POR UMA VITÓRIA DA GRÉCIA E DOS POVOS DA EUROPA

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(Este é um texto escrito por um grupo de 7 amigos, no qual me incluo:)

A catástrofe humanitária em curso na Grécia terá um ponto de viragem no dia 25. Nesse dia, se se confirmarem as sondagens que dão a vitória ao SYRIZA, as eleições podem colocar o país, destroçado pela austeridade da troika e de sucessivos governos neoliberais, no caminho da soberania democrática. Será um momento decisivo para todas as pessoas que vivem na Grécia.

Também será um momento importante para quem vive em Portugal, na Irlanda e em todas as sociedades sufocadas por uma farsa económica. Os programas de ajustamento estrutural fabricaram sociedades divididas. Se não lutarmos contra isto, essas sociedades entrarão num colapso definitivo e irreversível. Este não é o único caminho. A política pertence ao domínio dos seres humanos e não ao domínio da física.

A chantagem exercida pelas instituições europeias e pelo governo de coligação sobre quem tem o direito de exercer o voto livremente é inaceitável, mas tem uma vantagem: mostra-nos que temos o dever de assumir uma posição. Essa posição é clara: só um governo de esquerda pode destruir o bloqueio da dívida e da destruição social. O direito soberano de decidir sobre o destino colectivo pertence a quem vive na Grécia; o dever solidário de dizer o que pensamos e queremos pertence a quem vê estas eleições como mecanismo de desbloqueio.

Se a esquerda vencer, a dívida deixará de ser sagrada. Se a esquerda vencer, o euro e o Tratado Orçamental deixarão de ser sagrados. Se a esquerda vencer, o destino colectivo deixará as mãos de quem só gosta de eleições e liberdade quando as decisões são tomadas em gabinetes fechados por peritos convencidos da sua superioridade e oferecidas, com um laço em cima, a quem persiste numa luta ingrata pela sobrevivência.

Esse destino colectivo voltará às mãos a que nunca deixou de pertencer: a quem vive na Grécia. Uma vitória da esquerda significará a vitória sobre os tabus que nos impõem a partir do eixo Bruxelas-Frankfurt-Berlim. E, se a esquerda vencer, uma frente internacionalista unida ganhará força para questionar as verdades adquiridas dos mercados, das finanças e da especulação. As mesmas verdades adquiridas que nos impõem todos os dias.

Se a direita vencer, essa terá sido a decisão da maioria dos eleitores gregos. Mas não terá sido uma decisão livre de condicionamentos. A Comissão de Juncker não se manifesta acerca do escândalo Luxleaks, mas vai a Atenas para amedrontar pessoas e famílias que, ao longo de anos, têm resistido ao novo europeísmo, autoritário e gerador de miséria. O BCE de Draghi resgata bancos privados, mas promete apertar o garrote sobre um futuro governo de esquerda. O FMI de Lagarde reconhece não saber como ajudar a Grécia a recuperar, mas sabe que não quer a esquerda no poder.

Estão com medo. Ainda bem. Quer dizer que, afinal, há alternativas. Sabemos que essas alternativas podem não ir tão longe como alguns gostariam e irão mais longe que o desejado por alguns aliados de circunstância. É bom que assim seja. A política foi feita para definirmos, em conjunto, o nosso destino colectivo. Não foi feita para aumentar os lucros de empresas transnacionais e fundos de investimento. Depois destas eleições, os aliados de circunstância podem inventar as acrobacias que quiserem: se a esquerda vencer, a dívida e o euro já não serão ícones sagrados.

Quem vive na Grécia decidirá. Nós já decidimos de que lado estamos. Não vamos criar nenhum movimento, nem plataforma. Somos apenas um grupo de amigos que decidiu divulgar este pequeno texto.

Helena Romão
Joana Lopes
Luís Bernardo
Mariana Avelãs
Miguel Cardina
Nuno Bio
Rita Veloso

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Isto não é o da Joana

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Nem do PCP. É da cidadania e vai mesmo acontecer!

Em Portugal acontecem coisas maravilhosas. Foi aqui que se iniciou o movimento europeu de indignação inspirado pelas primaveras árabes e pelos movimentos alter-globalistas. As pessoas mostraram que queriam uma mudança, disseram como a queriam e fizeram-no em números raramente ou nunca vistos noutras partes do mundo (de meio a um milhão de pessoas – 5 a 10% da população – nas ruas).

Tenho orgulho de ter convocado o Protesto da Geração à Rasca, quando toda a gente me dizia que era impossível. Que os portugueses, especialmente os mais jovens, nunca se mobilizariam. Nem fariam nada por uma mudança. E que seria impossível fazê-lo sem figuras públicas, partidos ou sindicatos na organização. No dia 12 de Março de 2011 chamaram-lhe sobressalto cívico!

Agora, algumas dessas pessoas dizem-me que não é possível criar um partido-movimento-eleitoral que transforme essa energia e vontade em mudança concreta, que seja governo para remover a casta corrupta do 1% que explora os 99%.

Não me espantou que se tenham juntado em trupe os derrotistas e pessimistas, os anti-partidários e as pessoas que, já tendo partido, não querem que se forme outro. Nem que a Joana Amaral Dias se tenha conformado com um lugar garantido de deputada de um eventual PCP-I, de Indignados. Não seria uma novidade: os Verdes prestaram-se a fazer o papel de ecologistas de serviço, quando o PCP percebeu que podia controlar e anular o movimento ambientalista de então. Antes que tivessem a aspiração de ir a eleições, o PCP criou o partido-fraude PEV que nunca concorreu a uma eleição sozinho, mas apenas em coligação, na CDU. Agora querem fazer o mesmo com a dinâmica “Podemos”. Ou isso, ou esmagá-la.

O PCP, veterano nestas andanças, recentemente asfixiou o Fórum Social Português e o Que Se Lixe a Troika, como no século passado tinha anulado o movimento anarco-sindicalista e boicotado várias dinâmicas de correntes trotskistas e maoistas. A voragem autoritária do estalinismo é o motor deste partido que não come criancinhas ao pequeno-almoço mas tenta comer todos os movimentos sociais e novos partidos anti ou para-sistémicos que não controla. Nomeadamente, ludibriando pessoas bem-intencionadas e arranjando bodes expiatórios, como explico aqui.

E gasta toda a sua energia nessa demanda em vez de se concentrar na remoção da casta corrupta que, da boca para fora, diz ser o seu desígnio. Porquê?

Porque o PCP é parte da casta! Vive às custas do regime que ajudou a criar depois da contra-revolução de 25 de Novembro, aliando-se ao PS de Soares que meteu o socialismo na gaveta e trouxe o primeiro FMI, com o Eanes que confirmou a contra-revolução neo-fascista-democraticazinha-mas-pouco e, recorrentemente, com o PSD nas autarquias. Luta afincadamente para não perder as suas subvenções estatais, as suas mordomias pós-eleitorais e tudo fará para eliminar os grupos que coloquem isso em causa. Ou seja, não afronta os partidos com os quais partilha o poder parlamentar mas sim as outras formações partidárias que já existem ou se querem formar e lhe podem tirar lugares. E muito menos quer ser governo, cruzes credo! Que lá se ia o eleitorado!

Actualmente conseguiu encontrar peões (e espiões?) que, se não fazem parte do PCP, tomaram partido pela tentativa de dissolução de um movimento de cidadãos – o Movimento Juntos Podemos. Este inspira-se no Podemos espanhol, no Syriza grego, no Sinn Féin irlandês, na revolução cidadã islandesa e, acima de tudo, no movimento social e associativo português – nas pessoas deste país que não se revêem nas tricas políticas falaciosas entre esquerda e direita, e querem um partido dos de baixo!

Dando razão a quem quer a verdadeira mudança cidadã, estão a fazer de tudo para boicotar o movimento que já está a recolher assinaturas para se poder candidatar a eleições. Começaram (Joana Amaral Dias, Nuno Ramos de Almeida e PCP) por se entrincheirar numa Comissão Dinamizadora que recusou fazer aquilo que a 1ª Assembleia Cidadã, de 14 de Dezembro, votou favoravelmente. Quando, pressionados pelos restantes membros do movimento, perceberam que não tinham outra alternativa senão cumprir o mandato da Assembleia Cidadã, decidiram auto-dissolver a Comissão Dinamizadora e tentaram, com isso, dissolver também o movimento. Saiu-lhes o tiro pela culatra.

Os restantes membros querem cumprir o que ficou decidido na 1ª Assembleia, vão reunir-se em plenário aberto já no próximo domingo, na Livraria Ler Devagar, Lisboa, para preparar a 2ª Assembleia Cidadã, que virá depois a realizar-se no Porto, no dia 24 de Janeiro, quer o PCP / Nuno / Joana queiram, quer não queiram.

Pelo meio fizeram – e acredito que ainda farão mais – algumas tropelias desesperadas para descredibilizar o movimento, já que deixaram de o controlar, apesar das várias entrevistas que a Joana deu “dizendo” que o partido era dela. As últimas saíram, hoje, no jornal de extrema-direita e neo-liberal Observador e no diário espanhol El Mundo, já depois de a Comissão Dinamizadora de que fazia parte se ter auto-dissolvido. A troika PCP / Nuno / Joana afirma-se ainda controleira do movimento. Mas é mentira: aos membros disseram que não contássemos mais com eles e que iriam criar “uma coisa à parte”. Logo a seguir, dizem-nos que não podemos usar mais o nome do movimento nem o logótipo porque, tendo 8 pessoas abortado a Comissão Dinamizadora, as quase 200 que estiveram na Assembleia Cidadã não poderão continuar o seu caminho. Dá vontade de rir? A mim, sim. E um pouco de pena, pelo desespero.

Tudo isto denota desnorte e ganância mas, acima de tudo, faz-me crer que estamos no bom caminho! Se uma iniciativa como o Movimento Juntos Podemos, que está no seu começo, já tem tantas tentativas de controlo e bloqueio, é porque há quem acredite que existe perigo de nos tornarmos numa força que desequilibrará o tabuleiro do jogo.

Por isso, é tão importante que as pessoas que não estão para aturar estes joguinhos baixos estejam em grande número nas duas próximas iniciativas públicas: a Reunião Aberta plenária, de 18 de Janeiro, em Lisboa, e a 2ª Assembleia Cidadã, de 24 de Janeiro, no Porto, onde se definirão estratégias, programa e formas de interacção certamente democráticas, participativas e inclusivas. Além disso, neste sábado (17 de Janeiro), mais dois círculos regionais terão lugar, em Santarém e em Barcelos. É fundamental que recolham assinaturas para a legalização do partido e que ajudem a divulgar e a avisar a malta para os desafios, mas também para as janelas que se abrem de um futuro melhor.

Se as pessoas genuínas e bem-intencionadas não o fizerem, outras o farão, pelo pior, como têm vindo a fazer, no movimento e no país.

Mas se estivermos Juntos Podemos muito mais do que imaginamos!

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Quem não quer, que se lixe. Quem quer, Podemos!

Chegou a altura de sermos consequentes!

Temos que criar um partido novo, que não tenha medo de ser governo e que seja uma ferramenta de poder para os que não têm voz. Realisticamente, em 5 anos. Mas para que isso seja possível precisamos de ir às eleições de 2015 conseguir o máximo de votos (e quem sabe eleger alguém) que nos permita ter visibilidade e recursos. Assim, poderemos criar bases sociais – locais, regionais, nacionais e internacionais –, círculos de discussão e actuação, tal como se fez em Espanha. Isto consegue-se com um partido. Com movimentos ou associações, a minha experiência diz-me que é muito difícil.

Continuar a dizer que não podemos, que somos poucos, mal preparados e que os espanhóis são super-heróis é, a meu ver, errado e apenas beneficia a casta corrupta governante.

(ler o artigo completo no Público P3)

Scott Cresswell / Flickr

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Mensagem do Crato aos professores no dia 19 de Dezembro

Crato político

Professores, bem-vindos a mais um experimentalismo na Escola Pública!

Depois do experimentalismo do início deste ano lectivo, voltamos às experiências com a Escola Pública e com a vida/dignidade de quem lá trabalha (ou trabalhou).

Hoje tentamos experimentar uma prova com os contratados com menos de 5 anos de serviço mas naturalmente se isto correr bem, ficarão abertas as portas para experiências semelhantes com os outros professores (incluindo os do quadro).

Em 2015 experimentarei cortar mais de 704 Milhões de Euros no Ensino Básico e Secundário mas certamente que com mais esta experiência, a Escola Pública ficará igual ou ainda melhor. A municipalização da Escola Pública também é uma experiência que nos fascina, com prémios chorudos para os autarcas que consigam reduzir o número de professores nas suas futuras escolas. Em 2015 continuarei a experimentar mais e mais trabalho (nomeadamente) burocrático para os cada vez menos professores a trabalhar nas escolas. Queremos experimentar até onde os professores aguentam… mais de 10 000 crianças em Portugal já aguentam ir para a Escola com fome e essa experiência também está a ser interessante.

Espero que apreciem, pelo menos tanto como nós (os políticos), estas experiências na Escola Pública e na vida de quem lá trabalha. Não se preocupem que depois destas temos mais outras experiências a fazer convosco e com os vossos. Obrigado pela vossa colaboração!

Hipoteticamente por Nuno Crato (e pelo Governo PSD-CDS).

Agora uma notícia real, Nuno Crato admitiu de facto ter feito experimentalismo na Escola Pública (com todas as consequências conhecidas, mas não admitidas por ele, nas vidas de milhares de alunos e professores): http://expresso.sapo.pt/crato-nao-vamos-fazer-experimentalismos-na-preparacao-do-proximo-ano-letivo=f893659

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Não PACCtues

NÃO PACCTUES

Professor contratado, desempregado ou do quadro, esta sexta, 19 de Dezembro, às 13h30 aparece à frente das escolas onde está prevista a ignóbil PACC (que tenta humilhar TODOS os professores). Aí trocaremos ideias sobre o que fazer. PARTILHA! Para saberes qual a escola onde nos concentraremos na tua região: https://www.facebook.com/groups/boicote.cerco/

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PODEMOS, pois claro! Tomar partido aqui e agora.

No próximo fim de semana tem lugar a Assembleia Cidadã do “Juntos PODEMOS”. Essa assembleia encerra com um plenário no Domingo para “apresentar propostas e chegar a conclusões”. Espero que uma dessas conclusões seja a constituição de uma plataforma política que concorra às próximas eleições legislativas de 2015.

Defendo que para responder à grave crise social, económica e política em que estamos submersos é necessária a constituição desse novo projecto… Um projecto que para ser consequente e ter peso na correlação de forças necessariamente terá de se expor e submeter ao julgamento popular efectuado através de eleições. Sendo que a sua actividade não deve estar reduzida ao “circo parlamentar”, estando intensamente orientada para os movimentos e lutas sociais.

Infelizmente é-me totalmente impossível estar presente na Assembleia, mas deixo aqui o meu contributo para a discussão.

O que temos?

No início de 2014 escrevi o seguinte (ver final deste texto):

O aparecimento do MAS, do Livre, o Congresso Democrático das Alternativas, os encontros da Aula Magna, o manifesto 3D, a persistência da Rubra, são fenómenos que com todas as suas diferenças, mostram que existe vitalidade e energia à Esquerda. Estas movimentações demonstram que na Esquerda existe uma massa crítica, para lá dos partidos instituídos, que procura construir alternativas, quer organizacionais, quer a nível programático. Este fervilhar é altamente positivo e é condição necessária para que surja uma nova síntese, mais poderosa e alargada a médio prazo.(…) No plano politico-partidário este é o momento de se porem cartas na mesa, de se discutirem os diferentes programas e suas nuances, de disputar influência junto das massas, criar novas propostas, divulgar ideias, mobilizar o enorme descontentamento difuso de diferentes formas. 

Ora, neste momento, olhando para as forças à Esquerda/alternativas ao “arco da governação” (PSD+CDS+PS) o que é que temos? O Livre que pretende coligar-se com o PS e que julga que obtendo um lugar no conselho de Ministros será capaz de fazer aquilo que o Presidente da França não conseguiu… incluindo uma reforma da União Europeia que “recupere o espírito dos pais fundadores”, em busca de um passado mítico vagamente social-democrata, que na realidade nunca existiu para além de meras proclamações propagandísticas (ler isto). O Bloco de Esquerda que perdeu toda a sua chama e capacidade de mobilização. Um bloco em desagregação, perdido nas suas contradições (ler ponto 6 deste texto) e entregue a uma liderança com carisma zero. Um PDR do Marinho e Pinto que na sua substância é uma espécie de Livre versão rural-popularucha. Qualquer observador atento percebe que, para lá da retórica, Marinho e Pinto é um aliado natural do PS e apoiará o próximo governo se isso for necessário ao regime. Temos ainda o PCP. Sólido, disciplinado e muito respeitador das instituições. Admiro o percurso do PCP ao longo da sua vasta História e não me surpreende o seu percurso ascendente nos últimos anos. Mas há vários limites para aquilo que o PCP pode e quer fazer. Espero que o PCP possa vir a ser parte de uma futura alternativa, mas nunca partirá do PCP nenhuma iniciativa ou acção capaz de mudar qualitativamente a actual relação de forças na sociedade portuguesa. (uma discussão mais profunda do actual mapa político aqui)

Para lá das críticas e “alfinetadas” que acima lancei, creio que todas essas forças podem, cada uma à sua maneira, dar um contributo para uma possível alternativa progressista ao actual status quo a médio prazo. Mas existe um vasto descontentamento popular a que nenhum desses partidos dá resposta. Existe espaço para uma nova força política alternativa.

O que precisamos?

A Assembleia do “Juntos PODEMOS” identifica três eixos centrais “programáticos”:

  • Não há Democracia com Corrupção
  • Temos direito de escolher o modelo económico sob o qual vivemos
  • A Democracia é de todos, o Povo é quem mais ordena

Citando o recente artigo do Nuno Ramos de Almeida:

Existem condições para aproveitar uma hegemonia social e transformá-la em mudança política. A maioria dos portugueses é contra a existência de uma casta política e económica que vive da corrupção, não está de acordo com uma política de austeridade que liquida a vida e a economia e só serve os especuladores, e pretende ter voz activa no seu futuro. Nestes três eixos (corrupção, economia e democracia) há uma posição maioritária das pessoas para mudar. É só preciso dar-lhe uma voz credível.

Concordo em pleno, mas acrescento que nenhum dos actuais partidos quer ou tem capacidade para ser essa voz. É preciso algo mais que as forças existentes para transformar essa hegemonia social em transformação política. É necessário um PODEMOS em Portugal.

É necessário um partido que defenda uma democracia radical acima de quaisquer acordos, tratados e instituições nacionais ou supra-nacionais, sobretudo quando esses acordos e instituições não são legitimados directamente pela vontade popular. Isto significa que a União Europeia, o Euro, os Bancos Centrais, os contratos das PPPs, os “mercados”, a banca e os seus “príncipes” e toda uma série de mecanismos que amordaçam os povos não podem ser encarados como vacas sagradas inaceitáveis que, na melhor das hipóteses podem sofrer algumas reformas… Não, tudo isso tem de ser revisto e deitado para o caixote do lixo caso seja necessário e se houver vontade popular para que tal aconteça.

É necessário um partido que rejeite e denuncie a actual casta dirigente, nos seus vários matizes, que incluí não ter vergonha de combater a corrupção venha de onde vier.Sócrates-Freeport&CªLda, Salgado “isto tudo”, Cavaco-BPN-20 anos no poder, Portas-Submarinos, Coelho-Tecnoforma são todos “casta”.  PSD, PS e CDS vão alternando no poder desde o final do PREC! Toda a “casta” beneficiou de esquemas corruptos e promiscuidades estado-empresas que mesmo sendo legais, certamente são imorais e em muito prejudicaram a população, a democracia e a economia deste país. A corrupção não é política, nem socialmente neutra, é mais um mecanismo utilizado pela “casta” para saquear o bem público e contornar a decisão democrática.

É necessário um partido que defenda um modelo económico alternativo às verdades dogmáticas do actual consenso Washington-Bruxelas, que inclua o controlo público e popular dos sectores estratégicos da economia, a revalorização do trabalho e a não mercantilização de bens e serviços essenciais como a água, saúde, segurança social e educação.

Para lá disto há questões não explicitamente programáticas, mas de atitude e postura perante as massas e outros movimentos ou expressões de descontentamento popular. É necessário um partido que não tenha medo da palavra “radical”, “populista” e tudo o mais que se lhe possa chamar. É necessário um movimento com caras novas, gente nova, com garra e sem uma atitude reverencial face ao actual regime, suas instituições e personalidades. Um Partido aberto a novas experiências e formas de activismo, nas mais variadas áreas, com o mínimo de preconceitos. Um partido que deve ter alguns eixos e propostas centrais, mas deve acomodar sensibilidades e opiniões diversas. Um partido que internamente viva a democracia de forma intensa, por exemplo com referendos internos (on-line?) para decidir questões importantes. Um partido que não seja sectário para com outras forças alternativas (do Livre ao MRPP) e que se esforce sempre para construir pontes entre diversos sectores (mesmo que essas pontes se revelem impossíveis, deve ser feito o esforço, se estas pontes não se materializarem isso não poderá ser devido a acções e palavras deste novo partido). Um Partido que seja radical na substância, sem recorrer a “cassetes” e “chavões” gastos.  É necessário um partido sem medo dos movimentos de contestação, sobretudo quando estes são vítimas de brutalidades cometidas em defesa da “casta”

Mais algumas pistas…

Luta social em crescendo na Europa

Após uma aparente acalmia, a luta social parece estar a reacender-se por essa Europa fora…

Esta semana ocorreu a maior e mais combativa manifestação da “era austeritária” na Irlanda, que incluiu cerco ao parlamento. Na Bélgica, com outros pretextos mas pelas mesmas razões, ocorreram também grandes protestos e uma greve geral. No Reino Unido têm acontecido várias manifestações estudantis e não só. Em Itália hoje é dia de greve geral e nos últimos tempos a contestação tem subido de tom.  As ruas da Grécia voltaram-se a encher e forçaram o governo a recuar.

Essa mesma Grécia vive uma importante crise política, é possível que ocorram eleições legislativas no início de 2015. Existe a forte possibilidade do Syriza ganhar essas eleições. Também em Espanha vai haver eleições, o PODEMOS está muito bem posicionado. Mesmo que não vença as eleições a mossa causada será de tal ordem que irá forçar o PSOE e o PP a governarem juntos pela primeira vez na História (depois disso é mais que provável que o PODEMOS chegue mesmo lá, é exactamente o que se está a passar na Grécia). O Reino Unido é outro dos estados europeus que terá eleições. O Labour cometeu suicídio na Escócia e irá perder todos os deputados dessa nação (cerca de 40), o UKIP lançou uma “OPA agressiva” aos Tories. O resultado eleitoral é imprevisível. Pode haver um Governo Labour+Nacionalistas Escocêses+Nacionalistas Galêses (ambos estes partidos são mais à esquerda que o próprio Labour), pode haver um governo Tories+UKIP, pode até surgir um gabinete Labor+Tories. O que não irá acontecer de certeza é um rotativismo limpo entre Tories e Labor que foi a norma desde o final da II Guerra.

O “centro” está em colapso por toda a Europa, mas não há vazios em política. Se não surgirem alternativas democráticas e progressivas, outras forças tenebrosas tomarão a dianteira (como já acontece na França e não só).

União Europeia

A estratégia a adoptar face a “esta união da tanga” é das questões mais relevantes do nosso tempo. THE POLITICAL STATE OF THE UNION é um artigo que nos fornece um excelente ponto de partida. É feita uma análise da evolução da UE, desde a sua fundação até à actualidade, focada em três pontos: posição da UE no mundo; as relações entre os estados da UE; as relações entre a UE e os cidadãos. Em traços gerais a conclusão é que as propostas de reforma num sentido popular e progressista da UE são um beco sem saída. Em última análise a democracia e a justiça social são incompatíveis com a “construção Europeia”. Eu poria a questão nestes termos, a UE é um inimigo estratégico. Pode e deve haver flexibilidade táctica nesta matéria. Mas do ponto de vista estratégico o objectivo é eliminar a UE e no seu lugar construir uma outra união entre povos livres e soberanos (Lições para Portugal, a discussão à volta do Euro e da UE, ver no final deste texto).

Partido Socialista

Neither pragmatic adaptation nor misguided accommodation: Modernisation as domination in the Chilean and British Left. Neste artigo datado de 2008 os autores fazem uma análise da postura dos partidos “socialistas” face ao neo-liberalismo. O Labour do Reino Unido e o Partido Socialista no Chile são utilizados como caso de estudo. A tese dos autores é que os partidos socialistas não foram “arrastados pelo contexto”, nem foram agentes que limitados pela sua postura de compromisso foram acomodando de forma algo a contra gosto as políticas neo-liberais. Pelo contrário, os partidos socialistas contribuíram de forma activa e deliberada para o ascenso da hegemonia ideológica do neo-liberalismo. Acrescento que a resposta desses partidos à crise que eclodiu em 2008 apenas reforça essa tese.

Por toda a Europa, mas sobretudo nos PIIGS, o social-liberalismo confronta-se com um dilema existencial. Por um lado pode lutar para garantir a sua sobrevivência política, o que implica opor o mínimo de resistência ao grande capital e suas instituições. Por outro lado pode cair sobre a própria espada e sacrificar as suas organizações e estrutura no altar dos “deuses” do regime e dos grandes negócios. Até agora a escolha tem sido sempre a mesma, os social-liberais preferem cair sobre a própria espada do que esboçar o mínimo de oposição consequente aos “mercados” e grande finança.(aqui)

Isto aconteceu na Grécia, está a acontecer na Espanha, no Reino Unido e na França (só para dar os exemplos mais evidentes). Não vejo razão nenhuma para achar que em Portugal será diferente. Se a história provar que esta tese está errada, ou tem uma excepção em Portugal, assumirei o erro. Espero que aqueles que acalentam esperanças numa “viragem à esquerda” do PS  também revejam a sua posição se a história demonstrar que Portugal não é excepção à regra…

Protesto Social

 Resistance is futile? The impact of disruptive protest in the ‘silver age of permanent austerity’. Desde os anos 80 do século XX está em marcha uma contra revolução conservadora-neoliberal. Neste artigo os autores fazem uma avaliação de vários métodos utilizados para travar essa contra-revolução. A tese defendida é que formas de protesto disruptivas e de confronto com as elites são mais eficazes do que negociações, “diálogos” e outras formas de acção enquadradas nas instituições vigentes. Isso torna-se ainda mais verdade em tempos de crise social e económica, onde as tentativas de “amansar” as contra-reformas pelo “diálogo” são ainda mais inócuas. Para demonstrar isto é empregue um modelo quantitativo que mede o impacto de diferentes formas de combate à desagregação do “estado social”. Aliás, basta conhecer um bocado de história e ir tentando fazer uma análise objectiva à realidade que nos rodeia para chegar à mesma conclusão (e.g. ver aqui).

Ao contrário do que muitos fariseus ao serviço do capital nos dizem, o protesto social é das mais eficazes formas de produzir medidas redistributivas em favor da maioria e bloquear o avanço do saque neoliberal. Regra geral, formas de protesto mais disruptivas, inesperadas e imprevisíveis produzem maiores efeitos do que formas mais dóceis e clássicas de protesto/negociação. Acrescento que ao contrário do que algum senso comum advoga, formas mais radicais de luta não são incompatíveis com grandes protestos de massas, sendo muitas vezes até necessárias para que tal aconteça. Um dos mais importantes factores de sucesso num protesto é a esperança e percepção de que uma vitória pode ser obtida. Nada é mais mobilizador do que uma vitória e há poucas coisas mais desmoralizadoras do que uma derrota. Para obter vitórias, muitas vezes é necessário empregar métodos rotulados como “radicais/violentos”.

Tudo isto tem uma aplicação muito imediata no que diz respeito à luta contra a privatização da TAP e da greve entretanto anunciada.

Guerra e Paz

 Boaventura: a Terceira Guerra é contra a Rússia. A questão da PAZ e as movimentações anti-guerra tiveram o seu último auge nos dias que antecederam a invasão do Iraque em 2003. De então para cá, outras lutas e preocupações têm tido mais destaque. De facto, a curto prazo, não me parece que este seja o maior desafio com que o movimento popular se confronta. Mas, a médio prazo pode rapidamente se transformar numa questão central.

Nos últimos tempos temos assistido a um acentuar de tensões entre grandes potências, desde o mar da china até à Ucrânia, passando pelo médio oriente. A União Europeia e a NATO estão num confronto em escalada com a Rússia (a guerra de sanções é um exemplo disso e prejudica gravemente a recuperação económica). O prolongar da crise irá aumentar as probabilidades de um conflito de alta intensidade (a grande depressão dos anos 30 do século XX só terminou com o eclodir da II Guerra mundial…). Não esquecer que Portugal é país membro da NATO e tem aviões estacionados na Estónia a patrulhar o mar Báltico (quem é que paga?).

Portugal deve ser um estado neutro, promotor da paz. Não deve ser um anfitrião de cimeiras da guerra, nem um auxiliar menor em dispendiosas políticas agressivas de expansão imperial da NATO+UE. No imediato existem outros temas mais prioritários, mas fica dado o alerta.

Tomar Partido Agora

É necessário actuar – não para resistir, mas para vencer. Pode ser um desafio impossível, mas a derrota é certa se ficarmos, como agora, parados. (Agora, artigo do Nuno Ramos de Almeida)

Nem mais, podemos e devemos actuar agora. No plenário final de domingo da Assembleia do Juntos PODEMOS espero que os participantes estejam à altura destas palavras e não se fiquem por apelos inconsequentes ao “universo em geral” e decidam ACTUAR tomando o futuro nas suas próprias mãos. Ficar à espera que sejam terceiros a dar voz aos anseios desta assembleia, ficar à espera de indefinidos amanhãs que cantam é a receita certa para a derrota e desmoralização. É preciso concretizar e tomar partido. É preciso um PODEMOS em Portugal.

It has to start somewhere
It has to start sometime
What better place than here
What better time than now
All hell can’t stop us now

 

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Que Se Lixe o Podemos Falar

Em 2012 nasceu um movimento que, imitando o modelo do Protesto da Geração à Rasca (GaR), tomou o nome de Que Se Lixe a Troika (QSLT). “Apartidário, laico e pacífico” era o mote da GaR. Dos três valores, apenas o primeiro foi assumido pelo QSLT – tal não podia ser mais falso. Alguns artigos de jornal e blogues explicam como este “movimento” foi, sim, instrumentalizado pelo PCP e BE. Em reuniões à porta fechada, pessoas destes partidos decidiam votar em bloco as acções que iriam ser discutidas e aprovadas em encontros públicos.

Num deles proibiu-se a continuação de grupos de trabalho setoriais autónomos (chamados “marés”) sobre a saúde, educação, cultura, etc.. Poderiam ter desembocado em coletivos mais organizados, quem sabe num novo partido, como aconteceu em Espanha com o Podemos.

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Ler artigo completo no P3 do Público, aqui

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