Resposta a uma provocação

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A 14 de Fevereiro, o Sindicato que represento assinou um acordo com as Associações Patronais de Lisboa, mediado pela Tutela e que envolveu igualmente o IDC (International Dockworkers Council). Três meses depois e no decurso do processo negocial, quer o Sindicato quer o IDC (bem como a generalidade dos jornalistas) receberam das Associações Patronais, em completo contraciclo, uma carta despropositada quer na forma quer no conteúdo. Na forma porque configura um ataque pessoal ao Presidente do Sindicato. No conteúdo porque esta missiva mais não pretende do que reacender um conflito e colocar em causa um acordo que, do lado sindical, tem vindo a ser escrupulosamente cumprido.

Porque este é um processo colectivo, que ultrapassa as fronteiras nacionais, a resposta a esta provocação é dada pela nossa organização mundial de estivadores numa carta que passo também a publicar:

À atenção de: Associações Patronais do Porto de Lisboa – AOPL, AOP, A-ETPL

C.C. Exmº Senhor Dr. João Carvalho

Exmos. Senhores,

Queremos, desde já, manifestar a nossa estranheza face à carta que recebemos, com data de 05 de Maio de 2014, enviada pelas Associações Patronais de Lisboa, a propósito da situação no porto da capital portuguesa.

São várias as dúvidas que a referida carta nos suscita, e esta comunicação serve o propósito de as tentar esclarecer de boa-fé, e em sintonia com o histórico acordo conseguido este ano entre todos os envolvidos, esta organização mundial de estivadores incluída. Não queremos correr o risco de que problemas de comunicação ou, se preferirem, de entendimento, possam colocar entraves ubíquos ao cumprimento desse mesmo acordo.

A primeira e mais significativa dúvida que queremos colocar é a de não conseguirmos descortinar o propósito de o debate ser personificado no presidente do Sindicato dos Estivadores de Lisboa, quando neste momento vigora um acordo que, tendo até sido mediado pelo Governo Português, inclui esse Sindicato – não apenas o seu presidente – as Associações Patronais e ainda o IDC, razão pela qual, imaginamos, fomos destinatários do seu conteúdo, como atesta o conhecimento directo que nos quiseram dar da mesma.

Se as Associações Patronais, depois de assinado o acordo, entendem que há assuntos que ainda não foram suficientemente escalpelizados têm, como sabem, um roteiro aberto até final do ano, com todos os parceiros sociais envolvidos, de negociação do contrato colectivo de trabalho. Esse é, no nosso entender, o espaço onde se devem colocar os diferendos que, por alguma razão, ainda se manifestem.

Se as Associações Patronais assinam uma carta com data posterior ao acordo alcançado, em termos que, deverão reconhecer, é pouco consentâneo com quem está vinculado a um acordo, quando se lamentam sobre a realidade anterior ao mesmo, parece-nos não fazer grande sentido.

O que se passou desde o acordo em diante foi o escrupuloso cumprimento deste por parte do Sindicato e dos trabalhadores que representa, mesmo confrontados com dificuldades e demoras adicionais, desde o atraso na reintegração dos despedidos – prevista no acordo – até aos repetidos salários em atraso para os trabalhadores da empresa de trabalho portuário de Lisboa – AETPL, o maior empregador de estivadores do porto.

Sabemos que a todas essas dificuldades, o Sindicato de Lisboa e os seus associados têm respondido com infinita paciência, cumprindo sempre a sua parte, ainda que tenhamos vivas expectativas de que essas dificuldades não levem muito mais tempo a serem definitivamente ultrapassadas.

Os trabalhadores e o seu Sindicato estão a cumprir com a sua parte e nós estamos confiantes de que as Associações Patronais cumprirão a sua.

Sem mais, aproveito a oportunidade para agradecer tanto às Associações Patronais como ao IMTP, na figura do seu presidente João Carvalho, pelo seu envolvimento nas negociações e no acordo entre todas as partes interessadas.

 Atentamente,

Jordi Aragunde

International Dockworkers Council (IDC)

Aqui em PDF.

Publicado originalmente no blogue O Estivador.

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2 respostas a Resposta a uma provocação

  1. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Se tal fosse necessário, está aqui a prova de que o sindicato e os seus dirigentes são de uma qualidade intelectual e de uma elegância muitíssimo superiores às dos representantes do patronato. Mas, por qualquer razão, isso não me surpreende minimamente.

  2. Pingback: Guerra ou Paz? | L´obéissance est morte

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