Juro que não queria falar de praxes, mas…

… Hoje fui assaltado nos noticiários por um conceito que desconhecia: o de “praxe académica”. Jovens, com as inevitáveis capas e batinas, falavam com o ar mais sisudo deste mundo de “praxe académica” e, graças a eles, fiquei a saber que há praxes boas, as “académicas”, que não são violentas nem molestam ninguém, mas “integram”, e há as praxes más, absolutamente minoritárias e acidentais, garantem eles, que são violentas e até matam. O conceito de “praxe académica” fez-me pensar o quanto a academia evoluiu nestes últimos anos, ao ponto de hoje servir para adjectivar a “praxe”. Na verdade, esse conceito talvez não diga grande coisa sobre as praxes propriamente ditas, mas é, sem dúvida, esclarecedor sobre aquilo em que a “academia” se tornou.

Portanto, a primeira reflexão que a ideia de “praxe académica” suscita é, justamente, o que se entende hoje por “academia” ou “universidade” e o que dela se espera. Os mais incautos poderiam pensar que a universidade está intrinsecamente ligada a um conjunto de valores que os séculos sedimentaram para lá de qualquer hesitação: a produção da ciência e a cultura do conhecimento como experiências de transformação simultaneamente psíquica, sócio-cultural e política; o criticismo e a dúvida metódica enquanto guias de acção epistemológica, mas também (e uma vez mais) política; o convívio com os clássicos e a aquisição da memória histórica e cultural como condição para uma crítica (e uma recusa) do presente; o contacto com estratégias de leitura ou de interpretação desconstrutiva dos preconceitos, lugares-comuns, ideologias e valores dominantes; a invenção de conceitos e teorias. Em suma: todo o contrário de uma cultura da repetição servil, da obediência cabisbaixa, da acefalia. Ora, o que constatamos na atitude de boa parte dos jovens que hoje ingressam nas universidades – e aqui tanto faz que sejam estabelecimentos de ensino superior públicos ou privados – é uma desatenção e uma indiferença descontraída em relação a todos os valores que acabei de enumerar. O que transportam para as universidades, e o que preservam ao longo de todo o seu percurso académico, é uma ludicidade permanente, mais ou menos infantil ou adolescente, uma superficialidade militante que a tudo resiste e que se mantém blindada à mais leve insinuação de seriedade, de densidade ou de profundidade.

Creio que o triunfo das praxes, impensável no meu tempo de estudante universitário (início dos anos 80), é indissociável dessa ludicidade invasiva, que alguns associam à “cultura juvenil”, e que tem a sua matriz nas novas (hoje já velhas) pedagogias não dirigistas, desresponsabilizantes e culpabilizantes em relação aos lugares tradicionais da autoridade (dos pais, dos professores ou dos adultos em geral). Nada que os docentes dos ensinos básico e secundário não tenham verificado há muito tempo, no meio de toda a desautorização e “descanonização” de que foram (e continuam a ser) vítimas. Ludicidade tanto mais acéfala quanto ela está ligada a um fenómeno que, entre nós, se acentuou nas últimas décadas, e que é o consumismo juvenil mais ou menos desbragado, que os adultos rendidos à infantilização dominante têm alimentado conforme podem. Ludicidade, portanto, altamente despolitizada: aqueles que surpreendem nos estudantes universitários de hoje o desejo de viver num eterno jardim infantil são os mesmos que pasmam perante a completa ausência de postura crítica, por parte desses jovens, face ao austeritarismo vigente. A malta quer é praxes, sexo e bebedeiras, e, sobretudo, pensar muito pouco ou nada, que os trabalhos finais das cadeiras resolvem-se com umas consultas wikipédicas e uns plágios cibernáuticos (o acto de ler é aqui objecto de uma intensa repressão).

Claro está que as praxes também são jogos identitários. E jogos de poder, como são boa parte das estratégias de afirmação de identidade. Poder simbólico dos que se pavoneiam, pelas ruas e pelas universidades, exibindo o traje “académico” – singularmente assexuado e vagamente monástico – como marca de uma distinção de classe ou de categoria: eu sou estudante universitário, futuro diplomado, e tu não. Não julguem que exagero, pois os fanáticos das praxes adoram frisar a sua pretensa superioridade identitária de universitários quando intervêm nas discussões sobre a legitimidade das ditas (veja-se alguns dos comentários neste “post” do Aventar). O que não deixa de ser terrivelmente irónico: é no momento histórico em que a universidade se esvazia de sentido, em que o ensino superior se transforma numa máquina de fabricar diplomas sem qualquer valor de troca, em que os licenciados se vêem cada vez mais reduzidos a uma condição proletária, que uma grande parte dos estudantes universitários imagina ser a sua condição um sinal de distinção superiorizante. As construções identitárias têm destas ilusões patéticas.

Jogos de poder, dizia eu, que colocam em movimento a velha dialéctica do senhor e do escravo. E, como todos bem sabemos, há escravos que o são voluntariamente. Que a cultura castrense da cíclica rotação do opressor e do oprimido – hoje agrido eu, amanhã agrides tu – tenha passado dos quartéis para as universidades, ao ponto de se tornar “académica”, com o silêncio cúmplice ou envergonhado dos reitores, é o mais revelador sobre a profunda degradação do espaço universitário. Porque aqui, como o Renato Teixeira e a Raquel sublinharam, o que perturba não é tanto a coacção, mas a obediência canina, isto é, desejada. Sempre que ouço os que condenam as praxes pelo lado da vitimização dos praxados, fico com a impressão de que falham o alvo. Há, evidentemente, vítimas involuntárias: todos aqueles que dizem “não”, e que mesmo assim são fisicamente coagidos por uma turba de alarves mascarados de corvos ou de padres. Mas são excepções. A regra dos praxados – basta observá-los nos seus rituais – é o voluntariado.

No limite, nem sequer é a cerimónia da humilhação voluntária que me choca, mas a ideia de que não existe qualquer descontinuidade entre a universidade e a parvoeira adolescental (nota à margem para dizer que a própria vivência da adolescência se degradou, passando de ser uma idade de questionação radical e atormentada do mundo dos adultos para um estágio, simplesmente mais “arriscado”, do mesmo consumismo infantilóide – ou quando a “adolescência” se torna uma ideologia ao serviço do “mercado”).

Finalmente, a questão da “integração”. Aqui vou ser autobiográfico. Só para dizer que nunca, enquanto estudante universitário, me “integrei” ou me quis “integrar”. Alguns dos meus melhores amigos de hoje, conheci-os na universidade. Nunca nos passou pela cabeça a necessidade de pertencermos a uma qualquer colectividade, clube ou grupo. Pelo contrário, unia-nos o maior desprezo por tudo isso. E unia-nos também a filosofia. Ou seja: a amizade pelo conhecimento.

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11 respostas a Juro que não queria falar de praxes, mas…

  1. notrivia diz:

    Não te reprimas… Ainda bem que falaste!

  2. Victor Nogueira diz:

    Leio isto:
    “Finalmente, a questão da “integração”. Aqui vou ser autobiográfico. Só para dizer que nunca, enquanto estudante universitário, me “integrei” ou me quis “integrar”. Alguns dos meus melhores amigos de hoje, conheci-os na universidade. Nunca nos passou pela cabeça a necessidade de pertencermos a uma qualquer colectividade, clube ou grupo. Pelo contrário, unia-nos o maior desprezo por tudo isso. E unia-nos também a filosofia. Ou seja: a amizade pelo conhecimento.”
    Pois, as “autobiografias” valem o que valem.,

    No tempo em que fui estudante universitário, nos anos 60 e 70 do século passado, havia muito quem participasse em “grupos”. desde a Juventude Universitária Católica até organizações políticas, desde as que contestavam o sistema até à Mocidade Portuguesa. Havia muito quem tivesse preocupações culturais e de solidariedade, participando mais ou menos activamente nas várias secções das associações de estudantes e organismos do movimento associativo estudantil, designadamente cooperativas livreiras, culturais, sem esquecer o cine-clubismo e grupos teatrais. Nesse tempo a contestação do sistema ou a participação em greves académicas poderia ter custos elevados, desde a prisão e a tortura até ao assassinato pelas forças repressivas ou incorporação compulsiva nas forças armadas para a guerra colonial.

    A “praxe”, que não existia em Lisboa e Porto, era característica da Universidade de Coimbra, sendo definitivamente banida na sequência da greve académica de 1969. Era o tempo em que as associações de estudantes defendiam que o estudante universitário não se deveria distinguir da generalidade da população e deveria ser solidário, social e politicamente interveniente.

    Depois veio o 25 de Abril e depois o feroz individualismo do “”numerus clausus” e a proliferação de universidades da treta fomentadas a partir do “cavaquismo”

    Hoje é o tempo dos turbo-diplomados estilo relvas ou sócrates, mas não só, o tempo de certas “jotas” que defendem que qualquer direito é referendável ou defendem a “liberdade” de não haver “ensino obrigatório”, que a Constituição da República e a Declaração Universal dos Direitos Humanos são extravagâncias que se opõem à liberdade austera pelos “mercados” reclamada, sem freio.

    Isto anda tudo ligado !

    • Mário Machaqueiro diz:

      Meu caro,
      Podia responder-lhe citando a velha e famosa frase de Marx (o Groucho, bem entendido): “Nunca aceitaria ser sócio de um clube que me aceitasse como sócio”. Ou citar-lhe os versos da canção “Le Pluriel” de outro anarquista genial chamado Georges Brassens. O meu pormenor “autobiográfico”, que vale o que vale, serviu apenas para frisar que o espírito de rebanho sempre me foi estranho. Significa isto que eu seja totalmente incapaz de participar em movimentos colectivos assentes no protesto contra injustiças ou na luta por direitos sociais? Claro que não! Consultando a minha biografia, verifico que estive em vários e que mesmo agora faço parte de um: a recém-formada Plataforma em Defesa da Ciência e do Emprego Científico. Acontece, porém, que não participo nesses movimentos ou organizações pelo desejo de me “integrar”, nem por qualquer carência afectiva ou falha narcísica. Felizmente, gosto suficientemente de mim próprio para não sentir a necessidade de estar no meio de muita gente ou de ser aceite por um qualquer “colectivo”. E se é verdade que muitos dos “grupos” dos anos 60 e 70 mobilizavam as pessoas na base de ideais, também é um facto que houve sempre gente a aderir a esse género de organizações movida pelos mesmos impulsos de carência identitária e de baixa autoestima que hoje atraem muitos jovens para as praxes. Esses impulsos estão, aliás, na razão directa do fanatismo com que certos membros de “colectivos” defendem as organizações a que pertencem, para as quais transferem emoções semelhantes às que se desenvolvem no seio do núcleo familiar. Confesso o meu “pecado” de jamais ter experimentado tais impulsos “colectivistas”, mesmo quando me envolvi, da cabeça aos pés, em estruturas “grupais”.

      • Victor Nogueira diz:

        não era minha intenção “criticá-lo”, embora o tema da “integração” social ou não e nas várias “comunidades” ou “grupos” tenha pano para mangas. Mas isto não foi o cerne do que escrevi, mas sim tentar mostrar que isto do “ressurgimento” das praxes (ou praxis?) castrenses a partir dos anos de ouro do cavaquismo até aos dias de hoje tenha demasiados elos comuns. Quanto à consciência social e ao espírito crítico, não são exclusivo dos “desintegrantes/desintegrados” nem estes a têm para cada um e todos os seus membros. Quanto à não integração, parece-me que se poderá manifestar de muitos modos, sem esquecer os “sem-abrigo” ou “vagabundos” ou “malteses”, por opção.

        Obviamente que não eram apenas ideias que moviam a totalidade dos activistas e a generalidade dos “beneficiários” das cooperativas livreiras ou culturais, dos cine-clubes, dos grupos de teatro, das secções de editorial e papelaria ou cantinas geridas pelos estudantes ou pelo movimento associativo estudantil

        Mas, repito, o cerne do meu comentário não era pôr em causa as suas opções.

        Abraço

        • Mário Machaqueiro diz:

          Entendido. E é claro que concordo consigo em que os “desintegrados” estão muito longe de deter qualquer primazia de consciência social e política. Pode-se ser “desintegrado” (ou “integrado”) de muitas maneiras e por muitos motivos e motivações. Afinal, Hitler também se sentiu (e foi) “desintegrado” durante muito tempo, e depois deu no que se sabe. As linhas finais do meu texto são apenas uma observação irónica para desmontar um dos argumentos mais recorrentes na justificação e desculpabilização das praxes “académicas”.
          Quanto ao cerne do seu comentário, que subscrevo, eu diria que o fenómeno das praxes resulta do cruzamento complexo de factores sociais e políticos conjunturais – o desenvolvimento do capitalismo tardio, dito “pós-moderno”, o triunfo do hedonismo e da ludicidade consumista como timbre da “cultura juvenil”, etc. – com factores de psicologia individual e colectiva que são identitários e estruturais – a necessidade de pertença a um grupo enquanto estratégia de afirmação identitária e de compensação para falhas narcísicas ou de autoestima, a identificação com o agressor como modelo de liderança, etc. A combinação destas duas ordens de factores dá origem a fenómenos de “massificação” e uniformização dos comportamentos que não são, longe disso, exclusivos das praxes, mas que nestas se manifestam de modo particularmente virulento.
          E deixo aqui também um abraço

  3. caxineiro diz:

    hoje estive nas ruas do Porto em protesto contra os roubos da praxe

    • Carlos Carapeto diz:

      Esteve a cumprir o seu dever corajosamente, e eu fui por problemas de saúde.

      Enquanto outros se entretêm a discutir praxes, adoções e outras banalizações insignificantes, assistindo silenciosamente que cada vez sejam retirados mais direitos a quem trabalha (ou já trabalhou) ao mesmo tempo que o fascismo já começa a sair da toca mostrando o focinho por toda a Europa com o beneplácito daqueles que nos infernizam a vida.

      Confesso que fiquei hoje muito preocupado com discurso de Kerry sobre a situação na Ucrânia.
      Como também não menos preocupado fiquei ao ver um enviado da RTP a Kiev promover uma manifestação de neonazis.
      Mas será que as pessoas não sabem o que estão fazendo? Sabem, sabem !

      • Mário Machaqueiro diz:

        Ainda bem que, estando nós na retaguarda a discutir “banalizações insignificantes”, estão vocês, na vanguarda, empenhados em coisas importantes e cheios de certezas, como, por exemplo, a de que os opositores de Viktor Ianukovich (esse grande democrata) são todos uma cambada de neonazis. Deve ser reconfortante reduzir realidades nebulosas e complexas a um formato a preto e branco.

        • Mário Machaqueiro diz:

          Já agora, num registo mais sério, destaco aqui um excelente “post” que subscrevo na quase totalidade e que, num dos seus parágrafos, fornece uma resposta perfeita ao género de objecção política a que se discutam coisas “banais”, presente neste comentário. Acontece que as praxes ditas “académicas” não são banais nem politicamente irrelevantes:
          «Para concluir, a praxe é só mais uma das coisas que demonstra que a “hierarquia das causas” que muita gente se apressa a esgrimir (“está tudo a discutir as praxes/ a vida de um cão/ o eusébio quando o que interessa são as pensões/ o desemprego/ o capitalismo/ a guerra/ a fome”), especialmente quando os temas em discussão fogem da sua agenda de prioridades, não faz qualquer sentido. Não só pelo ascetismo que tem implícito e que parece sugerir que o que é verdadeiramente importante exige, nas suas vidas, uma dedicação exclusiva de 24 horas, como porque ignora a profunda interrelação entre muitas coisas aparentemente distintas e distantes. A praxe não só merece ser discutida em si, como é excelente para pensar o país e o mundo que temos – até porque nos lembra que os obstáculos a contornar para que outro mundo seja possível assumem muitas formas diferentes no nosso quotidiano.»

        • Carlos Carapeto diz:

          As minhas certezas e daqueles que se preocupam com o rumo que os acontecimentos estão a tomar na Europa ( e não só) , reportam-se às lições da história.

          Ainda bem que assume que se mantém pacificamente na retaguarda, essa atitude não é novidade para ninguém, outros houveram que regendo-se por os mesmos princípios políticos e convicções ideológicas , foram coniventes por a ascensão do nazi/fascismo.

          Portanto seguindo na mesma trajetória desses seus antepassados, em lugar de responder às questões colocadas preferiu tergiversar com banalidades balofas na tentativa inglória de branquear os interesses que realmente estão em jogo neste momento na Ucrânia.

          E para desmistificar as insinuações que pretende fazer acerca de Yanukovich desejo lembrar-lhe que esse “senhor” se situa mais próximo das suas preferências politicas que da esquerda que Vc tanto costuma abominar.

          Eu não afirmo que são todos uma cambada de neonazis, a afirmação é sua numa tentativa redutora de esconder maliciosamente o que lá se passa.

          E se alguém mostra ser daltónico acerca deste assunto é o Senhor, ou não consegue identificar as bandeiras pretas/vermelhas das outras?

          Se não sabe quem são os maiores agitadores dos distúrbios na Ucrânia por favor informe-se que depois já lhe permito que desdiga aquilo que escrevo.

          Desconhece os antecedentes do Partido Svoboda ?

          Se não foram sempre Nazis o que acha que têm sido?

          Qual o símbolo que usavam até há bem pouco tempo (antes dos três dedos) ? Qual foi o comportamento dos elementos da OUN durante a SGM (II GG)?

          Mário Machaqueiro tem que compreender que não são as suas habilitações académicas que lhe dão estatuto para se colocar acima das outras pessoas, como sobranceiramente costuma fazer. E está tentado fazer agora.

          Ainda menos deve julgar que me impõe a retórica desajustada (falsificação) da história como o fez há algum tempo no seu exuberante artigo no Jornal I ? de anticomunismo fastidioso, sobre a União Soviética e Estaline.

          Aqueles que envergando a farpela da esquerda se dedicam a servir os interesses da direita, têm que se convencer que o tempo das fabulações macabras acabou.

          Publiquem o que está nos Arquivos Soviéticos em vez de continuarem a rodipiar no mesmo redemoinho falsificações.

          Há uns tempos um colega seu (também professor) aqui neste mesmo blogue com intenção de fazer um frete gratuito ao fascismo teve o atrevimento de comparar o campo de criminosos de guerra de Kengir a Auschwitz .
          O homem saiu-se mal, tropeçou em alguém que conhece essa situação melhor que ele. Resultado? Saiu daqui como um cãozinho cobardolas com o rabinho entre as pernas.

          Conheci a União Soviética (não fui para lá enviado por qualquer comité, fui trabalhar por conta de uma firma Italiana numa refinaria junto ao Volga ) ao contrário daquilo que os falsificadores dizem ninguém me impediu de ir para onde desejasse a mim e aos outros (Italianos e Espanhóis).

          E a partir daí por razões pessoais nunca mais deixei de lá ir. Tive o privilégio de conviver com quem começou a guerra em Khalkhin Gol e acabou-a na Áustria.

          Também conheci quem no ano de 1932 viu as searas das terras negras do Volga reduzidas a cinzas às mãos dos Kulaks.

          Portanto a teoria universitária do professor Mário Machaqueiro não é mais valiosa que os conhecimentos práticos de quem conviveu com os protagonistas da história.

          No verão passado estive em casa de um amigo na Bielorussia, e vi muito bem a diferença das condições de vida da população na Polonia e Ucrânia em relação à Bielorrussia. Mas isso não interessa aos serviçais do capitalismo divulgar.

          Voltando à situação na Ucrânia, era de salutar importância que o M M dedica-se algum do seu tempo a estudar as teorias geostratégicas de Halford Mackinder , acerca da Heartland , as opiniões de Brzezinsk no “O Grande Tabuleiro de Xadrez” .Ou aquilo que ele disse recentemente sobre a Sibéria.
          E noutra ocasião disse que a Rússia sem Ucrânia é um país vulgar mas juntas formam um império.

          E também as afirmações de Madeleine Albrigt sobre a mesma Sibéria.
          Pode consultar também as opiniões de Alexandre del Valle ( um homem da UMP, conselheiro de Sarkozy) sobre o domínio do Herthland.

          O Mário Machaqueiro como professor de História não sabe que as invasões do Afeganistão e do Iraque faziam parte de uma estratégia de longo prazo para avassalar o Irão e por conseguinte dominar a rica bacia de hidrocarbonetos do Cáspio e toda a Ásia Central, para no futuro forçar uma saída para o Ártico cortando a Rússia por o Obi onde se concentram as maiores jazidas de petróleo e gás do país ( a chamada barriga mole da Rússia)?

          Ao mesmo tempo servia para desestabilizar a China por as costas através das regiões conturbadas do Xinjiang e do Tibete?

          Como se ficaram por meias vitórias no Afeganistão e no Iraque agora tentam encontrar outras portas de entrada.

          Senhor M M ao contrário daquilo que está a tentar impor, tem que se convencer que a verdade não tem dono.

          • Mário Machaqueiro diz:

            Já agora, não foi no jornal I, mas sim no “Público”. Com uma cabecinha estalinóide tão blindada de certezas absolutas como a sua não é possível qualquer diálogo. Por isso, fico-me por aqui. Acrescento apenas que nunca usei, nem consigo nem com ninguém, as minhas habilitações académicas como argumento de autoridade. É você que, pelos vistos, tem sentimentos de inferioridade mal resolvidos que depois projecta nos outros. Freud explica.

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