Turismo é para nós uma palavra gasta e mercantilizada. Viajar, pelo contrário, é envolver-se na cidade em que se está, não apenas em circuitos brilhantes e limpos de contradições – sob pena de se criar um zonamento, uma separação entre ‘locais’ e turistas, com base nos preços dos produtos e serviços. E gentrificação tambem é isso. Quem vem ao Porto vem ver esta cidade, não Viena, nem Praga – as tascas, as associações, os cafés, não são substituíveis por um ‘café-genérico’ em cadeia franchisada. O fecho de 20 lojas por dia na região indica o ritmo a que o comércio é afectado pela espiral descendente da austeridade, esvaziamento do centro, e perda de poder de compra da população.
Se ‘cidade’ e ‘política’ têm a mesma raiz, e se no ir à raiz é que está o radicalismo da coisa, porque não pensar, do particular para o geral, do Porto para o mundo, os resultados das políticas e caminhos escolhidos, na gestão do que é comum? Da ‘vontade de um mundo mais igual e justo’ ao ‘elogio do neoliberalismo’ foi um passinho de poucas décadas – do direito ao lugar ao direito ao lucrar, da globalização à nivelação por baixo do valor do trabalho, dos mercados (de frescos!) aos shoppings, da ilha ao condomínio fechado, da construção na periferia ao fachadismo no centro, da crise financeira à emigração em massa, da construção civil dependente da banca à banca dependente do estado … e ao estado a que isto chegou.
Guerrilla-marketing: a ironia é uma arma, de desconstrução – e declararmo-nos ‘os piores’, logo assim à primeira, arruma com quaquer ideia de concorrência. A estratégia de comunicação da TheWorstTours desenha-se a brincar e sem se levar a sério, em sentido oposto aos slogans neo-empreendedores e austeritários – ‘tours dentro das nossas possibilidades!’ ‘baixe as expectativas, sim?’ ‘estes não são os guias que você estava à procura, mas já que nos encontrou, marque uma tour!’ ‘as tours são chungas, mas o Porto é lindo!’ …contrapropaganda, no site como nos panfletos desenhados, fotocopiados, dobrados e agrafados em casa, espalhados por cafés, bares e ho(s)teis.
‘Promenade urbanistique‘ – maior em escala e em grau de incerteza, do que a promenade architecturale e também um passeio pelas ideias, propostas e escolhas, que são e fazem cidade, um caminho pelo espaço construído, uma re-sensibilização à cidade, um repensar das relações de poder.
Desde a metade dos anos 70 até hoje mudaram os problemas da cidade, como mudou o modelo de resposta pública. Se no Porto havia naquela altura sobrelotação no Centro Histórico e se se optou então por uma política pública de redistribuição de recursos (do SAAL ao PER, passando pelo CRUARB) hoje falta gente, sobram espaços desocupados e mais de 70% dos edifícios na área do centro histórico necessitam de obras gerais de intervenção.
Entretanto, a construção nova, fora do centro, mais rentável por ser em maiores lote(amento)s, floresceu, apoiada no crédito. O Estado demitiu-se então da função de regulador das pulsões de lucro dos privados, para passar a ser o coordenador/facilitador das mesmas. Agora, sob a batuta do poder público, os interesses imobiliários tentam repetir o padrão de resposta suburbana, não mais à escala-lote mas à escala-quarteirão, no Centro. Resultado? Pracinhas com portão sobre o incontronável parque de estacionamento, nas traseiras do hotel de cinco estrelas – fachadismo e apartamentos a uns inacessíveis 2206€/m2.
Isto são escolhas, políticas e tão possíveis como, nos tempos do SAAL, a escolha do apoio às comissões de moradores e às cooperativas, distribuindo poder, para que estas gerissem localmente o processo de resolução do problema da habitação. … Como é também uma escolha ver o Bolhão a um horizonte de outros cem anos – qual Boqueria, em Barcelona – ao invés da miopia política de querer caricaturá-lo, como ao Bom Sucesso, em nome do lucro de uns quantos, a curto prazo.
Hoje, em tempo de falência do modelo financeiro (parece que por mais que enterremos dinheiro nos bancos eles teimam em não o redistribuir, ninguém percebe bem porquê) e em que falta e faltará dinheiro para investimento e resolução dos problemas actuais do Porto, há que perguntar:
… e se o poder público local se constituísse como interlocutor entre proprietários e proponentes à reocupação de espaços (comerciais, industriais, e outros) ajudando ao estabelecer de contratos de comodato, para fins produtivos, associativos e artísticos?
… e se a CMP emprestasse espaços, e não só alugasse (o simbolismo é muito lindo, mas simbolismo de quê?)?
… e se se isentassem esses espaços do pagamento de impostos e taxas municipais e a CMP garantisse apoio técnico sobre todo o processo?
Há exemplos, já, de soluções deste tipo: com o efeito da vaga de novos shoppings de periferia a abrirem a partir dos anos 90, em Gaia e Matosinhos, o Centro Comerial STOP, em declínio, começou a ser ocupado por bandas de música da cidade, para funcionar como salas de ensaio. Por acordo mútuo com os proprietários (facilitado pelas baixas rendas) mais e mais espaços de lojas foram sendo adaptados até à plena reocupação dos 68 espaços comerciais por mais de 100 bandas e 300 músicos. Este é um processo cooperativo de reutilização por contraponto a uma rehabilitação formal que faz re-viver uma estrutura de grande escala. Não será este um ‘modelo’ a replicar?
The Worst Tours (ao fim de um ano, em jeito de balanço.)