A Europa da reestruturação da dívida

Há tantas reestruturações como opiniões. Dos que consideram um bom acto de gestão aos que repudiam uma dívida alicerçada na necessidade de recapitalização da banca, assegurando os lucros dos grandes grupos económicos e o aumento das grandes fortunas  à custa de salários, pensões, segurança social, educação e saúde. Uma escolha entre uma auditoria com o devedor em posição de força e um perdão de 50% da dívida grega a troco de mais austeridade.

O internacionalismo também dá azo a várias interpretações. Podemos perspectivá-lo como um mercado único acompanhado de uma moeda comum qual força motriz de uma Europa a duas velocidades. Um espaço de concorrência livre que, por força da contradição, forma cartéis e favorece os interesses das potências num grau superior de desenvolvimento das suas forças produtivas. Ao invés, também nos é possível traçar um hipotético espaço de solidariedade entre povos; entre trabalhadores. Com um modo de produção baseado na igualdade e dignidade nas relações de quem trabalha. Uma União Europeia com portas abertas ao mundo e destituída de um Schengen para europeus e outro para os “estrangeiros”  susceptível de suspensão em nome da ordem e segurança das fronteiras.

As visões multiplicam-se perante tamanha complexidade inerente à história e funcionamento deste objecto político não identificado nas palavras de Jacques Delors. Um Nobel da Paz que afastou o fantasma da guerra no Velho Continente e propiciou um modelo social comum? Uma frente mundial na defesa de direitos humanos? Sugiro que sejamos mais objectivos. Os factos podem ser lidos por mil olhos mas continuam a ser factos. A exposição da realidade é, por isso, revolucionária na sua essência.

Estamos diante de uma confederação unida por laços de interesses que favorecem economias em detrimento de outras. Uma lista de potências com agenda própria e preocupadas com a sua acumulação de capital. A austeridade serviu a quem lucra com os empréstimos e obtém redução de juros exigidos por investidores atormentados com a dúvida em relação a instabilidade grega ou portuguesa. Para servir de exemplo, a Alemanha dos mini-jobs e da Agenda 2010 fez dos baixos salários um mecanismo propulsor do sector exportador em conjunto com a tecnologia e a produção industrial. Servindo-se ainda da absorção de quadros qualificados da chamada periferia. Percebe-se por isso perfeitamente a austeridade ad eternum própria do Tratado Orçamental Europeu e o TTIP (Parceria de Comércio e Investimento Transatlântico) que criarão ainda mais assimentrias através da competitividade do livre-comércio.

Entretanto reduz-se o Orçamento Comunitário mas financia-se o FRONTEX e cria-se o EUROSUL para vigiar e perpetuar a perseguição a imigrantes bem patente em Lampedusa.

E a retórica do pacifismo europeu esbarra no apoio a um golpe de estado perpetrado em parte por sectores da extrema-direita e oligarcas interessados na ocidentalização comercial da Ucrânia apenas, entre outros motivos, para contrapor o Espaço Económico Único de Rússia, Bielorrúsia e Cazaquistão, assim como para expandir a fronteira da NATO no leste europeu. Os mesmos pacifistas que anuíram ao bombardeamento da Líbia.

O manifesto pela reestruturação da dívida terá pelo menos o condão de isolar quer Seguro, quer Passos-Coelho e distinguir as trincheiras no interior de cada um dos partidos. Mas a pergunta mantêm-se: que reestruturação me oferece uma organização destas? E quantos notáveis subscrevem as críticas aqui apresentadas? As eleições europeias aproximam-se, assim como as respostas.

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13 respostas a A Europa da reestruturação da dívida

  1. Luis Moreira diz:

    Isto é tudo muito bonito e vem nos livros mas o pior é que onde foi aplicado nunca conseguiu tirar o povo da miséria.

    • Frederico Aleixo diz:

      Não sei se alguém concordará consigo no Equador.

      • JgMenos diz:

        O Equador tem petróleo e matérias-primas que vende e comprometeu para que a China o financie; e a nossa austeridade é luxo comparado com a miséria que existe no Equador.

        • Frederico Aleixo diz:

          JgMenos, portanto acredita que teremos crescimento económico acima de 3% nos próximos anos para andar a pagar saldo primário e ainda juros. E depois o irrealista sou eu.

        • Carlos Carapeto diz:

          O goveno do Equador preocupou-se com os direitos do país e dos seus cidadãos, por isso convidou peritos internacionais para fazer uma auditoria à divida.

          E a conclusão a que chegaram esses mesmos peritos (alguns dos países credores) foi que a divida era ilegitima.

          Porquê?

          1– Algum do dinheiro pedido não chegou a entrar no país.

          2– Outro foi para servir interesses privados.

          E assim o povo do Equador pagou menos de 50% daquilo que lhe estava a ser exigido por os agiotas, e problema foi resolvido sem grandes sacrificios para o país

          Tivessem os serventuarios da finança internacional que estão esfolar os Portugueses coragem para fazer o mesmo, que a nossa situação era outra.

          • Frederico Aleixo diz:

            «E assim o povo do Equador pagou menos de 50% daquilo que lhe estava a ser exigido por os agiotas, e problema foi resolvido sem grandes sacrificios para o país

            Tivessem os serventuarios da finança internacional que estão esfolar os Portugueses coragem para fazer o mesmo, que a nossa situação era outra.»

            O problema, Carlos Carapeto, é que o JgMenos não consegue compreender isto. Porventura estará preocupado com a saúde financeiras dos credores e não com a dignidade de cidadãos e cidadãs comuns.

  2. JgMenos diz:

    «vigiar e perpetuar a perseguição a imigrantes .» – dizer tal coisa é a mais manifesta ausência de realismo!
    Se assim não fora tinhamos ums invasão da Europa de proporções tais que os dramas bíblicos seriam contos para adormecer crianças!

    • Frederico Aleixo diz:

      Qual invasão? Aquela do pós-guerra para reconstruir uma Europa em ruínas? Consta que as portas estavam abertas a quem quisesse entrar.

    • Carlos Carapeto diz:

      No alvo.

      Provocam-se guerras e cria-se o subdesenvolvimento com o fito de controlar as matérias primas e depois impedem-se os imigrantes desses países de entrar na Europa?

      Porra! Que opinião mais cruel e desumana!

      • Frederico Aleixo diz:

        A não ser que tenha passaporte azul ou um visto dourado e 500 milhões para investir em Portugal. Portanto o ditador da Guiné-Equatorial ou proprietário da Virgin porventura ainda obterão a cidadania portuguesa em menos que nada; já o refugiado líbio ou sírio terá de esperar pela “oportunidade” e residir 6 anos em território nacional.

  3. Carlos Carapeto diz:

    Há uma certeza que fique bem clara.

    Enquanto a economia Portuguesa não crescer ao ponto de satisfazer a procura interna de bens de consumo, não saímos deste marasmo. Divida e empobrecimento da população.

    As tão propaladas exportações na conjuntura actual, com a permanecia no € e competição com outros países da Europa industrialmente mais desenvolvidos só pode ser conseguida à custa de baixos salários.

    E se caminhar-mos nesse sentido daqui por uns tempos estamos a par da Roménia e da Bulgária, com 50% da população a viver na miséria.

    Consta nos manuais ( já os Chienes o sabiam há 60 séculos e os Egipcios pouco menos) que a agricultura como sector primário é considerada a base de sustentação de qualquer sociedade, ora aqui em Portugal esse polo fundamental da economia foi precisamenete a primeira vitima dos desmandos dos governos subservientes ao diretório de Bruxelas.

    Agora está a tentar-se reconstruir a todo o vapor aquilo que se pagou para destruir, mas o que se está fazendo é de modo errado que pouco ou nada vai contribuir para melhorar as necessidades internas.

    Com o plantio do olival intensivo os primeiros maus resultados já começam a aparecer.

    Depois temos a necessedade de reindustrializar o que foi destruido com o pretexto do país não poder competir com os demais países da CEE.

    Não era Cavaco que argumentava que saía mais barato comprar na Europa que produzir cá?

    E que a Portugal no futuro estava reservado o lugar de um país de turismo, comércio e serviços. De mulheres a dias e empregados de mesa, talvez fosse o que a criatura pretende-se dizer?

    E como vamos recuperar deste atraso provocado por as politicas erradas e em alguns casos criminosas da destruição do nosso aparelho produtivo? Agricultura, pescas e industria!

    Considero ridiculo quando um governante nos dias de hoje aconselha as pessoas regressarem à agricultura.

    Primeiro; esqueceram o contributo que deram para a destruir.

    Segundo; será que essa gente julga que um agricultor experiente se capacita em dois ou três anos? Pensarão eles que ser agricultor é fazer uma cova no chão e colocar lá as sementes?

    também ignoram que um operário metalurgico para adquirir uma boa experiência profissional tem que trabalhar dez anos ou mais.

    Assim como um pescador, tem que exercer alguns anos na profissão para se tornar plenamente produtivo.

    Neste contexto de empobrecimento resultante da baixa capacidade de produção em que o país se encontra mergulhado com poucas ou nenhumas hipoteses de recuperação, não se julgue que vamos sair deste ciclo infernal, ainda menos com as taxa de juros que são impostas , nesse caso a economia precisava crescer acima dos 4% . Pensar nisso é uma utopia.

    E ainda menos com a sangria de mão de obra qualificada que está a fugir.

    Os governantes têm que procurar outras alavancas para fazer subir a economia de modo a liberta-nos da grossa placa de chumbo que nos está a esmagar.

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  5. metalurge diz:

    Realmente fico perplexo com as vossas observações e ideias. Os vossos comentários são mesmo o que a elite quer que pensem, ou ainda não perceberam que com a UE (globalização e neoliberalismo) as dívidas são impagáveis, a imigração ou emigração está como está e a crise (alguns dizem que já está ultrapassada) é como é… para ficar !!!
    O que a elite quer, é que estejamos distraídos com estas manipulações de ideias.
    O que está em causa e muitos líderes mundiais já disseram à boca cheia e sem vergonha nenhuma, é a implantação de uma nova ordem mundial (NWO) que já está em curso.
    Ou seja, sermos subjugados, maltratados, espezinhados, socialmente, economicamente, religiosamente, etc. Não teremos voto na matéria.
    Temos é que combater esta (NWO).
    Por isso eu digo FUCK UE, FUCK NWO.
    Precisamos de novo sangue.

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