Europa, Crónicas de uma Ruptura

Em dia de reflexão deixo aqui alguma matéria para reflexão…

EuropaCronicasRuptura

(é só clicar na imagem para aceder ao ficheiro PDF com os textos)

Esta é uma colectânea de textos acerca da Europa, ou para ser mais preciso, da União Europeia. Um dos mais graves equívocos na esmagadora maioria das análises e debates acerca da “Europa” é a confusão destes dois termos, que de resto, não é nada inocente.

O primeiro texto aqui apresentado data de 2007, ou seja, ainda antes da Grande Crise de 2008-2009. O último foi escrito em Fevereiro de 2014. Ao longo deste período de 7 anos a opinião das massas face a esta “União da Tanga” (como dizia a canção dos Xutos…) sofreu uma profunda alteração. Há 7 anos a maioria esmagadora da população por essa Europa fora associava a União à paz, prosperidade e até a ideias de justiça e solidariedade… neste momento largos sectores das massas sentem um profundo desprezo, para não dizer ódio, a essa instituição. Outra coisa não seria de esperar, este período de grave crise expôs a verdadeira natureza da União e de um dos seus mais importantes instrumentos, o Euro.

Diz-se que a União Europeia tem problemas de “legitimidade democrática”, mas a verdade é bem mais grave, a União é activamente anti-democrática. Aliás, tinha mesmo de assim ser pois a União é o bastião máximo do regime Capitalista na Europa, um regime que na aurora do século XXI é ultra neo-liberal na economia, liberal nos costumes e crescentemente autoritário politicamente.

As “Crónicas de uma Ruptura” que recheiam estas páginas dão uma ideia de como a União foi reagindo ao agudizar da crise e fazem registo de vários importantes momentos de resistência popular. As “Rupturas” que são relatadas dizem respeito à própria evolução politico-economico-social do continente, mas também da posição do autor face a esta realidade. Enquanto em 2007 ainda alimentava ilusões no chamado “europeísmo de esquerda”, a sucessão de crises foi abrindo os meus olhos e endurecendo as minhas posições.

Esta União é e sempre foi o bastião do Capital na Europa, se na sua fundação operava de forma algo diferente é porque o próprio Capital na altura atuava de forma diferente e tinha outras restrições aos seus movimentos… A União neste momento fomenta a miséria e a desigualdade, a União é a principal responsável pela re-emergência do fascismo como alternativa de poder no continente. Perante esta União nenhum democrata progressista pode ter qualquer ilusão. Só em luta contra esta instituição se poderá alguma vez superar a atual crise.

 E as eleições?

Estas eleições são uma oportunidade para poder agitar as àguas e criar alguma dinâmica que, infelizmente, nos últimos tempos parece ter abandonado as ruas… O seu resultado poderá vir a abrir espaço, ou ajudar a criar condições, para o recrudescer da luta social… independentemente até, de ser essa ou não, a vontade dos partidos que polarizarem o voto de descontentamento.

Destas eleições podem sair dois importantes resultados a nível nacional:

  1. Uma derrota histórica do governo e dos seus partidos PSD+CDS. Tudo indica que o seu resultado poderá ser o mais baixo de toda a história, podendo nem chegar aos 30%.
  2. O reforço da Esquerda mais crítica do Euro e da União Europeia.

A nível Europeu incluindo as “eleições”/boicote na Ucrânia, tudo indica que este será um dia que ficará registado na História. A União não será destruída num único dia, mas as suas fundações poderão vir a sofrer um fortíssimo abalo.

Para mais reflexões remeto os leitores para este meu texto:

Eleições Autárquicas – As suas consequências e o diagnóstico que permite da situação político-social

Tudo o que aconteceu de então para cá e os resultados que iremos observar amanhã nas Europeias, confirmam em grande medida, tudo o que escrevi nesse texto.

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22 respostas a Europa, Crónicas de uma Ruptura

  1. Guerreiro diz:

    Para ser consequente com aquilo que diz ser a União Europeia, a ÙNICA atitude correcta , seria apelar ao boicote destas eleições.
    Assim , fez mais uma bocado de propaganda ás suas cores partidárias, e provou uma vez mais que foge a tirar conclusões .

    A esquerda mais critica da Europa e do Euro, que não tem a coragem de afirmar, que quer o FIM da União Europeia e a saída do Euro.

    Isto sempre teve um nome, OPORTUNISMO..

    E não pensem que o Governo se vai demitir, por maior que seja a derrota , continua a ter maioria na Assembleia da Republica, e por isso não vai largar o Tacho.

    • Francisco diz:

      Mas tás te a passar ou quê?

      Boicote???? Para quê? Para ajudar o governo e os partidos da coligação? Para essa gente dizer que o pessoal até nem está discontente ou que os partidos anti-euro são ultra minoritários?

      Para ajudar o governo e o capital? O “boicote” só ajuda essa gente!!!

      Quanto às minhas cores políticas, olha, NÃO TENHO NEM FAÇO PARTE DE NENHUM PARTIDO E AINDA NÃO SEI EM EM QUEM VOU VOTAR.

      MAS SEI MUTO BEM EM QUEM NÃO VOTAR E QUE NÃO VOTAR É QUASE IGUAL A VOTAR PSD/CDS.

  2. Gambino diz:

    A minha dúvida é semelhante à do Guerreiro.
    Ainda não decidi se vou votar. Julgo que só vou mesmo decidir amanhã.
    A tua leitura nacional está correcta e, provavelmente, vai ser o único motivo que me vai levar às urnas: No entanto, a questão de fundo que tu e estes textos colocam é eminentemente estrutural: a UE é profundamente anti-democrática.

    Concordo inteiramente com esta conclusão, mas questiono-me se a única solução eficaz não passará pela resistência absoluta e não cooperação com qualquer manifestação do grémio capitalista que gosta de se apelidar União Europeia. Pergunto-me mesmo se esta resistência não deve começar precisamente no boicote ao placebo pseudo-democrático das eleições para o Parlamento Europeu. É que cada voto vai ser considerado como uma vitória para os tecnocratas da UE, que precisam desse banho de legitimidade como de pão para a boca.

    Em suma, provavelmente vou fazer o mesmo que tu, mas começo a questionar-me se não faz algum sentido pensar em transformar o boicote numa arma política instrumental e doutrinária. Se participar nestas eleições, será apenas por querer garantir que a coligação governamental não canta vitória e que a sua excreção dita socialista também sai fragilizada.

    • Francisco diz:

      Não sou contra boicotes. Por exemplo, amanhã sou TOTALMENTE A FAVOR DO BOICOTE ÀS ELEIÇÕES NA UCRÂNIA. Mas aí existe um movimento de massas e o boicote vai ser uma coisa muito séria mesmo.

      Por cá, os “burocratas” europeus estão-se completamente a cagar para a abstenção, aliás eles até podem invocar a abstenção para tirar poderes ao parlamento (que quase n tem) e tornar a coisa ainda mais anti-democrática.
      Creio que o voto num partido (de Esquerda) anti-Euro ou UE, mesmo n concordando com tudo o que dizem/fazem, faz mais mossa à UE do que ficar em casa sentado…

      • Gambino diz:

        Por agora, julgo que tens razão, até por causa das exigências da nossa situação interna. Mas, no futuro, a coisa terá necessariamente que passar pelo boicote. Aliás, o esvaziamento dos diminutos poderes do Parlamento até é útil. Permitirá expor a Comissão e o Directório, bem como denunciar o carácter anti-democráttico da UE.

        O reduzido poder do Parlamento Europeu serve, sobretudo, para transvestir a União Europeia de democracia. Manda a cartilha revolucionário que consideremos o Parlamento Europeu como um dos rostos do grémio capitalista Europeu e que nos recusemos a fazer a apologia das suas alegadas propriedades democráticas, que servem apenas para branquear instâncias em que a democracia está manifestamente ausente. Neste sentido, o principal inimigo da revolução democrática na UE é mesmo o Parlamento Europeu, na medida em que é este que vende a ilusão de democracia, sem a qual a UE teria muitas dificuldades em operar.

        De qualquer forma, vou provavelmente fazer o mesmo que tu e votar num partido de esquerda que se oponha às políticas e instituições da UE. Mas começa a estar na altura de redesenhar a luta pela democracia na UE…

  3. Argala diz:

    A análise do Francisco em relação à questão de votar ou não, está absolutamente correcta, E o ponto é exactamente este “Mas aí existe um movimento de massas”. Na Ucrânia apela-se ao boicote. Outro exemplo seria a Índia, onde o PCI (m) também apela a boicotar as eleições burguesas.

    O que tem de ser explicado é que os cenários são distintos; e que boicote e abstenção também são coisas distintas.

    Onde existe movimento insurrecional, com capacidade militar efectiva e situações de poder dual, a opção táctica face às eleições burguesas é diferente de quando isso não existe. Boicotar não é ficar em casa ao domingo sem fazer nestum, isso é abstenção. Boicotar é participar activamente na sabotagem das eleições burguesas.

    A minha opinião é portanto esta: não perdemos nada em participar nas eleições burguesas enquanto não tivermos força para as boicotar. Podemos aproveitar para testar forças e sondar o campo. Com isso corremos alguns riscos claro, e sem dúvida que um deles é o oportunismo, mas creio que não correr esse risco seria ainda pior.

    Quanto ao partido a votar. Terá de ser um partido com um programa para os trabalhadores, que nestas eleições afirme preto no branco, e sem vacilar, que devemos abandonar a UE. As opções não são muitas. Também ainda não sei em quem votar, mas desde que vote num partido que satisfaça este programa mínimo, creio que terei feito as opção correcta. Amanhã antes de entrar para a mesa de voto escolho.

    Cumprimentos

  4. Luís Marques diz:

    O Francisco é grande, continua camarada.

  5. Victor Nogueira diz:

    o post fala em colecção de textos mas hiperliga apenas para um.

    Quanto ao boicote às eleições defendido por alguns comentaristas nest post e noutros locais parece-me como a daqueles que defendem greves indeterminadas – à qual a maioria ainda não tem consciência para aderir e aguentar as consequências – para não aderir a greves de um dia.

    A atitude face às eleições depende destas serem consideradas um fim ou um meio entre outros. Mas em qualquer dos casos as “abstenções” são apenas uma tomada de decisão que deixa o campo aberto no caso de portugal à tríade PS(d)CDS, reforçando-a. À organização do Capital há quem ofereça a “desorganização” porque alegando não se reverem nas existentes e concorrentes, tb são incapazes de meterem os pés e as mãos na lama para formarem outra(s) e congregarem adeptos em torno delas.

    Na política tal como no futebol abundam os treinadores de sofá ! E a passagem a um estádio superior depende da posição da maioria, embora isso não signifique que não se actue – e aí já começam a surgir as divergências – isto é, que se actue para que esta maioria se transforme em minoria e a actual minoria em maioria por mudança da consciência social.

    • Francisco diz:

      O link é para um documento PDF, esse documento PDF contém vários textos e cerca de 70 páginas… Mas se não estiver a funcionar ou o link estiver errado por favor diga! (estou a falar no link que se acede clicando na imagem!)

      • Victor Nogueira diz:

        fui induzido em erro pela formulação inicial que citei. Vi depois que seguindo o link tinha acesso a outros textos.

    • Francisco diz:

      “parece-me como a daqueles que defendem greves indeterminadas – à qual a maioria ainda não tem consciência para aderir e aguentar as consequências – para não aderir a greves de um dia.” não discordo totalmente, mas isto não é uma regra de ouro. As pessoas aderem a protestos se tiverem a percepção de que eles resultarão em algo concrecto, terão consequências. Certas propostas/acções radicais na verdade conseguem mobilizar e atrair muito mais gente que propostas moles do costume que toda a gente sabe que não vão dar a lado nenhum!
      Sobre isso ler isto:
      https://5dias.wordpress.com/2013/11/17/nenhum-trabalhador-despedido-nao-ha-reducao-da-tabela-salarial/

      • Victor Nogueira diz:

        Francisco. Eu baseio-me na minha experiência sindical, em que muitas vezes os “radicais” não passam de fura-greves, bem identificados. No terreno e no local de trabalho conhecemo-los, sabemos o que são e ao que venhem !.

        Parece-me que o meu comentário está contextualizado.

        • Argala diz:

          “Eu baseio-me na minha experiência sindical, em que muitas vezes os “radicais” não passam de fura-greves”

          Caro Victor Nogueira, mas será que não percebe que isso é um mau princípio para debater o que quer que seja? Será que não percebe que esse tipo de atoardas só servem para abortar logo qualquer discussão que possa nascer? Não percebe também que isso é rasteiro e de baixo nível?

          Esse tipo de comentários, que mais não servem senão para caricaturar qualquer oposição consequente e construtiva, posso também eu fazer sobre os reformistas que lideram a estrutura sindical, sendo muito mais, incisivo e começando por aquele que foi o líder da central sindical durante 25 anos (!!!!). Aquele que foi líder da central sindical durante 25 anos acaba de mão dada aos alegristas, a apoiar o António Costa e a dizer que não se pode rasgar o memorando.

          Não acha isto muito mais relevante do que qualquer radical que possa vossemecê encontrar no seu sindicato, e que diz que não faz greve de um dia e que só faz por tempo indeterminado?!?! Que insinuação quer que as pessoas retirem daqui?!

          Vamos lá dar a devida proporção às coisas e tentar que o debate sirva para melhorar os instrumentos de combate da central sindical. E melhorar significa exactamente, fazer com que esse instrumentos magoem mais o inimigo. E só uma pessoa que entenda que os actuais instrumentos estão a surtir efeito é que pode não querer o debate. É esse o seu caso?

          Cumprimentos

          • Francisco diz:

            Já para não falar do “Arménio recua na ponte”… muita garaganta mas depois é um balde de água fria em cima da luta social…

    • Argala diz:

      “à qual a maioria ainda não tem consciência para aderir e aguentar as consequências”

      Não é esse o motivo. Embora sim, devamos participar activamente nas greves que são convocadas, mesmo que sejam apenas de um dia, mas isso não nos impede de perceber porque razão não existem greves por tempo indeterminado.

      Isso de passar culpas para uma “maioria” que não aparece para aguentar uma luta mais prolongada é puro escapismo e apelo ao espontaneismo. Na luta de classes existem dirigentes e existe uma vanguarda, e é a ela que temos de pedir responsabilidades em primeiro lugar.

      O que temos de perguntar é: porque razão não existe um fundo de greve? Já se pensou nisso? Há algum plano para criar um? Quanto custaria criar um fundo para almofadar salários de grevistas que trabalham em sectores que têm um efeito brutal numa greve durante algumas semanas? Ex. Transportes públicos, correios e portos. Que acções adicionais se poderiam tomar para garantir que nenhum destes sectores funciona durante este período (ocupações e sabotagem)?

      Estas são as perguntas concretas a fazer. E não ficar à espera de um Sebastião chamado “consciência social”.. isso não é nada.

      Cumprimentos

      • Victor Nogueira diz:

        nada no meu comentário me parece que justifica o que afirma. Quanto aos fundos de greve, não é fácil de concretizar. E se me não engano fez com que Tatcher rebentasse com o sindicato dos mineiros. Claro que é preciso solidariedade, mas os fundos de greve “esgotam-se” com o seu prolongamento no tempo e o seu alargamento a cada vez mais trabalhadores em greve. Parece-me qie importante é as greves atingirem os “corações” do sistema. Que causem o máximo de prejuízo aos “cifrões”. Quanto à “consciência social” não é um “d.sebastião”, alarga-se, como diz Argala.

  6. Y luego encima la Unión Europea tuvo la desfachatez de amañar el Premio Nobel de la Paz del año 2012.

  7. Luis Moreira diz:

    E, no entanto estados e pessoas querem aderir`a essa tenebrosa União.! Porque será?

    • Francisco diz:

      Porque há coisas ainda piores, tipo Ruanda e francamente, porque são ignorantes e Russófobos.

    • imbondeiro diz:

      Já o amigo visionou (visionou certamente) aquelas tenebrosas imagens dos austríacos, há mais de 70 anos, saudando efusivamente a entrada do exército nazi em Viena? Esses sábios vienenses também estariam certos ao fazerem orelhas moucas aos avisos daqueles que os alertavam para a verdadeira natureza e os verdadeiros objectivos do regime nazi, não é? Ou, dizendo as coisas correctamente, segundo o seu raciocínio a cegueira humana é o mais sólido argumento de defesa das mais estúpidas e criminosas acções. Fascistas no Parlamento Europeu? Nazis no Parlamento Europeu? A UE desmorona-se sob o peso de políticas completamente imbecis? Ora, nada disso interessa, pois há, pelo menos, um país que nela quer ingressar: a Ucrânia. O que, convenhamos, é já dizer muitíssimo acerca do estado a que chegou esta moribunda UE.

  8. Carlos Carapeto diz:

  9. Pingback: O fim da “utopia” federalista | cinco dias

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