Tomás de Aquino, outro perigoso radical

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Tomás de Aquino (1225-1274) foi um teólogo dominicano, proclamado santo e doutor da Igreja. Eis a sua opinião sobre a actividade dos usurários, aquelas boas almas a quem Passos Coelho e Cavaco (e Seguro) acham que devemos pagar com juros todo o dinheiro que emprestaram ‘a Portugal’ (eles têm sempre o cuidado de nunca dizer a quem nem para quê o dinheiro foi emprestado):

«Receber juros pelo uso do dinheiro emprestado é injusto em si mesmo, porque consiste em pagar o que não existe, o que é obviamente uma desigualdade contrária à justiça… é nisso que consiste a usura. E tal como devemos devolver os bens adquiridos injustamente, de igual modo devemos devolver o dinheiro recebido a título de juros. »

 

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15 respostas a Tomás de Aquino, outro perigoso radical

  1. Joao Pereira diz:

    Caro António,

    Depreendo que defenda o fim dos empréstimos (ninguém no seu perfeito juízo disporá dos seus recursos sem uma contrapartida). Pois bem, gostava de saber com que dinheiro o Estado pagaria todo o Estado Social + despesas em investimento (auto estradas, novas escolas, novos hospitais etc). Segunda Derivada: Como é que o cidadão comum compraria casa, carro, mota? Obrigado.

    • António Paço diz:

      O Estado social paga-se a si próprio, com as contribuições dos trabalhadores de das empresas (a contribuição das empresas é salário indirecto). Isso vem muito bem explicado num livro coordenado pela Raquel Varela, ‘Quem Paga o Estado Social em Portugal?’ (Bertrand, 2012). E não sou contra os empréstimos, sou contra os juros usurários. Continuamos sem saber a composição da dívida (espantosa falta de democracia, já que o seu pagamento é o item que mais condiciona a vida das pessoas em Portugal, hoje), mas é notório que parte substancial dela é constituída por juros usurários – basta ver que, apesar da rapina a que o País tem sido submetido para pagá-la, ela aumentou desde o ‘início da crise’ de 90% para 130%. Sobre o investimento em auto-estradas e outros, veja o livro do Paulo Morais, ‘Da Corrupção à Crise’, para ver para onde foi a maior parte do dinheiro. E posso dizer-lhe que para comprar a minha casa contraí um empréstimo a um banco. E pago-o, claro. Graças ao Estado, pago também um seguro de vida tornado obrigatório e associado ao empréstimo que é hoje superior ao que pago em juros, não fosse os banqueiros correrem algum risco com a sua actividade.

      • Joao Pereira diz:

        Qual a linha que separa o juro usurário do juro legitimo? Se empresto dinheiro à Alemanha deverei pedir o mesmo juro que peço à República Democratica do Congo? E se emprestar dinheiro à Venezuela? Quanto devo cobrar de juro?

        • António Paço diz:

          Para o Tomás de Aquino não havia ‘juro legítimo’. Usurário é qualquer juro. Só com o Calvino (curiosamente, o tipo era suíço!) é que uma corrente dentro da Igreja começa a adaptar-se às pressões capitalistas e a rever a doutrina contra a usura.

          • Joao Pereira diz:

            Certo. Vamos tentar materializar o pensamento clássico então: os Países deverão emprestar capital à Republica Portuguesa a zero? Nem um juro que compense a desvalorização temporal do dinheiro será permitido?

          • António Paço diz:

            A República Portuguesa, se quiser continuar a merecer o nome, deve recusar que o seu povo seja reduzido à servidão em nome do pagamento de juros usurários e de uma dívida que os credores e os titulares dos cargos políticos se empenham em esconder para que foi contraída, em que circunstâncias, quem são os credores, etc. Em Espanha, os advogados de um grupo de cidadãos processaram o Estado espanhol pelo salvamento do Bankia (com 30 mil milhões de euros do erário público). O porta-voz desses advogados explicou bem as razões por que o estado não queria divulgar quem tinham sido os beneficiários dessa dívida: uma investigação independente chegara à conclusão de que haviam sido os partidos políticos dominantes (PP e PSOE, certos governos regionais (autonómicos) e autarquias…

          • Antónimo diz:

            Não será exactamente assim . Terá sido antes com os franciscanos que isso sucedeu. Foram os mendicantes de Assis, talvez por nascerem entre comerciantes, que começaram a admitir lucrar com o Tempo, que apenas Deus dava e que, por isso, não podia ser usado em proveito próprio (e o que é o juro senão o tirar dividendos do tempo?).

            Daí o crime do Onzeneiro de Gil Vicente, o que tirava dinheiro acima da décima/dízima legítima. Cobrava onze e não os dez da bíblia e por isso era pecador. Veja-se http://www.lepoint.fr/societe/le-franciscain-qui-justifia-le-profit-18-12-2012-1603244_23.php

      • anonimo diz:

        “não sou contra os empréstimos, sou contra os juros usurários”
        Já experimentou pedir um empréstimo e dizer que não quer pagar juros porque são usurários?

        • António Paço diz:

          Já.

          • Rafael Ortega diz:

            Pedir emprestado à sua mãe, ou dizer no café da sua rua que paga no dia seguinte não conta.
            Já entrou num banco para pedir um empréstimo e disse que não pagava juros? Deram-lho?

          • António Paço diz:

            Aprovei o seu comentário para lhe dar a oportunidade que queria: exibir a todos a sua palermice.

        • Antónimo diz:

          Por menos que os juros cobrados pela banca penderam a Dona Branca. Capitalismo sim, mas só se não for popular, ou alguém está convencido que se todos os depositantes forem amanhã levantar o dinheiro que a banca tem mais capacidade de o devolver do que tinha a Dona Branca?

      • Rafael Ortega diz:

        “O Estado social paga-se a si próprio, com as contribuições dos trabalhadores de das empresas”

        Não havia um tipo qualquer que falava de uma mentira repetida mil vezes?…

    • Jorge diz:

      O João Pereira e todos estes que são contra o Estado Social, tem sempre o toque de se esquecerem para que pagamos juros, dividas, etc.
      Para as PPPs, para os BPNs, para isenções fiscais para empresários ricos, etc.
      É para isto que pagamos juros e dividas.

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