Uma pergunta rápida

Repararam na forma agoniativa com que, nestes últimos dias, os telejornais da SIC se esforçaram por branquear a imagem de Cavaco Silva a propósito da miserável tomada de posição do seu antigo governo na votação da resolução da ONU a favor da libertação de Mandela? Há, de facto, um tipo de “jornalismo” que só se aguenta obstruindo as narinas.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em 5dias. ligação permanente.

18 respostas a Uma pergunta rápida

  1. JgMenos diz:

    É tal o hábito de ver os mídia a chafurdar em todo o lixo que se lhes atira, que quando investigam e proclamam a verdade ofende o olfato dos lixeiros!

    • Mário Machaqueiro diz:

      Qual verdade? A de que o governo de Cavaco Silva, na pessoa do seu representante na ONU, votou contra uma resolução que defendia a libertação incondicional de Nelson Mandela? Porque é isso que está em causa, não?

  2. Bolota diz:

    Já propus por ai, elevar o CINISMO de cavaco a par da dieta mediterrânica a patrimonio mundial.

    No caso BPN, judtificou o injustificavel, MAMOU e ponto final.
    No caso de Mandela, apesar dos documentos oficiais, sem os desmentir diz que Mandela lhe agradeceu tudo o que fez por ele.
    Para já não falar no seu envolvimento no caso do NOBEL de Saramago.
    Quem o propuser , leva como contrapeso a Maria Cavaca que hoje inaugurou um museu do presépio.

  3. Argala diz:

    Esta merda do Mandela já começa a cheirar mal. Enterrem lá o bicho.

    Curto e grosso é assim: Mandela lutou sim durante décadas pela emancipação das classes trabalhadoras, e depois cagou d’alto e preferiu fazer o papel de palhaço nas mais diversas cortes, passeando com Bush, Clinton, a realeza espanhola e inglesa, entre outros figurões. No último período da sua vida, decidiu ignorar os mais pobres e ir brincar com outros meninos. Pois então os outros meninos que tratem do cerimonial e nos deixem em paz.

    • Mário Machaqueiro diz:

      E não acha que essas considerações são assim a modos que… redutoras para uma trajectória política que, com todas as suas contradições, não se pode resumir num juízo sumário?

      • De diz:

        Ora aí estamos completamente de acordo.
        As caricaturas (incorrectas ainda por cima) da realidade tendem sistematicamente a deturpar a realidade.
        Sobra esta necrologia patética de Argala, com que se quer embrulhar, distorcer e subjugar o real.
        Com que intuitos fica para uma ocasião posteior

  4. Luis Moreira diz:

    Eu reparei que não se lembraram da posição do PCP em relação ao ex presidente da Checoslováquia Havel. Um vómito!

    • Mário Machaqueiro diz:

      Como não sou do PCP, nem aprovei semelhante posição (e qual era, já agora?), suponho que este comentário não se me aplica nem ao meu “post”.

  5. Pingback: Sick | cinco dias

  6. Dezperado diz:

    “Repararam na forma agoniativa com que, nestes últimos dias, os blogueiros esquerdistas esforçaram por branquear a imagem de Cavaco Silva a propósito da miserável tomada de posição do seu antigo governo na votação da resolução da ONU a favor da libertação de Mandela? Há, de facto, uns tipos blogueiros que só se aguentam obstruindo as narinas.

  7. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Mário,
    Como não consegui que o comentário que se segue tivesse sido publicado por um outro blogueiro aqui do 5 dias, pedia-te que permitisses a sua publicação aqui, embora o tema não seja directamento o do teu post. Mas é uma reflexão de carácter geral que pode vir a propósito. Desde já obrigado.

    “Uma ideologia é uma construção mental artificial que procura estabelecer como uma sociedade se deve organizar e como um povo deve agir, com base em pressupostos em grande parte fantasiosos. Uma ideologia não procura entender uma comunidade na base de realidades tanto biológicas como psicológicas, mas na base de desejos e preconceitos que pouca ou nenhuma ligação têm com a realidade. A ideologia não vê o mundo como é, mas como ele deveria ser com base nesses preconceitos. Não procura melhorar, procura transformar. E normalmente conduz as sociedades para o totalitarismo e para a opressão.

    Isto não significa que uma sociedade não reconheça valores e princípios, e que não deva orientar-se pela ética. Uma sociedade deve viver tendo como objectivos a liberdade e a defesa dos direitos humanos, e portanto deve ser radical na luta contra a opressão e a exploração a todos os níveis e sob todas as formas. Mas isso mesmo significa que a sociedade deve estar preparada para aceitar uma diversidade de abordagens para pôr em prática esses valores, e de soluções para as patologias sociais, conforme as circunstâncias em cada momento, e não tentar impor visões únicas e métodos ineficazes, apenas para se conformar com a cartilha da preferência da oligarquia de serviço.”

    • Mário Machaqueiro diz:

      Olá Nuno,

      É muito provável que não tenha sido um ímpeto censório a impedir que essa tua reflexão fosse publicada, mas tão-só o facto de o autor do “post” nem sequer ter reparado que o teu comentário estava pendente. Já me aconteceu constatar que o gmail nem sempre me avisa sobre todos os comentários que ainda não publiquei.
      Um abraço

    • Carlos Carapeto diz:

      O Anarquismo não é também uma ideologia?

      Se não é em que contexto social se insere?

      Ao contrário daquilo que os seus detratores pretendem fazer crer no Anarquismo existem leis e regras, regesse por padrões morais e sociais.
      Se os seus membros não obedecem a uma autoridade centralizadora, obedecem ao “governo” instituído dentro da comuna. Por consequência as comunas comunicam entre si formando grupos inter comunais.
      Era giro as comunas fecharem-se em si próprias cortando todos os laços com outros grupos.
      Ás tantas regressavam à idade da pedra?

      • Nuno Cardoso da Silva diz:

        O anarquismo não é uma ideologia, é um estado de espírito. É a recusa da imposição e da opressão a todos os níveis. Mas reconhece regras e organização, só que a organização deve vir de baixo para cima e as regras têm de ser consensuais. As pessoas associam-se livremente em função dos seus interesses e das suas circunstâncias. Essas associações federam-se em tantos patamares quantos forem necessários até se abranger a totalidade da comunidade soberana. A procura de consensos pode complicar a tomada de decisões, mas uma vez alcançado esse consenso a contestação passa a ser residual. Quem não aceitar as decisões consensualmente alcançadas não é punido, nem preso, nem executado. É excluído e deverá encontrar poiso noutro qualquer lugar. Necessariamente a economia tem de ser cooperativa, e cada empresa é uma comunidade que se gere da mesma maneira consensual. Não minimizo os problemas de se pôr em prática um tal sistema, mas mesmo que ele seja dificil de implementar a 100%, já é uma melhoria substancial sobre todas as alternativas. E nomeadamente as que são queridas aos marxistas-leninistas.

        • Mário Machaqueiro diz:

          Já agora, meto também a minha colherada nesta discussão. E, se me permitem, começo por uma referência bibliográfica que muita gente devia ler – embora não seja fácil apanhar este livro, pois está esgotado há algum tempo (mas consegue-se arranjar um exemplar nos alfarrabistas on-line). Trata-se de um livrinho do grande historiador Marc Ferro, intitulado “Des soviets au communisme bureaucratique”. É uma compilação de documentos, comentados por Ferro, que cobrem o período que, na Rússia, mediou entre a revolução de Fevereiro de 1917 e os primeiros anos após a tomada do poder pelos bolcheviques em Outubro de 1917. Desse livro conclui-se que foi muito rápido o processo de desvirtuamento das organizações de base popular – os sovietes, os conselhos de fábrica, os conselhos de bairro, etc. -, desvirtuamento no sentido da sua oligarquização, isto é, da sua gradual apropriação por indivíduos ou grupos não eleitos, que o haviam sido inicialmente mas que depois se perpetuavam na cúpula desses órgãos, ou que eram simplesmente cooptados para eles sem passarem por qualquer eleição. E este processo de desvirtuamento não democrático dos órgãos daquilo que deveria ser, supostamente, a democracia mais participativa do mundo começou muito cedo, bem antes da tomada do poder pelo partido de Lenine. Marc Ferro mostra que todos os partidos socialistas, tanto os de inspiração marxista (mencheviques incluídos) como os que vinham do populismo russo – os socialistas-revolucionários – manifestaram a mesma tendência e a mesma tentação para oligarquizar esses organismos de raiz inicialmente popular – criados por operários, marinheiros e soldados – ou mista – criados já com uma forte componente partidária, como foi o caso do Soviete de Petrogrado. Ora, isto não aconteceu devido (apenas) a uma perversidade congénita dos partidos enquanto organizações que, por si, já revelam propensão para o oligarquismo institucional. Aconteceu por um motivo mais simples e de que pouca gente gosta de falar: pela própria desmobilização das “massas” ou das pessoas “anónimas” que, a princípio, participavam intensamente nas reuniões desses órgãos, mas que depois se foram cansando e abandonando tais estruturas a quem tinha disponibilidade psíquica para continuar a participar em infindáveis reuniões que, aliás, com o tempo se foram tornando cada vez mais raras. E estou a falar, sobretudo, do período que vai de Fevereiro a Outubro de 1917, quando a ditadura do Partido Bolchevique não se tinha ainda imposto.
          A conclusão a retirar disto é que a grande maioria das pessoas não tem qualquer apetência pela acção política e pelo envolvimento participativo em órgãos de decisão democrática, preferindo delegar em representantes seus a tarefa de tomar por elas as decisões que regulam as suas vidas. Só em momentos muito breves de ruptura revolucionária é que a maioria dos cidadãos sai do seu torpor apolítico. Esses momentos são, porém, a excepção e não a regra, e depressa se volatilizam. Hannah Arendt percebia isto muito bem, e quando escreveu o seu livro “On Revolution”, elogiou os conselhos soviéticos, não tanto como órgãos de democracia participativa, mas como órgãos que serviam para selecionar democraticamente aqueles que tinham “vocação política”, ou seja, vontade genuína de agir politicamente. Arendt, claro está, idealizou os sovietes que, como Marc Ferro demonstrou, não funcionaram exactamente dessa maneira. Mas o ponto essencial do argumento de Arendt é que são necessárias instituições políticas que possam mediar entre os cidadãos comuns, que não têm qualquer inclinação para a participação política por estarem interessados simplesmente em viver as suas vidas privadas, e aqueles que os representam. Por outras palavras: sem que tal signifique eliminar a prática da democracia participativa, importar criar outro tipo de órgãos que possam compensar a desmobilização cívica que sempre acompanha a participação democrática – e desde tempos imemoriais, pois não era necessário, na Atenas da Grécia antiga, pagar aos cidadãos para eles comparecerem na Ecclesia, a assembleia onde se tomavam as decisões colectivas (excluindo as mulheres, os escravos e os estrangeiros, claro)? É que sem essa mediação institucional, incorremos na ilusão perigosa de que há uma plena coincidência entre o órgão e a vontade popular. Sem se perceber que esse órgão já foi, muito provavelmente, tomado por uma minoria, abre-se o caminho para a distorção totalitária da democracia participativa.
          Por que é que estou com esta conversa demasiado longa? Porque me parece, caro Nuno, que o anarquismo também incorre facilmente na ilusão de que os cidadãos são permanentemente mobilizáveis para a participação política. Não o são, e não é por estarem alienados. É apenas porque, no entender de muitos, têm mais que fazer.

          • Nuno Cardoso da Silva diz:

            Mário,
            Tens toda a razão, e é esse o argumento que utilizo em aula para chamar a atenção para as dificuldades de fazer funcionar a democracia, mesmo a representativa. E estou bem ciente de que a fórmula libertária embateria no mesmo problema. Mas espero que a apatia afecte principalmente os que não estão insatisfeitos, pelo que a acção da minoria activista – que pode sempre ser aumentada pelos apáticos se estes acharem que há razão para voltar a participar – pode continuar a ser legítima se for democrática e não tentar excluir permanentemente os temporariamente ausentes. Na Eclesia ateniense só entravam seis mil, mas eram quaisquer seis mil dos cerca de trinta mil cidadãos com direito a lá estar. A estrutura libertária só teria de garantir essa mesma liberdade de presença a quem quisesse, funcionando democraticamente e por consenso com quem estivesse presente. Mas a tua objecção é fundamental e deveria ser compreendida por quem anda na política. Obrigado.

Os comentários estão fechados.