Ciência em Portugal: pôr fim aos lamentos

Sou uma das subscritoras do plenário que vai ter lugar hoje, da ciência.
Esta minha nota é feita, porém, em nome exclusivamente pessoal.

A democracia representativa é aquele sistema que existe quando não queremos exercer a democracia directa. A democracia directa não é, para mim, pôr bombas ou gritar alto, é algo muito mais decente, profundo e proveitoso: exercer o controlo diário, sério e directo sob as várias dimensões das nossas vidas, em sociedade. É cansativo, sem me permitem uma nota pessoal. Passei uma semana infernal com alguns colegas onde gerimos talvez 1 milhar de emails e dezenas de telefonemas para que este plenário, hoje, pudesse realizar-se. Não conheço a maioria, não sei se são de direita, se de esquerda, simpáticos ou antipáticos, altos ou baixos. Nem me interessa. Interessa-me as discussões abertas, as votações claras e as decisões colectivas. Regras claras para que possamos ter um pedaço da nossa vida nas nossas mãos.

Teria estado esta semana, talvez como todos eles, melhor a escrever e a ler ou refugiada num arquivo silencioso, alguns deles num qualquer laboratório. Mas não nos deixaram alternativa. Ou só nos deixaram como alternativa ser governados por gente indecorosa, que fere as leis, ultrapassa o bom-senso mínimo, e, sobretudo, atinge dimensões essenciais da nossa dignidade.
Hoje há um plenário de professores, investigadores e bolseiros, chamado por 200 investigadores, no ICS, às 18 horas, que tem como ordem de trabalhos 2 pontos: as irregularidades do concurso FCT 2013 e a discussão do Emprego Científico em Portugal. É um plenário de todos os que estão envolvidos na educação e investigação universitárias. Não é um problema dos jovens precários nem dos catedráticos, é um problema sério de todos nós: está na hora de abandonarmos os lamentos individuais e assumir as responsabilidades colectivas, cansativas, pois claro, mas não tão cansativas, não tão desgastantes, como continuarmos a viver neste Estado a que chegámos.

Ou é isto ou «o último  sair deste país que feche a porta»

 

APELO Irregularidades na Avaliação do Concurso Investigador FCT 2013

Apelo a professores do quadro, investigadores empregados e desempregados, bolseiros dos vários níveis

Reunião no dia 9 de Dezembro às 18 horas

Instituto de Ciências Sociais, Sala 3. 

Av. Prof. Aníbal de Bettencourt 9, 1600-189 Lisboa

Contacto: emprego.cientifico@gmail.com

O concurso Investigador FCT 2013 foi pautado pela ausência dos mais elementares direitos democráticos.

A maioria dos candidatos, com currículos de excelência (dezenas da artigos, projectos financiados, vários livros como autor, doutorandos sob orientação, e mesmo coordenadores de linha) foram impedidos de ir a júri internacional por um processo de selecção interna, arbitrário, obscuro, do qual se desconhecem os critérios científicos e, cremos, passível de impugnação judicial.

Mais de 1000 doutorados foram eliminados no Concurso FCT Investigador 2013, num processo que pode configurar para muitos um despedimento de facto e para os que ficam uma sobrecarga horária, com perda de qualidade crescente para as Universidades.

Não aceitamos:

1)    Uma pré-selecção interna que elimina as pessoas impedindo-as de ser avaliadas por um júri internacional, sem que os eliminados saibam quem foi o júri e se o seu currículo os habilita a decidir sobre as suas vidas, se é uma equipa ou quem os eliminou, e quais foram os critérios usados para formar a sua decisão, se que seja até hoje possível contestar a decisão.

2)    Comunicação de resultados sem que os candidatos conheçam o júri, a acta ou ordem de colocação dos candidatos. Nada é público, até agora. Na verdade, a FCT limitou-se a enviar uma mensagem por correio electrónico a estes mais de 1000 doutorados onde lhes comunicava a eliminação do concurso.

3)  A contínua precariedade do trabalho científico, que se reflecte na abertura exígua de vagas em concursos, que:

a) aumenta brutalmente a carga horária sobre os que estão a trabalhar

b) conduz ao desemprego cíclico e a salários cada vez mais baixos

c) à emigração ou à impossibilidade de retorno ao país de uma geração inteira, altamente qualificada, de investigadores.

Apelamos a todos os investigadores, de qualquer área científica ou instituição, que estejam neste momento como bolseiros, desempregados, ou investigadores com contrato, que se juntem a nós numa reunião geral para decidir que medidas tomar face a esta situação.

Este apelo é assinado inicialmente pelos seguintes investigadores. Se deseja juntar-se ao apelo por favor contacte-nos para emprego.cientifico@gmail.com

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2 respostas a Ciência em Portugal: pôr fim aos lamentos

  1. JgMenos diz:

    Num pouco estou solidário com a vossa acção: isto de ser desclassificado e não poder acusar ninguém de incompetente, corrupto ou até fascista, é frustração inaceitável.
    Quanto à Ciência: voitos de bom destino.

  2. Jorge N diz:

    Como concordo consigo quando diz que a democracia representativa existe quando não queremos exercer a democracia directa. 🙂

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