Por que não subscrevo o ‘Manifesto dos 70’ pela reestruturação da dívida

Assinar um manifesto com figuras ‘de um grande espectro político’, que vão do Francisco Louçã à Manuela Ferreira Leite (agorinha antes das eleições, ainda por cima) tende a dar a ideia de que pode haver ‘um grande consenso nacional’ em torno de como resolver o problema da ‘dívida’. Ora não há consenso nenhum: uns querem pagá-la e usá-la para destruir o Estado social e a classe trabalhadora, outros têm de repudiá-la para poder viver. E quando há um bloqueio na sociedade, como havia na África do Sul do apartheid, ou no Portugal de antes do 25 de Abril, ‘a vida’, como dizia o outro, tem de encontrar um caminho para resolvê-lo. E ou ganham uns ou ganham outros, não há meio termo possível.

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16 respostas a Por que não subscrevo o ‘Manifesto dos 70’ pela reestruturação da dívida

  1. No fundo trata-se de saber se vamos salvar o sistema, reformando-o por dentro (manifesto dos 70), se vamos deixá-lo implodir (governo e corporações), ou se vamos antes partir para outro (esquerda radical). Na base destas opções estão as esperanças dos grupos respectivos resumidas na eterna pergunta:- O que vamos nós ganhar ou perder com isso???
    Não se pense que a victória fica necessáriamente do lado do mais forte. A história ensina que nem sempre é assim e que os mais fortes de hoje não o serão amanhã. Agora que é preciso fazer alguma coisa, parece evidente. E os 70 avançaram com um certo consenso que o PM logo pretendeu matar à nascença, pois o seu tabu foi posto em causa. O neo-liberalismo sempre defendeu a tese da inevitabilidade e que a sua via é a única possível (acrescentamos nós, para manter os privilégios dos mesmos de sempre).
    Não esbanjámos…. Não pagamos!!!!!!
    ZM

  2. Carlos Machado diz:

    E eu que pensava que era quase sempre bom partilhar soluções que agradassem ao máximo número de portugueses possível…Afinal devemos cultivar o maniqueísmo até que isto rebente, pelo menos para os que estão dum dos lados da barricada!

  3. Joao Pereira diz:

    Parece-me pacífico (e atenção .. este “parece-me” resulta da análise do quadro eleitoral dos últimos 30 anos) que nessa pretensa disputa, vão ganhar aqueles que querem pagar o que pediram emprestado. Sabe, em Portugal, nunca gostamos muito de ladrões e chico espertos. Se gastamos mal o que nos emprestaram isso são outros 500 … dos quais quem emprestou não tem culpa nenhuma.

    • António Paço diz:

      João Pereira, já pensou numa coisa: por que é que – numa questão de importância vital para o País – nunca se publicou a lista dos beneficiários do pagamentos da dívida: que bancos, que fundos de investimento, que especuladores? Uma equipa alemã da revista Spiegel conseguiu fazer isso para a Irlanda, ao fim de muito esforço e batalhando contra a recusa sistemática de quem deveria prestar essas informações. O resultado foi muito esclarecedor. E também nunca se publicou a lista dos investimentos que foram feitos com base nessa dívida. Estou certo de que seria também muito reveladora.

      • Joao Pereira diz:

        A “especulação” em torno da dívida como lhe chama é feita em mercado secundário .. aquele cujas taxas variam diariamente. Portugal, como República Soberana, emite em mercado primário a taxas cujos investidores (por investidores entenda-se pessoas como o António e como Eu … que podem viver em Portugal, em Espanha ou na Nova Zelândia) estão dispostos a emprestar. Tal como um empréstimo bancário, a taxa é fixada de acordo com o risco que um país representa (risco de pagar ou não pagar esse empréstimo). Por isso, a Alemanha emite próximo do zero e nós, emitimos a valores muito mais elevados. É assim que funciona desde os descobrimentos, também as nossas investidas pelos mares foram patrocinadas com dinheiro emprestado por outras coroas, outros banqueiros ou outros comerciantes. Quando pedimos dinheiro emprestado (e pedimos porque gastamos mais do que produzimos a sustentar um Estado Social insustentável), sabemos as regras do jogo. Sabemos que para nos recebermos, alguém nos está a dar e esse alguém quer algo em troca. Negar esta realidade e não perceber a sua legitimidade (achando que todos nos devem e nos nao devemos a ninguem) é deturpar toda a lógica de convivência em socidade (globalizada). Neste momento, 25% dos beneficiários do pagamento da dívida portuguesa são os bancos portugueses (se não pagarmos a divida vão todos à falência .. irem à falência significa que fica sem o seu depósito bancário) e o fundo de pensões da segurança social. Se Portugal liminarmente não pagar o que deve, as pessoas ficam sem as suas poupanças por via da falência do sistema bancário e os pensionistas sem as suas pensões. E não me venham com “nacionaliza-se” porque o dinheiro não cresce das arvores e para nacionalizar e repor o dinheiro perdido é necessário mais dinheiro que não temos, nem ninguém nos iria emprestar.

        • António Paço diz:

          Se fosse eu ou qualquer cidadão comum a emprestar, nós saberíamos realmente quem emprestou e para quê. Mas esse é um dos segredos mais bem guardados pelos agentes da troika (e pela própria troika). O que diz quanto ao financiamento do Estado social é absolutamente falso. O Estado social auto-financia-se. Mais: ao longo de muitos anos, os fundos da segurança social têm sido esbulhados para financiar outras coisas. Isso está demonstrado num livro coordenado por Raquel Varela, Quem Paga o Estado Social em Portugal? (Bertrand, 2012), da autoria de um conjunto de investigadores sérios e que nunca foram desmentidos.
          O argumento de que o dinheiro não cresce nas árvores e contra a nacionalização do sistema bancários devia usá-la em melhor causa: contra a nacionalização do BPN e do BPP, por exemplo. E contra a substituição dos títulos pôdres por valores da economia real, que é o que se está a fazer à conta dos salários e das pensões das pessoas. E em Portugal não se deixou de produzir riqueza. Continua a produzir-se todos os dias.

          • Joao Pereira diz:

            António, leia os mapas resumo do Orçamento de Estado. Levará cerca de 30 segundos a perceber que a despesa social (não inclua juros nem pagamentos relacionados com dívida), em muito excedem a receita colectada.

          • António Paço diz:

            Nos últimos anos, e apenas nesses, e devido nomeadamente à elevadíssima taxa de desemprego, as contribuições terão sido ligeiramente inferiores aos gastos com despesas sociais. De resto, em qualquer série de dez anos, digamos, as contribuições são excedentárias. E leia o livro que lhe disse para ver as coisas extravagantes que aparecem como despesas sociais.

  4. Não é ‘um grande consenso nacional’ em torno de como resolver o problema da ‘dívida’. É um grande consenso que destroi a credibilidade do Governo e de Cavaco Silva em matéria fundamental da política nacional. E que destroi a tese de que há um centro-direita responsável, com vocação de poder, e uma esquerda irresponsável e com vocação de protesto apenas. É a teoria Passos-Cavaquista do consenso a sair-lhes pela culatra. Acha que o PR ou o PM ficaram satisfeitos?

    • Contextualizando o problema da dívida, constatamos que se integra na política global (porque há uma políitica global!) cujo objectivo é proteger os ricos e torná-los ainda mais ricos. Assim, a dívida assume um papel fundamental nesse objectivo essencialmente predatório e escravizante. A esse monstro insaciável deverão ser oferecidos todos os sacrifícios para aplacar a sua avidez. Nada pode ficar de fora. Tudo se torna objecto da predação e tudo deve ser servido em holocausto. Que nações inteiras sejam esmagadas, populações na pobreza, recursos assaltados, futuros destruídos, nada disso interessa aos donos da economia e aos seus dóceis serventuários que dirigem (?) os estados. O interesse da dívida deverá prevalecer sobre todos os outros em nome da honra. Qual honra? Que honra pode existir em pagar tributos a quem nos quer assaltar? Pagar o quê, se quanto mais pagamos, mais cresce o montro? Vamos ainda teimar na mesma estrada suicida? Ou vamos dar a volta? É que já vai sendo tarde para contemporizações.
      ZM

    • António Paço diz:

      António Marques Pinto, você já olhou para a lista dos subscritores do Manifesto? Acha que aquilo representa ‘a esquerda’? Pelas minhas contas, a maioria é claramente gente de direita. E depois temos os alinhados com o PS, que, recorde-se, faz parta da troika nacional dos subscritores do ‘Memorando de Entendimento’ com a troika estrangeira. Finalmente vem meia dúzia de nomes de gente de esquerda que eu preferia não ver ali. O Passos Coelho e o Cavaco não vão durar para sempre no poder. Eu sei isso, eles sabem isso e os subscritores do manifesto também o sabem. É preciso alguma mudança para que tudo fique na mesma, como na célebre frase d’ O Leopardo, do Lampedusa. Quando o Coelho e o Cavaco saírem, o «país» que eles representam vai ter necessidade de uma Manuela Ferreira Leite de cara lavada, de um Bagão Félix, de um Sevinate Pinto, de uma Manuela Arcanjo… Com eles, estará garantida a alternância, não a alternativa.

      • Vanessa diz:

        Afinal esse é para si o fundo da questão, meia dúzia de pessoas de esquerda que não gostava de ver ali…..

        Tendo em conta a reacção que o manifesto já provocou, veja os artigos que continuam a sair em catadupas contra ele , a tentativa de desacreditar os seus subscritores, a reacção alucinada do FMI, da União Europeia, isso deveria merecer-lhe outro tipo de analise .

        Este manifesto , até pela diversidade ideológica dos seus subscritores, é uma machadada no discurso oficial da direita neo-liberal.

        Mas teremos sempre em alternativa a popular e populista frase
        : Não Pagamos Não Pagamos, que certamente dará votos nas próximas eleições…..

        • António Paço diz:

          Cara Telma/Vanessa:
          Não gosto de ver a tal meia dúzia de pessoas de esquerda ali porque não gosto de ver amigos em más companhias. Posso até substituir a ‘popular-populista frase’ (como você diz) «Não pagamos», por outra, proferida há dias pelo sr. Soares dos Santos, da Jerónimo Martins, quando o Governo anunciou uma medida que, ao contrário do habitual, lhe ia (muito moderadamente) ao bolso: «Não pagamos! Vá para tribunal!»

          • renegade diz:

            Caro antónio.
            Não o coheço mas permita-me dizer-lhe que faz uma má avaliação desta iniciativa, que resulta talvez de uma má avaliação estratégica. Não estamos na fase do não pagamos. Nunca estivemos. Esse discurso não ganhou um centímetro nos últimos 3 anos.
            Hoje, depois de anos a pregar no deserto, abriu-se uma oportunidade para trazer para o mainstream do debate a reestruturação da dívida. Como dizem Telma e Vanessa, quebrou-se momentaneamente a hegemonia do discurso neoliberal – Não há alternativa, blá, blá, blá. Olhe para as reações.
            E isto abre ou pode abrir a porta a uma legitimação popular do discurso da esquerda como não existe até aqui. Reforça o isolamento do governo e do PR. Você deita fora isto tudo, que é um terreno de luta concreta, em nome da defesa de um discurso absolutamente desligado dos termos em que o debate é feito. Já conseguiu convencer alguém fora do seu círculo de amigos que a linha geral é o “não pagamos”? A luta deve ser levada com firmeza estratégica e flexibilidade tática. Mas isso você deve saber melhor que eu.

          • António Paço diz:

            Que fizeram os Islandeses? Primeiro recusaram, depois negociaram. A seu ver, qual é o elemento de força que Portugal pode usar para forçar o fim desta voragem da dívida cujo evidente objectivo é destruir conquistas sociais, transformar o País em parte de um hinterland de mão-de-obra submissa e barata para os países centrais da Europa, ou seja um processo de transformação do País numa espécie de colónia? Pedir por favor aos plutocratas que não batam tanto?
            Concedo que o ‘Manifesto dos Notáveis’ veio iluminar as divisões que existem no campo do adversário. Mas nenhum dos problemas que hoje nos atormentam (desemprego, destruição do Estado social, regressão salarial, etc) será resolvido atrelando-nos ao carro de um sector dos nossos adversários. O prazo de validade de Passos Coelho e Cavaco aproxima-se a passos largos. Dentro do mesmo campo, agitam-se os candidatos à alternância, chamem-se eles Seguro, Ferreira Leite ou Bagão. Você acha que é ‘flexibilidade táctica’ a esquerda fazer-lhes o frete? Quantos centímetros vamos avançar com isso?

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