Trabalho Voluntário

A propósito de um artigo que escrevi onde mencionava o trabalho de crianças, em regime de voluntariado, a ocuparem postos de trabalho, e na impossibilidade de responder a todas as mensagens individuais, gostava de esclarecer:
1) Caso essas crianças estivessem a ajudar outros trabalhadores, que estavam no seu posto de trabalho, e naquele dia tinham a ajuda simpática das crianças, isso é uma boa ideia, ajuda os trabalhadores que ganham o mesmo e têm menos trabalho naquele dia, trata-se de uma boa acção, as crianças aprendem, na minha opinião e bem, a ajudar. Todos ganham. Quando tinha 7 anos passei muito tempo na mercearia da minha tia avó no Alentejo a ajudá-la a ela e à empregada. Não lhe passava a ela pela cabeça despedir a empregada ou não contratar alguém para eu ir fazer o trabalho – isso, nas sociedades evoluídas, democráticas, chama-se trabalho infantil. E é ilegal.
2) Uma vez que no caso mencionado estavam a ocupar gratuitamente um posto de trabalho onde não estavam mais trabalhadores isso configura ocupação de postos de trabalho recorrendo a trabalho infantil mascarado de trabalho voluntário.
3) É indiferente se isto é feito com pioneiros de boina vermelha, pupilos do exército, escuteiros, senhoras reformadas ou ecologistas radicais de 5 anos. Não é de um grupo em particular que estamos a tratar mas da crescente substituição de trabalho pago por trabalho voluntário.
De hoje para amanhã quando as freiras forem gratuitamente fazer de enfermeiras para pressionar os salários dos enfermeiros para baixo também vamos achar que é ajuda humanitária/voluntária? E quando uns reformados chateados forem para as escolas dar aulas de graça? E quando alguém a receber o RSI for obrigado a ir secretariar uma câmara? E quando colocarem mendigos a varrer ruas em troca de comida?

Os limites de qualquer coisa na vida são necessários – sobretudo quando se trata de direitos do trabalho.

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7 respostas a Trabalho Voluntário

  1. um anarco-ciclista diz:

    os pioneiros sempre foram uma bela “instituição”… é farsola esse tipo (rebucado) de comparações…

  2. Querida Raquel, quando menciona ” E quando alguém a receber o RSI for obrigado a ir secretariar uma câmara?” isso já acontece e acontece com os desempregados do subsidio de desemprego.
    São convidados a fazer trabalho social deveria investigar isso Raquel, desempregados obrigados a ocupar postos de trabalho a custo “Zero” (85 euros mês mais 4.5 de refeição).

  3. JgMenos diz:

    Ocorre-me lembar a expulsão das Irmãs de Caridade lá pelos idos de 1862!
    Gente que hoje tem o nome em ruas por esse país assim fundaram a base retórica dos seus argumentos.
    Ninguém a pode acusar de inovar na matéria!

  4. Rita Catita diz:

    Concordo plenamente consigo… Aliás, digo-o várias vezes: para cada voluntário (e estagiário não remunerados, também), há sempre um explorado, um explorador e uma pessoa desempregada!

  5. Eduardo diz:

    A presunção inicial está errada o que torna todo o raciocínio numa perversão sem sentido.
    O Supermercado não iria contratar ninguém para fazer embrulhos, como já aconteceu noutros anos. O que faria seria oferecer papel para embrulhar e colocar uma mesa à disposição dos clientes, como fez.
    Logo, os escuteiros não estão a tirar trabalho a ninguém.

  6. Surprese diz:

    Isso é que é respeitar as liberdades individuais? Voluntário? Nã, só à força!

  7. joaquim gusmao diz:

    Acredito que ser “ solidário “ não é uma forma miliciana de impedir o trabalho renumerado, desempregar os empregados, um serviço ao patronato para substituir trabalhadores em greve, assegurar serviços mínimos, tornar ineficiente acções com um válido propósito reivindicativo, etc. Olhando para essa atitude humana de total abnegação, negando-a, estaríamos a afirmar que a sociedade apenas se poderia reger por valores materiais e que tudo o resto seria uma horrorosa manipulação ao serviço de uma capitalismo selvagem e esclavagista ou de uma insanidade perversa.

    A alínea 3) revela numa proporção cujo limite que estabelece para a quantidade não entendo, uma visão ao contrário daquilo que considero ser um manifestação de simpatia pelo outro e uma entrega incondicional a causas …
    Numa sociedade capaz de entender esse valor nunca iria impedir que os seus desempregados fossem substituídos por gente “ inocupada “ e que os lugares fossem preenchidos por “ esses “ que acreditam que existem gestos que os tornam mais próximos dos outros sem prejudicar quem procura desesperadamente trabalho. Ser solidário é estar consciente dos limites da acção e que esta deve ocupar não os espaços dos desempregados, mas aqueles que nenhum remunerado consegue dar sentido.

    A solidariedade não é um trabalho forçado ou obrigatório, não pode ser imposta pelo Estado ou por outra entidade com autoridade discricionária.

    Sobre o RSI haveria muito que dizer …

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