Quando observo Paulo Portas a inaugurar a contagem decrescente para a saída de Troika num exercício de cinismo soberbo, não vislumbro senão o maquiavelismo da fórmula política para manter o poder. Com hipocrisia tenta mascarar o que todos sabemos: o ajustamento estrutural está a revelar-se um sucesso. A banca portuguesa foi resgatada, as dívidas do Estado a esta foram asseguradas, os salários desceram, a flexibilidade do despedimento impôs-se e a redução do IRC favorece apenas grandes empresas burocratizadas com tentáculos fora do país. Sim, o memorando é um sucesso para a burguesia deste país e virou a correlação de forças a seu favor. Não vale a pena argumentar sob a premissa de que cerca de 25% da população vive na pobreza, que a fome aumentou ou pura e simplesmente de que o número de desempregados escalou a números astronómicos desde a presença da Troika sem que a dívida pública ou o défice tenham revelado descidas nos documentos orçamentais. Não vale mesmo a pena; esses epifenómenos são considerados danos colaterais para a construção de um modelo de sociedade pós-troika à imagem dos credores.
Verificamos então que é uma questão de opções económicas, como assevera Soares do Santos. Queremos a sociedade do desemprego estrutural abundante e da exploração sob o pretexto da livre escolha? A continuação do capitalismo centralizado que garante rendas do Estado a um pequeno número de grupos económicos? O país das privatizações, parcerias público-privadas e juros agiotas em troca das boas graças do FMI, Comissão Europeia, BCE e governo alemão e às custas do financiamento da educação, saúde e segurança social? O Soares dos Santos já escolheu. Quer um Portugal que possibilite o aumento de lucros em ano de austeridade à custa do baixo salário dos seus trabalhadores. Um Portugal onde o Dia do Trabalhador serve para atropelar conquistas e praticar dumping. Um território que pague a sua mudança de acções para a Holanda como escape à tributação. Não admira que elogie tanto o governo que personifica o “belo” capitalismo defendido pela face da Jerónimo Martins. Neste cenário idílico do grande capital, até a caridade é lucrativa e o Banco Alimentar serve como subsidiária.
Porém, resta-nos escolher o modelo de sociedade que nós queremos. Ficamo-nos pela condição de trabalhadores, lumpen e militantes do exército industrial de reserva ou fazemos uso dela para inverter a situação e começar uma transformação da realidade? O país dos quatro homens mais ricos de Portugal não é o nosso. No dia 21 de Dezembro, o pedido de cabazes é simbólico. O que é pedido pelo lado oprimido transcende a conjuntura. E não há censura que cale esta voz.
Cabazes de Natal Grátis para os Desempregados: 21 de Dezembro