Mais que uma fotografia

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Uma imagem pode valer uma estratégia eleitoral se bem enquadrada no tempo e no espaço. O exemplo do encontro no Porto entre Tsipras, Marisa Matias, João Semedo e Mário Soares em vésperas de eleições europeias é uma excelente oportunidade para arredar uma interpretação meramente ofensiva de um braço dado com Mário Soares e olhar para o tabuleiro com os jogadores das eleições europeias.

Os votos a serem decididos entre os partidos da esquerda parlamentar estarão divididos entre duas grandes propostas. Queremos permanecer e transformar a União Europeia ou apostar numa saída que nos confira a independência e soberania no âmbito da política económica e cambial? Defendemos a saída para a crise portuguesa com a reestruturação em processo de saída ou como agente e país-membro da UE com uma outra configuração política no parlamento europeu e a eleição de um Presidente da Comissão Europeia contra a austeridade? Entre estas duas propostas podemos facilmente identificar diferenças entre PCP e Bloco de Esquerda. O Bloco de Esquerda concorre por um eleitorado europeísta, não euro-céptico, que promova uma política de crescimento assente na industrialização e facilitação do crédito através do controlo público da banca complementada com avanços sociais e uma reestruturação da dívida sem austeridade em concertação com as instituições europeias. É um programa progressista, social-democrata e fazendo lembrar o novo New Deal proposto pelo candidato da Esquerda Europeia à Comissão Europeia, Alexis Tsipras. Para os tempos que correm, e até pela necessidade de preservar o actual Estado de Direito face às exigências dos proprietários do capital contra o seu próprio modelo de democracia, chega para a demarcação em relação aos partidos socialistas europeus que não só aprovam o Tratado Orçamental Europeu como ainda apresentam Martin Schulz como sucessor de Durão Barroso. O antigo líder da bancada Socialists & Democrats que defende a austeridade, o rigor orçamental mas com investimento. Um militante do actual SPD coligado com a CDU de Merkel no governo alemão. Mais um abstencionista violento, portanto.

Tão poucas diferenças existem entre Junker e Schulz, a não ser ao nível da cosmética do discurso, que não seria surpreendente Merkel apoiar o seu compatriota. Assim como é irrisório o contraste entre Francisco Assis e Paulo Rangel.

É, portanto, ao nível das massas dos partidos socialistas e dos seus simpatizantes que o Bloco de Esquerda e Tsipras podem almejar um significativo aumento dos votos nas próximas eleições europeias. Procurarão os trabalhadores adeptos do projecto europeu, e esmagados pela austeridade, que pretendem uma Europa virada para o modelo social e crescimento. Porventura contarão também com a preferência da pequena e média burguesia ansiosas por um pacote de estímulo económico que lhes possibilite sobreviver no mercado comum concorrencial dominado pela burguesia internacional – única com capacidade de absorver impostos sobre consumo, assim como facilidade de financiamento e mobilidade do capital, praticando preços mais competitivos – e evitar a sua proletarização.

A fotografia com Mário Soares, figura respeitada pela social-democracia europeia e ex-candidato ao parlamento europeu, deixa um sério aviso a Francisco Assis e a Martin Schulz. As suas alianças à direita parlamentar não são bem recebidas por alguns sectores dos respectivos partidos. Confundem-se mesmo com ela apesar da batalha semântica, quando não semiótica. O partidos socialistas europeus correm o risco de serem ultrapassados em parte do seu eleitorado pela Esquerda Europeia que ocupa o espaço doutrinário de quem passou a defender a Terceira Via do capitalismo liberal. O próprio Alfredo Barroso já manifestou o seu apoio à lista do Bloco de Esquerda.

Visto que as sondagens apontam para a vitória do PPE secundado pelo S&D, Tsipras dificilmente será o próximo Presidente da Comissão Europeia. No entanto, seria demasiado absurdo pensar que, para o Conselho Europeu, valeria mais a pena ter um Roosevelt por perto e condicionado na Europa que um militante contra a austeridade na liderança da Grécia?

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5 respostas a Mais que uma fotografia

  1. João diz:

    Um dos elementos nucleares da dominação dos cidadãos dos vários países europeus por parte da burguesia Capitalista, foi a adopção do Euro como moeda única para dezassete deles, aí se contando algumas das economias mais frágeis, como a de Portugal ou da Grécia.
    Por outro lado, a completa ultrapassagem de todos os patamares da dignidade humana, verificada precisamente na Grécia (como também em Portugal), conduziu a alterações na relação de forças ao nivel partidário, com o quase desaparecimento do PASOK, e o ascenso desta Bloco de Esquerda à Grega, protagonizado pelo Alexis Tsipras, bem como dos Nazis do Aurora Dourada.
    Tsipras, numa altura em que se chegiu a admitir que poderia vencer as eleições parlamentares, fez um périplo internacional que incluiu Washington e os representantes da alta finança Mundial, a quem garantiu que, consigo, a Grécia jamais sairía do Euro. Portanto, afastando a cortina do palavreado, Tsipras não será muito diferente de qualquer António José Seguro ou mesmo Passos Coelho. Mas há uma coisa que Mário Soares sabe: é preciso é garantir que aqueles a quem ele dedica úm ódio de décadas não ganhem uma dinâmica que comprometa o “seu” PS, onde germinam e florescem todos os interesses possível em torno da mesma teia de poder que o alimenta há quarenta anos. Infelizmente, uma parte dos dirigentes do BE tem-lhe dado cobertura e colo, o que sucedeu pr exemplo com a figura patética de Francisco Loução naquele jantar de homenagem em que apareceu, de chapéu na mão e dizendo como diria o Conde Abranhos: “_Ao mesnoa um lugarzinho no Ministério da Marinha!…”
    Portanto e para que fique claro, não voto BE, mas se o tencionasse fazer até aqui, bastaria esta foto de família para que eu mudasse imediatamente de ideias.

  2. JgMenos diz:

    Se não é uma arma que o Semedo tem debaixo da gabardine, então o Soares está tão oportunista quanto o que sempre foi!

  3. Pingback: Política europeia à portuguesa | O Insurgente

  4. closer diz:

    Parece-me uma excelente análise relativamente ao programa e objectivos do BE. Só tenho pena que o autor do texto não tenha feito o mesmo relativamente aos objectivos e programa da CDU para ficarmos com uma ideia mais clara da diferença entre os dois projectos.

    Cumprimentos

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