Costa e Seguro: virtus e fortuna

Quando ainda se faziam as contas dos resultados eleitorais e se extrapolavam as mais diversas conclusões sobre a vitória e derrota das direitas e esquerdas, eis que o agenda-setting se alterou. Não interessava falar mais na vitória de Pirro socialista e da derrota monumental do governo. Nem um suspiro sobre o chumbo da população europeia ao projecto europeu. A noite eleitoral de domingo era a última oportunidade para lançar o assalto à liderança do Partido Socialista, e sabemos como a pequena política preenche mais as colunas diárias do que um debate acérrimo em torno do Tratado Orçamental Europeu ou a Parceria Transatlântica. Os teóricos do sebastianismo têm agora em mãos um novo case-study. A boa imprensa e os históricos socialistas fazem o resto. Todavia não é tema de somenos se pensarmos no futuro político do país.

Com António Costa, o caminho está aberto até às legislativas, queira ou não o estóico Seguro. Uma vitória que, a suceder-se, não se pode dizer que seja tanto pelo acervo ideológico de um sobre o outro. Não reconheço grandes diferenças entre ambos: o combate ao governo, a renegociação do memorando ou mesmo a necessidade de investimento europeu como complemento ao rigor nas contas públicas. Devo dizer que nem em relação ao Tratado Orçamental Europeu como muitos advogam, já que nunca foi ouvida a proposta de Costa quanto à revisão dele. Sabe-se também que Seguro procurava em Hollande uma outra esperança para uma adenda de crescimento. Enfim, nenhum rasga o que nunca deveria ter sido escrito.

Em matéria de entendimentos não é fácil descortinar. O entendimento de Seguro com a direita parlamentar teve, entre a retórica abstencionista violenta, episódios como a conivência do Orçamento de 2012, a longa negociação pelo consenso cavaquista ou o acordo pela descida do IRC. Neste ponto, António Costa é menos lacónico e defende um entendimento em torno da renegociação do memorando. Mas na sua última participação na Quadratura do Círculo, deixou algumas pistas que parecem indiciar novamente uma proximidade com o seu concorrente. Tal como o actual secretário-geral, parece que não faz contas com outros partidos. Deixou no ar a possibilidade de acordos parlamentares com o apoio de uma sólida base social. No entanto, sabemos a opinião de António Costa em relação à ingovernabilidade da esquerda e da sua intenção de conquistar o centro. E se Marinho Pinto pode ser produto apenas do exotismo que as europeias têm prendado do lado eurocéptico, a conquista do PSD por Rui Rio traria o Bloco Central de Mário Soares e Mota Pinto à memória.

Preocupa-me um pouco esta adesão de muitos trabalhadores ao mito de António Costa. Um candidato elogiado à direita deve ser visto com desconfiança pela classe trabalhadora, sejamos práticos. Que diferença trará numa Europa austeritária onde um Hollande em queda livre se refugia num primeiro-ministro social-liberal de nome Manuel Valles, num PSOE em ruína ou num SPD coligado com a CDU de Merkel? Onde 2/3 do Parlamento Europeu e todo o Conselho Europeu navegam para o mesmo lado dos interesses financeiros? Que tem Costa a dizer da recapitalização da banca ou da actuação dos grandes grupos económicos portugueses – e não só – no rumo percorrido até aqui? Duvido que António Costa sequer fale em burguesia; mas sei que esta vê no presidente lisboeta a hipótese de estancar uma convulsão social que se avizinha e alguém com capacidade de maquilhar o status quo que varre Portugal: rentismo, presença do centrão em cargos administrativos empresariais e manutenção dos sectores privatizados.

Acima de tudo, o que distigue António José Seguro de António Costa é um pormenor maquiavélico. O primeiro não tem aquilo que o autor florentino chamava de virtus; a capacidade política de gestão dos acontecimentos, qualidade esta reconhecida no presidente da câmara lisboeta.

Em relação a fortuna, mera contingência e ventos da sorte, um Príncipe deve procurá-la. O actual secretário-geral sempre foi arrastado pela maré e não procurava sequer criar ondas. Apresentava-se passivo perante o descalabro europeu. E António Costa lançava avisos pela televisão.

Mas o verdadeiro pormenor importante que faz de António Costa um candidato com outro fulgor para Maquiavel, é que este sabe aparentar o que não é.

Estruturalmente pensa como Seguro, mas sabe fingir e defender as mesmas ideias com outro carisma e mobilização.

Esta entrada foi publicada em 5dias. ligação permanente.

4 respostas a Costa e Seguro: virtus e fortuna

  1. Ou seja, Costa é capaz de enganar mais e melhor, contribuindo assim para adiar o apodrecimento do regime. Mais uma vez, a direita agradece reconhecida. Tudo vai bem no melhor dos mundos, já que é fundamental distrair o Zé dos problemas que realmente interessam.
    ZM

  2. Luís Marques diz:

    Convulsão social que se avizinha? Ainda não vos passou essa? A não ser que estejam a pensar no efeito da política patriótica de esquerda, aí sim, dou-lhe razão, será um desastre bíblico. Saída do euro e miséria absoluta, hmm, talvez o plano seja esse, no meio do caos quem estiver organizado é que manda.

  3. kur diz:

    E,ainda se ‘queixam’ q o PCP não quer fazer alianças.FDP,tachistas,corruptos,Ro(u)bal(d)os

  4. fantasia diz:

    Fosca-se! Ninguém fala do BES????

Os comentários estão fechados.