O retrato de um reaccionário

naom_512e211c26250Soares dos Santos, antigo presidente do grupo Jerónimo Martins, deu esta terça-feira uma entrevista ao Diário de Notícias, pela ocasião da passagem dos 40 anos da Revolução dos Cravos. Eis o retrato de um reaccionário: Soares dos Santos acredita «pouco no poder das revoluções», «a não ser que sejam de mentalidades», mas não reparou que o 25 de Abril nos fez passar, em passo de corrida, de um país «de burros e mulheres vestidas de preto», como diz uma amiga italiana que nos conhece e olha para nós com olhos de quem vem de fora, para um país mais alegre, optimista, em que as pessoas acreditaram que podiam mudar as suas vidas (e mudaram-na muito, apesar das derrotas) e imensamente mais capaz, mais educado e mais saudável. Até a mal chamada «classe política» (de esquerda e de direita) ganhou outra cilindrada (hoje, infelizmente, estamos entregues ao galinheiro das jotas). Durante anos, tivemos dirigentes muito mais capazes (para o bem e para o mal, consoante o ponto de vista) do que aquelas múmias do fascismo. E ganhámos, sobretudo, milhares de pessoas competentes, empenhadas e dedicadas, que nos seus locais de trabalho, nas empresas, nos hospitais, nas escolas e universidades fizeram o País dar um enorme salto em frente. Muitos daqueles que durante a revolução foram ou se tornaram «militantes», isto é que olhavam para a vida e para a sociedade como um todo e procuravam intervir para transformá-la, depois dos meses de brasa ‘transferiram’ a sua militância para o seu trabalho, para os locais onde exerciam as suas profissões. O resultado disso é tão imenso, que seria muito difícil quantificá-lo. Esse outro país nascido do 25 de Abril enfrenta hoje uma maré de contra-reforma, de retrocesso social, mas não morreu e, acredito, ainda ouviremos falar dele.
Para Soares dos Santos, a revolução significou «a destruição do tecido agrícola e industrial do país pelo PCP, a injecção do ódio entre classes sociais e as perseguições individuais». Traduzindo para português: a reforma agrária e as greves por melhores condições de vida (‘o PCP’, para Soares dos Santos; Salazar diria antes ‘o comunismo ateu’) destruíram o tecido agrícola e industrial. Claro, a terra em grande parte abandonada nas mãos dos latifundiários e trabalhadores quietinhos e obedientes na indústria é que era bom [para isso era preciso uma PIDE, mas ele abstém-se de referi-lo]. E quem é que deu cabo da indústria naval, da siderurgia, da metalomecânica, etc? O PCP? Mas como, se tudo isso foi feito muito depois da Revolução e por governos onde não estava o PCP? (Mas estiveram os membros da troika nacional.) «Injecção de ódio entre as classes», diz ele de um país que bate recordes negativos no que diz respeito à conflitualidade social na Europa. Talvez um bocadinho mais de «ódio entre as classes», isto é, de os que estão a ser lixados pelos colegas do Soares dos Santos tratarem de ir às fuças dos que lhes andam a lixar a vida fosse melhor receita.
E «perseguições individuais»? Está a falar, obviamente, dos saneamentos nalgumas empresas e organismos do Estado a seguir ao 25 de Abril. Sr. Soares dos Santos: não há memória de outro país que tenha sofrido uma ditadura tão prolongada e que tenha sido tão manso com os opressores. Quantos pides foram julgados e condenados? Alguém molestou o Américo Tomás e o Marcelo Caetano? Foram mandados para a Madeira e depois, como o povo lá se manifestou dizendo que «não queremos cá lixo», despachados para o Brasil. Não foram para o Forte de Peniche, para a Sibéria nem para Guantanamo!

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16 respostas a O retrato de um reaccionário

  1. Joao Pereira diz:

    Pese embora, o perigoso reaccionário emprega mais pessoas (com salário bastante razoáveis (um estagiário no programa da Jeronimo Martins recebe de primeiro ordenado 1300€ limpos)) que o PCP e seus amigos em toda a sua história. Fascinante, a maldade do fascista.

    • António Paço diz:

      Você já alguma vez falou com um(a) caixa do Pingo Doce para saber quanto ganha?

    • Tiago diz:

      João Pereira podes ser lambe-botas, mas não sejas mentiroso… Eu conheço pessoalmente uma pessoa que trabalho no Pingo Doce há 15 anos e ganha 600€, sempre foi padeira e nunca sequer lhe deram essa categoria.

    • ASD diz:

      O João Pereira está enganado.

      O socialismo garante um melhor nível de vida às populações do que o capitalismo.

      Como vê, os seus argumentos não fazem sentido.

      Nacionalizem a Jerónimo Martins e distribuam as acções pelos trabalhadores.

  2. Sfich diz:

    O Sr. Alexandre Soares dos Santos, está do lado que lhe compete. Ele constrói a sua barricada, com sacos cheios de notas €, a nós, nos toca construir a nossa com sacos de areia.. É MANHOSO!? VAI MORRER A TRÁS DAS NOTAS QUE NEM TINHOSO..

  3. QUEVÁCOMOSpORCOS diz:

    O nosso kido Oligarca de seu mister, MERCEEIRO.Estamos entregues a Tecnocratas da Merceeiria, a banqueiros gangsters-quando é que fazemos como em Kiev,mas ao contrário?????? Como vemos, potugal é gerido(ler, roubado) por gente(sociopatas) sofisticadíssima.
    Grande Patriota cujos impostos são coletados para a Holanda….
    Porque é que esta besta não vai com o REAL CARALHO?????

  4. Isabel Moreira diz:

    Soares dos Santos diz que criou empregos mas o que aconteceu foram a falencia de mercearias, das peixeiras, das praças, dos mercados de bairro. E fala de alto por isto tudo. Não há pachora para estes Walmarts lusitanos.

  5. De condenações está-se a esquecer dos juízes, dos bufos, dos gnrs, dos donos de Portugal – os ricos…

  6. ansomilo diz:

    Este é mais um dos escroques que serão julgados pelos crimes cometidos contra o povo português, pela exploração dos trabalhadores e fuga aos impostos, pois a revolta é evidente e desta vez não será tão benevolente, os patifes causadores da desgraça estão decerto identificados e a justiça não será tão condescendente, há que culpabilizar e condenar tais rufias.

  7. ele que se preocupe com outras coisas:

    “Estavam à venda em em supermercados Pingo Doce lasanhas, da marca Euroshopper, que continham carne de cavalo contaminada com analgésico proibido”

    http://www.jn.pt/PaginaI…/Sociedade/Saude/Interior.aspx…

  8. JgMenos diz:

    A magem de um país «de burros e mulheres vestidas de preto» é anacrónica, e só mesmo uma italiana a recordar fotografias dos anos 1950 pode lembrar tal coisa.
    A parte dos saneamentos é melhor não desenvolver muito pois no essencial foi uma campanha de oportunistas a assaltar tachos pois, à parte os pides, quase ninguém dos responsáveis políticos foi tocado, provavelmente porque não tinham fortunas para expropiar.
    O que o merceeiro seguramente quis dizer é que para chegar aonde estamos foi puro desperdício tudo o que se perdeu nas convulsões com as grandes reformas económicas ‘rumo ao socialismo’, e só tem razão!!!

    • António Paço diz:

      O ‘merceeiro’ não deve apreciar ser tratado por merceeiro, mas certamente agradecerá o seu desvelo na interpretação do seu pensamento.

  9. JgMenos diz:

    Onde vêm dinheiro põem o seu ódio!
    Raivosos de não obterem uma quota-parte a grito, cobrem de impropérios o que resultou do honesto trabalho de muitos!
    Treteiros da igualdade e da distribuição, se não lhes enchem a boca gritam como porcos na faca!
    Coirões!

    • António Paço diz:

      Jgmenos, você não quer explicar-nos quem é e o que vem aqui fazer a estes blogues de ‘coirões’? Ou as discussões políticas são apenas um pretexto para você insultar o mundo? Os seus confrades de direita, do Blásfémias por exemplo, gostam muito de cantar em coro: quando aparece uma voz dissonante, censuram. Mas você parece gostar mais da companhia dos ‘comunas’ que insulta.

      • JgMenos diz:

        Interessam-me pouco integrar grupos corais, sobretudo se predomina a asneira e a vulgaridade.
        Prefiro-me a solo e desafinado mum outro coral que arrasta consigo uma utopia afundada na asneira e na vulgaridade.

  10. maria santos diz:

    Vim parar aqui por acaso, pois gosto de saber outras opiniões, pois nem sempre as minhas poderão ser as mais corretas, mas nem que venha o mais bem pintado me lavará a cabeça, uma vez que quando necessário eu própria o farei. Não preciso de paus mandados! Seria bom que as mentalidades do nosso povo tivessem mudado! Depois dos comentários que acabo de ler, chego à conclusão que passamos a ser um país de inteligências raras e sobretudo de cidadãos que não sabem respeitar os outros sejam eles o que forem e de qualquer cor política. Creio que assim reza a história da democracia. Faço votos para que os burrinhos do passado que ainda estejam vivos não fiquem magoados com tantos insultos. Burrinhos esses, eram os pobrezinhos, pois os ricos, de burros nunca tiveram nada, caso contrário nunca lá chegariam. Provavelmente eu farei parte desse grupo miserável de contrário não estaria aqui a perder o meu tempo que é muito precioso, mas não quero deixar de deixar aqui a minha modesta opinião: lutar pelos nossos ideais sim, mas desrespeitar e achincalhar os outros jamais, isso não é democracia é ditadura!

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