Sobre representações facebookianas do machismo de sempre

Vivemos a dominância persistente de uma cultura machista que continua a tentar conformar a estética – se não a atitude – feminina em função do agradar aos homens – assim como estética masculina ao papel de domínio que ainda lhes é reservado, com ou sem todos os metrosexuais e demais “feminizações” do homem, que só pecam por tardias.
Sim, existe uma cultura do corpo, preconceituosa e discriminatória, gerada em primeiro lugar pela sociedade de consumo capitalista e pela persistência dessa cultura machista.
Coisa bem diferente é a liberdade de cada pessoa usar o seu corpo – e a sua sexualidade – como bem entende. Podemos criticar a cultura do corpo, mas não devemos julgar as pessoas em si. Assim como eu critico a instituição casamento e a homonormatividade, mas não o modelo relacional – que pode ser esse – que cada pessoa escolheu para si. Sobretudo, porque não sei melhor do que os outros o que pode fazê-los felizes, e eu quero que toda a gente seja o mais feliz possível. Também é ser de esquerda. O que não é muito de esquerda é o moralismo. A liberdade sexual – relativa, infelizmente, sob o capitalismo – é uma conquista, e inclui a liberdade de dispor do corpo, da imagem própria, da capacidade e liberdade de auto-sexualização. Todos nos auto-sexualizamos, quanto mais não seja na sedução ou na cama. Ser putéfia (como me apetece ser de vez em quando, e é mesmo no plano sexual) não é problema desde que seja em recato? Isso já é hipocrisia. A putice, a verdadeira (que a outra não tem mal), está realmente na cabeça de quem julga as pessoas pela aparência ou pela quantidade de pele exposta ou ainda por uma auto-erotização que mais não é do que liberdade, ou ainda porque vê como negativa a putice, a disponibilidade sexual, até a exposição física pública. Isso é moralismo. Lembraram-me há pouco que antes se dizia “Quando uma mulher mostra tudo (vá, acrescentemos “ou o homem”) é porque pouco mais tem para oferecer.” Eu que tenho tanto, tanto para oferecer, com este post – e aquele em que são os meninos que desfilam – só fico mesmo com vontade de ir ali ao facebook expor a minha magreza (não anda mto erótica, que a crise não permite alimentar-me da mesma maneira) com o meu melhor ar de puta fina e o rabo à mostra (que ainda se vai aproveitando), mesmo, mesmo só porque pelos vistos ainda há quem utiliza de forma tão negativa termos como putice, promiscuidade e por aí adiante. Deixem as pessoas ser felizes como são pá, que a vida é curta. E não sejam agentes da repressão sexual confundindo a cultura do corpo com a liberdade sobre o corpo e a sua exposição. Isso não é de esquerda.

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25 respostas a Sobre representações facebookianas do machismo de sempre

  1. Fernando Pessoa, em “Aviso Por Causa da Moral”, escrito em defesa de António Botto e Judith Teixeira perseguidos pela mocidade portuguesa até ao exílio e à desgraça, escreveu: “Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte”. Rest my case.

    • Uh, diz-me uma amiga (obrigado Sara) e tem razão. O Pessoa defendeu o Botto. Mas não a Judith Teixeira (aliás era bastante misógino). A Judith teve de se bater sozinha. E fê-lo, em “Aviso Por Causa da Moral”. A ler.

      nota de dia seguinte a este comment, que fiz já com muito sono: “Aviso Por Causa da Moral” é o texto do Pessoa em defesa do António Botto. Judith Teixeira defendeu-se com a Conferência “De Mim. Em que se explicam as minhas razões Sobre a vida, sobre a estética, sobre a moral.” lamento o lapso.

    • carlos II diz:

      O Botto não foi aquele poeta que “gostava” de crianças e que se gabava disso?

      • Essa é uma interpretação abusiva de um dos mais geniais poemas dele.

        (Assim como presumir que os gajos que falam da sua (que abusivo) “miúda” gostam de violar meninas abaixo dos 16 anos.)

  2. NL diz:

    «Todos nos auto-sexualizamos,» Discriminação! Então e os assexuais? « Podemos criticar a cultura do corpo, mas não devemos julgar as pessoas em si. Assim como eu critico a instituição casamento e a homonormatividade, mas não o modelo relacional – que pode ser esse – q cada pessoa escolheu p si» Santa hipocrisia. Nestes tempos pós-modernos em que a palavra “esquerda” que vai de anarcas a pê-ésses se esvaziou de sentido, até concedo que o Sérgio Vitorino seja de “esquerda”: agora marxista, tenho dúvidas… falta-lhe pensamento dialético! Os seres humanos “escolhem” ser criminosos? Os seres humanos “escolhem” ser ignorantes? Os seres humanos “escolhem” prostituir-se? Os seres humanos “escolhem” oferecer-se no facebook? Olhe, a Ayn Rand diria que sim!

    • O PS não é de esquerda. Os anarquistas, seriam, se apreciassem o termo “esquerda” – não costuma ser o caso – e não o apreciam pelo motivo que enumera, NL – demasiado saco de gatos. Eu esclareço. Sou de extrema-esquerda e marxista revolucionário com instintos leninistas. E sou um militante. A vida dá muitas voltas. Já escolhi prostituir-me sexualmente. Já escolhi não o fazer laboralmente (certo, passei fome, mas às vezes não há constrangimento ou coação que impeça uma escolha). E agora escolho não levar com moralismo, nem com julgamentos sobre as minhas escolhas de vida, nem com esquerdas ‘obreristas’ que no plano das sexualidades se comportam como a direita. Aceito a nota sobre a assexualidade como relevante e justa. Já a equiparação do trabalho sexual com ser “criminoso”, não é mais do que moralismo, estigmatização e ausência de pensamento dialéctico. Parabéns pela tua esquerda (com um comentário destes de certeza que te consideras marxista), sobre a moral e os costumes tem uma perspectiva muito parecida com a do estado burguês. O que não é a minha esquerda é a que confunde individualismo com liberdade individual ou constrói uma falsa oposição entre essa liberdade individual e a valorização da acção e do interesse colectivos.

      • NL diz:

        Eu penso que o moralismo burguês está sobretudo a sua cabeça, Sérgio Vitorino, ou, pelo menos, fá-lo orientar a sua ação em função dele (no sentido de tentar, em vão, descontruí-lo). Colocado em situação de fome, entre prostituir-me ou assaltar um BPN escolheria sem pestanejar a segunda… Aos olhos da moral burguesa isso faria de mim criminoso? Pois fizesse! Em 2013 já vão existindo obreiristas com gostos sexuais abertamente nada ortodoxos. Simplesmente, “escolhemos” não nos desviar do essencial. Os anos que levamos disto fazem-nos crer que sem obreirismo a revolução é uma impossibilidade. Faz-me pena vê-lo desperdiçar o seu potencial a provocar, sobretudo, ruído… “Liberdade individual” para o ser humano se prostituir vendendo a sua força de trabalho há toda uma direita que a defende!

        • Como não sou moralista nem burguês, parece-me difícil. Assaltar o BPN, vamos lá, fome não me falta e dinheiro sim. O meu conceito de criminoso também não é necessariamente o do Estado. Só não sou bom parceiro, não sei assaltar bancos, seria morto num instante e sem compensação. Talvez por isso, faríamos escolhas diferentes, se fossemos iguais é que era esquisito. Já se quiser vir comigo para o Conde Redondo, prometo que compensa e se calhar ainda nos divertimos. Os gostos sexuais das pessoas não me interessam quando discuto política, mas o seu julgamento ou perseguição, sim. Não confunda. Uma coisa é saber da centralidade do trabalho e dos trabalhadores como sujeitos revolucionários, pela questão da posse dos meios de produção e da decisão sobre o modo de produção e redistribuição da riqueza. Isso não é obrerismo, é marxismo. Obrerismo é achar que o critério do trabalho explorado é o único que conforma sujeitos revolucionários. Acho que no seu socialismo, eu estaria num Gulag. Isto tb é essencial. Não tenho assim tanto potencial. Mas o ruído é sinal de vida e de combatividade. Já agora, não me manipule as palavras. Se não quer perceber que eu não defendi a “Liberdade individual” PARA o ser humano se prostituir E SOBRETUDO vendendo a sua força de trabalho, também perco a paciência para voltar a explicar. Já devia ter percebido que sou contra a exploração do trabalho e o trabalho assalariado, semi escravo ou escravo são apenas nuances da mesma opressão. Não percebeu, ou não quis perceber.

          • NL diz:

            Eu não quis perceber, Sérgio Vitorino, porque a minha discordância é de princípio. Toda esta minha diatribe deve-se à circunstância de, para mim, ser-se “de esquerda” implicar uma conceção idealista do ser humano que, no limite, deve ser imposta sobre a “liberdade individual” (mas sem Gulag, que já não estamos nos anos 30!) .Daí frases como «porque não sei melhor do que os outros o que pode fazê-los felizes, e eu quero que toda a gente seja o mais feliz possível» não caberem na minha conceção de pessoa de esquerda. Se cabe na sua, bom para sim. Certamente, o capitalismo neoliberal não o enviará para o Gulag por isso (as redes de prostituição até lhe agradecem!).

          • Já percebi que a nossa discordância é de princípio, mas não porque eu coloque o indivíduo acima do colectivo. A discordância está noutra nuance. Na minha concepção o interesse colectivo não sacrifica a liberdade do indivíduo, assim como não se aplica o termo “liberdade” do indivíduo se este se achar no direito de prejudicar o bem comum. A minha concepção também é idealista, a de que o indivíduo e o bem comum podem coexistir. Assim como o socialismo e a felicidade. Desejo-lhe… felicidades… (melhor do que tristezas, creio).
            As redes de prostituição entram no domínio da escravatura e da exploração sexual. Por seriedade para com o que defendo, mesmo que não concorde, não me meta nesse saco, por favor.

    • Dadinha diz:

      ” Os seres humanos “escolhem” ser criminosos? Os seres humanos “escolhem” ser ignorantes? Os seres humanos “escolhem” prostituir-se? ”
      Não totalmente, mas eu posso garantir que já me ofereci muito no facebook, porque escolhi – vou directo ao assunto, escolho pelas imagens, negoceio as práticas sexuais (detesto premilinares e os machos são todos uns mariquinhas), e tenho normalmente bom sexo, comparado com o que acontece depois do bate-couro de muito gajo de esquerda – inclusivé.(aos outros não ligo, sou sectária e só me excito se o gajo for do partido).

      E às vezes até cobro.. em jantares, copos e outros adereços

  3. Argala diz:

    Epá.. não sei se estou preparado para este debate, mas vou arriscar e botar faladura.

    Primeiro ponto. Nós não somos amorais, temos sentimentos morais – parte deles provavelmente imanentes e outra parte assente em construções culturais. Eu posso, e devo, ter opiniões sobre a nossa vida social, sobre os nossos comportamentos individuais e colectivos. E posso, e devo, julgar que certos comportamentos têm consequências negativas para a vida social. Tudo isto para dizer que essa diferença que procuras estabelecer entre criticar a “cultura de massas” em geral, mas não os seus produtos individualmente considerados, parece-me nem sequer estar em debate.

    Segundo ponto. Quais as consequências sociais desta hipersexualização? Não sei exactamente, mas não me parece que a mulher se esteja a libertar de nada: elas depilam-se, pintam-se, aprumam-se, arranjam o cabelo, fazem dietas, andam semi-nuas e ainda têm que exibir as mamas no facebook. Uma autêntica prisão. Eu saio de casa sem sequer me ver ao espelho e portanto estou absolutamente solidário. Elastêm de, porque são obrigadas a responder aos padrões para serem valorizadas – o campo da liberdade de escolha em sociedade tem determinantes. Eu também tenho a liberdade de sair de casa de robe e chinelos.. a consequência disso é o enxovalho público. As mulheres têm a liberdade de sair de casa fora dos padrões a que o autor do blogue chama ‘putedo’, a consequência disso é serem ignoradas. E ninguém gosta de ser ignorado.

    Em suma, a prisão de não sentirem reconhecimento a menos que se vistam como ‘putas’.

    Terceiro ponto e em jeito de conclusão. Uma simples contradição parece indicar que este fenómeno não acompanha nenhuma forma de libertação: a mulher ainda nem se sente à vontade para amamentar em público, e ao mesmo tempo sente a pressão para usar decotes cada vez mais reveladores.

    Cumprimentos

  4. JgMenos diz:

    “A liberdade sexual – relativa, infelizmente, sob o capitalismo …
    A animalidade em que o capitalismo converte a espécie humana …”

    Ser puta ou paneleiro de esquerda é outra elegância…outra intelectualidade!!!

    • Não sei se é outra intelectualidade, mas não será mais intelectual do que ser heterosexual de esquerda. A intelectualidade ainda não mora na orientação sexual das pessoas, embora por vezes pareça vinda das cabeças de baixo.

    • “Animalidade”, a auto-exposição erótica? Esse termo vem de onde para classificar a expressão da sexualidade e a actuação de seres humanos? Do Seminário? Animalidade é a exploração, a guerra, o roubo, a injustiça. E sim, é o capitalismo.

      • JgMenos diz:

        Sempre e só o mito do ‘bom selvagem’ que de não-sei-o-quê se transforma em animal por acção do capitalismo!
        A ciência de há 250 anos ainda serve bem os – bondade minha! – líricos de hoje.

  5. Pingback: Causas de esquerda | O Insurgente

  6. Surprese diz:

    Este é dos textos mais interessantes que já li no 5D.

  7. Pingback: Paternalismo libertário e autoritarismo no alegre regresso à animalidade | L´obéissance est morte

  8. Renato diz:

    “Deixem as pessoas ser felizes como são pá, que a vida é curta. E não sejam agentes da repressão sexual confundindo a cultura do corpo com a liberdade sobre o corpo e a sua exposição“ – será isso verdade? Será que a emancipação se arranca mentindo sobre nós próprios e sobre a força arrasadora da ideologia, sobretudo no seu impacto na nossa sexualidade? Tenho dúvidas. Muitas. A começar porque não é esse o discurso que se tem sobre todas as outras esferas da vida. Se não há liberdade no trabalho escravo e é curto o livre arbítrio na hora de escolher o modo de vida, porque haveremos de reconhecer autenticidade, sem pelo menos questionar, ao “modelo” da Miley Cyrus?
    (Sérgio, o comentário que aqui ia deixar acabou por se desenvolver demasiado. O resto do contributo deixei aqui: http://obeissancemorte.wordpress.com/2013/11/20/paternalismo-libertario-e-autoritarismo-no-alegre-regresso-a-animalidade/)
    Abraço.

  9. Carlos diz:

    “Coisa bem diferente é a liberdade de cada pessoa usar o seu corpo (…) como bem entende” – Está-me a parecer uma defesa da propriedade privada esta frase. Então as pessoas têm direito ao seu corpo?.. Há qualquer coisa que me está a falhar.
    Não será injusto uns nascerem mais bonitos que outros? … Acho que os corpos das pessoas devem ser públicos (e não privados) e deve distribuir-se igualmente por cada um a possibilidade de usar o corpo de alguém ‘bonito’ (por tempo). Não acho justo que só algumas pessoas tenham esse direito.

  10. Cometi uma dupla gaffe nestes comentários (poucas horas de sono esta noite) e preciso de repor a verdade. “Aviso Por Causa da Moral” foi o texto com que Fernando Pessoa fez a defesa de António Botto. Judith Teixeira tratou – e bem – da sua própria defesa, com a Conferência “De Mim. Em que se explicam as minhas razões Sobre a vida, sobre a estética, sobre a moral.”

  11. AP diz:

    Confesso que tive algumas dificuldades em entender claramente, na prática, como de distingue a crítica à cultura do corpo e liberdade de cada pessoa usar o seu corpo.
    Acho que só consegui entender quando vi este vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=W6DmHGYy_xk. A exposição do corpo deste homem é a mesma que a da mulher no video original (http://www.youtube.com/watch?v=My2FRPA3Gf8), na verdade o homem expõe mais o corpo porque mostra os mamilos (seria inadmissível se a mulher fizesse o mesmo, certamente os mamilos da mulher teriam que ser censurados para vídeo ser visualizado).
    Mas quando vi o vídeo versão chatroulette foi exactamente isso que eu pensei: O que aconteceria se fosse uma mulher a fazer o vídeo? Em que exposição do corpo não teria como objectivo “ser sensual” mas sim “ser cómico”. E percebi que essa hipotética mulher iria ser igualmente criticada como foi a mulher no vídeo original. Ou seja, independentemente da razão da exposição do corpo da mulher, esta exposição é sempre criticada,porque a associamos a sexualidade. E dessa associação até aos comentários como “Ela está a mesmo a pedi-las” entre outros é um pequeno passo. Pelo contrário, o corpo do homem não está susceptível a essas críticas. E quando, raras vezes, se critica a exposição do corpo do homem não é pela exposição em si mas pelo motivo dessa exposição. O corpo da mulher é sempre sexualizado, e a sua exposição é sempre criticada não pela razão da exposição mas pela exposição em si. Encaramos da seguinte forma a exibição de um corpo: a mulher mostra o corpo apenas com uma finalidade, o homem mostra o corpo porque tem calor, porque quer ser cómico,(e sim também) porque quer ser desejado, porque está a trabalhar, porque está a praticar desporto, em suma: porque quer.
    Por isso, geralmente, confunde-se a crítica ao objectivo da exposição do corpo da mulher (por exemplo a crítica à cultura do corpo) com a própria exposição do corpo (que por si só é algo que não deveria ser susceptível de critica).

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