A desobediência civil a um Estado que nos está a saquear é um direito

<< Pelo seu próprio estilo de vida e de pensamento, o nosso grupo estava já a esboçar uma situação, como um primeiro desembarque em pleno território inimigo. A metáfora militar é questionável, mas transmite a nossa vontade em libertar a vida diária do controlo e estrangulamento de uma economia baseada na exploração lucrativa do homem. Nós formamos um grupo-em-risco que estava consciente da hostilidade do mundo dominante, da necessidade de ruptura radical, e do perigo de ceder à paranóia típica das mentes sob cerco. Mostrando os seus limites e as suas fraquezas, a experiência situacionista também pode ser vista como uma meditação crítica sobre o novo tipo de sociedade esboçada pela Comuna de Paris, o movimento Makhnovista e a República de Conselhos dizimada por Lenine e por Trotsky, pelas comunidades libertárias em Espanha mais tarde esmagadas pelo Partido Comunista. O projecto situacionista não é acerca do que acontece assim que a sociedade de consumo é rejeitada e uma sociedade humana genuína emerge. Ao invés, ele esclarece agora como a vida pode suplantar a sobrevivência, o comportamento predatório, o poder, o comércio e o reflexo-de-morte.

(…) A moralização do lucro é uma ilusão e uma fraude. Tem de haver uma ruptura definitiva com um sistema económico que tem sistematicamente propagado a ruína e a destruição ao mesmo tempo que pretende, por entre a miséria generalizada, produzir um hipotético bem-estar. As relações humanas devem substituir e terminar com as relações comerciais. A desobediência civil significa desrespeitar as decisões de um governo que defrauda os seus cidadãos para apoiar o desfalque do capitalismo financeiro. Para quê pagar impostos ao estado-banqueiro, impostos usados em vão para tentar tapar o ralo da corrupção, quando pelo contrário podemos direccioná-los para a auto-gestão de redes de energia livre em cada comunidade local? A democracia directa de conselhos auto-geridos tem todo o direito de ignorar os decretos da democracia parlamentar corrupta. A desobediência civil a um Estado que nos está a saquear é um direito. Cabe-nos aproveitar esta mudança histórica para criar comunidades onde o desejo pela vida supere a tirania do dinheiro e do poder. Não precisamos de nos preocupar nem com a dívida pública, que encobre uma enorme fraude no interesse público, nem com o artifício do lucro a que eles chamam de “crescimento.” De agora em diante, o objetivo das comunidades locais deve ser o de produzir para si próprias e para si próprias todos os bens de valor social, atendendo às necessidades de todos – necessidades autênticas, isto é, não as necessidades pré-fabricados pela propaganda consumista.>>

Raoul Vaneigem em entrevista: http://www.e-flux.com/journal/in-conversation-with-raoul-vaneigem/

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