Mau Estado e Praxes

Escrevo esta nota sobre a praxe e não sobre a tragédia em causa, cujos contornos creio devem ser tratados por quem de direito.

Que balanço de vida faz um pai que chega aos 60 anos e tem que pedir ao Estado para usar de todo o seu poder penal e repressivo para impedir o filho de 22 de se rastejar com um nabo na cabeça? Uma sociedade em que são os de 40, 50, 60, 70 que vêm discutir e tentar impedir a figura patética dos de 20 falhou ou, em alternativa, somos nós que somos velhos do Restelo e não percebemos toda a potencialidade desta juventude e o seu gosto, como lembrou o Renato Teixeira, pela servidão voluntária? E permitam-me uma dúvida: este servilismo infantil tem alguma relação com 40 anos de pacto social (acarinhado e construído pelos que têm hoje 60) e com o facto do salário família se ter imposto com os filhos a ficar em casa até aos 30 anos? Dito de outra forma, tiveram tanto medo que os filhos se metessem em militâncias e preferiram evitar o conflito e assumir a parte do salário não paga pelo patrão, manter os filhos em casa, adultos com 30 anos e comportamento de 14, e agora o resultado está à vista.
Na verdade o impulso para o Estado proibir a praxe – que hoje domina a comunicação social – é o mesmo impulso que levou os pais a aceitarem ter os filhos em casa até aos 30 anos: protegê-los do conflito social.
Progressivo era os jovens se organizarem e encherem o dux com nabos e couves pela cabeça abaixo. Pedir ao Estado ou aos reitores para fazer isso por eles é profundamente paternalista e inútil.

thepassionofthechrist1

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12 respostas a Mau Estado e Praxes

  1. Pingback: Vocábulo Redondo | perspectivas

  2. Pode-se armar as pessoas com ferramentas de defesa sem “pedir ao Estado para usar de todo o seu poder penal e repressivo”. Se uma proibição generalizada é uma ingerência – até porque as suas fronteiras são difusas: onde começa e acaba a praxe? – já cruzar os braços perante a existência, evidente, de coação psicológica e física branqueada/justificada/banalizada pelos mecanismos praxísticos é em si, parece-me, uma forma de colaboração. Na prática, claro, não na intenção.

    Há, de facto, “servidão voluntária”. No entanto, isso não justifica que o Estado não intervenha. Da mesma forma há quem se “voluntarie” para trabalhar num call center, não quer isso dizer que não se reivindique uma intervenção no sentido de erradicar o trabalho precário. Parece-me demasiado simplista, e inclusivamente perigoso, limitar uma intervenção com base num voluntarismo que, no fundo, está a ser colado nos outros sem grande sustentação.

  3. José Monteiro diz:

    “Nabos e couves pela cabeça abaixo” pouco adiantaria. Nabos e couves pelo cu acima é que era.

  4. João A. Grazina diz:

    Pois sim Raquel, inteiramente de acordo aqui: (…) “Progressivo era os jovens se organizarem e” (…), isso é que era verdadeiramente progressivo!
    Já aqui, não tanto: (…) “Dito de outra forma, tiveram tanto medo que os filhos se metessem em militâncias e preferiram evitar o conflito e assumir a parte do salário não paga pelo patrão, manter os filhos em casa, adultos com 30 anos e comportamento de 14, e agora o resultado está à vista.” (…) porque, não sei quem vai gostar de ler isto, mesmo até aqueles a quem a carapuça sirva, quanto mais os outros que não tendo seguido esse guião tiveram que representar a peça da mesma forma. Ou seja, também dito de outra forma, é injusto para os que não tiveram medo e não evitaram o conflito e ainda assim “tiveram” que “aceitar ter os filhos em casa até aos 30 anos:”. Estes, tiveram que aceitar Raquel! Aos outros sim, mercê de uma atitude que mais tarde ou mais cedo se paga, já serve aquela do (…) “é o mesmo impulso que levou os pais a aceitarem ter os filhos em casa até aos 30 anos: protegê-los do conflito social.”
    Tenho medo que o Monteiro leia este comentário: é que ainda não fiz nenhum texto autónomo a não ser quatro Partilhas comentadas +/- como esta, e se o tipo por isto me arrola aos histéricos, vou à Quinta da Marinha e vou-me a ele, porque tão condenável é a histeria como o condicionamento da opinião coletiva através de um epíteto. As vanguardas existem porque o são, não porque se imponham. Amanhã já ninguém sabe quem foi o Henrique.

  5. Victor Nogueira diz:

    Em meu entender a praxe agora institucionalizada e generalizada terá a sua origem na “secular” universidade de Coimbra, como “marca” distintiva dum período transitório até à integração na “respeitável” ordem burguesa dos “doutores”. Era a universidade então destinada a formatar”as consciências com o ensino magistral e a “sebenta”, o sino da torre designado como a “cabra”. Os eternos repetentes e duxes eram os que se podiam arrastar anos a fio pela universidade, colezccionando matrículas, possivelmente pk as famílias lhes podiam “sustentar” a paradoxal “recusa” em serem burguesmente respeitáveis na sociedade burguesa.

    Estas praxes não se alastraram às universidades de Lisboa e Porto, criadas após a 1ª República, contra o “monopólio” de Coimbra e foram nesta extintas nos finais dos anos 60 do passado século, num tempo em que as associações de estudantes defendiam a participação activa e crítica destes na sociedade.

    A relativa cultura de “solidariedade” estudantil foi substituída nos anos de Cavaco da proliferação das “privadas” de ensanduichar cursos de lápis e papel, pelo individualismo e pelo facilitismo; afinal as universidades da privada estavam ali para”fazer” dinheiro o que não se compadece com “exigência” sob pena de falirem.

    A “praxe” re-inventada e ressuscitada surgiria como tentativa de “credibilizar” escolas que ficaram conhecidas pelas sucessivas cisões, escândalos de corrupção e “turbo-diplomados”, uns com mais “sorte” que a maioria. Uma eventual causa para o ressurgimento das praxes “castrenses”, alargada às escolas públicas, residiria na generalização do acesso ao ensino superior depois de 1974 e da crescente “proletarização” dos “doutores”, já não a “elite” destinada a “chefiar” a sociedade burguesa, com o “crescente” esmagamento das impropriamente classes médias, sustentáculo e almofada na chamada “sociedade de consumo”, hoje descartável.

    Parece-me pois simplista e redutor “fundamentar” o seu “ressurgimento” num hipotético “estado social” que desde cavaco-pm sem esquecer os dois partidos comparsas foi destinado à extinção, acelerada pela trio pedro paulo & aníbal sem esquecer o pepe tózé.

    Quanto à não intervenção do Estado, levado ao limite, parece-me que desembocaria no “liberalismo” das jotas do psd-cds, que defendem a liberdade de não estudar e a referenda de todos os direitos, mesmo dos consignados na Declaração Universal dos Direitos Humanos e diplomas complementares. Estarei enganado ?

    https://5dias.wordpress.com/2014/01/30/mau-estado-e-praxes/

  6. Raquel Varela, a linguagem escorreita e a associação de ideias até pode estar bem concebido, mas esbarra num pormenor fundamental, são os papás dessas crianças que ficam em casa até aos 30 anos que assobiam para o lado e deixam que os seus filhos atuem como ditadorezinhos encapotados, enquanto que existem pais que querem que o dinheiro que gastam nas propinas, sirva para que os seus filhos estudem e consigam ganhar habilitações, de modo a conseguir um emprego decente, e não para irem fazer as delicias de gente que adora humilhar e achincalhar.

  7. Francisco diz:

    “Progressivo era os jovens se organizarem e encherem o dux com nabos e couves pela cabeça abaixo. Pedir ao Estado ou aos reitores para fazer isso por eles é profundamente paternalista e inútil.”
    Poix é Raquel e depois de se encher o Dux com Nabos o quê??? Não será altamente positivo se devido à pressão nas ruas e nas faculdades esta barbaridade seja terminada??? Ou és contra toda a legislação? Também serias contra uma lei que aumentasse o salário mínimo ou reduzi-se o horário de trabalho?

  8. Francisco diz:

    ai que horror, se proíbem a tourada, a seguir acaba-se o futebol e o xadrez, e ainda me proíbem de fazer festas ao gato ou matar piolhos. as tradições são para compreender, e, quando não gostamos delas, não as vemos, pronto, e os touros até são animais possantes, é ver aquele filme do almodóvar sobre uma violação redentora, por exemplo. e dd que se proibiram os castigos corporais nas escolas, os miúdos fazem o que querem. então se somos adultos, temos todos o mesmo poder em tudo, não é? essa coisa de legislar para proteger a parte mais fraca, tipo nas relações laborais, é só o estado a mudar fraldas, deixem-nos criar empregos, porra.

  9. António diz:

    Raquel,
    Excelente post, é um raciocínio bastante plausível.
    Contudo, agora o importante é impedir mais mortes e humilhação pelo que é inevitável o impulso para a proibição da praxe. O debate sociológico sobre a praxe deverá ser feito depois sendo que deverão ser principalmente os jovens de 20 a fazê-lo e retirar as respectivas conclusões, só assim poderão evoluir enquanto seres humanos. O começo do debate deverá centrar-se na origem secular da praxe, creio que jovens inteligentes irão perceber claramente se a praxe foi ou será um valor importante a considerar…

  10. LMR diz:

    Por esse raciocínio, a legislação sobre assédio sexual ou moral também não é necessária. Há alternativas legais que não implicam proibição, mas apenas regulamentação de relações de poder assimétricas. No big deal.

  11. Gambino diz:

    Esta semana, por causa de uma discussão aqui com o Francisco, tentei perceber junto de alguns alunos de que forma é feita a recepção aos estudantes do primeiro ano. Segundo compreendi, são precisamente as Comissões de Praxe que assumem este encargo. As Universidades parecem ter deixado este assunto nas mãos das Associações Académicas e estas, pelo menos em algumas Universidades, cederam a sua posição em favor dos alunos que instigam, promovem e aplicam a praxe. É quase como entregar a TDT à PT e depois ficar muito surpreendido por quase toda a gente passar para serviços pagos de televisão por cabo. A menos que as Universidades chamem a si esta responsabilidade e garantam que os grupos que recebem alunos do primeiro ano também incluem elementos anti-praxe, é legítimo admitir que as regras do jogo estão ser claramente viciadas com vista a restringir o exercício dos direitos destes alunos ou, no mínimo, para os pressionar a aceitar a praxe. Logo, não é completamente descabida a necessidade de regulação.

  12. Filino diz:

    Brilhante!

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