Tragédia do Meco: “Praxe” e “tradição” académica, o regresso à barbárie medieval e a cultura de direita

Meco: Jovens sabiam que “iam entrar na água”
(…) a jovem foi interrompida nas declarações que proferia por dois colegas, quando estes perceberam que estava a quebrar ‘o pacto de silêncio’ que impera entre os estudantes.

Meco: as provas que apontam para ritual de praxe

Praxes de risco já não eram novidade para vítimas mortais do Meco

Pacto de silêncio entre colegas de alunos que morreram afogados

Sobrevivente do Meco alega amnésia seletiva

Praxe amedronta docentes da Universidade do Minho

Universidade Lusíada condenada por praxe mortal

praxe

Sobre a tragédia no Meco, antes de mais nada, há que mostrar solidariedade com as famílias das vítimas, dar as respectivas condolências e exigir o esclarecimento cabal das circunstâncias em que se deu esta tragédia. Verdade e Justiça são as duas palavras chave.

Dito isto, não há como não voltar ao assunto da “praxe”. Não é certo em que exacta medida a “praxe” e a “tradição” académica contribuíram para esta tragédia. Mas não há dúvidas que estes acontecimentos tiveram como pano de fundo um encontro para promover e organizar esse tipo de actividades. Actividades essas que já anteriormente tiveram desfechos mortais e produziram graves traumas.

Para além dos danos físicos e psicológicos individuais causados pela “praxe”, este é um fenómeno que é simultâneamente sintoma e catalisador de uma mais vasta barbárie social. Recentemente foi publicado na blogosfera um texto intitulado “A cultura de direita em Portugal“, muito divulgado em vários blogs filo-fascistas (aqui, aqui ou aqui). É um texto que vale a pena ser lido, é preciso ter espírito crítico e consciência de que o autor é assessor da Presidência da República, mas não deixa de ser relevante e revelador.

Nesse artigo faz-se uma longa caminhada através do tempo (início dos anos 80 até ao momento actual) em que são discutidas várias publicações, instituições, individualidades e manifestações culturais que, de uma forma ou outra, influenciaram a vida política e social em Portugal e a empurraram para a direita. O texto é muito exaustivo, mas logo após o ler verifiquei que tinha algumas lacunas, para mim a que mais me salta à vista, é mesmo a questão do ressurgimento e explosão da “Praxe e tradição académica”. O autor até fala dos novos colégios que inventam tons pomposos e complexas heráldicas, mas esquece-se deste tenebroso e infelizmente poderoso movimento… ignorância? vergonha? talvez mencioná-lo colocaria em causa o “panegírico em tom blasé-negligé” que o autor acaba por fazer à “cultura de direita”. É que o fenómeno da praxe não pode ser entendido sem compreender que ele é simultâneamente sintoma e promotor desse mesmo caldo de cultura de “direita” – anti-igualitário e contra-revolucionário – examinado com minúcia nesse texto. Aliás, para nos lembrar isso mesmo, temos mais um grande texto do Pacheco Pereira “A abjecção das praxes

Nos dias de hoje continua para mim evidente o papel deste tipo de rituais na consolidação de uma vida essencialmente amorfa e conservadora, desprovida de solidariedade e intervenção social e política, subordinada a todos egoísmos e disponível para todas as manipulações. Aliás, a evidente ausência do movimento associativo estudantil da conflitualidade dos dias de hoje e a fácil proliferação das “jotas” nessas estruturas, tanto mais eficaz quanto diminui a participação dos estudantes em qualquer actividade que não seja lúdica (…), acompanham a generalização da submissão à praxe. De facto, a praxe mata, às vezes o corpo, mas sempre a cabeça.

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Pacheco refere como a “praxe” e a “tradição” era combatida no seu tempo, nos anos da brasa que precederam o 25 de Abril, anos que viram essas manifestações reaccionárias quase desaparecerem do mapa e ficarem confinadas à vestusa Coimbra. Nos meus dias esse fenómeno já havia recuperado o fôlego, mas não sem ser dado combate. Nas Universidades vários movimentos e grupos estudantis combateram a praxe, tenho até um enorme orgulho de ter pertencido à direcção de uma associação de estudantes que se declarou anti-praxe, tentou dissuadir ao máximo a sua realização e promover formas de integração alternativas. Não sendo o único, o Movimento Anti Tradição Académica (M.A.T.A.) foi dos que mais se destacou neste combate. É preciso sublinhar que nem todos são e foram cúmplices, que entre barbárie e civilização, reacção ou progresso, humilhação ou solidariedade, há quem esteja de um lado da barricada e quem esteja do outro.

Infelizmente parece-me que as coisas actualmente estão até piores que há uns anos atrás… Fica o ténue consolo de que a vasta maioria da população é contra este tipo de manifestações de barbárie e apoia o seu fim.

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Resta perguntar até quando as ruas e praças deste país, os pátios e corredores das nossas faculdades, serão utilizados impunemente para estes rituais? Até quando sob o pretexto da “praxe” acções que noutros contextos seriam do foro criminal são ignoradas, ou implicitamente apoiadas por instituições como as Universidades? Até quando iremos tolerar a impunidade e a barbárie? É que o que não regride expande-se e estes fenómenos estão a expandir-se. O senhor das moscas” toma conta das faculdades e só irá parar se for travado.

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21 respostas a Tragédia do Meco: “Praxe” e “tradição” académica, o regresso à barbárie medieval e a cultura de direita

  1. Gambino diz:

    Se fizeres a mesma sondagem entre estudantes universitários, vais ter resultados bastante diferentes. Infelizmente, o grupo de pessoas que mais condições teria para lutar contra a praxe é precisamente aquele que a defende de forma mais acérrima.

  2. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Sou professor na Lusófona e, até agora, considerava as praxes como idiotas, mas mais nada. Face ao acontecido só posso agora manifestar-me com toda a veemência contra as praxes, não num sentido absoluto, mas porque dão SEMPRE azo a manifestações brutais e sádicas de gente que, noutras épocas e circunstâncias, seriam candidatos a torturadores, guardas de campos de concentração ou polícias políticos. Não sendo possível controlar os sádicos só há mesmo uma solução, que é acabar com as praxes. E os sádicos que vão procurar emprego na Coreia do Norte ou em Guantánamo.

  3. Joao Pereira diz:

    Francisco,

    Não me parece que os alunos que se trajam a rigor e que praxam os seus colegas sejam de direita … muito pelo contrário.

    Não percebo a sustentação para esse raciocínio..

    • Francisco diz:

      Não percebes porque és ignorante, burro ou estás a passar por burro. Relê o post e o artigo do Pacheco Pereira que citei e o outro artigo intitulado “A cultura de direita”.
      Estive muito activo na luta estudantil e na luta anti-praxe, conheci e participei em vários grupos. Nunca conheci ninguém de direita que nas faculdades estivesse contra as paraxes. Era tudo malta de Esquerda, de várias matizes, mas era só gente de Esquerda que combatia as praxes. Pelo contrário, a direita a começar pela JSD, e as Associações Académicas e de Estudantes ligadas/controladas pela JSD eram das maiores dinamizadoras da praxe e de tudo que rodeava a tradição académica. As únicas associações de estudantes e outros grupos estudantis que se demarcavam e combatiam a praxe estavam, de uma forma ou outra, ligadas à Esquerda. A praxe era e é um instrumento ideológico e até orgânico (recrutamento e sociabilização) ao serviço da direita. Não é por acaso que quando a luta estudantil aumenta a praxe recede e vice-versa.

      Percebeu agora ou continua a fazer-se de desentendido? Aconselho-te a informares-te melhor sobre o tema até há várias coisas escritas sobre o assunto, o artigo do Pacheco é um deles. Lê o manifesto anti-praxe feito há uns anos e vê quem o subscreve. Vai à página do M.A.T.A. e podes informar-te melhor.

      A Praxe é tanto sintoma como dinamizador do caldo de cultura de direita e das próprias organizações partidárias e afins de direita.

      • Rafael Ortega diz:

        Deve ser por isso que conheci vários praxistas do PCP e BE.

        Em quase todas as Universidades há praxe. Em quase todas a matriz ideológica dos alunos é vincadamente de esquerda.

        Se o Francisco tivesse razão as praxes eram pouco expressivas. Não o são.

        • Francisco diz:

          Se há indivíduos que se dizem de Esquerda e praticam estes actos? Claro, mas enquanto colectivos, organizações e instituições a direita, como sempre, está do lado da barbárie medieval e a Esquerda luta contra isso.

          E a esmagadora maioria das Associações de Estudantes e das Associações Académicas estão nas mãos da JSD, quase todas!!!! É falso achar que a maioria dos Universitários estão organizados à Esquerda (isso foi nos anos 60 e 70), infelizmente a JSD é muitíssimo mais forte, com as consequências trágicas que se conhecem.

          Lê e aprende em vez de mandares bocas de tasca rasca. O Francisco tem razão e tu és um ignorante que desconhece os factos.

          A abjecção das praxes
          http://www.publico.pt/sociedade/noticia/a-abjeccao-1621031

          Memórias incómodas e rasura do tempo: Movimentos estudantis e praxe académica no declínio do Estado Novo
          http://rccs.revues.org/654

          A Praxe Integra? (carta ao director, página 7)
          http://www.mat.uc.pt/~jsoares/research/recortes/158.pdf

          Cinco mitos em torno das praxes
          http://aterceiranoite.org/2014/01/26/cinco-mitos-em-torno-das-praxes/

          Manifesto Anti-praxe
          http://manifestoantipraxe.web.pt/

          Nunca conheci ninguém de direita que nas faculdades estivesse contra as paraxes. Era tudo malta de Esquerda, de várias matizes, mas era só gente de Esquerda que combatia as praxes. Pelo contrário, a direita a começar pela JSD, e as Associações Académicas e de Estudantes ligadas/controladas pela JSD eram das maiores dinamizadoras da praxe e de tudo que rodeava a tradição académica. As únicas associações de estudantes e outros grupos estudantis que se demarcavam e combatiam a praxe estavam, de uma forma ou outra, ligadas à Esquerda. A praxe era e é um instrumento ideológico e até orgânico (recrutamento e sociabilização) ao serviço da direita. Não é por acaso que quando a luta estudantil aumenta a praxe recede e vice-versa.

          A Praxe é tanto sintoma ,como dinamizador, do caldo de cultura de direita e das suas organizações partidárias (JSD acima de tudo).

          • Rafael Ortega diz:

            Estive na Universidade (já terminei o curso), o que digo não é de ouvir falar. Os alunos que praxam e os que são praxados vão de um espectro político da direita à esquerda (e alguma esquerda bem extrema).

            A Universidade onde estive já teve associações de estudantes PSD e PCP (e agora PS).
            Era perfeitamente independente quem lá estava, as praxes aconteciam na mesma.

          • Francisco diz:

            Tu sabes ler??? Se sabes, parece que não és muito inteligente ou um bocado ignorante.
            Independentemente de quem as pratica no dia-à-dia actualmente a questão é quem as reintroduziu? A quem é que serve estes rituais? quem beneficiou e beneficia do caldo de cultura assim criado. Lê e aprende com os textos que aqui divulguei. Procura saber mais partindo deles. Compreende e reflecte sobre a realidade para lá da superficialidade.

            Isso seria bem mais produtivo que repetires as mesmas banalidades que caem completamente ao lado da questão central que aqui levantei.

        • Francisco diz:

          Praxe, polémica e violência, uma história com séculos
          (…)com o apoio da direcção social-democrata da Associação Académica de Coimbra, organiza-se uma “Queima das Fitas disfarçada”; em 1980, regressam a Queima das Fitas, a capa e a batina… e as praxes.
          http://www.publico.pt/sociedade/noticia/praxe-polemica-e-violencia-uma-historia-com-seculos-1621112

    • Francisco diz:

      Pereira, mais uns artigos sobre este fenómeno. Vê lá se aprendes qualquer coisa (e nem te estou a cobrar nada… é daqueles defeitos de Esquerda)

      Praxe, polémica e violência, uma história com séculos
      (…)com o apoio da direcção social-democrata da Associação Académica de Coimbra, organiza-se uma “Queima das Fitas disfarçada”; em 1980, regressam a Queima das Fitas, a capa e a batina… e as praxes.
      http://www.publico.pt/sociedade/noticia/praxe-polemica-e-violencia-uma-historia-com-seculos-1621112

      Memórias incómodas e rasura do tempo: Movimentos estudantis e praxe académica no declínio do Estado Novo
      http://rccs.revues.org/654

      A Praxe Integra? (carta ao director, página 7)
      http://www.mat.uc.pt/~jsoares/research/recortes/158.pdf

      Cinco mitos em torno das praxes
      http://aterceiranoite.org/2014/01/26/cinco-mitos-em-torno-das-praxes/

      Manifesto Anti-praxe
      http://manifestoantipraxe.web.pt/

  4. Gambino diz:

    Concordo que alguém de esquerda nunca pode ser favorável à praxe. No entanto, tanto quanto sei, há duas universidades que já tiveram responsáveis pela praxe (Dux ou outro título absurdo do género) que militavam em partidos de esquerda. A maior parte dos membros das Comissões de Praxe são demasiado burros para serem de esquerda ou de direita e muitos não são sequer suficientemente oportunistas para serem membros de uma Jota. Trata-se acima de tudo de gente idiota, que pode ter qualquer filiação política.e, frequentemente, não tem nenhuma.

    • Francisco diz:

      Pois, desconheces a realidade. As praxes e a tradição académica são e foram instrumentalizadas pela JSD. Se os trogloditas que as encabeçam não são todos militantes com cartão da JSD, não, não são. Mas esse é o caldo cultural que foi promovido pela JSD e pela direita e é o caldo cultural de onde ela tira proveitos. Porque é que não se informam e lêem alguns dos textos que aqui disponibilizei em vez de dizerem disparates?? “a ignorância é atrevida”

      • Gambino diz:

        Ora bem, repara que tu não apresentas nenhuma investigação com dados objectivos sobre o envolvimento de juventudes partidárias em comissões de praxes. O caso mais concreto que citas é a UC, que é uma das universidades em que há mais consciência política. Logo, não se trata aqui de ignorância, mas sim de opinião.
        No meu caso, como sou professor universitário e por diversas vezes discuti o assunto com os meus alunos, tenho uma opinião que, mesmo admitindo que possa estar errada ou venha a ser rejeitada empiricamente, não é de todo ignorante. A meu ver, a razão para o aumento da popularidade das praxes deve-se à ausência de qualquer tipo de pensamento político. É um fenómeno análogo ao Bulying. A relação da JSD com a praxe é a de uma variável parasita: Ambas decorrem da mesma ausência de pensamento político e, naturalmente, alguns observadores correm o risco de as confundir.

        • Francisco diz:

          Para professor parece que não sabes ler:

          Praxe, polémica e violência, uma história com séculos
          (…)com o apoio da direcção social-democrata da Associação Académica de Coimbra, organiza-se uma “Queima das Fitas disfarçada”; em 1980, regressam a Queima das Fitas, a capa e a batina… e as praxes.
          http://www.publico.pt/sociedade/noticia/praxe-polemica-e-violencia-uma-historia-com-seculos-1621112

          Lê também os vários artigos sobre a história da praxe,a sua associação ao fascismo e quem e porquê as combateu. Tenta perceber porque é que quase deixaram de existir no período do 25 de Abril (nesta caixa de comentário deixei várias referências).

          Para além disso eu fui opositor, no terreno às praxes, estive numa DAE (Direcção da Associação de Estudantes) e muito activo no movimento estudantil. Ou seja, vi e vivi muito EM PRIMEIRA MÃO. Tu em vez de mandares bitaites estilo conversa de café vê se estudas um bocado o assunto.

        • Francisco diz:

          Ou seja, a praxe não é um fenómeno politicamente neutro. Quer do ponto de vista ideológico, quer organizativo, faz parte de todo um caldo de cultura de direita.

          Praxes: igual à máfia?
          Cada “universidade privada”, fosse de que forma fosse, acabava por se tornar um negócio, a favor de obscuras direcções que não dependiam de nenhuma autoridade idónea. Mas, no meio disto, precisavam de prestígio.
          Para o “prestígio” escolheram usualmente três caminhos: grandes cerimónias, imitadas de universidades medievais; trajos de professores de grande pompa e circunstância; e uma total liberdade para as “praxes”. Numa altura em que pelo Ocidente inteiro se abandonavam as “praxes” pela sua brutalidade e pela sua absoluta falta de sentido no mundo contemporâneo, Portugal adoptou com entusiasmo essa aberração.
          (…)O sr. ministro da Educação, depois de tantas trapalhadas, devia agora tratar da sua enegrecida reputação com um gesto limpo: fechar a Lusófona e punir os responsáveis que deixaram crescer a barbaridade das “praxes”.
          http://www.publico.pt/sociedade/noticia/praxes-igual-a-mafia-1620969

          A cultura de direita em Portugal.
          E, em simultâneo, criam-se colégios com «marcas de distinção» nos domínios da onomástica e da heráldica. Se virmos, por exemplo, a página na Internet do Real Colégio de Portugal (39), que foi criado em 1999 mas descreve com minúcia os pergaminhos antigos da quinta onde está sediado (Quinta do Conde do Paço, no Lumiar), teremos um bom exemplo de «invenção da tradição».
          http://malomil.blogspot.pt/2014/01/a-direita-portuguesa-contemporanea.html

          Dito isto, é também verdade que é fenómeno de “bulying”, é verdade que muitos dos que a praticam podem não se considerar de direita. É verdade que floresce e propicia uma mentalidade apolítica, para não dizer mesmo contra-política. Mas isso em si mesmo é o que interessa à direita e ao poder.

          PS-eu tenho documentado a minha tese com várias referências, agradecia que as respostas fossem fundamentadas e de um nível semelhante. Não os desabafos “à conversa de café” que por aqui grassam.

          • Gambino diz:

            Então vamos lá sair da conversa de café.
            A generalidade das Associações Académicas do PS e do PSD tentam impedir aquilo que chamam abusos, mas não a praxe, A Carta de Princípios que tem andado a circular nas Universidades é um exemplo disto:
            http://p3.publico.pt/actualidade/educacao/4376/nove-universidades-terao-praxe-guiada-por-principios-comuns

            Repara que a praxe em si mesma nunca é considerada por nenhuma destas Associações como um abuso. O que os motiva são aquilo que consideram serem os abusos da praxe, especialmente quando são mediatizados. A lista de signatários desta carta inclui Associações Socialistas, Sociais-democratas e outras politicamente mais diversificadas.
            Como defendo a extinção pura e simples da praxe, considero que estes documentos são puro lixo, por melhores que sejam as intenções dos seus signatários.
            O grande problema das Associações Académicas, especialmente as que sejam do PS e do PSD, é o medo de irem contra a popularidade das praxes junto dos estudantes.
            Este é um dos poucos estudos quantitativos que conheço sobre o tema, além de uma tese de Mestrado da UM que considera a praxe como um reflexo da hierarquização da Universidade entre discentes e docentes:

            http://www.google.pt/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&cad=rja&ved=0CCoQFjAA&url=http%3A%2F%2Fwww.esenfc.pt%2Fsite%2Findex.php%3Fprocess%3Ddownload%26id%3D18355%26code%3D87752367&ei=08_lUpr8FsKM0AWLmIHYBQ&usg=AFQjCNEVEPQ29ejOWAq-sstScBGITN-s3g&bvm=bv.59930103,d.bGQ

            Apesar de quase todos os alunos defenderem limites para a praxe, a maioria aprova-a e utiliza as desculpas do costume.
            Em suma, a praxe é uma forma de bulying regulado por códigos. Independentemente da origem, a sua moderna utilização deve-se quase em exclusivo à popularidade que ela goza no seio de estudantes sem consciência política. Neste sentido, ela nunca é combatida pelas Juventudes dos partidos do centro e poucas Associações de esquerda se atrevem a contrariar a opinião geral. Ou seja, o problema é muito mais complexo do que a tua visão simplista quer fazer crer.

  5. Gambino diz:

    Aliás, esta popularidade da praxe junto dos estudantes afecta também os órgãos das próprias Universidades.
    Apesar dos reitores anunciarem castigos para os prevaricadores, isso quase nunca acontece ou as vítimas são colocadas numa posição em que podem ser pressionadas. O recente caso da UM é paradigmático:
    http://www.publico.pt/sociedade/noticia/universidade-do-minho-investiga-polemica-que-envolve-professor-e-alunos-em-praxe-1621030
    A ser verdade que a praxe estava a ser realizada na Universidade, a intervenção do docente era obrigatória e o processo deveria ter-se concluído com a suspensão dos alunos em questão. Em vez disso, permite-se que uma auto-intitulada Papisa questione a violência da resposta do professor a um acto que, segundo os estatutos da UM, era absolutamente ilegal. A única investigação que faz algum sentido é determinar se o professor foi mesmo agredido e, a ser verdade, aplicação da expulsão em vez da suspensão.

    • Alexandre diz:

      Sim, esse caso, que pelo que se depreende terá ocorrido em pleno campus da UM, é surreal! Contudo, e a confirmar-se, mais do que uma intervenção de um docente, exigia a intervenção da segurança ou até da PSP. Se situações como esta e outras do mesmo jaez fossem tratadas com expulsão e total impossibilidade do(s) expulso(s) voltar(em) a ingressar no ensino superior, uma vez dada como provada a prática de ilícitos criminais, claro, depressa a coisa começaria a refluir. É preciso mais dureza por parte das direcções de universidades e outras instituições de ensino superior, que no geral têm dado provas de uma tibieza a meio caminho entre a cobardia e a desresponsabilização.

      Pessoalmente, assisti à recuperação da praxe na UP nos meus anos de licenciatura, mas o processo entrou em velocidade de cruzeiro e hoje, quase vinte anos volvidos, a besta já anda alegremente à solta em locais onde era raríssimo ver gente trajada (p/ex. em Lisboa) há apenas uma década. Quando estava a acabar a licenciatura, e embora com assinaláveis diferenças entre faculdades, confirmo o que atrás foi escrito: uma maioria de estudantes revia-se na praxe, embora dizendo deplorar excessos; se uma minoria de alunos mais politizados se opunha de modo decidido à praxe, havia também quem simplesmente não ligasse peva, demonstrando total indiferença, como por exemplo todos os alunos trabalhadores que conheci, para quem aquilo eram coisas de canalha mimada; também muitos dos que estavam “a sério” na universidade, ainda que estudantes em “full time”, ligavam pouco ou nada à praxe, ocupando-se em tarefas mais úteis. Tanto quanto consigo perceber, o número dos que tinham opinião contrária e até dos indiferentes terá diminuído desde então…

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