Ainda por causa da danone que oferece iogurtes

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Por causa do que relatei aqui, das inúmeras partilhas da foto no facebook e da indignação geral causada, algumas pessoas que comentaram esse post e altas individualidades do meio mesquinho português apressaram-se a vir defender estes procedimentos.

Isabel Stilwell e Eduardo Sá deram a cara ao manifesto. Diz que ainda se deve agradecer o acto de bondade que a Danone (nestes casos) e empresas similares proporcionam aos jovens “pobres e mal agradecidos”. parece que se tem de “esfolar os joelhos” e que “os pais e a escola tem de pôr estes jovens no lugar”.

Eduardo Sá e a Stillwell, deviam seguir o que prescrevem para os outros. Deviam trabalhar recebendo Iogurtes, deviam esfolar os joelhinhos todos e deviam agradecer por os tratarem tão bem. E gostava de saber, no caso do psicólogo,  como se comporta no seu dia a dia, se credita todos os artigos que os seus alunos fazem para os seus livros, se lhes paga direitos ou se gosta que eles esfolem os joelhinhos até fazer sangue para que os seus livros continuem a vender e a dar-lhe rendimentos.

Voltando à Danone vamos a factos: a Danone é uma das principais empresas do sector leiteiro em Portugal. A maior de iogurtes a nível mundial. Em 2013 a Danone teve lucros de 1,6 mil milhões de euros globalmente. Em Portugal e segundo dados de 2003 (não consegui encontrar dados mais recentes) a Danone tem “29 e 65 milhões de euros em termos de Resultados Correntes e Lucros Líquidos Acumulados”.

Não estamos a falar da oficina do Tio Chico ou do Restaurante da Avó Maria que decidem patrocinar um estágio para garantir e ajudar a finalização de um curso a um jovem. Isto é outro campeonato.

É esta empresa que não consegue arranjar uma forma de pagar estágios curriculares. Ou seja, a empresa usa mão de obra qualificada para produzir trabalho que necessita, tem acesso aos licenciados acabadinhos de sair do seu percurso académico (engenheiros) e acha normal dar apenas uma refeição e ao fim de semana oferecer uma palete de iogurtes.

E os iluminados acham que ainda devemos dar graças por uma empresa se comportar desta maneira. Seguindo aquela famosa máxima de que mais vale os iogurtes que nada, mais vale uma perna a nenhuma, mais vale um copo de água do que morrer de sede. De precarização em precarização até à escravidão total.

Reduzindo ao absurdo, mesmo que a Danone tenha 10 estágios curriculares destes (3 meses) por ano e decida pagar um ordenado mínimo aos engenheiros que contrata o custo que teria de suportar andaria na ordem dos 15 000 euros. Uma fortuna? Talvez o prémio dos gestores de topo da empresa seja esse valor multiplicado por algumas unidades. Talvez os estagiários sentissem muito mais vontade de efectuar o seu estágio e o seu trabalho.

Não se trata de uma questão legal, ninguém disse que a Danone estava fora da lei. Aquilo que se espera de uma grande empresa é que não se escude nos mínimos legais para operar. Espera-se inovação, pede-se mais. Mais respeito, melhores condições, mais investimento nos seus trabalhadores. Ou no seu “capital humano” como gostam de apelidar.

Porque uma empresa é parte da sociedade, não vive apenas fechada para dar lucros aos seus accionistas. Há uma componente importante de todas as empresas em promover o bem estar da sociedade. Sem isso é inutil mostrar-se preocupar-se com o ambiente, com a qualidade ou com outro atributo “etéreo”. As responsabilidades sociais das empresas são aferidas pela forma como tratam aqueles que da sociedade trocam o seu trabalho por um ordenado.

Mas o maior ridículo disto tudo é a fraca capacidade comunicacional da empresa que consegue colocar na mesma frase “não remunerado” e “oferta de 24 iogurtes” e não perceber a idiotice que está a fazer.

No fundo a ideia é simples: promovam estágios mas tratem os estagiários com  respeito e dignidade. Podem oferecer os iogurtes à vontade.

 

 

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15 respostas a Ainda por causa da danone que oferece iogurtes

  1. José Manuel diz:

    Era importante também esclarecer que há uma diferença entre “EstágiosCurriculares” e “Estágios Profissionais”. Os “Estágios curriculares” faziam parte dum plano de estudos dum curso (como qualque cadeira) e são indispensáveis para a obtenção dum grau académico. Os “Estágios Profissionais” são feitos após a conclusão do curso. O que acontece é que muitas vezes se pretendem passar estágios profissionais, que devem ser remunerados, sob a capa de “estágio curricular” cujo enquadramento é completamente diferente.

    • Nuno Bio diz:

      Sendo eu contra propinas mas existindo elas porque razão é que um estágio curricular tem de ser obrigatoriamente não remunerado?

      • David Silva diz:

        Imagina uma pessoa que tenha bolsa de estudo, se passa a ser remunerada, pode/deve perder acesso à bolsa pois passa a ter rendimentos.

      • David Silva diz:

        E posso deixar outra razão, sendo não remunerado são todos, não remunerados.
        Se dois alunos fizeram um estágio na empresa A a ganhar 500 e outro na empresa B a ganhar 750 qual é a justiça disso? Vão impor às empresas que paguem um valor minimo?

        • Maria diz:

          David Silva , além do problema do número enorme de estágios e voluntariados, se alguém tiver uma bolsa de estudo, e for trabalhar, perde a bolsa de estudo e ganha um ordenado.
          Se isso se aplica a estagios , pode ser que sim.
          Quanto a ter regras nas empresas, as regras existem para evitar abusos, e esse valor mínimo é o ordenado minimo. Se uma dá 500, e outra der 750, estao as duas na lei.

    • Maria diz:

      Um dos problemas é precisamente o número cada vez MAIOR de “estágios”, de “voluntariadoS”, de todas as formas de trabalho não remunerado.
      Sou eu contra o voluntariado? Nao era quando era feito para dar apoio moral a pessoas doentes em hopsitais, em instituições de ajuda, etc.
      Agora há em todo o lado, substituindo Empregos
      O mesmo se passa com os “estágios”. Eram poucos, e agora há em todo o lado, todas as profissões, substituindo empregos.

      • David Silva diz:

        Ainda não devem ter entendido o conceito de estágio curricular. Um estágio curricular é para obtenção de um grau académico. Em vez de fazerem mais 2 ou 3 disciplinas, fazem umas quantas horas numa empresa.
        Não tentem colocar tudo no mesmo saco (estágios curriculares e estágios profissionais)

        • Nuno Bio diz:

          Ninguém está a colocar nada no mesmo saco. Apenas não estamos a defender que o estágio curricular tenha de ser obrigatoriamente não remunerado. Percebe a diferença?

  2. Joao Pereira diz:

    Obrigado, depois de ouvir a “conversa” entre essa Isabel e esse Eduardo ficou com vontade de vomitar. Comecei mal o dia portanto. De resto, o erro do seu texto é acusar a Danone de ser uma empresa com “aparentemente” lucros brutais. Isso é uma virtude e não um erro. Tanto a Danone como o Quiosque do Tio Chico deviam ser obrigados a pagar, qualquer que seja o trabalho.

    • Nuno Bio diz:

      Eu não acuso. Constato.
      Mas defendo que os lucros devem servir para diminuir desigualdades, não para capitalizar nos bolsos dos mesmos.

    • Carlos Carapeto diz:

      Tem toda a razão as empresas são para dar lucros, perde-a quando não reconhece que parte desses lucros devem ser distibuidos por quem os produz.

      Chama-se a isso justiça social. Sabia?

      Depois existe outra situação que se lhe escapa. Se o estágio não for remunerado o estágiário não tem que se submeter aos horarios “rigidos” da empresa e ainda menos serem-lhe atribuidas tarefas individuais.

      E o mais importante de tudo que por acaso deixa escapar.

      É que os escravos não eram contemplados com iogurtes mas sim com chicotes, era o que havia

  3. Irene Simões diz:

    estamos num País que é uma vergonha ,principalmente desde que este governo se instalou no poder, os capitalistas fazem o que querem.
    Com a crise e o desemprego que há as pessoas aceitam tudo até serem exploradas e ainda acham que é uma sorte, melhor que morrer á fome não? e alem disso os iogurtes são comida saudável, enfim vale o que vale.

  4. Pingback: O Avesso de Isabel Stilwell e Eduardo Sá | L´obéissance est morte

  5. Frei Peidófilo diz:

    este psicólogo…..hmmmmmm-não me inspira nenhuma CONFIANÇA.Aquela vozinha….Vicios privados,publicas virtudes.

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