António Araújo, crítico de livros

Renato Teixeira: “O debate de ideias não é compatível com a trapaça. Depois de ler a “crítica” do António Araújo ao último livro da Raquel Varela – História do Povo na Revolução Portuguesa 1974-1975 – não ficamos a saber muito do livro mas ficamos a saber tudo o que precisamos sobre o agora famoso assessor de Cavaco Silva. A mentira, a trapaça, a falsificação, não abrem nenhum caminho na luta política e lamentavelmente apenas deixam transpirar o indisfarçável pavor a tudo o que conteste a tese oficial sobre a história – do povo e não só – do 25 de Abril de 1974”.

O que escreve António Araújo:

“Com escassas páginas sobre a Reforma Agrária”

O que está no livro:

Um capitulo inteiro dedicado à reforma agrária, intitulado “A terra a quem a trabalha. A reforma agrária na Revolução”.

O que escreve António Araújo:

“Raquel Varela defende o «pacto social» e as marcas que dele ficaram inscritas na Constituição da República”.

O que está no livro:

O livro termina com uma critica ao Pacto Social. É, de resto, uma das teses centrais o livro.

O que escreve António Araújo:

Escuta-se o depoimento de uma mulher pobre, «de lenço na cabeça», que vivia num bairro da lata e se queixava de, na barraca onde vivia, não ter onde «fazer as suas necessidades», algo que a historiadora interpreta como uma «alusão a sexo» (p. 54).

O que está no livro:

Uma senhora de um bairro de barracas a saudar a revolução porque vivia assim:

«Tenho 5 filhos, todos com grande necessidade, tamos todos juntos a dormir na cama, pais, filhos, não se distinguir, um homem a querer fazer as suas necessidades [alusão a sexo] e ter que se esconder de um filho, uma mulher a querer fazer as suas necessidades e esconder-se de um filho, acho que isso…que já é muito que dizer…».

Interpreta? Será que António Araújo nos quer convencer que a senhora e o marido queriam urinar na cama às escondidas do filho?

O que escreve António Araújo:

“Salgueiro Maia e muitos outros tentaram tirar a população do Quartel do Carmo para a ‘proteger’, temendo confrontos” (p. 122). Não se compreende o alcance das aspas irónicas: efectivamente, Salgueiro Maia, como mandam os manuais de operações e o elementar bom senso, procurava que os civis não se vissem envolvidos num eventual fogo cruzado entre as tropas leais ao regime e os militares do MFA.”

O que está no livro:

A frase completa escrita pela autora, cuja citação é cortada por António Araújo, é: “Salgueiro Maia e muitos outros tentaram tirar a população do Quartel do Carmo para a «proteger», temendo confrontos (ainda não se sabia como terminaria o golpe)”.

As aspas são naturalmente usadas porque são uma citação, a que a autora acrescenta o contrário do que afirma António Araújo, ou seja, que era normal aquele apelo uma vez que desconhecia-se ainda o desfecho do golpe.

O que escreve António Araújo:

Por outro lado, teria sido importante que a autora definisse o objecto e o perímetro da sua investigação, ou seja, que concretizasse o que entende por “povo”. Na ausência dessa caracterização prévia (…)

O que está no livro:

“Porém, dúvida que se ergue de imediato: não é o povo, todo o povo de um país? Não, as people’s histories são a história, se quiserem, do povo revolucionário, rebelde, resistente, dos que desafiam a ordem estabelecida, que em geral é uma desordem de desemprego, subnutrição, analfabetismo e ignorância, repressão aos trabalhadores, conscrição para a guerra…”

Há quem veja no povo uma multidão espontânea e desorganizada e quem olhe para a classe trabalhadora sem se perder em conceitos como “multidão”, privilegiando a história das organizações de base dos trabalhadores, as quais estão intimamente ligadas ao papel dos dirigentes e dos partidos políticos, cuja análise, não sendo neste livro feita de forma exaustiva, é fundamental para explicar a dinâmica de qualquer processo revolucionário.

Publicado por Renato Teixeira aqui

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