O que não se contou de Tiananmen

Tiananmen foi o canto do cisne de um movimento de trabalhadores e estudantes – ao todo pensa-se que 100 milhões em mais de 300 cidades – que nas ruas da China, durante três anos, colocaram nas ruas a questão do poder e se enfrentaram com a burocracia do PC da China.

A propaganda ocidental conseguiu, com algum sucesso, resumir Tiananmen a um protesto numa Praça de Pequim, levado a cabo por estudantes, que reivindicavam a abertura ao Ocidente e foram brutalmente reprimidos pelo PC da China. Como sempre, uma mentira tem de ter parte de verdade para ser engolida pelas pessoas.

Tiananmen é o momento mais dramático de uma situação pré-revolucionária que se abriu na China em 1986 e se encerrou em 1989 com a dramática repressão sobre estudantes e trabalhadores levada a cabo por um sector do Partido Comunista da China.

As reformas de Deng Xiaoping, no início dos anos 80 – conhecidas como as quatro modernizações (agricultura, indústria, investigação cientifica, exército) –, geraram uma oposição entre os trabalhadores, estudantes e intelectuais. O «socialismo de mercado» criava profundas divisões entre as zonas especiais e a China costeira e o mundo rural: um trabalhador chinês do campo podia ir trabalhar numa fábrica da costa com um passaporte especial, mas não podia aí residir ou levar a família ou colocar os filhos na escola, o que ainda hoje se passa na China. A mercadoria «trabalhador» estava a construir a China que deu o salário da globalização e permitiu aos países imperialistas acumular capital de uma forma espantosa durante os anos 80 e 90 do século XX. Era o maior exército industrial de reserva do Mundo. A inflação e a crescente «desigualdade social», nas palavras do historiador Massimo Salvadori, e a justa luta pela liberdade, contra a ditadura imposta pela burocracia do Partido Comunista, levaram um sector da população a enfrentar-se com o Governo e abriu-se uma crise dentro do PC da China, que em 1986 levou à substituição de Hu Yaobang no cargo de secretário-geral do partido. Esta subsituação gera manifestações gigantescas em toda a China. Crises sucedem-se nesses três anos sem que o Governo consiga controlar a situação. Ao lado, a URSS desmoronava-se, confirmando o prognóstico de Trotsky nos anos 30: ou havia uma revolução contra a burocracia ou uma restauração bárbara do capitalismo.

Em Abril de 1989, a morte de Hu Yaobang é o rastilho. Para lhe prestar homenagem, os estudantes escolhem a Praça de Tiananmen, e a 17 de Abril começa a ocupação da Praça. Começam por ser 20 mil estudantes, rapidamente passam a 100 mil estudantes e trabalhadores. Em 22 de Abril, dia do funeral, e apesar de proibida a manifestação, mais de 200 mil pessoas estão na Praça. Denunciando a corrupção do PC, exigem igualdade, boas condições de vida, liberdade. Quando há muita gente na rua, dizia Che Guevara, algo de bom se passa.

O movimento permaneceu e em 17 de Maio, quando da visita a Pequim do líder soviético Mikhail Gorbachev, uma multidão sai às ruas, respondendo aos apelos dos estudantes. No dia 18, cerca de 1000 estudantes entram em greve de fome e o Governo decreta o estado de sítio. Em 24 de Maio os estudantes criam um quartel-general de defesa da Praça Tiananmen. Há uma luta entre os estudantes que querem permanecer na Praça e os que acham que se deve começar a dialogar com o Governo. No dia 28 de Maio, há em todo o Mundo manifestações a favor da luta de Tiananmen. A revolta conta nas suas fileiras com trabalhadores, sindicalistas, intelectuais, jornalistas. O Governo decide mandar o Exército reprimir. E o Exército de Pequim recusa-se a fazê-lo…

O massacre ignorado

Com urgência, o Governo manda vir para Pequim tropas do Exército de Libertação Popular de outros locais. A história dos exércitos rurais usados para derrotar as revoluções das cidades repete-se desde a Comuna de Paris. Mas a população à entrada de Pequim, aos milhares, faz barricadas e impede a entrada do Exército em Pequim. A 2 de Junho, o povo obriga os soldados a recuar. Mas a 3, à noite, os tanques avançam. Há inúmeros mortos, ninguém sabe bem quantos, de trabalhadores esmagados pelos tanques ou mortos a tiro nas avenidas que dão acesso a Tiananmen. O maior massacre, conhecido entre os trabalhadores por Massacre de Pequim, ocorre longe de Tiananmen, e das câmaras de televisão, como lembram George Black e Robin Munro no livro Black Hands of Beijing: Lives of Defiance in China’s Democracy Movement: «O alvo principal não eram os estudantes, mas os trabalhadores dos subúrbios de Pequim que se revoltaram contra as duríssimas condições de trabalho e de vida impostas pela abertura ao mercado dos anos 70.» Brendan O’Neill confirma, num artigo escrito para o The First Post, que a maioria das vítimas foram «trabalhadores dos subúrbios de Pequim».

Na madrugada de 3 de Junho e no dia 4, o Exército avança e começa a disparar, fazendo, pensa-se, mais de 1500 vítimas, a maioria não estudantes, e entre eles vários elementos do PC da China que se opunham às reforma de Deng e que saíram às ruas para defender os estudantes e a revolução.

O movimento terá tido manifestações, greves e impacto político em cerca de 300 cidades da China e envolvido 100 milhões de chineses.

A política é confundida pelo som das palavras. Tiananmen em chinês quer dizer a Porta da Paz Celestial. Em Tiananmen o PC da China dizia estar a lutar contra uma clique de «contra-revolucionários». Os trabalhadores e estudantes eram descritos como querendo uma liberalização económica e democrática. Mas a derrota de Tiananmen abriu a China ao capitalismo mais selvagem de sempre, pela mão dos «ortodoxos» do PC da China. Tiananmen foi, hoje podemos com certeza dizê-lo, o ponto alto da contra-revolução que restaurou o capitalismo na China dirigida pela burocracia do PCC, auxiliada por um Exército que se chamava de «libertação». Derrotados foram os trabalhadores que quando saem à rua, quer o digam ou não, colocam sempre esta questão chave: «de quem é o poder».

O Ocidente «chocado» agradeceu à China por ter criado as condições que abriram portas a que hoje um chinês monte um computador a troco de uma tigela de arroz. Esse é o significado histórico de Tiananmen. A condenação formal não passou de uma vénia que o Ocidente foi obrigado a fazer, já que às suas portas, na Europa, tinha uma revolução ainda mais poderosa em curso, com o desmoronamento da URSS.

Também à China se colocava a velha questão de Trotsky: ou a revolução ou a restauração bárbara e impiedosa do capitalismo. Sem se enfrentarem com os burocratas que crescem na sua própria classe, os trabalhadores estão condenados a derrotas, à paz dos cemitérios.

 

O homem do tanque

Na madrugada de 4 de Junho, um homem desconhecido, na Avenida da Paz Eterna, perto de Tiananmen, pequenino e magro, segurando sacos de plástico nas mãos, pára em frente a uma coluna de tanques. O da frente tenta evitá-lo. Ele não sai da frente. Consegue subir e falar com o condutor do tanque. Conta-se que lhe terá dito: «Não matem mais o meu povo.» Foi depois levado: ninguém sabe ao certo se por militares, se por amigos. E ninguém até hoje sabe do seu paradeiro.

Publicado originalmente em Revista Rubra nº 6

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15 respostas a O que não se contou de Tiananmen

  1. Francisco diz:

    “Ao lado, a URSS desmoronava-se, confirmando o prognóstico de Trotsky nos anos 30: ou havia uma revolução contra a burocracia ou uma restauração bárbara do capitalismo.”

    Em bom rigor não se pode dizer que os factos tenham confirmado esse prognóstico. Porque o “prognóstico” definia duas possíveis alternativas, ou restauração bárbara capitalista ou revolução contra a burocracia. O que a História nos demonstrou (pelo menos até agora) é que em lado algum se verificou uma “revolução contra a burocracia”. Essas tentativas ou foram esmagadas, ou na sequência de movimentos “democráticos”(seriam???) houve a tal “restauração bárbara do capitalismo”. Portanto, até agora, o prognóstico do Trotsky não se confirmou. A única coisa que se confirmou até agora foi que na sequência de estados “bonapartistas de esquerda”/”estados operários degenerados”/”burocracia estalinista”/”socialismo real”/”capitalismo de estado” o que se sucedeu foi exactamente uma “restauração bárbara do capitalismo”.

    Mas corrijam-me se estiver errado, por favor dêem me um exemplo de uma revolta bem sucedida contra a burocracia que não tenha desembocado numa restauração bárbara do capitalismo.

    Sobre isto aconselho este textos, ambos de ex-dissidentes de esquerda de regimes “socialistas realmente existentes”

    WORDS FROM BUDAPEST
    http://newleftreview.org/II/80/g-m-tamas-words-from-budapest

    What remains of Soviet culture?
    http://links.org.au/node/79

    Acho que estes assuntos merecem uma profunda discussão, mais, sem revisitar estas questões parece-me que a Esquerda não tem hipóteses de construir uma alternativa que permita superar a actual crise. Mas essa análise deve ser feita de forma fria, histórica, dialéctica, sem juízos de valor moralistas, sem pre conceitos e ideias feitas. Por mais dura e/ou trágica que a realidade seja, por mais contraditórias que as conclusões a tirar de uma análise séria e rigorosa dessas experiências sejam. Prefiro isso a respostas fáceis dictómicas (trotsky bom – estaline mau) que podem servir para nos fazer sentir melhor, mas pouco ou nada contribuem para superarmos os desafios que temos pela frente.

  2. Obrigado Raquel,comoveste-me com a história do homem do tanque!

  3. Argala diz:

    Só o ano passado com a discussão que houve por esta altura sobre Tiananmen, é que eu fiquei com algumas noções sobre o que realmente se passou. Mas continua sem se saber grande parte da história.

    Com a divulgação pela Wikileaks da correspondência diplomática ficámos a saber que não houve massacre na praça, e que a saída dos manifestantes foi negociada com o exército, tendo-se depois verificado confrontos quando parte dos manifestantes tentaram furar as barreiras que estavam montadas. O resto são histórias de vampiros a que já estamos habituados.

    A segunda coisa que fiquei a saber foi que os protestos não tinham uma dinâmica claramente contra-revolucionária, ao contrário do que afirmavam muitos P”C”s. Os manifestantes tinham reivindicações absolutamente legítimas: opunham-se ao desmantelamento das comunas populares (1983), e com elas o fim dos conhecidos ‘médicos de pés descalços’, o fim do programa Iron Rice Bowl, entre outras políticas de construção do capitalismo levadas a cabo pelo Deng Xiaoping. Há imagens dos manifestantes a cantar a Internacional.. que é a pior coisa que se pode fazer à nova camarilha chinesa.

    Não significa isso que não pudesse germinar ali uma contra-revolução colorida contra a “corrupção”, pela “liberdade” e a “democracia. As duas coisas não são mutuamente exclusivas.

    Mesmo não sabendo ainda tudo o que se passou, a minha inclinação é responsabilizar a nova camarilha do partido chinês pela turbulência que as novas medidas económicas geraram.

    Mais informações são bem vindas

  4. silva diz:

    A justiça e os advogados tanto defesa como acusação no caso do despedimento coletivo do Casino Estoril, seja por trafico de influências ou corrupção ainda vão provocar uma tragédia lamentável sem retorno. Brincar com vidas humanas é no que dá!!!!!!!

    UM GRANDE NEGOCIO DA CHINA

  5. Luis Moreira diz:

    Sempre o Ocidente. Quando naquela praça há mais polícias e militares que em toda a Lisboa. Estive lá e o guia treinado em Cuba antes de me vir embora disse-me : Diz lá no Ocidente que aqui há três prioridades. Matar a fome! Matar a fome! Matar a fome! É talvez por isso que abriram a economia ao único sistema que mata a fome. O capitalismo!

    • Pai Natal diz:

      Espetáculo,há bué q não tinha visto tão insigne demonstração.Só q não funciona para África,republicas demonicanas,filipinas…..da-aaaaaaaaaaaaaaaa!

    • Francisco diz:

      Comé que isso está a funcionar na Nigéria, México ou Colombia? Não são esses países capitalistas? Ou que tal a Indía? Ou o Brasil? etc, etc, etc….
      “Não esses países não são “capitalistas””, então são o quê? Mais uma vez a técnica de escolher a dedo os exemplos.

    • Alice no País das Maravilhas diz:

      Sim, ´´e ver os amanhãs que cantam na Libia,no Iraque,na Siria com a implementação da ‘democracia’.Ontem vi uma reportagem no Panama-sociedade avançada e altos níveis de vida.Filipinas,Gabão,….Deves estar sob o efeito de substancias alucinogenicas!

  6. Khe Sanh diz:

    Porque será que não recordam o massacre de Gwang Ju praticado uns anos antes de Tianemem?

    As informações oficiais falam em pouco mais de uma centena de mortos, no entanto sabe-se que foram cerca de dois mil .

    Será que há uns mortos mais “importantes” que outros ?

  7. kur diz:

    Dona Raquel,não se est´´a enganando?
    http://www.globalresearch.ca/what-really-happened-in-tiananmen-square-25-years-ago/5385528

    Não foram os senhores q teem estado na frente de luta das ‘democracias’contra as ditaduras,no Iraque,Libia,Siria.
    Realmente…

  8. Tiago diz:

    O Governo está a matar-nos e o capital recordou com alegria o “massacre” em TIamanem… perdão o capital e Raquel Varela. Ao menos és coerente, sabes de que lado estar…

  9. closer diz:

    É espantosa a ironia da história: durante décadas os comunistas portugueses foram fortes adversários do maoísmo, que consideraram um desvio esquerdista e provocatório da linha oficial soviética. Hoje, que a China abraçou o capitalismo selvagem, são os comunistas portugueses que a defendem. Quanto aos maoístas de ontem, hoje estão bem instalados nas cadeiras do poder burguês

    • Tiago diz:

      Pode indicar-me um único texto do PCP que indique o seu apoio à China? O que encontro é uma caracterização do sistema sistema político e o seu posicionamento internacional. Pode-me ajudar?

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