Um lugar para a educação

Choca-me tanto o CDS querer descer a escolaridade obrigatória como a progressista ideia de “esquerda” de não haver chumbos. Na vida há muitas ideias, não há só duas. Andamos entre os defensores da escola “fascista”, desigual, e os partidários do paternalismo e do facilitismo total, como se não existissem outras hipóteses de organização da educação. A escolaridade obrigatória em Portugal tem sido feita sem qualidade – atirando uma massa de crianças e jovens para a ignorância. O modelo PS foi esse. O modelo PSD/CDS é o do elitismo. Não apoio nenhum. Um ignorante é-o com registo estatal (diploma) ou sem ele, infelizmente.
Alguma classe média adora chocar-se com «os pobres que têm um telefone caro». Esquece-se que um telefone complexo é muito mais barato do que ter prazer a ler um livro porque para ler um livro é preciso ter lido muitos, é preciso conhecer o vocabulário, compreender as palavras, situar os lugares. Para ler um livro é preciso pais que leiam livros e que os tornem aquilo que são – viagens pelos mundos da humanidade. É preciso pais que tenham cultura suficiente para tirar os filhos da frente da televisão, a super babysitter do século XXI. Ter um telefone e mandar mensagens é uma actividade barata. Para se ir a um concerto e não o achar aborrecido e ter prazer é preciso ter aprendido a gostar de música, ter ouvido boa música. A educação musical em Portugal nas escolas podia ser aprender a ler música e tocar um instrumento – em vez disso tocam uns ferrinhos…Tocam ferrinhos porque assim a  força de trabalho está ocupada, prolongam-se os horários de trabalho e os putos ficam na escola ainda que a fazer algo inútil.
Um ignorante é-o porque não desvela o conhecimento, é-o porque é iletrado – lê mas não compreende o que lê; é-o porque em vez de ir dar um passeio no jardim fica a ver na televisão as personagens passearem no jardim.
Tudo isto se muda com muita facilidade mas não se revolve tirando os putos da escola nem os colocando lá inutilmente. Resolve-se gastando muito dinheiro, em muitos professores, em turmas pequenas, em professores universitários que formam os de secundário, numa sociedade saudável de pleno emprego e acesso à cultura. Claro que para isso não se podem construir 10 estádios de futebol ou pagar a dívida pública, “dívida” que do ponto de vista económico é exactamente o mesmo que construir 10 estádios de futebol.

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21 respostas a Um lugar para a educação

  1. Hugo diz:

    acho que este texto peca por confundir a árvore com a floresta… A escola pública teve qualidade crescente até à chegada da ministra de má memória que foi M Lurdes Rodrigues – tanto que dela se gerou a “geração mais qualificada de sempre”, da qual faz parte a Raquel Varela (supondo que andou na escola pública). Desde então, o ataque à educação, que começou com a demonização dos professores e depois a treta da avaliação e depois os cortes deste governo, arrasou com as aquisições da escola democrática (que o foi realmente) – se algo subsiste ainda, é por milagre – e os milagreiros serão os professores, que não há outros. Não se pode confundir um mau professor de música com todo o sistema – isso é uma falácia imperdoável (o que dirão os professores de música que lêem este texto?). E embora eu não goste do PS, não vou a ponto de aceitar que se acuse todo o PS por haver maus professores de música… isso é demagogia e invalida todo o argumento 😦

  2. vitor r diz:

    Essa da esquerda defender que não deve haver chumbos, é dizer que se pode estar na Escola mais balda que exista. É dizer que se pode estar numa escola, sem se aprender.

    A quem tem servido isto? Àqueles que preferem a Privada. Aos que agora defendem o cheque ensino.
    As pessoas com juizo querem que os seus filhos aprendam, para terem emprego. Não querem que passem por passar, e um dia vão a uma entrevista e não sabem fazer nada, não sabem dizer nada. Não tem cultura e nem são contratados. Se forem é para trabalhos menores, e são despedidos pouco depois.
    Perante essa da escola sem chumbos, qualquer Pai e Mãe quer meter os filhos na privada. Fica muito melhor em qualquer curriculum.
    Negar isto, é negar que para entrar na excelentes escolas médicas de Cuba, só alguns entram. E quem chumba, não pode entrar para Medicina. Isto é tão evidente que só esquerda sem nexo pode defender o não-chumbo. É tao evidente que só tira votos à esquerda.

    E muito mais havia a dizer.

    • Raquel Varela diz:

      Chumbos não são sinónimo de qualidade, mas cá como não se investiu na qualidade deixou-se de chumbar. É o mesmo que colocar blush num doente anémico. Não muda nada a não ser na aparência. Uma escola de qualidade não precisa de chumbar ninguém, mas isso implica um acompanhamento de professores e alunos que exige um investimento gigante, que na minha opinião, deve ser feito. Cump

  3. A JP retirou a moção, exactamente porque ela não colhe apoio no CDS.

  4. Mário Machaqueiro diz:

    Excelente texto, Raquel, que subscrevo de uma ponta à outra. Infelizmente, quem podia fazer a diferença nas escolas – os professores – está hoje reduzido ao estado de espírito que se documenta aqui: http://educar.wordpress.com/2014/01/12/estado-de-negacao-2/

  5. Vitor Coimbra diz:

    Muito bem organizado este grande artigo que subscrevo na totalidade, pois que partilho estas ideias. Talvez com a excepo da questo da dvida pblica ser igual construo dos dez estdios de futebol. Penso que deve ser mais, mas isso irrelevante, o importante mesmo a ideia brilhante que d a propsito dos estdios que no servem para nada. imagine-se o dinheiro dos estdios para a educao, ou mesmo para a sade, ou at, porque no, abater dvida pblica?

    No dia 12 de Janeiro de 2014 s 13:21, cinco dias escreveu:

    > Raquel Varela posted: “Choca-me tanto o CDS querer descer a > escolaridade obrigatria como a progressista ideia de “esquerda” de no > haver chumbos. Lamento mas na vida h muitas ideias, no h s duas. > Andamos entre os defensores da escola “fascista”, desigual, e os > partidrios “

    • Raquel Varela diz:

      Boa noite caro Vitor, a minha ideia não era dizer que o valor era idêntico mas o tipo de economia. Obg

  6. JgMenos diz:

    Ignorem-se as ‘grandes soluções’ como seriam ignorar-se a dívida ou fazer de conta que não somos pobres.
    Como se vai manter o ensino obrigatório (12º ou 18 anos) com exames nacionais que vão manter matulões cretinos ou cábulas nas salas dos miúdos?
    No sistema facilitista eram empurrados para diante e certificados para estatística ver.
    Agora, ou muda a lei ou se gasta dinheiro inútilmente.
    Que saibam ler e contar, e mais uns pós, mas troquem a teoria dos conjuntos por uma qualquer profissão de que saibam viver.

  7. 25sempre25 diz:

    «em professores universitários que formam os de secundário»

    Olha, olha, um assunto excelente para um post…

  8. Tiago Mota Saraiva diz:

    Dizer que o PS quer acabar com os chumbos é o mesmo que o PS dizer que o PECIV era a salvação. Pode-se repetir muitas vezes, mas não transforma a mentira em verdade.

  9. Isabel PBP diz:

    Descer a escolaridade obrigatória do 12º para o 9º, ficam fora da escola os jovens dos 15 aos 18 anos. O que vão fazer? Que andarão a “aprender? Qual a integração social?
    O lugar dos jovens é na Escola, nas suas várias formas.
    O CDS está interessado em aumentar a marginalidade?
    É mais económico termos gangs de jovens ignorantes?

    Outro assunto;
    Porque é que toda a vida escolar é pensada para o acesso e êxito na Universidade?
    Começa no Pré-Escolar a preocupação de preparar para o ciclo seguinte. Isto é uma escola? É ensino/aprendizagem? É motivador para os alunos?
    Todos conhecemos as chantagens; – Senão sabes isto chumbas no exame
    – Se não estudas chegas à Universidade sem saber escrever
    Etc
    Que tal ensinar o presente e não perder tempo com essas baboseiras?

    Menos alunos, mais professores, mais apoios, mais inclusão, mais exigência. Isto só é possível com maior investimento ao nível dos recursos humanos e físicos.

    • Rafael Ortega diz:

      “Descer a escolaridade obrigatória do 12º para o 9º, ficam fora da escola os jovens dos 15 aos 18 anos. O que vão fazer? Que andarão a “aprender? Qual a integração social?”

      isso que diz não tem sentido nenhum.
      Eu estive na escola dos 15 aos 18 anos, fiz o 12º (e mais, mas para o caso não é importante) e na altura era só obrigatório fazer o 9º.

      Eu estive na escola porque quis e não porque a lei me obrigasse (e milhares de outros alunos também).

      “O lugar dos jovens é na Escola, nas suas várias formas.
      O CDS está interessado em aumentar a marginalidade?
      É mais económico termos gangs de jovens ignorantes?”

      Um lugar de um jovem de 16 anos (que pode ser responsabilizado criminalmente pelos seus actos) ou de um de 18 (que pode votar ou ir à guerra) é onde bem lhes aprouver, seja escola ou trabalhar.

      Não é por a escola ser obrigatória até aos 18 anos que deixam de ser ignorantes ou marginais, os que o quiserem ser vão continuar a ser.

  10. José Rato diz:

    Se considerar esquerda o PS então as coisas vão mesmo mal, porque não é carne nem é peixe, se considerar esquerda o PCP e na dúvida o BE, se ler os documentos pelo menos do PCP não vai ler em nenhum que não que chumbos, vai ler coisa muito diferentes, e é bom que leia.

  11. Paulo Luís diz:

    A meu ver o começo da descida da qualidade na educação começou com o aparecimento de Escolas Superiores de Educação (ESEs) e outros Institutos formadores de professores que atribuíam notas superiores às atribuídas nas Universidades devido ao seu menor grau de exigência. Como os alunos no secundário preferiam sempre as Universidades, pois tinham consciência que a formação dada nestas era melhor (isto daria outro post), os melhores alunos no secundário acabaram por ser prejudicados, pois acabaram as suas formações universitárias sendo preteridos nos concursos de acesso, pois tinham médias de curso mais baixas. Muitos alunos formados nas ESEs não possuíam os mais elementares conhecimentos da língua portuguesa (isso foi muitas vezes confirmado por mim pessoalmente na qualidade de formador), sendo de áreas como História, entre outras. Como é que alguém que não domina o Português conclui um curso superior, ainda por cima na área das Humanidades? Como é que conclui o secundário sequer? Depois cria-se um ciclo, obviamente: maus professores na secundária formam alunos mal preparados, etc, etc, etc. Será preciso um investimento muito grande na educação a vários níveis em Portugal para voltarmos a ter um ensino público de qualidade na maior parte do país. E tal demorará muito tempo! Aumentar ou reduzir a escolaridade obrigatória, quando a mesma não tem qualidade torna-se, a meu ver, irrelevante.
    P.S. Tenho 39 anos, sempre frequentei a escola pública com sucesso, dei explicações enquanto era aluno do ensino superior, dei aulas no ensino superior público e formação no privado.

  12. Tiago diz:

    “Esquece-se que um telefone complexo é muito mais barato do que ter prazer a ler um livro porque para ler um livro é preciso ter lido muitos”

    Parece fazer caminho a tentativa de florear as notas ensaísticas com um estilo literário que dá péssimos resultados, além de se conseguir escrever uma frase com 27 palavras sem vírgulas, chamava apenas a atenção de uma coisa, quando li o meu primeiro livro nunca tinha lido nada, se é que me percebem.

    Existe uma concepção de superioridade cultural que é a antítese do pensamento de esquerda. Um grande romance não precisa da leitura dos romances que lhe precederam. Ler a Mãe do Gorki, um Vinhas da Ira, um Levantado do Chão, não exige a leitura de clássicos, da litetarura russa clássica ou portuguesa, exige disponibilidade mentar para absorver com sentido crítico a beleza das palavras e a mensagens dos seus autores, que é uma coisa muito diferente.

    Mas de nós, que se esta concepção fosse levada a sério, tinha de reler todos os meus livros de adolescente porque afinal não tinha percebido nada do que lá estava (ainda não tinha lido nada…). A vaidade não é boa conselheira para ninguém.

  13. O estado pode ajudar ou não ajudar, mas o estado da educação só tem dois culpados: quem ensina e quem aprende.
    Se os professores tivessem todos qualidade e amor a ensinar (a maioria não tem pelo menos uma, muitos nenhuma das duas), então os alunos poderiam aprender. Eu tenho de estar a re-ensinar à minha filha de 7 anos, coisas que a professora primária lhe ensina mal.
    Mas a maior culpa está em quem aprende, ou melhor, em quem é responsável por quem aprende. Não posso culpar os alunos por não quererem aprender… há tanta coisa mais divertida para fazer. E se não há ninguém que lhes passe a importância de aprenderem, porque razão se hão-de esforçar?!?
    Os pais, que na sua maioria, se demitem de educar os filhos (a escola é para ensinar, não educar), que se preocupam que os filhos passem, e não que os filhos saibam, que delegam na televisão a companhia para os filhos. Esses pais são os maiores culpados do estado da educação.
    Se estes dois actores fizessem o que é a sua obrigação com qualidade, o estado podia remover qualquer obrigatoriedade de andar na escola, ou podia facilitar à vontade, porque iria fazer muito pouca diferença.

  14. Ypslon diz:

    Concordo com o artigo mas…
    Adorava ir a uns quantos concertos, cinema, comprar livros, música. Não posso.
    Os sms são caros! Isto porque o governo é muito meu amigo e não quer que eu trabalhe, muitos haverá que não têm este tratamento mas a economia doméstica é uma lástima. Como o embrulho vale mais que o que embrulha (pode ser nada!), contraem-se empréstimos para férias e carros, passa-se fome mas… o estatuto, o brilho de coisa nenhuma!
    As opções não são culturais (o fascismo era anti cultura), discotecas e mp3 com som horrível mas produzidos por smarphones ou phablets fazem com que os putos não chateiem, um aparelho permite uma data de tralha, os preços deles dariam para muitos concertos e livros mas… foram 48 anos, serão precisas gerações para os efeitos não serem tão visíveis

  15. No meio dos comentários todos (e também na mensagem de abertura) há algo que me deixa uma «pedra no sapato»… Não sei da idade dos comentadores mas suspeito que a maioria parece não saber (ou não se lembra…) de que no tempo da «outra senhora» havia uma coisa chamada «Ensino Técnico Profissional». Eram as «escolas industriais», «escolas comerciais», «escolas agrícolas»… E os respectivos «Institutos»… Não era o melhor sistema do mundo mas funcionava; e sobretudo parece que prepava os seus alunos para empregos concretos.
    Depois veio a denúncia de que «os liceus eram para os filhos da burguesia», «as escolas comerciais para os filhos da “pequena burguesia”» e «as escolas industriais eram para os filhos do “operariado”»…
    E portanto acabou-se com a discriminação… E de passagem deitou-se fora o bébé juntamente com a água do banho.
    Deve ter sido o erro (mais profundo) cometido a seguir ao 25 de Abril, por parte de alguns «pseudo-marxistas» e em nome de uma «pseudo-revolução». Curiosamente em os «Grundrisse» Marx falava justamente da necessidade (e importância crucial) do ensino técnico-profissional…
    Aquilo que nós (os formandos do tal ensino técnico-profissional) reclamávamos não era o fim desse tipo de ensino, era – muito complexamente – o reconhecimento social (e institucional) da sua validade real. E, em consequência, que quando um jovem adulto acabasse o ensino técnico profissional (muitas vezes em regime noturno), não tivesse que ir para o liceu fazer exames de modo a poder ir para a Universidade «estudar» muitas coisas que já estava farto de saber.
    Por exemplo, os diplomados pelos Institutos Comerciais e/ou Industriais, quando iam para tropa (apenas um exemplo, a “coisa” era similar no acesso a vários empregos), iam para os cursos de sargentos embora tivessem mais escolaridade (horas concretas de presença em aulas) do que «licenciados em Letras». Em compensação (e por contraste) um estudante com o sétimo ano dos liceus ia para o curso de oficiais…
    Parece que – quarenta anos depois – o IEFP passa a assumir o encargo das antigas escolas do ensino técnico-profissional.
    Era bom distinguir muito claramente – formação/educação para a cidadania de formação/educação para o exercício de activdades profissionais…

  16. Don Luka diz:

    Duas notas.
    Primeira: O ensino em Portugal precisa de consenso alargado, moderado por pessoas científica/pedagogicamente qualificadas (e não apenas por políticos, sindicatos e governantes, que têm mostrado não ter, por regra, competência, visão ou vontade para lidar com os problemas do ensino; ter estagiado nas jotinhas esquerdalhas ou direitalhas, a debitar palavras de ordem ou a rezar missa, não dá andamento para estas coisas); enquanto isto não acontecer vamos andar como baratas tontas, à vontade do freguês eleito.
    Segunda: o Fonseca-Slatter diz que no tempo da ditadura existia ensino técnico-profissional; é verdade, mas era um ensino com muitos problemas; era essencialmente frequentado por alunos provenientes das classes baixas, o que promove estados de clausura social e estigmatização (= falha na igualdade de oportunidades); era concluido por uma percentagem muito reduzida de alunos, o que configura um contexto de sucesso que não serve as sociedades modernas que apostam na educação. Concordo que a forma como esse tipo de ensino foi eliminado depois do 25A foi preconceituosa, teve tudo de motivação política e nada de visão estratégica. O ensino técnico-profissional, foi depois introduzido e eliminado por sucessivos governos, ao arrepio de todo e qulaquer consenso para a educação.

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