Continua o ataque à Escola Pública

Contra encerramento escolas

Este governo, através do seu Ministério da Educação liderado pelo Ministro Nuno Crato, pretende fechar mais 311 escolas do 1º ciclo do ensino básico (primárias) supostamente escolas com menos de 21 alunos (sobretudo no distrito de Viseu). Alega a necessidade de integrar essas crianças “em centros escolares ou outros estabelecimentos de ensino com melhores condições”… No entanto para quem tanto valoriza os chamados “rankings escolares”, isso não é muito coerente quando se sabe que algumas destas escolas primárias encontram-se no topo das melhores escolas primárias… Em abono da verdade esta política já existe há vários anos (e governos) e só desde 2002 fecharam mais de 6500 escolas primárias, o que dá uma impressionante média anual de 540 escolas encerradas*.
Segundo o governo as vantagens para as crianças são muitas, por exemplo:
– “reduzir riscos de abandono e insucesso escolar”;
– “proporcionar oportunidades de aprendizagem conjunta, trabalho de grupo, convívio social e troca de experiências tanto a alunos como professores”;
– “erradicar situações de isolamento”.
Obrigar crianças dos 5 aos 10 anos a se levantarem de madrugada para apanhar autocarro e depois chegar a casa ao final da tarde é que vai reduzir o risco de abandono ou insucesso escolar? Imaginemos essa situação particularmente durante o outono-inverno… Que “convívio social” ou “troca de experiências” proveitosas terão estas crianças sujeitas a estas condições diárias contrastando com as outras crianças que moram “ao lado” desses centros escolares e que não têm que perder tempo nem energia para se deslocar para a mesma escola? E como se “erradica situações de isolamento” destas crianças quando estas (e as suas populações) ficarão provavelmente ainda mais isoladas sem a sua escola?

Certamente que cada caso é um caso e até é possível que existam escolas que não têm efectivamente as condições mínimas e assim os próprios pais não quererão os seus filhos nessa situação (ou defenderão legitimamente obras nessas escolas). Mas se o governo está de “boa vontade” porque não permitiu que esta decisão fosse concertada, ao longo deste ano lectivo, com as populações? Com reuniões onde se discutiria os “prós e contras” (mas sem a Fátima Campos Ferreira e com real direito à participação de todos). Se esta medida é tão positiva para as crianças, qual o receio do governo em discutir e decidir conjuntamente com as populações?

E porque não aproveitar muitas destas Escolas primárias (algumas que tiveram obras recentemente) para alfabetizar os muitos adultos que infelizmente ainda não sabem ler ou são analfabetos funcionais?

Custaria dinheiro? Sim, mas provavelmente não tanto como a construção de 3 autoestradas entre Lisboa e Porto (que é um escândalo particularmente num país com a nossa dimensão e a nossa dependência em combustíveis fósseis). Ou não tanto como o “buraco” do BPN que continua a aumentar e estará entre os 5 000 a 7 000 milhões de euros ou eventualmente o futuro buraco do BES… Ou por exemplo, quantas pessoas libertaríamos do analfabetismo com os 14 milhões de euros cedidos aos colégios privados?

Investir na Educação (além de gerar emprego), potencia a todos os níveis o desenvolvimento humano e a capacidade de pensar e questionar… Talvez também por isso, este governo é tão acérrimo destruidor de uma Escola Pública de qualidade para todos.

André Pestana (professor desempregado).

*Curiosamente o presente ano lectivo 2013/2014 foi o único em que não se encerrou nenhuma escola… será porque o Ministro Crato sensatamente não quis, além da luta contra a chamada Prova de avaliação (PACC) em que foi derrotado, juntar duas frentes de batalhas ao mesmo tempo?

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13 respostas a Continua o ataque à Escola Pública

  1. Franz E. diz:

    são cinzas, aquilo que este governo tem no cérebro são cinzas sem futuro

  2. Dezperado diz:

    Obrigar crianças dos 5 aos 10 anos a se levantarem de madrugada para apanhar autocarro e depois chegar a casa ao final da tarde é que vai reduzir o risco de abandono ou insucesso escolar? Imaginemos essa situação particularmente durante o outono-inverno…

    E obrigar crianças a levantarem-se de manha, para ir para uma escola que tem 5 alunos, deve deixar as crianças contentíssimas…..
    Voce ja falou alguma vez com estas crianças, para perceber mesmo o que elas sentem? Não me parece!

    Engraçado que em todos os posts sobre escolaridade, nunca vejo referencia ao decrescimo que ha da natalidade, nos ultimos 20 anos! Mas temos que manter as escolas, mesmo que estejam às moscas!!!!

    • pestanandre diz:

      Caro Dezperado, como escrevi: “Certamente que cada caso é um caso e até é possível que existam escolas que não têm efectivamente as condições mínimas e assim os próprios pais não quererão os seus filhos nessa situação (ou defenderão legitimamente obras nessas escolas). Mas se o governo está de “boa vontade” porque não permitiu que esta decisão fosse concertada, ao longo deste ano lectivo, com as populações? Com reuniões onde se discutiria os “prós e contras” …Se esta medida é tão positiva para as crianças, qual o receio do governo em discutir e decidir conjuntamente com as populações?” não defendo categoricamente que todas estas escolas devem continuar abertas mas quem não quis ouvir as populações foi o Governo. Nesse sentido sou completamente contra este processo de encerramento de escolas primárias decidido sem ouvir as populações, que pretende fechar escolas que tiveram obras recentes, escolas que estão no ranking das melhores escolas (segundo o próprio governo), escolas com mais de 20 alunos, etc. Relativamente à taxa de natalidade isso merecia um artigo (muito interessante) à parte, nomeadamente quem é um dos maiores responsáveis pela diminuição histórica desta mas isso tentarei desenvolver no futuro.

      • Dezperado diz:

        ““Certamente que cada caso é um caso e até é possível que existam escolas que não têm efectivamente as condições mínimas e assim os próprios pais não quererão os seus filhos nessa situação (ou defenderão legitimamente obras nessas escolas).”

        Caro Andre

        Concordo inteiramente com esta frase. Cada caso é um caso. O problema é que sempre que ha esta discussao em cima da mesa, existem uns que nao deixam fechar escola nenhuma, e outros que sao a favor que se fechaem todas. Ou seja, não tem havido criterio.

        Concordo que este assunto deveria ser discutido com a população, mas tenho a ideia que nenhum paí iria concordar com o fecho da escola onde anda o seu filho, porque é mais perto de casa e os pais gostam dos filhos perto de casa. O que o pai acha melhor, o filho pode achar pior, nao acredito que uma criança goste de ir para uma escola onde só tem 3 ou 4 colegas para brincar.

        Tambem sou da opiniao que a taxa de natalidade tem de entrar sempre nestas contas. Se numa aldeia X nos anos 80/90 nasciam 300 crianças por ano e agora nascem só 30, como é obvio algo tem de mudar.

    • Diana diz:

      Não faz qualquer sentido manter abertas escolas que não têm procura, da mesma forma que não faz sentido não aumentar a capacidade das escolas que têm (por exemplo em Lisboa). Eu gostaria que o meu filho tivesse entrado na escola pública mas em lisboa a escola pública é apenas para os que nasceram até ao mês de Agosto. apenas esses têm opção de entrar no ensino básico na escola pública que pretendem. Os restantes, são invariavelmente “chutados” para o ensino privado ou sujeitos a ficar em escolas que não pertencem à sua área de residência.
      Outra anedota do sistema de colocação dos alunos, é o de valorizar a morada do encarregado de educação e não a da criança como critério de desempate para definição pela preferência de escola. Quando escalpelizamos o assunto, temos amigos de um tio em terceiro grau ou os vizinhos de um amigo que viram a criança uma vez na vida ou que nem sequer a conhecem, a serem o seu encarregado de educação!!!

  3. Mário diz:

    “André Pestana (professor desempregado)”

    O que é um professor desempregado ?

    Mário (Banqueiro de investimentos desempregado)
    (Ex.Presidente dos Sporting desempregado)
    (Ex.Futebolista do Real Madrid desempregado)
    (Ex.Astronauta desempregado)
    (Ex.Bombeiro desempregado)
    (Ex.Principe desempregado)

  4. silva diz:

    No caso da farsa do despedimento coletivo do Casino Estoril,passam já quatro anos sem fim à vista por atraso da justiça a maior parte das pessoas estão na miséria e vão inevitavelmente por ordem económica entrar na pré-reforma, sem que os advogados ou o próprio tribunal informe as pessoas como agir para ter direito ao trabalho que tanto reclamam.

    Os denominados poderosos que não é mais que o esterco de uma sociedade, são abençoados por uma vida, boa que o único divertimento é desgraçar vidas humanas, pois nunca lhes dão valor.

  5. Luis Moreira diz:

    Para as famílias há escolas públicas e privadas ou há apenas e só boas escolas? O que é uma escola pública? Tem alguma coisa a ver com o interesse das famílias e dos alunos ou é só uma forma de controlar o que se ensina ? O objectivo da escola pública centralizada , monopolista e sindicalizada é “padronizar” os alunos? Não tirem às famílias os direitos democráticos e constitucionais.

  6. Huy diz:

    À parte do assunto(interessante)-este blog está-se a transformar numa merda.Vejam lá , se arrepiam caminho.

  7. Manuel diz:

    Já li o artigo e concordo.

    No entanto, estou abismado com o vosso silêncio sobre o que se está a passar em Gaza.

  8. Então? Estão todos de férias? Ninguém comenta o que aconteceu com o vôo da Malasya Airlines?

  9. A escola actual e a velha reprodução da desigualdade,fiz link!

  10. Rafael Ortega diz:

    Eu compreendo que queira que nenhuma escola feche.
    Eu também gostava que nenhum dos clientes da empresa onde trabalho fechasse portas, e se possível comprassem mais e mais.

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