Isabel Jonet e o Desemprego: nem sensibilidade nem bom senso

Isabel Jonet afirmou que os desempregados passam demasiado tempo nas redes sociais em vez de procurarem emprego. A afirmação carece de bom senso, mas sobretudo é falsa. Se os desempregados fossem todos à procura de emprego haveria na mesma 1 milhão e 400 mil pessoas desempregados. Os mesmos que há com os desempregados “a passar o tempo nas redes sociais”.

Há 1 milhão e 400 mil desempregados porque há 1 milhão e 400 mil postos de trabalho que não estão a ser utlizados de propósito. O Governo decidiu uma política recessiva que permita recuperar as taxas médias de lucro na produção e que o Governo definiu no próprio Orçamento de Estado: fazer cair o PIB, encerrar fábricas e empresas e criar ainda mais desemprego (cito o Relatório do Orçamento de Estado 2013). Isto faz-se desempregando pessoas, aumentando a jornada de trabalho para que um faça o trabalho de dois, intensificando tarefas (dando cada vez mais trabalho à mesma pessoa), aumentando impostos para fazer falir pequenas empresas (restaurantes, cabeleireiros, cafés, lojas), regulando a existência de estágios para exercer profissões (não obrigando à sua remuneração, por exemplo). A consequência disto é a médio prazo quebras na produtividade, os que trabalham estão exaustos e o número de esgotamentos duplicou e aumentou o número de acidentes de trabalho.

É preciso ainda recordar, e surpreende-me que a presidente de uma associação humanitária o desconheça, que a maioria dos desempregados não tem condições para procurar emprego. Para procurar emprego é preciso dinheiro (para imprimir CVs, deslocar-se para ir a entrevistas, ter acesso à Internet ou jornais, telefonar); porque as hipóteses de ter emprego aumentam se as pessoas têm saúde, dentes arranjados, estão bem vestidas, etc; porque para procurar emprego é preciso ter iniciativa e muita gente está paralisada pela depressão do desemprego; porque para procurar emprego é preciso ter de enfrentar propostas salariais que não justificam sair de casa como hoje é comum: um call center onde se ganha, trabalhando 6 dias por semana, 9 horas por dia, 480 euros. Basta juntar a alimentação e  viver num subúrbio com um passe social de 70 ou 80 euros para já não compensar trabalhar.

A economia clássica dizia que o crescimento económico levava a um crescimento dos salários e esse crescimento dos salários levaria a um crescimento da população e o crescimento da população iria controlar o crescimento do próprio salário (muita gente para trabalhar). É uma visão ricardiana, que os clássicos foram buscar a Malthus. Karl Marx veio dizer que esta é uma pequena parte da história – a menos importante. Porque há um outro factor, mais determinante para manter os salários baixos, aquilo que ele designou como exército industrial de reserva  – uma gigante massa de desempregados. O desemprego é, no modo de produção capitalista, a forma mais rápida de baixar os salários porque quem está empregado sente-se ameaçado de perder o emprego  e aceita a redução das condições laborais.

Não é no entanto necessário qualquer desempregado. Por exemplo, para fazer descer os salários dos advogados é preciso advogados desempregados; para baixar o valor dos salários dos professores é preciso professores desempregados, e por aí fora, e por isso hoje a função da escola é, cada vez mais e de forma mais rápida, formar pessoas que desconhecem a totalidade, não têm raciocínio abstracto, mas dominam tarefas e competências (podem rapidamente estar aptas a entrar no mercado de trabalho – é isto que mede o PISA e por isso Portugal está melhor no PISA) para que fiquem rapidamente desempregados e assim pressionem para baixo os salários. O Processo de Bolonha, o ensino dito profissional ou as novas oportunidades são a expressão desta necessidade de formar o mais rápido possível desempregados – hoje este é o objectivo principal das políticas de educação, do básico ao superior.  E, afirmo-o sem qualquer dúvida, fazer desempregados é o objectivo principal da política governamental, se olharmos a economia na sua totalidade.

Sem um rumo de ruptura com estas políticas vai haver cada vez mais desemprego porque o desemprego é a chave da “saída” da maior crise histórica do modo de produção capitalista desde 1929.

É preciso lembrar ainda que 1) Portugal tem no desemprego 1 milhão e 400 mil pessoas aptas para trabalhar 2) um país que precisa que se produza bens e serviços 3) não utiliza toda a capacidade instalada (investimentos, máquinas etc.) 4) os bancos estão inundados de dinheiro e não fazem investimentos, nem os chamados “grandes empresários” porque a remuneração do investimento  via títulos da dívida pública é maior e mais segura, e porque as grandes empresas funcionam em regime de monopólio, não estão sujeitas à competição que podia levar a mais investimentos – no caminho morrem as PME porque a maioria depende das encomendas destes monopólios. E tudo isto existe porque existe uma lei da gravidade do modo de produção capitalista – a queda tendencial da taxa de lucro que se deu efectivamente e que levou a uma brutal e inédita desvalorização da propriedade, cuja expressão foi a falência bancária em 2008. O euro está à beira do seu fim, hoje estas empresas grandes vivem o pânico da deflação e tudo é legítimo para evitar o inevitável, mesmo que no caminho deixem 1 milhão e 400 mil pessoas na desumana situação de não terem como viver. O direito ao trabalho é o direito à vida e, como bem social que é, o trabalho deve ser divido por todos e todos trabalharem. Não existe nenhuma solução realista para o nosso país que não seja a redução do horário de trabalho sem redução salarial. Todas as outras medidas são inúteis e não trarão qualquer resultado.

Muitos dos desempregado estão hoje nas redes sociais não com uma forma particular, entre outras, de socialização mas como a única forma que têm de ter contacto com o mundo porque não podem pagar transportes, jantar fora, ir ao cinema ou a um concerto ou sequer ao café. Em Portugal há 47% de pobres antes das transferências sociais.

Tenho porém um acordo com Isabel Jonet. Os desempregados têm de sair das redes sociais e passar a organizar-se socialmente, não para irem trabalhar por 432 euros e pedir comida ao Banco Alimentar metade do mês, mas para pôr fim a este modelo social de destruição. E sobre ele construir um mundo menos injusto, mais igual e – também – mais livre.

Publicado originalmente aqui

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14 respostas a Isabel Jonet e o Desemprego: nem sensibilidade nem bom senso

  1. ParaAChoné diz:

  2. Paulo. diz:

    Bastante antes da história dos bifes, logo a seguir ao corte do 13º mês, ouvi Madame Jonet , na TV, afirmar que esse corte era ” uma oportunidade para as famílias portuguesas aprenderem a gerir orçamentos mensais”. Assim mesmo, com as letrinhas todas!

  3. Rafael Ortega diz:

    “Para procurar emprego é preciso dinheiro (para imprimir CVs, deslocar-se para ir a entrevistas, ter acesso à Internet ou jornais, telefonar); ”

    Esta frase é cómica vindo de quem não acha nada estranho que pobres e desempregados tenham telemóveis caros.

    De qualquer forma para esses problemas todos há soluções bastante em conta. Quase todas a custo zero. Mas não vou ser eu a ensiná-la a andar a pé ou ir à biblioteca da sua zona.

    • angela diz:

      Balelas, meu caro. Pimenta no dito dos outros para nós é refresco. De fora parece-nos fácil não é? Conheço muito boa gente que falava assim e agora que se vê nelas…..

  4. imbondeiro diz:

    Quanto à supracitada senhora de alma sensível e de exdrúxula veia caritativa, a nossa querida Supico Pinto do ajustamento troikiano, nada mais há a fazer do que citar, pirateando, o grande filósofo Romário: a excelente senhora, calada, é uma poetisa de mão-cheia.

  5. Joao Pereira diz:

    A uma falácia absurda como a acima escrita, apenas resta responder assim: “At one of our dinners, Milton recalled traveling to an Asian country in the 1960s and visiting a worksite where a new canal was being built. He was shocked to see that, instead of modern tractors and earth movers, the workers had shovels. He asked why there were so few machines. The government bureaucrat explained: “You don’t understand. This is a jobs program.” To which Milton replied: “Oh, I thought you were trying to build a canal. If it’s jobs you want, then you should give these workers spoons, not shovels.”

  6. Não deixa de ser muito curioso que as principais críticas à Raquel venham geralmente da esquerda, mais em particular dos ortodoxos adeptos do pensamento único. Como se vê aqui e em outros locais, os ataques são muitas vezes, não tanto às ideias, mas à própria pessoa. Tudo isto é revelador da sua mediocridade de pensamento. Uma certa esquerda sempre teve e tem graves dificuldades em relação com a realidade. É uma chatice imensa que os factos não encaixem naquele esquema conceptual. Então para quê preocuparem-se com eles? Se essa gente se considera detentora da verdade absoluta ( que guardam ali no bolso), logo os factos que se lixem! A única coisa que interessa é a própria ortodoxia em si mesma, ainda que Marx sempre tenha acentuado o primado do real sobre o ideal. O facto de a Raquel se desdobrar em conferências, livros, debates e imensas outras iniciativas no sentido de desmontar as atoardas do discurso do poder, isso não tem o mínimo valor para “essa gente”. E não tem porque isso faz dela uma inimiga, visto estar a fazer aquilo que deviam ser eles a fazer e recusam. Embora nunca tenham a coragem de o assumir, a sua recusa deve-se ao facto de serem profundamente situacionistas. Querem que tudo permaneça como está. Não pretendem mudar nada e, portanto, os que querem e lutam pela mudança são os seus principais inimigos. O inimigo, para eles, não é o poder instituído e as suas cliques (estes são amigos), mas sobretudo os perigosos outsiders que pretendem subverter a “ordem” que lhes é tão cara. Ainda não perceberam que “só a verdade é revolucionária”!!!!!!!!!!!!!
    Não esbanjámos…. Não pagamos!!!!
    ZM

    • HáLunáticos diz:

      ZM,o que é que andas a fumar,rapaz???Ou já estás a tripar?????
      J.P.: Milton Friedman??????C’a ganda economista,a américa latina que o diga….

  7. ParaAChoné diz:

  8. Censurado diz:

    “Se os desempregados fossem todos à procura de emprego haveria na mesma 1 milhão e 400 mil pessoas desempregados. Os mesmos que há com os desempregados “a passar o tempo nas redes sociais”.”

    Olhe que não, Raquel. Olhe que não….
    http://expresso.sapo.pt/tailandeses-e-vietnamitas-nas-vindimas-do-douro=f831458

    • Khe Sanh diz:

      Se me entregar cem pães para repartir por dez pessoas sei bem como hei-de fazer. mas se forem dez pães por cem pessoas entrego-lhe essa tarefa a si. Com o desemprego é igual.

      Vc é um malandro que está a faltar ao respeito a quem se encontra na situação de desempregado

      Nem precisava mencionar os Asiáticos. Conheço Ucranianas a ganhar 2 € à hora nas limpezas da hotelaria.

      Porque razão não vai aproveitar?

  9. Bolota diz:

    MA há outra parecida com esta que disse aliemntar os sem abrigo era um mau habito.
    Alguem consegue encontrar esta noticia???

  10. Canu diz:

    Tem toda a razão quando diz que se os desempregados todos andarem à procura de emprego, leia-se constantemente, isso não cria empregos.

    Isso não cria nem um empregozito.

    Bem vistas as coisas, pode até fazer descer ainda mais os Ordenados. Se houver muita procura de emprego, as ofertas em dinheiro descem. O capitalismo funciona assim mesmo.

    Acerta em cheio no último parágrafo, quando diz que esses desempregados todos, deviam era defenderem politicas de criação de emprego, atacar os cortes salariais, juntarem-se a movimentos de mudança de esquerda , lutarem por baixa de horários de trabalho para 6 horas semanais para criar mais 25% de empregos, e todas essas opções.

  11. Santiago Bernabeu diz:

    DEIXAR A ISABEL XONET EN PAZ, COÑO!
    QUE TRISTE LO VUESTRO, DEBÉIS SER NAZIS…

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