25 de Novembro – Costa Gomes soube do golpe

Para fazer a História do Povo na Revolução Portuguesa estive, entre outros, 6 meses no arquivo da RTP. Nessas horas de imagens que vi e registei – a maioria do que lá está arquivado está ainda por explorar – encontrei a gravação completa da entrevista famosa de Pinheiro de Azevedo onde diz que está farto de ser sequestrado. O que se passa é que só uma parte dessa entrevista era conhecida até aqui. A parte final, em que este diz que «para pôr fim aos plenários vai haver uma solução militar e que vai falar com Costa Gomes nesse sentido», tinha até hoje sido cortada da versão que circula há anos.
O lançamento do meu livro foi generosamente divulgado mas esta parte teve direito a uma pequena notícia, quando o facto é de uma imensa importância para a compreensão do 25 de Novembro. O Grupo dos 9 não reagiu a um golpe de esquerda, provocou sim uma situação em que pudesse pôr fim à dualidade de poderes nos quartéis e Costa Gomes tem neste processo um papel destacado. A questão, consensual para todos os partidos (PS, PPD, e também o PCP), era como controlar os “oficiais revolucionários”, que serão presos depois, e os soldados.
40 anos depois do 25 de Abril deveria já haver serenidade para fazer história sem a pressão dos vencedores sobre a caneta dos investigadores.

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11 respostas a 25 de Novembro – Costa Gomes soube do golpe

  1. Essa é a roda, Raquel, toda a gente sabia e estava preparada para um golpe, seguido de guerra civil, não havia outra saída para o impasse chamado VI GP. Essa declaração do bardamerdas deve ter saído em jornais da época, de qualquer forma era uma trivialidade.
    O Costa Gomes não sabia só disso, sabia da impossibilidade de se lhe opor, e o Otelo deve ter feito as mesmas contas. Essa é a questão…

  2. JgMenos diz:

    Vamoa a ver se o preço do livro é popular…

    • Raquel Varela diz:

      Não tanto quanto seria desejável, mas isso deve ser perguntado às distribuidoras, nem as livrarias, nem as editoras, nem os escritores ganham para o trabvalham que têm. Cump

  3. Nuno Lourenço diz:

    Mas afinal quem eram os oficiais revolucionários? Então não era um golpe do PCP?

    • Raquel Varela diz:

      Nunca houve qualquer golpe de esquerda no 25 de Novembro, meu caro, isso é memória dos vencedores. Deixo-lje a indicação da minha tese de doutoramento, publicada em livro História do PCP na Revolução dos Cravos (Bertrand, 2011). Cump

  4. Senhora Doutora Raquel Varela, suspeito – é apenas uma suspeita ! – que ao juntar o PCP ao PS e ao PSD, como o faz ali no penúltimo parágrafo do seu post, o faz sem fundamento histórico suficiente o que a prejudicaria como historiadora. É corrente essa opinião em bem identificada área ideológica mas isso não é História. Acompanhei de muito perto esses acontecimentos e tenho uma opinião oposta à sua por isso teria muito gosto em conhecer os seus argumentos se os tem publicados.
    Como declaração de interesses acrescento que deixei de me identificar com o PCP já lá vão uns anos. Os meus cumprimentos.

    • Raquel Varela diz:

      Caro Raimundo Narciso,
      Suspeita mal e faz considerações dispensáveis e de quem desconhece os livros e os documentos. A história não se faz com os testemunhos – altamente parciais de quem “esteve lá”. Faz-se com provas, contra provas, metodologia, definição de objectos de estudos, de limites desses objectos etc. Os referidos documentos estão amplamente citados – e contra provados – no meu livro História do PCP na Revolução dos Cravos (Bertrand, 2011).
      Cordialmente
      Raquel Varela

      • Victor Nogueira diz:

        mas … escreve a articulista: « A história não se faz com os testemunhos – altamente parciais de quem “esteve lá” Faz-se com provas, contra provas, metodologia, definição de objectos de estudos, de limites desses objectos etc. »

        E eu acrescento que o livro de Raquel Varela – cujo mérito não questiono – não é uma Bíblia com a revelação divina – é apenas um entre muitos outros que também fundamentam num ou noutro sentido.

        Mas … o testemunho de Narciso Miranda é “subvalorizado” e contextualizado, ao contrário do de Pinheiro de Azevedo das bravatas – uma afirmação de minuto numa entrevista “retirada” de milhões de palavras ?

  5. Victor Nogueira diz:

    Quando comento, não é para que o meu nome apareça. Mas merecendo-me Raquel Varela alguma consideração – tanta que leio os seus posts e – sobretudo – os seus livros, o mínimo que se esperaria é que “considerasse” quem a comenta, melhor ou pior. E se não queria “publicitar” os comentários que lhe façam, ao menos tem aí o endereço para “esclarecer” – no caso o meu, que me não escondo no anonimato ou com “máscaras” – Tendo sido “moderados” comentários posteriores ao meu e publicados, cabe-me perguntar se moderação significa “”mordaça”, o que me sucederia pela 1ª vez, sobretudo no “cinco dias”. Note-se que o meu 1ª de vários comentários aguardando moderação é anterior a 18 de Março.

    Fica a Raquel Varela desobrigada de publicar os meus comentários a este post e eu livre de dar-lhes o destino que eu bem entender. Sem acrimónia !

  6. ASD diz:

    Se o PCP quisesse tinha esmagado os reacionários terroristas.

    Tinha meios claramente superiores à oposição fascista que incluía o PS.

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