Carta aberta ao Mário Nogueira

Mário Nogueira

Caro Mário Nogueira, sou sindicalizado no SPGL (FENPROF) e nos últimos anos, apesar das dificuldades crescentes, ajudei a sindicalizar dezenas de colegas, fui eleito delegado sindical pelos meus colegas em diversas escolas por onde passei, fiz as greves e fui às manifestações convocadas pelos sindicatos. No entanto, tenho ouvido inúmeras questões pertinentes de muitos professores de todo o país, que gostaria de lhe comunicar, face às posições da FENPROF, nomeadamente perante a atual luta contra a prova de avaliação de conhecimentos e competências (PACC):

(1)   Por que é que a FENPROF não ajudou a mobilizar para as manifestações de 16 de novembro contra a PACC, dinamizadas apenas por professores de base? Se não têm dinheiro para autocarros, pelo menos porque não divulgaram no seu site e/ou via a sua rede extensíssima de emails?

(2)   Por que é que, além de não se juntarem às já referidas manifestações espontâneas, lançaram um comunicado de imprensa precisamente no dia anterior (15 de novembro), dando a ideia que a “Prova foi suspensa”? Essa notícia naturalmente levou à desmobilização de muitos professores que disseram: “Se a prova foi suspensa pelos tribunais não é necessário ir à manifestação!”.

(3)   Dia 22 de novembro, na reunião dos principais sindicatos de professores1, foi acordado “ …também participarem em todas as vigílias e manifestações que já foram marcadas por cada uma das organizações e também naquelas que de forma espontânea sejam convocadas por grupos de professores, como as que se realizaram no sábado passado.”.

Apesar dos professores que dinamizaram a manifestação em Coimbra terem participado (sem qualquer sectarismo) na acção promovida pela FNE (e apoiada pela FENPROF), em Coimbra, dia 25 novembro às 17h30 na Portagem, por que é que nenhum sindicato (ao contrário do que tinham anunciado publicamente) apoiou nem participou no mesmo dia no Acampamento de Professores contra a PACC na Universidade de Coimbra? Por que é que a FENPROF também não apoiou os professores que espontaneamente, dia 27 novembro, foram para a frente do Ministério da Educação?

(4)   Agora a FENPROF fala da importância fulcral do protesto de dia 5 de dezembro no Parlamento. Mas se se pretende realmente que a ação desse dia seja marcante,  não será preciso criar condições para isso? E como qualquer professor sabe, sem a marcação de greve para esse dia, dificilmente os diretores irão permitir que os professores faltem massivamente (mesmo pelo artigo 102).

(5)   Por último, num recente artigo2, o Mário Nogueira refere que “não dá conselhos aos professores em questões tão delicadas como esta, em que está em causa a vida das pessoas… o máximo que posso dizer é que no seu lugar faria a inscrição.”

Na anterior luta contra a avaliação, os professores contratados que seguiram a indicação da FENPROF, não entregando os seus “objectivos individuais”,  foram prejudicados por isso na lista de ordenação e isso teve consequências diretas nas suas vidas, ou não é verdade?

Caro Mário, até dia 28 de novembro (prazo limite) não irei inscrever-me nesta prova que humilha os professores, porque infelizmente se os professores contratados se inscreverem em massa (a consequência natural das suas afirmações e da forma como a luta tem sido dirigida) os inimigos da Escola Pública (Crato&companhia) irão usar isso para enfraquecer ainda mais a nossa luta, inclusive dificultando a adesão dos colegas efectivos na greve no dia da prova (ex: porque fazer greve e perder mais um dia de salário quando os colegas contratados se inscreveram todos na prova?).

No entanto sinceramente não me atrevo a julgar os meus colegas que já se inscreveram. Tal como numa guerra, os “soldados” só lutam até às últimas consequências quando acreditam nas forças do “nosso lado”. Infelizmente as 5 questões anteriores levantam sérias dúvidas sobre como os nossos “generais” têm conduzido a luta. Provavelmente o Mário nem responderá a estas 5 questões que estão na cabeça de muitos professores (contratados e não só) mas depois não se admire que cada vez menos haja, infelizmente, professores sindicalizados e professores nas manifestações convocadas…

Apesar de tudo, reafirmo que dia 30 de novembro irei ao Porto à manifestação, dia 5 de dezembro ao Parlamento em Lisboa (convocada pela FENPROF) e que continuarei a desenvolver todos os esforços para derrotar esta prova ignóbil preparando o seu boicote numa reunião nacional de professores agendada para dia 7 dezembro, às 15h30 no Teatro Académico Gil Vicente em Coimbra: https://www.facebook.com/events/337370856403539/

Cumprimentos,

André Pestana, professor contratado desempregado

p.s. Naturalmente enviei esta carta por email à FENPROF e se por acaso o Mário Nogueira responder, irei publicar na íntegra a sua resposta.

  1. http://www.publico.pt/sociedade/noticia/nove-organizacoes-sindicais-unemse-contra-a-prova-de-avaliacao-de-professores-1613601
  2. http://www.publico.pt/sociedade/noticia/dirigente-da-fenprof-diz-que-se-estivesse-no-lugar-dos-contratados-se-inscrevia-para-fazer-a-prova-de-avaliacao-1614060
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12 respostas a Carta aberta ao Mário Nogueira

  1. Isabel PBP diz:

    Os contratados sujeitos a esta prova sórdida não podem ser os “determinantes” desta luta, seria facilmente o seu suicídio perante o sistema.
    Está nas mãos dos professores do quadro, que o MEC quer obrigar a fazer um serviço sujo recusá-lo.
    É necessário que os sindicatos façam pré aviso de greve para o dia da prova! Os vigilantes e correctores que iriam trabalhar ao preço de um trabalhador sem habilitações, 3 € / hora (que ganham muito mal), nem todos terão coragem de dizer NÃO!
    Precisam de um amparo, como uma greve, para se protegerem.
    Mas, na nossa opinião, não nos devíamos escudar na greve e assumir a recusa como desobediência.
    Não está no ECD , avaliar colegas e as suas capacidades teóricas capacidades entrarem na carreira.
    Não somos carrascos dos nossos companheiros, amanhã chegará a nossa hora….

    Apelamos a todos os (a)s nossos colegas , que retirem a “ónus” dos ombros do elo mais fraco!
    Nós, os do quadro, é que não comparecermos!
    Somos todos docentes!
    Não há docentes de 1ª ou 2ª categoria, como não havia com os titulares.
    Vamos lutar até ao fim e não cederemos nada, todos juntos!
    Contratados, do Quadro e Aposentados todos solidários!

    • pestanandre diz:

      Cara Isabel PBP, eu nunca disse que os contratados devem ser os únicos que devem lutar contra a prova. Mas será que podemos ganhar esta luta se a FENPROF continuar a dizer que os únicos que devem correr riscos (fazendo greve e recusando-se a vigiar e a corrigir a prova) são os professores do quadro? E já agora a própria FENPROF diz que a seguir (depois dos contratados) provavelmente serão os professores do quadro a fazer uma prova semelhante e aí como iremos lutar? Não seria depois também “o seu suicídio perante o sistema”?! Posso estar enganado mas sinceramente só acredito que uma forte unidade AGORA dos colegas do quadro (fazendo greve) com os colegas contratados (fazendo boicote à prova) é que poderemos ganhar esta luta importante que tenta nos humilhar totalmente. E já agora Isabel, porque é que os dirigentes ficam tão “ofendidos” com esta carta mas pelos vistos ninguém parece disposto a responder às 5 simples questões levantadas (uma por uma) que estão na cabeça de muitos professores neste momento? Não irei parar de lutar contra esta prova e em defesa da Escola Pública: https://www.facebook.com/events/337370856403539/337388919735066/?notif_t=like

      • PCCO diz:

        Caro pestanandre,
        acho que ainda não percebeste a diferença entre um boicote dos colegas do quadro e um boicote dos colegas contratados à prova.
        Eu explico: se um QZP não aceitar vigiar e corrigir a prova perde 3 euros por hora/prova, talvez 300 euros no total, certo? Mas se um contratado boicotar a prova está em risco de perder 1 ano inteiro de ordenado e tempo de serviço. Bom, perde o emprego!! Estarias disposto a perder o teu emprego?? Eu não!!!! Tenho contas para pagar e filhos para criar!!!!
        Obrigada Isabel PBP por perceberes tão bem o dilema dos contratados em fazerem um boicote ou fazerem a prova!
        Já agora, se a prova não se fizer para os contratados não irá com certeza ser feita para os QZP.

        • pestanandre diz:

          Caro PCCO, na “carta aberta ao Mário Nogueira” eu esclareci que não julgo os meus colegas que se inscreveram. Depois, um dos perigos de depositar toda esta luta nos professores do quadro é que por exemplo já me vieram dizer (não sei se é verdade, mas do Ministro Crato tudo é possível) que o ministério da educação iria realizar as provas em institutos, politécnicos, etc com professores do ensino superior a vigiar. Ou já se esqueceram que numa das últimas greves aos exames, os sindicatos denunciaram (e bem) que o ministério deu autorização para que funcionários escolares vigiassem a prova!! Assim se pode levar a luta para um “beco sem saída”… Relativamente ao que escreve “se a prova não se fizer para os contratados não irá com certeza ser feita para os QZP.” isso é verdade se a nossa luta for vitoriosa, mas até domingo passado a classe docente estava muito pouco mobilizada (e a carta levantava questões pertinentes que ajudam a explicam essa baixa mobilização). Cumprimentos

  2. Carlos diz:

    Os sindicatos gerem a sua agenda…
    O governo gere a sua agenda.
    Por vezes, encontram-se.
    Os políticos precisam dos sindicatos e vice versa.

  3. Pingback: Em ebulição… | cinco dias

  4. Carlos diz:

    Candidate-se A. Pestana…

    • pestanandre diz:

      Caro Carlos, não me leve a mal mas já ouvi argumentos semelhantes “na boca” de Passos Coelho face a algumas manifestações gigantescas (nomeadamente da CGTP). Em que o 1ºministro insinuava que críticas/manifestações não teriam muito sentido: “que esperem até às eleições e sejam sufragados (ou não) pela população”… Além do mais já deu uma olhada nos estatutos do sindicatos da FENPROF, por exemplo o do SPRC de onde vem o Mário Nogueira: http://www.sprc.pt/images/PDF/EstatutosSPRC_BTE17_2010n17.pdf? É que exigem para uma lista se poder formar mais de 100 professores, de vários distritos do país (Coimbra, Leiria, Viseu, Guarda, Aveiro, Castelo Branco, etc,) e depois em cada distrito, tem que ter x professores do 1º ciclo, do 3º ciclo, etc, etc… Ou seja, é uma autêntica blindagem antidemocrática para dificultar ao máximo o surgimento de listas sem apoio dos grandes partidos… Cumprimentos

  5. João Pedro diz:

    Não sou professor; sou bancário aposentado, mas todas as lutas pela dignidade de quem trabalha ou quer trabalhar me dizem respeito, por isso quero ter opinião sobre o assunto. E, neste caso, inclino-me para perfilhar o entendimento da Isabel sobre a questão em causa.

    João Pedro

  6. Pingback: Carta aberta a Mário Nogueira | primeiro ciclo

  7. coeh diz:

    O MN vai responder depois de reunir com os mesmos que arranjaram as desculpas para os professores do 1º ciclo serem os mais prejudicados após a luta das avaliações (para a qual não foram convocados).

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