cinco dias

A Europa da reestruturação da dívida

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Há tantas reestruturações como opiniões. Dos que consideram um bom acto de gestão aos que repudiam uma dívida alicerçada na necessidade de recapitalização da banca, assegurando os lucros dos grandes grupos económicos e o aumento das grandes fortunas  à custa de salários, pensões, segurança social, educação e saúde. Uma escolha entre uma auditoria com o devedor em posição de força e um perdão de 50% da dívida grega a troco de mais austeridade.

O internacionalismo também dá azo a várias interpretações. Podemos perspectivá-lo como um mercado único acompanhado de uma moeda comum qual força motriz de uma Europa a duas velocidades. Um espaço de concorrência livre que, por força da contradição, forma cartéis e favorece os interesses das potências num grau superior de desenvolvimento das suas forças produtivas. Ao invés, também nos é possível traçar um hipotético espaço de solidariedade entre povos; entre trabalhadores. Com um modo de produção baseado na igualdade e dignidade nas relações de quem trabalha. Uma União Europeia com portas abertas ao mundo e destituída de um Schengen para europeus e outro para os “estrangeiros”  susceptível de suspensão em nome da ordem e segurança das fronteiras.

As visões multiplicam-se perante tamanha complexidade inerente à história e funcionamento deste objecto político não identificado nas palavras de Jacques Delors. Um Nobel da Paz que afastou o fantasma da guerra no Velho Continente e propiciou um modelo social comum? Uma frente mundial na defesa de direitos humanos? Sugiro que sejamos mais objectivos. Os factos podem ser lidos por mil olhos mas continuam a ser factos. A exposição da realidade é, por isso, revolucionária na sua essência.

Estamos diante de uma confederação unida por laços de interesses que favorecem economias em detrimento de outras. Uma lista de potências com agenda própria e preocupadas com a sua acumulação de capital. A austeridade serviu a quem lucra com os empréstimos e obtém redução de juros exigidos por investidores atormentados com a dúvida em relação a instabilidade grega ou portuguesa. Para servir de exemplo, a Alemanha dos mini-jobs e da Agenda 2010 fez dos baixos salários um mecanismo propulsor do sector exportador em conjunto com a tecnologia e a produção industrial. Servindo-se ainda da absorção de quadros qualificados da chamada periferia. Percebe-se por isso perfeitamente a austeridade ad eternum própria do Tratado Orçamental Europeu e o TTIP (Parceria de Comércio e Investimento Transatlântico) que criarão ainda mais assimentrias através da competitividade do livre-comércio.

Entretanto reduz-se o Orçamento Comunitário mas financia-se o FRONTEX e cria-se o EUROSUL para vigiar e perpetuar a perseguição a imigrantes bem patente em Lampedusa.

E a retórica do pacifismo europeu esbarra no apoio a um golpe de estado perpetrado em parte por sectores da extrema-direita e oligarcas interessados na ocidentalização comercial da Ucrânia apenas, entre outros motivos, para contrapor o Espaço Económico Único de Rússia, Bielorrúsia e Cazaquistão, assim como para expandir a fronteira da NATO no leste europeu. Os mesmos pacifistas que anuíram ao bombardeamento da Líbia.

O manifesto pela reestruturação da dívida terá pelo menos o condão de isolar quer Seguro, quer Passos-Coelho e distinguir as trincheiras no interior de cada um dos partidos. Mas a pergunta mantêm-se: que reestruturação me oferece uma organização destas? E quantos notáveis subscrevem as críticas aqui apresentadas? As eleições europeias aproximam-se, assim como as respostas.

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