Três notas imediatas

1 – Ao contrário do que seria de supor não é surpreendente que seja a polícia a escalar as escadas do parlamento. Pela natureza da sua função e enquanto extensão do poder político a polícia opera num regime especial de legalidade que lhe torna possível este tipo de acção sem consequências de maior. É absolutamente óbvio que qualquer outro número semelhante de pessoas que tentasse algo igual não o levaria cabo sem sérios confrontos.

2 – No seu comentário da SICN Nuno Magalhães do CDS/PP começa por agradecer e elogiar a serenidade do corpo de intervenção, há uma ou duas semanas os sindicatos oficiais da PSP aplaudiram na assembleia o discurso de Macedo. Surgem duas variáveis: a primeira relativa à unidade dentro das forças repressivas e a segunda relativa ao nível de corporativismo dentro da polícia.

3 – A violência latente totalmente expressa pelas problemáticas à volta da manifestação da CGTP na ponte foi ignorada em grande parte pela diária lavagem de roupa suja a que se dedica a esquerda autoctone. A invasão de hoje abre um campo de interpretações e situações bastante complexo, e é essencial que a “esquerda” se preste aos debates e às discussões a que se tem furtado. O estado de excepção aberto pelas várias austeridades transforma radicalmente os campos da política: a vitória pertencerá a quem os souber pensar melhor.

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14 respostas a Três notas imediatas

  1. Gambino diz:

    Há um outro factor e que me parece muito importante.
    Era absolutamente evidente, pelo menos a partir da televisão, que, se começassem confrontos sérios, os tipos que estavam a defender a escadaria iriam levar uma carga de porrada. Além disso, pela facilidade com que os manifestantes romperam a linha policial, tornou-se claro que os policias de serviço nunca iriam bater nos policias manifestantes.

  2. Zé Pedro diz:

    Acho que os polícias se esqueceram dos batuques e dos discursos que ninguém ouve.

  3. “a vitória pertencerá a quem os souber pensar melhor”

    Estou de acordo. Mas este post só me cria confusão.

    • António Correia diz:

      Eu estive lá não queria de novo os secos e molhados, também sou povo, subi as escadas
      do meu e do teu parlamento e o meu grito também foi o teu.

      • Nuno Cardoso da Silva diz:

        Ora bem, um polícia que me merece respeito. Espero que quando formos nós a tentar subir as escadas, não estejas do outro lado com uma matraca de metro e meio, a cumprir ordens…

  4. Argala diz:

    ” a vitória pertencerá a quem os souber pensar melhor”

    Pensar e agir.

  5. JP diz:

    Luhuna, se me permite, creio que o que aconteceu ontem teve mais significado do que lhe atribui.

    Os polícias subiram a escadaria e pararam. Repare que esta frase tem três momentos:
    1. Os polícias, em conjunto e de forma espontânea, decidiram tomar a escadaria (apesar dos colegas do outro lado da barricada e oposição da organização da manif.);
    2. Os polícias de serviços decidiram deixar passar os colegas. Relevante porque demonstra uma falta de vontade em defender o status quo (hoje em relação aos colegas, amanhã em relação a outros);
    3. Depois de subirem até onde quiseram, decidiram parar. Uma demonstração de força e um aviso implícito de que, se eles quiserem, para a próxima não param ali mas lá dentro.

    Ora, se eu fosse governante olhava com atenção para isto. É que quando quem tem que defender o status quo já não está para aí virado e a força fica do outro lado, isto pode começar a correr muito mal, muito depressa.

    É evidente que não é indiferente estarem polícias dos dois lados. Mas também é evidente que são pessoas habituadas à cadeia hierárquica e com sentido de dever. O facto de terem ultrapassado os limites que lhes eram impostos foi uma atitude de grande significado e coragem.

    Não me admiraria que uma próxima manifestação contasse com a participação dos militares…

  6. jose maria diz:

    1 – Concordo.
    2 – Concordo. Essa unidade e esse corporativismo permitiram o primeiro ponto. Até aqui nada de novo; nem na situação, nem na análise.
    3 – Aqui começam e perpetuam-se as discordâncias. Em primeiro lugar, porque pensava que neste momento mesmo os mais distraídos já teriam deixado de referir a CGTP sempre que o assunto for algo relacionado com revolta social, mudança radical ou autonomia. Depois, e relacionado com isto da CGTP. o facto de insistires num apelo à “esquerda” (com ou sem aspas), quando a esquerda é simplesmente uma outra forma de administrar o Estado e a economia, perpetuando – qualquer que seja o programa específico da esquerda a que nos referimos – a existência de autoridade e trabalho, por exemplo. Numa altura em que a questão se deveria ficar em como fazer da luta contra a austeridade uma luta contra a autoridade (no seu sentido mais amplo de impedimento da autonomia individual). Tudo o que aconteceu de interessante, já não digo na história da luta social, mas nos últimos anos em portugal, aconteceu contra e apesar da esquerda (não necessariamente fora, já que muitos dos protagonistas vieram dela), com ou sem aspas. A esquerda, desde os partidos aos sindicatos, passando pelos “movimentos”, plataformas e afins, têm sido – como sempre foram – estruturas que têm como objectivo o seu próprio aumento de poder. Por vezes usam-se do maquiavelismo para recuperar o maquiavelismo dos que estão fora; mas a isso chama-se política, e é uma banalidade.

    Penso que a maior lição que se tira de ontem é que o espectáculo permite muita coisa desde que a estrutura se mantenha – ontem permitiu que as forças repressivas se tornassem (espectacularmente, claro) a vanguarda da revolta. E nós, papalvos, escrevemos sobre isso e a pôr esperanças na esquerda. Mas esta ilusão só sobrevive graças a uma total e deprimente ausência debates, projectos, ideias e tentativas que se coloquem contra toda a política. Ciomo diz o outro, “the joke is on me”

    • as aspas não são inocentes, concordando em parte com o que dizes discordo na leitura que é feita de um certo monolitismo omnipresente e omnipotente. felizmente a história é mais forte que qq ideologia

      • jose maria diz:

        “O estado de excepção aberto pelas várias austeridades transforma radicalmente os campos da política: a vitória pertencerá a quem os souber pensar melhor.” – Infelizmente neste momento já não sei a que te referes quando dizes ideologia. Penso que usamos conceitos diferentes desse termo, sendo que o teu parece abarcar (devido ao tal maquiavelismo bem intencionado, do meu ponto de vista) também princípios (para além de modelos, refificações e sedimentações inerentes á ideologia) E isso é preocupante, para mim, assim como um tiro no pé para vivermos a tal revolta que penso ambos desejarmos. Aceitar a presença de forças repressivas ao nosso lado numa manifestação ou os acordos com a esquerda é, a meu ver, ideológico (qual é o revolucionario de esquerda que não sonha com uma união de todos os trabalhadores?), repugnante e contraproducente com vista à tal revolta e aos nossos sentimentos. Monolitismo? Como queiras. Mas ao menos saberemos com o que podemos contar uns dos outros. A politiquice do BE sobre a qual escreveste é uma simples caricatura de um problema muito mais vasto e muito mais próximo.

        • sem grande tempo para responder ou conseguir elaborar um pensamento mais profundo o que queria dizer é que as categorias presentes em que são arrumados os fenómenos políticos (polícia, revolucionários, reformistas, companheiros, lados da barricada, etc…) são menos sólidas do que se pensa, ou seja, o eventual momento “revolucionário” transcende estas classificações político-ideológicas. De outro modo: no egipto, na turquia, no brasil não havia milhares de pessoas na rua até passar a haver: os processos políticos são bem mais complexos e abrangentes (e interessantes) do que os tipos que os pensam.

          • jose maria diz:

            claro que sim; não lhe chamaria momento “revolucionário” – o meu fetiche é mais relacionado com momentos insurreccionais. mas de qualquer maneira compreendo e até certo ponto concordo com o que dizes. o mmomento insurrecional caracteriza-se, a meu ver, pela destruição do existente – espaços, relações, papéis sociais, personalidades, noções de tempo, estruturas repressivas, instituições, etc… – e pela criação de algo que é outra coisa. mas há uma falácia no que dizes: um momento insurreccional só existe quando existe, tal como alguém só é rebelde, por exemplo, quando o é. dessa forma, a dissolução dos papéis sociais – aquilo a que chamas fenómenos politicos – só se torna possível nesse momento, até ao qual o seu desaparecimento só existe consoante a vontade dos seus sujeitos. ou seja, e por exemplo, um polícia continuará a ser polícia até ao momento que decidir deixar de o ser – e memso aí há que ter em conta a possibilidade do seu maquiavelismo -, ou até ao momento em que o obrigarem a deixar de o ser. qualquer identidade pode ser, ao mesmo tempo, objectiva e subjectiva.
            concordo que o mundo é bem mais complexo do que a sua separação em categorias sociais, mas digamos que esquecer diferenças de base quando elas (ainda) existem é demasiado pós-estruturalista para o meu estômago.

  7. JP diz:

    http://www.publico.pt/sociedade/noticia/ministro-da-administracao-interna-aceita-demissao-de-director-da-psp-1613532

    Como vê, o gesto das polícias é bastante mais significativo do que parece à primeira vista para um civil.
    Tal como nos militares, há gestos que quando feitos por uma “força da ordem” se revestem de grande significado.

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