável graças a salários inferiores ao salário mínimo (com a desculpa que são part-times, por exemplo). Os «empreendedores» chicos-espertos do import-export que mandam vir uns contentores de roupa ou de artigos de desporto, por exemplo, da China, da Índia ou da Indonésia e os vendem dez vezes mais caros. Nenhuma desta gente produz seja o que for, mas vão-se safando na vida à custa dos outros. A base social deste governo é feita em boa medida de gente assim, que, claro, são adeptos fanáticos do salário mínimo de 485 euros.

Falemos um pouco mais do «empreendedorismo». Este empreendedorismo que nos vende o governo e a direita é uma coisa muito diferente da iniciativa e do trabalho árduo. No debate do Prós e Contras, a iniciativa e o trabalho árduo estavam representados pela Raquel Varela, que trabalha muito mais horas do que devia, já publicou seis ou sete livros e nem eu sei já quantos artigos em revistas científicas (com avaliação pelos seus pares) e acabou de ser reeleita a semana passada, por unanimidade, presidente de uma associação internacional de 34 instituições académicas de muito prestígio. O ‘empreendedorismo’ do governo e da direita não é mais do que uma alcunha miserável para a expulsão de trabalhadores das empresas e a proletarização das camadas médias. São trabalhadores despedidos que passam a ser formalmente empresários, mas na verdade continuam dependentes – muitas vezes, senão quase sempre – das próprias empresas que os despediram e passam a não ter nenhuma da protecção social que antes tinham: tornam-se únicos responsáveis pela sua segurança social, deixam de poder estar doentes, de poder tirar férias… São os proprietários de pequenos negócios (restaurantes, empresas de serviços dos mais diversos matizes…) que mais não fazem do que explorar a sua força de trabalho e a da sua família, em micro-empresas onde o capital circula mas não se acumula. É quase mais fácil ganhar o euromilhões do que ver um deles sair da pobreza.

A dúvida mais importante que me fica depois destes espectáculos é: por quanto tempo mais vamos aturar que o governo desta gente continue a destruir-nos, a nós e ao país? É que quanto mais dilatado for esse tempo, mais demorado será reconquistar para a vida civilizada tudo aquilo que eles têm vindo a destruir.

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Para a próxima aguardo um adversário à altura, um bebé que desperte em mim o instinto maternal

Certamente que o Pedro Vieira não escreveu com essa intenção mas eu dedico este texto ao Daniel Oliveira e ao Sérgio Lavos que, com simpatia, resolveram cavalgar a direita para (tentar) destruir propostas viáveis contra a regressão social, num programa em que não houve uma ideia liberal nem outra ideia keynesiana que tivesse conseguido ser defendida. Na verdade não tive interlocutores e estive o tempo todo a tentar perceber como dizer algo interessante no meio de tanta verborreia vazia. 

Esta campanha mostra o vazio do programa da troika. O único argumento que sobra à direita é a idade de um miúdo. Os 16 anos  são o único argumento que sobra à troika e ao Governo para defender a miséria. Para a próxima aguardo um adversário à altura, um bebé que desperte em mim o instinto maternal e seja perdoado pelas imbecilidades desumanas que diz.

Lamento, aos keynesianos e aos liberais, mas o desemprego serve justamente para isto. Serve para se legitimar o mal menor, isto é, a miséria. Desemprego é, numa palavra, criação de um exército de desesperados dispostos a trabalhar a qualquer preço – é esse o programa da troika, numa frase. A alternativa  que não ocorreu a DO e SL, é lutar por salários dignos, mas isso, claro, doi,  porque implica mexer nos lucros e o paraíso keynesiano é aquele – inexistente – onde salários e lucros crescem juntos.

Folgo em saber que além do José Manuel Fernandes, do Millenium BCP e de um site de anúncios, o vídeo do puto que importa camisolas da China foi amplamente divulgado por um site que apela à emigração, isto é, à exportação de mão de obra a troco de remessas, que também faz parte do programa do Governo. Todos uns empreendedores.

“ganhar o salário mínimo é melhor do que estar desempregado, estar no gulag é melhor do que estar morto, ser português é melhor do que ser somali, viver na brandoa é melhor do que viver em damasco, lavar casas-de-banho é melhor do que trabalhar em desminagem, ter um marido ciumento é melhor do que ser mulher em kandahar, ser insultado pela maria teixeira alves é melhor do que ser espancado por um skin, viver na carregueira é melhor do que estar preso no carandiru, viver com o passos coelho é melhor do que viver com dois pais, digamos um mobutu e um mugabe (há correntes), estar a recibos verdes é melhor do que ser escravo na Mauritânia  vestir uma blusa over it é melhor do viver numa dama de ferro. Espero que o miúdo passe factura das vendas na internet.”

Do Pedro Vieira.

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Foto Via Uma Página numa Rede Social

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Empreendedorismo – Um breviário.

Ainda hoje, e por muito tempo, uma das mais súmulas mais imprescindíveis do empreendedorismo.
(Especialmente, em relação à refrega Varela-Martim, o momento #1 [9:17]. Também os momentos #25 [0:00], #22 [0:50], #20 [1:33], #17 [2:25], #15 [3:05], #11 [4:45], #4 [6:56], #2 [8:48], e outros tantos que não cabem na caixinha acima).

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Over It! – Era uma vez um conto de fadas

Ou como o empreendedorismo acaba sempre por tropeçar nos próprios pés.

Quem tem idade para fazer negócios, tem a responsabilidade de responder às perguntas que se impõem. Quem é adulto para assinar contratos, importar, exportar e opinar sobre se é bom ou mau viver com o salário mínimo, diria mesmo, tem a obrigação de se explicar. O programa do Prós e Contras de ontem dará pano para muitas discussões, uma vez que a ignorância e a mentira não foram monopólio do espertalhão do Martim. Os acólitos da historieta do empreendedorismo um dia desistem de nos convencer de que pode haver negócio sem investimento e produtos baratos sem recorrer a mão-de-obra escrava ou sobre-explorada. Quem assina os contratos em seu nome? De onde vêm os produtos que ele importa? Quem lhe concedeu o crédito? O testa de ferro que o manobra e a turba de austeritários que o tornaram em mais um idiota útil da sua propaganda, deviam pelo menos ter poupado o adolescente ao marketing de guerrilha. Agora, no pico da onda do debate e com ele a ganhar interesse na sua substância, seria desonesto que a data de nascimento do intérprete – que até parece bom rapaz – de um negócio de sucesso, não fosse usada como pretexto para que se tirem todas as conclusões. A peta desculpa-se, a dele ou a de interposta pessoa, a falta de verdade não.

Sobre o assunto, ler também: “A Tragédia Social na Rede Social“, “A Falta de noção do ridículo“, “Empreende-dor-ismo“, “Raquel, do lado certo da História“, “Uma mão cheia de argumentos contra a ignorância“, “O Martim é bue da empreendedor“, “O salário Mínimo é uma Vergonha“ e este testemunho.

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Uma mão cheia de argumentos contra a ignorância


A Raquel e o Ricardo já disseram muito do que havia para dizer, sendo que me resta apenas acrescentar que a resposta da Raquel, no vídeo acima, deve ser ouvida muitas vezes, sobretudo pelo Martim, para que não se volte expôr ao risco de ser mais um idiota útil dos bantustões do pensamento único. A imbecilidade tem sempre água no bico e a água do bico do senhor José Manuel Fernandes, do Microcrédito do BCP ou da senhora que lamenta que os seus filhos sejam socialistas, sabemos bem qual é. Mas felizmente que o charme dos cisnes rapidamente se esbroa no encanto de uma qualquer Pépa de serviço. É esta a sua geração fetiche, fútil mas esperta, vaidosa mas sem uma nesga de inteligência crítica. De preferência com uma mão na trela do Zico e outra na mão da Bárbara Rosa, seguem contentes a cantar loas ao desastre. A culpa é sempre de todos no geral pelo que, ora pois, a responsabilidade deve ser partilhada. Enchem a boca de valores e de ética, na boa tradição do nacional socialismo, e papagueiam, vezes sem conta, que andam a viver acima das possibilidades que, insistem, devemos pagar duas vezes. À ausência de argumentos capazes de rebater a racionalidade do não pagamento da dívida, a incapacidade de provarem que o controlo privado da produção é melhor do que o colectivo e de refutarem a evidência que somos nós os credores do Estado e da Banca e não o contrário, sobra-lhes apenas o cinismo. A razão pode sempre ficar para depois, mas apenas na mesa dos que não têm o tempo a conspirar contra o estômago.

Microcrédito MartimJMF Martim

Veja aqui todo o debate do Prós e Contras.

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