O que disse Marx sobre sindicatos controlados por partidos

15442-1.jpg Karl Marx

“Se se quiser que os sindicatos cumpram a sua missão, nunca se deve ligá-los a uma associação política nem submetê-los a ela; se isso acontecer, aplica-se-lhes um golpe mortal. Os sindicatos são escolas para o socialismo. Neles os operários recebem a preparação para se tornar socialistas, dado que ali observam diariamente a luta contra o capital. Todos os partidos políticos, quaisquer que sejam, só passageiramente são capazes de entusiasmar as massas operárias, enquanto os sindicatos cativam a grande massa dos operários de forma duradoura; só eles são capazes de representar um autêntico partido operário e opor um baluarte ao poder do capital. A massa maioritária dos operários, por muito diversos que sejam os partidos em que esteja filiada,  chegou à conclusão de que a sua situação material deve ser melhorada. Portanto, se a situação material do operário melhorar, este poderá dedicar-se mais à educação dos filhos […] [que] já não necessitarão de ir para as fábricas, e ele mesmo poderá promover o seu espírito e cuidar melhor do seu corpo; então transformar-se-á em socialista sem que se dê conta disso.”

Entrevista feita por Joseph Hamann (Setembro de 1869) – in “Marx no seu tempo” (2001)

Sobre João Labrincha

Agora escrevo no Botequim.info em http://botequim.info/author/jl4br1nch4/
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34 respostas a O que disse Marx sobre sindicatos controlados por partidos

  1. João Labrincha diz:

    Reblogged this on Ar Salgado.

  2. José Corvo diz:

    Na prática é isso que acontece.

  3. M.D. diz:

    Assustador…

  4. José António Jardim diz:

    Só o Labrincha consegue animar os Sindicatos.Em que setor?

  5. Vasco diz:

    Que partidos existiam então? Partidos comunistas, revolucionários, operários? Não. Não deturpem o que disse o homem. E não se façam de esquerdistas ao mesmo tempo que combatem a única esquerda combativa e real!

    • João Labrincha diz:

      Neste ano existiam já muitas associações e ligas políticas operárias em vários países, bem como o partido comunista. E Marx referia-se a “todos os partidos políticos, quaisquer que sejam”.

      • Camarro diz:

        Existia o partido comunista??!!

        Existia, isso sim, o Manifesto do Partido Comunista, o que é muito diferente de afirmar que já existia o Partido Comunista. Sendo que, os partidos comunistas criaram-se, sobretudo, a partir de cisões dos partidos socialistas e social-democratas. É extraordinário o João referir que já existia um partido comunista antes da fundação dos partidos socialistas e/ou social-democratas…

        • João Labrincha diz:

          Existiam várias associações políticas operárias e proto-partidos, certo? Então eu re-cito: “Se se quiser que os sindicatos cumpram a sua missão, nunca se deve ligá-los a uma associação política nem submetê-los a ela”

  6. Camarro diz:

    O grosso dos partidos operários (sobretudo social-democratas) só foram fundados por volta de 1875. A entrevista é de 1869… Tudo dito

    • Argala diz:

      Como é óbvio..
      A crítica à necessidade de uma vanguarda revolucionária só pode vir deste tipo de exegetas da treta.

      Ó Labrincha, marxismo não são as opiniões de Marx.. muito menos quando estas estão descontextualizadas. Não, os sindicatos não são por si só escolas do socialismo, e Lenine explica porquê.

      Agora faz o favor de abandonar o blog e abre um blog do M12M.

  7. Joao Pereira diz:

    Esquerda reaccionária contra esquerda reaccionária contra anarquistas contra … err .. artistas do chapitô. Que delicia.

    • imbondeiro diz:

      Lá nisso tem o senhor toda a razão: a direita nacional é muito mais solidária entre si. Pelo que se tem visto nos últimos quarenta anos, quando cheira a tacho, toda ela solidariamente se reúne para comer da mesma gamela. À falta de ideologia, o poder unificador do exercício do poder, do dinheiro e da propriedade foi, é e será de magna serventia à industriosa direita cá do luso pedaço.

  8. Gambino diz:

    Infelizmente, esta é uma daquelas opiniões de Marx que a história não validou.

    É verdade que os operários aproveitaram os benefícios do sindicalismo para garantirem a educação dos seus filhos. No entanto, os rebentos educados do proletariado já não pertencem à classe dos seus pais e não aproveitaram a sua formação para construir o socialismo. Pelo contrário, transformaram-se em pequenos ou grande burgueses. Uma parte muito substancial dos defensores do neo-liberalismo pertence a este proletariado emancipado, que viu no socialismo menos uma ideia que uma ferramenta de promoção social.

    Nos países em que os sindicatos estavam mais libertos da influência partidária, como os Estados Unidos, esta tendência foi ainda mais forte, expondo um conflito que Marx não antecipara entre a lógica funcional do sindicato – a defesa dos interesses materiais e laborais dos trabalhadores – e os princípios ideológicos que o regulam.

    • “Infelizmente, esta é uma daquelas opiniões de Marx que a história não validou.”

      Diria mesmo mais… segundo leio (não posso confirmar, dado não ser um especialista)… este é uma daquelas opiniões que Marx não terá, sequer, manifestado. Nem sequer na entrevista a este tal Joseph Hamann que, segundo as mesmas leituras, é duvidoso que tenha existido…

      Vá lá saber-se!…🙂

    • Moreira diz:

      “Infelizmente, esta é uma daquelas opiniões de Marx que a história não validou.”

      É sempre interessante quando se vê marxistas, a dizer que Marx falhou.
      Marx referia-se sim, a Sindicatos Socialistas, ou Marxistas, ou outro termo que queiram.
      ( os sindicatos americanos são “sindicatos de resultados” , como eles dizem)
      Os Sindicatos “Socialistas” , não precisam de estar presos a nenhum partido. Nem devem, como diz Marx.

      Acho que assim faz mais sentido, que estar a dizer mal de Marx, para depois dizer bem de Marx.

  9. renegade diz:

    A mera cronologia devia ter deixado o citador avisado contra a tentação de martelar esta citação por referência à atualidade… E além disso nem era preciso ler os marxistas, bastava uma história dos partidos políticos na europa.

    • Argala diz:

      Parvoíce a minha em partir do princípio que a citação é verdadeira. Em todo o caso, a ideia está errada, seja quem for o autor.

    • caxineiro diz:

      xeque mate?

    • João Labrincha diz:

      Quando não interessa concordar e não há argumentos para refutar, criticam-se as fontes. Pois, a fonte desta citação está devidamente identificada e ainda não vi ninguém provar-me de forma categórica que é falsa!

      • Argala diz:

        1. Há argumentos de sobra para refutar isso e já foram apresentados. Creio que a realidade sindical dos nossos tempos chegaria para refutar essa afirmação junto dos mais alucinados.
        2. Não não. O ónus de prova está do seu lado. Vossemecê é que tem de ir ao livro “Marx no seu tempo” e dar-nos a fonte da citação para posterior análise.

        • É que nem nestes posts da treta os criadores do blog conseguem dizer algo válido. Impressionante.
          E tentam inverter o ónus da prova. Tudo neste blog é cómico😀

  10. silva diz:

    Esta gente só fala e não trata da justiça, veja-se o caso do despedimento coletivo do Casino Estoril o bom gosto de despedir, para beneficio deles, abrirem empresas de serviços ao casino toda gente sabe disto mas ninguém quer saber.
    O MAIOR NEGOCIO DA CHINA

  11. Isto tudo faz-me lembrar aquela citação (muito bem inventada…) sobre Marx ter dito algo do género de os malandros dos banqueiros e capitalistas convencerem os trabalhadores a consumir muitas coisas a crédito (para melhor os enterrar…) mas que isso acabaria por levar ao comunismo… Até apareceu uma série de imagens (cartoons) com Marx a «ler uma bola de cristal» e tudo… eh eh eh
    A tal citação
    «”Owners of capital will stimulate the working class to buy more and more of expensive goods, houses and technology, pushing them to take more and more expensive credits, until their debt becomes unbearable. The unpaid debt will lead to bankruptcy of banks, which will have to be nationalised, and the State will have to take the road which will eventually lead to communism.”
    Veio cedo a verificar-se – como seria de esperar – que terá sido um professor de História norte-americano que numa brincadeira inventou aquela cena… ,

  12. Tiago B. diz:

    Em “O Militante”

    TRABALHADORES, EDIÇÃO Nº 320 – SET/OUT 2012
    A relação sindicatos/partidos e a independência e autonomia sindical – A actualidade de Marx (III)
    por AMÉRICO NUNES

    Vimos há pouco tempo na TV João Proença, da UGT, com a boçalidade de um anticomunista primário estampada no rosto, afirmar, como quem faz uma acusação torpe: a CGTP-IN é uma célula do PCP. É caso para se dizer que se esqueceu de olhar para o espelho antes de abrir a boca para alimentar a onda reaccionária que se intensificou, de forma orquestrada, após o último Congresso da grande central histórica dos trabalhadores portugueses, com o intuito de impor na opinião pública a falsa equação, CGTP-IN igual a PCP.

    Na verdade, o desplante é grande vindo do homem que, simultaneamente, é dirigente nacional do PS e Secretário-geral da UGT, organização sindical que está estruturada internamente por partidos à maneira do parlamentarismo burguês, e também Secretário-geral da Tendência Sindical do Partido Socialista, organismo partidário em que se integra a «corrente sindical socialista da CGTP-IN», onde se organizam partidariamente os militantes do PS que são dirigentes da CGTP-IN. Portanto, João Proença sabe bem que está a mentir, a não ser que considere os seus camaradas de partido na CGTP-IN submarinos do PCP no PS, ou vice-versa, e queira fazer tábua rasa de muitos outros dirigentes e delegados sindicais sem partido, ou de outros partidos, que integram o grande colectivo de activistas e trabalhadores que é o movimento sindical unitário.

    Mas o que mais justificará os seus despautérios será a necessidade de lançar poeira para o ar a fim de esconder dos trabalhadores os vergonhosos acordos que, sucessivamente, assinou a reduzir direitos, salários e reformas dos trabalhadores sem qualquer legitimidade para o fazer.

    Os dois últimos são autênticos crimes contra os trabalhadores portugueses. Com o Governo Sócrates já de saída assina um acordo que facilita os despedimentos e reduz drasticamente as indemnizações dos trabalhadores despedidos. Pouco tempo depois, em manobra que só pode ter sido de auto-branqueamento e mistificatória, associa-se a uma greve geral da CGTP-IN contra o Pacto de Agressão. Logo a seguir, antes de uma segunda greve geral decidida pela CGTP-IN com os mesmos fundamentos, assina, agora com o Governo PSD/CDS, um acordo exactamente com o mesmo conteúdo que antes jurara rejeitar frontalmente e contra o qual se havia feito a primeira greve geral, em que participara. Acordo que vai ainda mais fundo do que o anterior na eliminação de direitos, salários e reformas, para além de dar o assentimento à ingerência estrangeira em Portugal. Desta feita, não é difícil descortinar a organização sindical que faz e dá cobertura a políticas partidárias, no caso as troikistas, subscritas pelo PS, PSD e CDS. Os três partidos fundadores da UGT e que a estruturam em tendências partidárias organizadas dentro de si.

    A relação dos sindicatos com os partidos e a indissociabilidade da luta económica e da luta política tem raízes na própria origem dos sindicatos e está desde há muito clarificada em termos ideológicos e de classe. Engels di-lo de forma clara e simples pouco depois da Comuna de Paris em 1871 referindo-se aos auto-proclamados jornais independentes: «A abstenção absoluta em matéria política é impossível; por isso, todos os jornais abstencionistas fazem política. Trata-se apenas de como se faz e de qual.» (1) E Marx teoriza e fundamenta abundantemente a questão em diversos passos da sua obra, em documentos que redige para a AIT – Associação Internacional de Trabalhadores (I Internacional) e em cartas, relativamente aos sindicatos.

    Karl Marx, ao mesmo tempo que defende a importância dos sindicatos, começa por lhes apontar a principal debilidade. Afirma: «os sindicatos [trade unions] funcionam bem como centros de resistência contra as investidas do capital. Fracassam parcialmente por um uso não judicioso do seu poder. Fracassam geralmente por se limitarem a uma guerra de guerrilha contra os efeitos do sistema existente, em vez de simultaneamente o tentarem mudar, em vez de usarem as suas forças organizadas como uma alavanca para a emancipação da classe operária.» (2)

    Marx tornou-se comunista na época em que os sindicatos estavam a emergir do seio das associações mutualistas e cooperativas de entreajuda. Já dirigiam greves económicas e em Inglaterra tiveram um papel importante na luta política pelo sufrágio universal. «Via nos sindicatos, sobretudo, centros organizadores, focos de agrupamento de forças dos operários, organizações destinadas a dar-lhes a primeira educação de classe.» (3) Chamou-lhes diversas vezes «escolas de socialismo» ao longo da sua obra. Foi ele que impulsionou a incorporação das trade unions na AIT, procurou conhecer directamente vários sindicatos em Inglaterra, participou nas suas assembleias gerais em representação da Internacional. Exultava com a adesão de novos sindicatos e com os êxitos das greves. Dinamizou lutas contra os fura-greves e a recolha de fundos a nível internacional para apoio aos grevistas, e considerava essa solidariedade fundamental para a consciencialização e a unidade dos operários.

    Em carta a Kugelmann, de 15 de Janeiro de 1866, escreve: «conseguimos atrair para o movimento a única verdadeira grande organização operária: as trade unions inglesas, que antes se ocupavam exclusivamente com as questões dos salários.»

    Redigiu cartas de resposta da AIT aos sindicatos que se lhes dirigiam a partir dos diversos países. Numa resolução redigida por Marx enviada à 3.ª secção nos EUA, em 15 de Março de 1872, depois de seis pontos sobre organização, direcção e representação, podemos vislumbrar parte importante do seu pensamento político sobre os sindicatos:

    «É estranho que nos vejamos obrigados a indicar a uma das secções da AIT a utilidade e grande importância do movimento sindical (…) todos os congressos da AIT, desde o primeiro ao último, se ocuparam detalhadamente sobre o movimento sindical, procurando os meios e caminhos para o seu desenvolvimento. O sindicato é o berço do movimento operário, porque os operários, como é natural, interessam-se pelo que os afecta na sua vida quotidiana e unem-se, por conseguinte, antes de mais, com os seus companheiros de ofício. Por isso, o dever dos membros da Internacional não é só ajudar os sindicatos existentes, mas, sobretudo, guiá-los por um caminho justo, quer dizer, internacionalizá-los e, ao mesmo tempo, criar, em todos os lugares onde seja possível, novos sindicatos. As condições económicas obrigam os sindicatos, com força irresistível, a passar da luta económica contra as classes possidentes, à luta política.» (4)

    Noutra apreciação sobre a proposta de estatutos de um sindicato alemão (5), inspirados por Lassalle a quem acusa de ser chefe de uma seita, considera o projecto de estatutos erróneo do ponto de vista dos princípios por ser sectário, por prever três poderes de diferentes origens, (uma espécie de direito de tendência da época), nomeadamente um presidente, «uma pessoa completamente inútil eleito por sufrágio universal (…) enfim, fontes de conflito por toda a parte.» Marx sublinha ainda que é impossível fazer entrar as amplas massas numa organização sectária, e com humor corrosivo afirma que tal tipo de organização, cómoda para sociedades secretas, e para a união dos sectários, contradiz a própria essência dos sindicatos. Enfim, trata questões de então que traduzidas para a actualidade continuam a ser princípios, problemas e práticas fundamentais para o sindicalismo do nosso tempo.

    Na sua luta ideológica e política contra o divisionismo do anarquista Bakunine, que intentava dividir a luta de classes separando a luta económica da luta política, na resolução aprovada pela AIT em Setembro de 1871, Marx considera que o proletariado só pode actuar como classe, propõe a constituição de um partido politico distinto, oposto a todos os antigos partidos criados pelas classes dominantes, e «recorda a todos os membros da Internacional que, na classe operária militante, o movimento económico e a actividade politica estão indissoluvelmente ligados entre si.» Proclamou a necessidade da luta da classe operária, tanto no terreno político como no económico. Sem nunca esquecer que a unidade dos trabalhadores na acção se constrói em primeiro lugar em torno da sua luta económica e dos seus direitos e interesses específicos.

    Também em carta a F. Bolte, de 23 de Fevereiro do ano seguinte, lhe explica o seu pensamento sobre luta económica e luta política, dizendo. «O movimento político da classe operária tem por finalidade, naturalmente, a conquista do poder político para si.» E ainda: «todo o movimento em que a classe operária se oponha, como classe, às classes dominantes, procurando vencê-las por uma pressão exterior, é um movimento político. Por exemplo, a tentativa de conseguir, pela greve numa fábrica, ou numa determinada corporação, ou de certos capitalistas, uma limitação da jornada de trabalho, é um movimento puramente económico. Mas, um movimento dirigido para conseguir uma lei de 8 horas, etc., é um movimento político. E assim, dos movimentos económicos isolados dos operários surge, a qualquer momento, um movimento político.» Como se vê, embora colocando sempre em primeiro lugar a luta económica como condição para o arranque e desenvolvimento da unidade na acção, em Marx há uma indissociabilidade entre a luta política e luta económica, luta que é um constante combate à classe capitalista, dominante, e não, política ou económica, e muito menos apenas quando os motivos dizem respeito a todos os cidadãos do mundo e os objectivos de tal luta política «atravessam» toda a sociedade, como afirma nos dias de hoje a escola sociológica na moda, que para todo e qualquer processo adopta as teses da transversalidade.

    Há duas questões que têm sido objecto de grande controvérsia ao longo de toda a história do movimento operário e sindical. A unidade sindical, e a independência dos sindicatos face ao Estado, ao patronato, aos partidos e às confissões religiosas.

    Logo em «O Manifesto» (1848), Marx enuncia a questão essencial da unidade da classe operária e identifica factores que a unem e que a dividem. Diz-nos que o verdadeiro resultado das lutas operárias não é o seu êxito imediato, é a união e a organização dos operários que se vai ampliando. E alerta: «A organização dos proletários em classe é rompida de novo a cada momento pela concorrência entre os operários.» (6)

    A ideia de que o número é a grande vantagem dos proletários e a sua divisão o resultado da concorrência entre si será repetida ao longo de toda a obra de Marx e Engels. E apontam a solidariedade de classe como um dos principais cimentos para a construção da unidade. Na resolução sobre a actividade política do proletariado aprovada no Congresso de Haia (1872), Marx faz novo e qualitativo alerta, afirmando: «mas a quantidade só tem peso quando está unida pela organização e guiada pelo saber.»

    Para mal dos nossos pecados, o capitalismo também se apropriou das ideias de Marx, estuda-as e procura virá-las do avesso a seu favor. Como noutras, também agarrou nesta tese e não a deixou ao arbítrio dos factores naturais, objectivos e subjectivos da concorrência dos trabalhadores entre si. Estimula essa concorrência entre os trabalhadores utilizando meios materiais, financeiros, tecnológicos, organizativos e ideológicos colossais na promoção dessa concorrência, no aprofundamento do divisionismo entre os trabalhadores.

    A manutenção do clássico exército de reserva, os desempregados. As flexibilizações de horários, salários, incentivos diversos; as múltiplas formas organizativas das empresas, do trabalho, sempre pensadas em função da competição entre os trabalhadores e dividir para reinar. A cultura do individualismo, do consumismo; a cooptação ideológica de dirigentes e organizações operárias e sindicais ou mesmo a sua corrupção directa ou indirecta. Batalhões de «cientistas sociais e políticos» financiados por patrocínios milionários de empresas e instituições a produzirem e a propagar ideologia encomendada e apropriada para o efeito. A construção de raiz e financiamento de pretensas organizações dos trabalhadores utilizando-as para trabalho sujo sofisticado de camuflagem à exploração.

    Recorde-se de novo o exemplo recente já referido da UGT em Portugal, a concordar com a revogação de direitos que custaram suor sangue e lágrimas a várias gerações de trabalhadores. Olhe-se para comportamentos semelhantes das suas congéneres europeias e mundiais. E quando esta sofisticada panóplia já não resulta ou se torna muito cara, o capital não hesita em recorrer à força bruta, e reprime, assassina, e recorre sem grandes pruridos, invocando até a defesa dos direitos humanos, à infâmia da guerra.

    Estamos numa etapa histórica em que unidade dos proletários na acção é em muitos aspectos mais difícil que no século XIX e nos primeiros dois terços do século XX.

    Nos actuais princípios de organização e acção da CGTP-IN e dos seus sindicatos, constam a sua natureza de classe e de massas, a unidade, a solidariedade, a democracia, e a Independência face ao patronato, ao Estado, às confissões religiosas e aos partidos. Os objectivos específicos e gerais são vários, sendo o fim último o fim da exploração do homem pelo homem e a construção de uma sociedade sem classes.

    No quadro da assumpção de todo o património histórico do movimento sindical português, fomos buscar parte destes conceitos ao sindicalismo revolucionário e anarquista português que os adoptara da Carta de Amiens do sindicalismo francês, de 1906, nomeadamente o da independência face aos partidos e ao Estado.

    Entretanto muita água correu por debaixo das pontes e hoje, ultrapassada a ilusão utópica anarquista da auto-suficiência dos sindicatos para o combate ao capitalismo, a construção e gestão de uma sociedade nova, está mais claro que os sindicatos não se devem substituir aos partidos nem adoptar ou sujeitar-se a programas puramente partidários. Mas nem por isso podemos deixar de concluir como Marx que em última instância, «toda a luta de classes é também luta política». (7)

    Por isso a defesa da neutralidade política, do apoliticismo, ou mesmo da independência absoluta dos sindicatos face aos partidos é ingenuidade ou hipocrisia.

    É também verdade que se uma luta económica é dirigida por «chefes» que a encerram num espartilho corporativo, ou pior ainda, para protagonismos pessoais, ela perde acuidade política. Mas se aqueles que a dirigem o fazem combinando luta económica e luta politica ela poderá render o máximo nos dois patamares considerados.

    Uma das asserções de Marx a este respeito é de que as limitações da luta económica não a deixam alterar por si a direcção do desenvolvimento capitalista. É apenas uma luta contra os efeitos e não contra as causas. Apesar desta afirmação, Marx valoriza desde a sua juventude até ao fim dos seus dias, os sindicatos e as greves na sua luta económica; «Nesta luta – verdadeira guerra de guerrilhas – unificam-se e desenvolvem-se todos os elementos de uma batalha futura.» (8) Declara num dos seus trabalhos de juventude.

    Lenine, genial intérprete de Marx na sua aplicação prática e desenvolvimento teórico, perante esta tese, afirma: «Temos aqui, à nossa frente, o programa e a táctica da luta económica e do movimento sindical para várias décadas, para todo o vasto período de preparação das forças do proletariado para os combates futuros.» (9)

    Assim, independência dos sindicatos face ao patronato? Claro que sim. Face ao Estado, governo e patronato, não deve haver qualquer dependência, financeira, organizativa, política ou ideológica. Face às confissões religiosas e aos partidos? Também. Embora, relativamente aos partidos e ao Estado com a mesma natureza de classe dos sindicatos possa não haver independência ideológica e política da massa militante e de objectivos estratégicos, mas apenas autonomia orgânica e de decisão no quadro da estrutura sindical, das suas regras e competências, dos seus órgãos deliberativos e executivos próprios. Pois se as suas propostas e objectivos, imediatos e finais coincidirem, ou estiverem integradas com as propostas de partidos ou movimentos sociais diversos, os sindicatos têm a obrigação de convergir ou unir-se na acção em função dos mesmos objectivos.

    É hipócrita e falsa a afirmação que ouvimos com frequência a dirigentes políticos de que os seus partidos não se metem na vida sindical. Num sistema de partidos, todos os partidos e governos influenciam ou procuram influenciar os sindicatos, e outros movimentos sociais de massas, o que é absolutamente normal, diga-se, na arquitectura do sistema político vigente e em função dos interesses de classe que cada um representa e defende. Embora uns o possam fazer para dividir os trabalhadores e outros para os unir, através das orientações e práticas que definem para os seus militantes nos sindicatos e para a sua política sindical. E aqui é que está o busílis da questão.

    Veja-se um só exemplo. O caso recente dos objectivos de ingerência interna na organização e funcionamento dos sindicatos que são as tentativas de imposição por lei da regulamentação do direito de tendência. Não enquanto direito democrático de expressão, participação, proposta, e votação na eleição de representantes por parte dos trabalhadores, porque esse direito existe e não está em causa. Mas enquanto cópia do parlamentarismo burguês, estruturação dos partidos dentro dos sindicatos, como se estes fossem interclassistas, organizados com os seus espaços e meios próprios, os seus programas e chefes de bancada, constituindo direcções de várias cabeças na mesma organização, tendências que não são mais do que fontes de conflito e de divisão tal como Marx detectou logo nos alvores do sindicalismo.

    Contraponha-se a isto, o caso dos partidos que apontam e praticam através dos seus militantes nos sindicatos a defesa dos seus interesses de classe, a construção e defesa da unidade dos trabalhadores, independentemente do seu partido ou religião, e a defesa da autonomia sindical, entendida como autonomia de organização e funcionamento democrático, de decisão e direcção dos seus órgãos próprios.

    Estamos a falar de duas posições programáticas existentes em Portugal. A primeira, do PS, PSD e CDS, que criaram a UGT para «partir a espinha à Intersindical». A segunda, do PCP, de sectores católicos progressistas, e de outras forças defensoras das características unitárias e de classe do movimento sindical.

    A dicotomia não é pois entre partidos e sindicatos. É entre sindicatos de classe e partidos da grande burguesia.

    Sendo assim, a maior ou menor influência dos partidos nos sindicatos unitários, de classe e de massas, estará não apenas em função da correlação de forças interna gerada pelo número de militantes seus que os trabalhadores elejam para delegados ou dirigentes sindicais, mas também, e sobretudo, pela correcção e justeza das suas práticas sindicais em defesas dos interesses dos trabalhadores, das análises, propostas reivindicativas e de acção que propõem e do seu papel na sua concretização.

    Perante esta evidência, quererão os utópicos bem ou mal-intencionados do nosso tempo, regressar à defesa do impossível independentismo puro e duro dos nossos antecessores anarquistas, e proibir, a eleição, e a participação dos militantes partidários e políticos nos órgãos dirigentes dos sindicatos, obrigando-os a abdicar de direitos de cidadania ou a entrar na clandestinidade?

    Mais lícito será pensar-se, quando os vemos defender o resguardo do carácter político da actuação sindical de classe para objectivos transversais à sociedade, a unidade de todos os cidadãos no lugar da unidade de todos os proletários, que tais posições são crises de identidade de classe ou que aqueles que as assumem estão antes do mais, a repensar o seu próprio posicionamento na luta de classes.

    Artigo elaborado a partir de uma intervenção realizada para o Congresso Marx em Maio, Lisboa 3, 4, e 5 de Maio de 2012.

    Notas
    (1) Marx, Engels, Obras Escolhidas, Tomo II, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1983, p. 267.
    (2) Idem, p. 78.
    (3) Losovski – Marx e os Sindicatos (antologia) – Edições Maria da Fonte, 2.ª ed., Lisboa, Junho de 1974, p. 15.
    (4) Idem, pp. 123-124.
    (5) Idem, pp. 48-50.
    (6) Opus cit., Tomo I, p. 115.
    (7) Idem, p. 115.
    (8) Karl Marx, Miséria da Filosofia, Livraria Exposição do Livro, São Paulo, s/d, p. 148.
    (9) Cit. in Losovski, opus cit., p. 164.

  13. João Labrincha diz:

    Quando não interessa concordar e não há argumentos para refutar, criticam-se as fontes. Pois, a fonte desta citação está devidamente identificada e ainda não vi ninguém provar-me de forma categórica que é falsa!

    • Kha Sanh diz:

      João Labrincha.

      Quais foram os termos ofensivos ou despropositados que encontrou no meu comentário para o censurar?

      Lembrei-lhe apenas que Vc é que tinha que provar aquilo que escreveu.

      Porque não encontrei esta suposta entrevista de Marx em parte nenhuma.

      Como também não existe qualquer informação que comprove a existencia deste Joseph Hamann.

      Agradeço que me indique onde posso encontrar referências acerca desta pessoa?

      Obrigado.

      Cumprimentos

    • Tiago diz:

      É essa resposra que dás? Nem vais ao debate de ideias? Fraquinho, muito fraquinho…

    • Gustavo Lopes diz:

      Gostaria que desses alguns traços biográficos do autor da entrevista que citas. Desta forma será mais fácil perceber a sua veracidade. Orbigado.

      • O Joseph Hamann não era aquele tipo que ajudava a escrever os textos da Oriana Felacio, ou Falucci, ou Falacci… ou lá o que era? Pois, eu sei… a idade e tal… mas o estilo lembra muito!🙂🙂

  14. Khe Sanh diz:

    João quem foi este Joseph Hamann?

    Não será um exagero da sua parte exigir aos outros aquilo que tem o dever de provar?

    Mais clarinho que o artigo que o Tiago B aqui colocou não pode haver.

    Está a ver o que dá meter-se em camisas de onze varas? Agora desenrasque-se !

    Estive a dar uma olhadela nas traduções de Marx do Barata Moura e nas obras de Henri Lefebvre sobre Marxismo , não encontro nenhuma opinião de Marx parecida com esta desse fantasma do Joseph Hamann.

    Deve ser a minha ignorância que impede que compreenda a realidade das cousas dos doutos.

  15. Humberto diz:

    Este texto é muito interessante e, devidamente contextualizado, entre a realidade histórica sua contemporânea e a presente, mantém-se actual.
    A interpretação que o aproveita para apontar a submissão da Intersindical ao PCP, desconhece profundamente o carácter da central sindical.
    Além de desconhecimento, revela também o esquerdismo ao qual Marx dedicou também bastante pensamento.

  16. imbondeiro diz:

    Sindicato que esteja inteiramente ao serviço de um partido em Portugal eu só conheço um: os Trabalhadores Sociais Democratas. Mas é claro que isso não interessa, não é? Como a esquerda muitíssimo progressista (sim, falo do BE) não conseguiu fazer-se ouvir no seio da CGTP e nela erigir uma sua praça-forte, de há muito que ela parafraseia constantemente a frustrada raposa da fábula de La Fontaine:”- Estão verdes, não se podem tragar!” Pois… Tivesse ela um escadote, e o verde num ápice passaria a um vermelho-mel que saberia ao manjar dos deuses.

  17. Tiago diz:

    Sinceramente, o 5dias bateu no fundo. Depois de uma altura em que o 5dias apenas servia para bater no PCP (cada um define o seu adversário), em que nem uma referência se faz às lutas que se fazem por este país (honre-se a excepção dos estivadores – mas pela razão hipócrita do seu sindicato ser presidido por alguém que a Raquel Varela aprovou mundialmente como revolucionário, ou não se fosse membro, da “Rubra”), chega-se ao ponto de ir buscar coisas mesquinhas como este texto.

    Se serviu para alguma coisa é para provar que tanto tanto tanto falam de Marx e não conseguem mesmo compreender o que o homem disse e pensou. Isto claro partindo do pressuposto (demasiado infantil) de que vocês realmente querem transformar alguma coisa neste país.

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