O Estado a criar desempregados na ciência

Os resultados reduzidos do número de bolsas de doc e pos-doc não correspondem a uma estratégia de desinvestimento na ciência, porque «teríamos cientistas a mais». Trata-se antes de criar uma bolsa de desempregados para pressionar os salários dos actuais bolseiros, investigadores e docentes para baixo.

Quando há um ano despediram 47 estivadores, o porto de Lisboa não ficou com menos trabalho de carga e descarga, ficou foi com um fila de estivadores à espera de trabalho. Nas universidades, quem ainda trabalha, sabe que não falta trabalho para todos estes investigadores – quem ficou a trabalhar vai dar mais aulas, ter mais alunos, publicar mais ou trabalhar pior. Até que todos fiquem a trabalhar pelos 660 euros, como já estão alguns colegas no sector privado. Isto não é ausência de estratégia, é política estratégica de financiar a dívida pública e a banca transferindo valor dos salários da educação e a formação científicas para a rentabilidade dos capitais investidos por estes sectores que hoje dominam o Estado e o Orçamento de Estado.

Ausência de estratégia tem quem pensa que os estivadores, os enfermeiros, os bancários, os professores do secundário são outra realidade diferente dos universitários – as especificidades próprias e necessárias de cada profissão não eliminam a necessária organização solidária.

Apesar de tudo celebro aqui a convocação partilhada da Plataforma Plataforma em Defesa da Ciência e do Emprego Científico em Portugal do SNESUP, da FENPROf, da OTC de um encontro nacional de docentes, investigadores e bolseiros, para maio de 2014. Veremos qual o grau de efectiva participação das pessoas, até onde estão dispostas a ir efectivamente, ou se vamos continuar a encher as páginas do facebook de lamentos.Se estamos dispostos – e não é claro que estejamos – a uma clara inflexão, bloqueando este esquema de distribuição geral da miséria.

Pergunto-me: que país queremos deixar aos nossos filhos? O que lhes vamos deixar? Casas a cair de podre?

Deixo o link de dois artigos que publiquei sobre este tema, mais desenvolvidos

Um colossal despedimento colectivo nas universidades?, Jornal i, 2-12-, 2013

A Universidade também regressa aos mercados?, Jornal Público, 12-12, 2013

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5 respostas a O Estado a criar desempregados na ciência

  1. JgMenos diz:

    «Pergunto-me: que país queremos deixar aos nossos filhos?»
    Aí está uma muito boa pergunta!
    Partindo desse futuro fica seguramente mais no presente a responsabilidade pelo pesadelo construído no passado.
    A não ser que o negacionismo vença, o que não seria de espantar!

  2. Carlos Machado diz:

    Apoiado!

  3. Raquel Varela, escreve bem, como sempre. O problema é reduzir as suas expectativas para o futuro ao «grau de efectiva participação das pessoas, até onde estão dispostas a ir efectivamente, ou se vamos continuar a encher as páginas do Facebook de lamentos. Se estamos dispostos – e não é claro que estejamos – a uma clara inflexão, bloqueando este esquema de distribuição geral da miséria.» Perguntando-se «que país queremos deixar aos nossos filhos? O que lhes vamos deixar? Casas a cair de podre?» Terminando com as ligações para «dois artigos que publi[cou] sobre este tema, mais desenvolvidos», no início de Dezembro de 2013. Um no jornal «i» outro no Público. Há assim uma diferença tão grande entre «encher as páginas do Facebook» e encher as páginas dos jornais? A diferença óbvia é que os jornais são para as elites encherem e no Facebook qualquer gato-sapato, borra-botas, como eu ou até mesmo Raquel Varela, pode escrever. O que fica por esclarecer é a que filhos se refere.

    • O que fica por perceber não é a que filhos a Raquel se refere. O que fica por perceber é o que você quer dizer. A Raquel escreve bem ou o que diz faz sentido? É uma elitista porque consegue publicar textos nos jornais (que só seriam lidos por elites) ou só deveria escrever «para o povo» no Facebook? Vale a pena fazer alguma coisa, ou é melhor andar pelas redes sociais a dispara(ta)r contra os que tentam fazer alguma coisa?

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