Ui!, que rica redistribuição que para aqui vai

Este post vai ser um dois-em-um. Admito, a febre da redistribuição também me atacou. Passarei então de imediato à redistribuição, cada uma começando com uma citação:

“Porém em quintas vivendas palácios e palacetes
os generais com prebendas caciques e cacetetes
os que montavam cavalos para caçarem veados
os que davam dois estalos na cara dos empregados
os que tinham bons amigos no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos como quem coça os galões
os generais subalternos que aceitavam os patrões
os generais inimigos, os generais garanhões
teciam teias de aranha e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha com os próprios cagalhões.”
– Ary dos Santos

Diz Ulrich que encomendou um estudo que diz que “provavelmente não há nenhum período da História recente portuguesa – talvez em 1975 – em que as medidas tomadas tenham sido tão redistributivas como foram agora”, mas ainda não pode dar grandes dados porque ele ainda não saiu. A malta já tinha reparado que vai para aqui um regabofe, mas ficamos muito mais descansados por Ulrich saber o que vai sair no estudo que o próprio encomendou.

Eu pergunto-me se agora (1) o Passos Coelho está tão ou mais à esquerda do PC em matéria de política redistributiva; (2) o CDS está, como diz o seu líder, à esquerda do PSD de Passos Coelho; (3) com tantos avanços e recuos e solavancos não terão feito tantas guinadas à esquerda que estejam de volta ao mesmo sítio?

Poderá ser isto, ou pode ser (mais) uma ignomínia de Ulrich. Chamar à usura fiscal de “políticas de redistribuição” é um mimo ao alcance de poucos. Não sei se o estudo que encomendou tenciona equacionar tal matéria, mas seria interessante ver para quem é que este Governo redistribui. É ver a transparência das privatizações. É ver os serviços judiciais, correios, escolas, cantinas, a fechar. É ver o desemprego e a emigração como porta de saída. É ver que a maioria dos empregos criados são remunerados abaixo do salário mínimo. É ver que a maioria dos empregos são abaixo das 10 horas semanais ou acima das 40h. É ver o aumento dos milionários em Portugal, só ultrapassado pelo “milagre económico” das pessoas a viver na pobreza ou, como diz o primeiro-ministro, “dentro das suas possibilidades”. Ulrich dá tanta paulada demagógica de cada vez que abre a boca como a Padeira de Aljubarrota arreava em espanhóis.

“Ser fascista é ser ladrão muito honrado,
e trazer bem controlado um povo cheio de fome.”

–  Artur Gonçalves.

Na semana passada, o mesmo Governo que diz no início da semana que não pode abdicar dos 30 e não sei quantos milhões dos quadros do Miró propõe no final da semana um perdão de dívida aos operadores de TV no valor de 13 milhões. Numa realidade não muito distante, ontem o Barclays anunciou que irá despedir este ano entre 10 a 12 mil trabalhadores para reduzir os seus custos, mas aumentou em 10% os prémios para os seus directores e administradores.

A manipulação de informação já é uma coisa tão banal e corriqueira que temo que estejamos a baixar o nível de exigência em sermos tomados por idiotas para níveis históricos.

No país da praxe, não deixa de ser paradigmático como é que um país é sujeito à humilhação pela mão de tantos auto-denominados “doutores” da troika (ou “do arco de governabilidade”, ou “do eurogrupo” ou “dos mercados” ou a Santíssima Trindade da “consolidação, estabilidade e ajustamento”) e continuamos a comportar-nos enquanto povo como um caloiro sem confiança na sua própria pessoa e sem vontade de viver a vida de pé e de olhos no horizonte.

Queremos crer que isto não vai durar muito tempo e não pode afundar muito mais. Mas pode. E vai. E será banal. O bicho-homem é adaptável, e a violência da ignorância terá que ser combatida como sempre foi: com uma bala de luz no negrume que agora nos apodera.

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6 respostas a Ui!, que rica redistribuição que para aqui vai

  1. Carlos Machado diz:

    A crítica ao Ulrich não se aplica. O que ele queria dizer é que tem havido muita redistribuição, mas dos pobres para os ricos!

    • Carlos, julgo que estamos de acordo no que toca ao fim de tal redistribuição, como alias está visível no post o ênfase no ‘para quem’ se destina a redistribuição.

      No entanto mantenho a crítica. Se numa lógica de justeza social as políticas de redistribuição deveriam ter como propósito o de esmorecer desigualdades sociais, é bem claro que a aplicação da austeridade teve o efeito contrário.

      Cumprimentos

  2. Antónimo diz:

    A redistribuição correcta seria a de paulada no lombo do referido banqueiro, um urbi et orbi reconhecido filhíssimo-da-puta. Enquanto não se lha dá, mais vale não nos irritarmos.

  3. JgMenos diz:

    Nada como uma redistribuição de banalidades e chavões …

    • Carlos Carapeto diz:

      Já a re´distribuição da riqueza deve ser feita muito democraticamente por quem a não produz?

      Nada como as opiniões eloquentes de um serventuário encartado.

      Isso; defenda o Ulrich ele paga-lhe umas férias no Haiti.

  4. Gambino diz:

    O nazismo também foi muito bom a redistribuir. Que o digam os judeus que que viram o seu dinheiro, património, obras artes e até o próprio couro cabeludo ser redistribuído em favor das elites. Para o Banqueiro a redistribuição é um fim em si mesmo, desde que fique no lado bom do processo. E, a avaliar pelo aumento do património dos mais ricos cá do burgo, está-se mesmo a ver em que sentido tem sido feita essa redistribuição.

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