As condolências avultam-se desde o falecimento do Madiba. O seu desaparecimento revelou o que já se previa em matéria de contradições e aplausos. Chegámos ao ridículo de assistir aos lamentos de líderes mundiais que mais não fizeram do que sujar a luta contra o apartheid sul-africano, seja como processo factual ou simbólico face à opressão. É difícil encontrar uma personalidade que reúna tanto consenso em diferentes espectros políticos, mais complicado se torna criticá-lo quando a sua memória ainda está bem presente no nosso imaginário. Esta diversidade passional é bem reveladora da incongruência do percurso do primeiro líder negro sul-africano.
O resistente Nelson Mandela causava temor ao Ocidente. Um militante jurista astuto e formado em Joanesburgo do ANC que se tornava uma das faces dos muitos que ansiavam uma Revolução que causasse fim ao regime vigente. Um país onde 90% da indústria e da agricultura se encontrava nas mãos dos brancos e um prato na balança no equilíbrio entre potências nas guerras pela libertação que serviam a disputa de um mundo bipolar. Basta recordar por exemplo o auxílio a Jonas Savimbi em Angola. Mal seria se este “terrorista” e o seu agrupamento político apoiado entre outros por Fidel Castro conseguisse derrubar o status quo. Assim se compreendem os 27 anos de reclusão em Robben Island acompanhado por muitos outros camaradas.
O fim do racismo oficial e declarado não chegou como muitos esperavam. O sangue que corria entre muitos activistas e explorados foi quase esquecido quando De Klerk governou de 1989 a 1994 e empreendeu a mudança institucional e gradual que se esperava. Libertou Mandela, ganhou um Nobel e facilitou a transição para um modelo democrático formal. Poucos, porventura, se lembrarão que a África do Sul neste período sofreu uma pressão internacional de países e investidores, inúmeras greves, manifestações e incursões armadas em reacção à brutalidade policial. Ele era o homem pragmático necessário para evitar as piores das consequências na visão da burguesia branca: a violência revolucionária e o descrédito nos mercados. Neste cenário, Mandela tornou-se um símbolo, foi decisivo e deve ser enaltecido o seu papel para que o apartheid terminasse. Ao ponto de em 1987, somente EUA, Inglaterra e Portugal votarem contra a sua libertação. Em 1988 o ANC reúne-se com homens de negócios e o governo sul-africanos para travar uma possível guerra civil. Foi eleito em 1994 e realizou a reunificação racial. Tornou-se uma referência pacifista e libertadora. As análises costumam cessar aqui à semelhança de filmes com final feliz. A realidade é, todavia, bem diferente.
Entretanto, Mandela tornou-se um ícone mundial. Frequentou fóruns económicos, ouviu “especialistas” do Banco Mundial e FMI e recebeu conselhos de uma social-democracia já contaminada pela Terceira Via e adepta da Globalização. A Freedom Charter que simbolizava o projecto de cunho socialista (ou socializante) aprovado pelo Congresso do Povo era tratada como um escrito demodé defronte da nova realidade sul-africana. Vários foram os grupos e sectores da sociedade que procuraram contribuir para aquele que devia ser o projecto económico futuro da nação arco-íris. Surgiram propostas radicais no seguimento do marxismo; outras como o RDP (Reconstruction and Development Programme) de tendência mais keynesiana e elaborado por intelectuais, quadros do ANC e ONG’s, assim como estratégias afectas ao Consenso de Washington sob patrocínio dos agentes financeiros. O ANC acabou por aplicar os dois últimos, sendo que o primeiro em muito menor escala. Acabou por se vergar perante o programa GEAR (Growth, Employment and Redistribution) preparado por Trevor Manuel (Ministro das Finanças) com aconselhamento do Banco de Desenvolvimento da África do Sul, o Banco de Reserva e Banco Mundial. Foi o início do ainda actual discurso virado para a competitividade da actividade exportadora, necessidade de abrandamento e redução de salários, investimento estrangeiro e liberalização do comércio. A privatização atingiu vários sectores estratégicos como o sector mineiro e serviços, inclusive prisões e provisões municipais de bens essenciais como a água. A consolidação das contas públicas sobrepôs-se à transformação estrutural e correcção das desigualdades. Uma enorme fatia da propriedade dos meios-de-produção permanece em mãos estrangeiras europeias ou em corporações sul-africanas. Escusado será dizer que a Reforma Agrária não mais saiu do papel.
O desenho deste país tem um traço sinuoso. Se África do Sul é considerada o exemplo de competitividade externa africana (apenas abaixo das ilhas Maurícias), esse modelo manteve a desigualdade estrutural, i.e. material. O facto de negros e outras etnias exploradas no apartheid em teoria serem iguais perante a lei aos brancos, nada nos diz de concreto. Os dados sobre o desenvolvimento humano são assustadores (121.º), a criminalidade em Joanesburgo é um espelho das assimetrias e a pobreza grassa com especial incidência sobre negros. Os mais afectados com falta de electricidade ou saneamento básico. Os mais explorados no local de trabalho. O massacre dos mineiros perpetrado pela polícia em Marikana quando reivindicavam um aumento salarial à empresa inglesa Lonmin recordou-nos que o passado afinal não ficou assim tão longe.
É difícil criticar Mandela quando se torna um tabu. Os admiradores mais fervorosos dirão que ele impediu um revanchismo que pode agora acontecer com a sua ausência do panorama político. Eu acredito no contrário; se existe esse perigo foi porque a Freedom Charter não foi aplicada e um modelo económico assente no capitalismo neoliberal não criou outra sociedade que não aquela que era previsível. O racismo não desaparece com normas morais e decretos, mas sim com alterações profundas na estrutura de uma sociedade. O apartheid desapareceu do gabinete dos ministros mas permaneceu nos modos-de-produção. Quando assim é, o terreno torna-se fértil para clivagens. Algumas perigosas se nas mãos de um demagogo como Julius Malema, por exemplo.
Lembremos todo o percurso de Mandela e outras figuras como o seu sucessor Thamo Mbeki, da resistência à capitulação. Os líderes humanos e engajados na praxis necessariamente comportam defeitos e acumulam erros. Contudo, esses erros devem assentar na aplicação de príncipios e não no seu sacríficio. O respeito sem crítica torna-se vazio.