Desistir de pensar: João César das Neves contra Hannah Arendt

Não dignificarei João César das Neves com uma resposta baseada em dados empíricos. Parece-me preferível observar a persona pública do ínclito professor. Tal como alguém que, há uns meses, falava nos pobrezinhos, esta persona encarna a expressão, tantas vezes mal usada (e nunca referida no texto de Eichmann in Jerusalem), da banalidade do mal. Com os tiques abandalhados da direita portuguesa, refira-se.

Esta persona, pura e simplesmente, prescindiu da capacidade de pensar. É uma boca de Sauron. Hannah Arendt percebeu-o bem. Goste-se, ou não, do seu pensamento e da sua obra (e imagino que quem escreve e comenta por aqui não seja grande fã), talvez nenhum outro vulto maior do pensamento ocidental tenha entendido isto como Arendt, que nos deixou esta frase lapidar (tirei-a daqui, mas o seu desenvolvimento está aqui):

“Se (…) a capacidade de distinguir o bem do mal tiver algo a ver com a capacidade de pensar, então devemos ser capazes de exigir o seu exercício a todas as pessoas sãs, seja qual for o seu grau de erudição ou ignorância, sejam inteligentes ou estúpidas”.

É este o teste a que devemos submeter todas as bocas de Sauron do regime. É evidente que me parece confrangedor transferir uma ideia, surgida do pós-Holocausto, para os tempos que vivemos. Mas só pode ser confrangedor por razões exteriores à ideia em si. Porque é uma ideia que se refere à condição humana e à nossa capacidade de agir. Hannah Arendt referia-se ao abandono voluntário da capacidade de pensar de Eichmann (sabemos, hoje, que as coisas não foram exactamente assim, mas o ponto fica) e à sua colaboração no Holocausto. Se abandonarmos a nossa capacidade de fazer juízos morais, somos agentes de destruição. João César das Neves não é exactamente mau ou malévolo. Essa é uma questão irrelevante e um juízo pouco subtil. Nem sequer é esse o caso. João César das Neves, como a direita abandalhada que temos, desistiu da capacidade de pensar. É um depósito de preconceitos elitistas e assume o memorandismo austeritário como lei natural. Devemos exigir-lhe que pense. Mas não me parece que devamos esperá-lo.

Não é que João César das Neves não seja uma besta. É-o, se quisermos ir por aí. E podemos ridicularizá-lo – alguém que compara o Ministério da Educação ao Gosplan presta-se a tal. Mas estaremos a dar um tiro ao lado. João César das Neves, como Vítor Bento, Camilo Lourenço, Helena Matos, Margarida Rebelo Pinto e outras bocas de Sauron, desistiram da capacidade de pensar. É esse o problema fundamental. Voltando a Hannah Arendt e à fogueira a que foi sujeita depois da publicação de Eichmann in Jerusalem, procurar compreender não é procurar justificar. À esquerda (a algemada, já que parece haver uma livre por aí), não fazemos o suficiente para compreender estas pessoas. Gozamos com elas, fazemos delas as caricaturas que elas parecem ser e não tentamos entendê-las. Já foi há uns tempos que um tipo chamado Sun nos deu umas pistas a respeito disto:

18. Hence the saying: If you know the enemy and know yourself, you need not fear the result of a hundred battles. If you know yourself but not the enemy, for every victory gained you will also suffer a defeat. If you know neither the enemy nor yourself, you will succumb in every battle. 

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30 respostas a Desistir de pensar: João César das Neves contra Hannah Arendt

  1. Uma pessoa amiga contou-me um dia que João César das Neves tinha num dos seus livros uma dedicatória a «nossa senhora de fátima», em agradecimento pelos dons recebidos…
    Acreditei no que me estava a ser dito pois que a pessoa em questão é uma pessoa honrada.

  2. JgMenos diz:

    Vai-se a ver e não se encontra no post um pensamento acerca do que diz o C. das Neves!
    O que eu ouvi reza +/- assim: ´fala-se em nome dos pobres, mas ninguém cuida deles senão de si; cuidar dos pobres não é lutar pelo aumento do salário mínimo, porque isso só os condena a menos emprego e mais pobreza’.
    Há aqui um pensamento, e na circunstância. é apresentado como uma evidência.
    Um salário mínimo de 500 euros significa para o patrão uns 7 euros/hora; parece que andam a oferecer bem menos que isso no trabalho precário de não particularmente baixa qualificação.
    Sendo assim, pensemos…

    • Luís Bernardo diz:

      Leia a primeira frase do texto, se faz favor.

    • Bolota diz:

      Menos.

      A Cesar o que é de Cesar, era-lhe imposto por lei, o salario minimo fosse qual fosse a sua posição

      Menos, consegues imaginar o Cesar arrotar postas como estas no tempo do botas e contra o Botas???

      É ele e tu, falas grosso mas com as costas quentes do tabalho dos outro.
      Fazes-me lembrar o meu vizinho Simões, professor na reforma de topo de carreira, um anti CGTP dos sete custado, mas quando lhe digo que não fale muito alto porque se tem uma boa reforma aos comunas o deve, acontecem uma das duas situações ou fica calado ou sai dem se despedir.

      Atina porra

      • JgMenos diz:

        Olha à tua volta, Bolota!
        Para cada Simões confortável na sua reforma, vês três jovens à espera de um qualquer futuro.
        As grandes ‘vitórias’ de alguns foram alcançadas sobre o futuro de muitos outros.
        É toda a diferença entre ceder e governar; entre sacar e repartir…
        Não sei o que fez, e muito menos o que faria o César ou o Bolota, só sei o que dizem, e só isso me interessa, ou não.

  3. Antónimo diz:

    Pois eu acho que não entendeu nada quando diz que os ditos “desistiram da capacidade de pensar” e que “É esse o problema fundamental.”

    Neste caso, há outros, o problema é que eles pensam mesmo aquilo e naquilo. Achar que pensando se chega a um ponto justo é assim como a teoria do Cavaco das duas pessoas bem
    -intencionadas. E alguém por aqui – e cada vez menos lá fora – acredita que Cavaco é bem-intencionado?

    • Luís Bernardo diz:

      Eu também acho que não entendeu o que escrevi. Mas não é esse o problema fundamental.

      • Antónimo diz:

        Então só mais um esforço. Tem de escrever de modo que o vulgo perceba.

        • Luís Bernardo diz:

          A que vulgo se refere?

          • Antónimo diz:

            Moi même, homessa.

          • Antónimo diz:

            Mas, e já agora aos outros vulgos todos a quem na sequência do post está a mandar aprenderem a ler ou a reler o texto. É bué people, bacano.

          • Luís Bernardo diz:

            Tomar por vulgo quem lê blogues só pode ser invenção de mau gosto. Quanto ao resto,comentários de quem não lê os textos são-me indiferentes. Os coitadinhos dos comentadores leram uma coisa da qual não gostam? Que horror! A Internet, esse espaço público de merda. Bota lá um comentário absurdo e sem ligação ao texto comentado, a ver se pega.

            Como diria alguém numa série britânica: the computer says no. E chame-me de pedante, puto ou petulante: é para o lado que durmo melhor.

        • Antónimo diz:

          Bem, mesmo que fique só entre nós, saúdo-te puto pedante com tiques de Raquel Varela. Há gente que nada veio para cá fazer ou adiantar à discussão que por cá houve quando pontificavam Vidais, Ramos de Almeida, Motas Saraivas.

          Pedante, ignorante, mimado e, olha, sem humildade e iletrado.

          • Luís Bernardo diz:

            Só isso? Os insultos ficam por aí? O horror. A tragédia. Sinto-me inexceduvelmente ofendido pelos comentários de tão relevante comentador.

            E não, não fica só entre nós. Está aprovado e visível. Palminhas!

          • Antónimo diz:

            Mas ofender? O “puto pedante” foste tu (embora não tenhamos andado juntos na escola não fui eu que comecei com o tutear) que pediste. O resto não é ofensivo é a constatação clara quando o interlocutor dispara sobre a ventoinha acusações de que ninguém sabe ler. E repara que escrevi “mesmo que fique só entre nós”, o que pressupõe a probabilidade de que não ficasse, mas isso já era muito jogo.

            De qualquer modo, a prática mostra-me que lançar frases dessas são mais que meio caminho para se ser publicado, mesmo com as ameaças de fazer aprovações ao estilo da princesinha.

            É por isto que o Renato Teixeira me dá gosto, já o grosso das recentes aquisições e os seus textos de mundividência formal cavaquista…

          • Luís Bernardo diz:

            É tanto jogo numa caixa de comentários de um blogue que dá vontade de rir.

            Mundividência formal cavaquista é bonito. Há mais? Estou a gostar da ira biliosa. Vê lá se o dicionário não termina. Está a ser genuinamente divertido.

  4. Dezperado diz:

    “João César das Neves, como a direita abandalhada que temos, desistiu da capacidade de pensar.”

    Olha outro…..acho que o problema da esquerda é esse mesmo….é que passa tanto tempo a pensar que depois ficam só pelos pensamentos.

    “Direita abandalhada”……sim de facto, e pelo que tem acontecido recentemente neste blogue, nota-se que a esquerda esta toda alinhada, ficam alinhados quando todos idolatram o grande lider….quando ha uma ovelha negra que não segue o rebanho….la estala o verniz todo.

    • Luís Bernardo diz:

      E olha outro que não leu o que está escrito. Juntar as letrinhas não é igual a ler, meu caro. Quanto a essas observações sobre esquerdas e direitas, vá lá fazê-las para onde lhe prestam atenção e o consideram uma sumidade. Aqui debate-se. Se não gosta, a porta do blogue é serventia da casa. E não deixe a porta virtual bater-lhe no cu. Diz que dói.

      • Dezperado diz:

        “Se não gosta, a porta do blogue é serventia da casa. E não deixe a porta virtual bater-lhe no cu. Diz que dói.”

        Luis peço desculpa, pensei que estava a falar com um homem, afinal estou a falar com um puto.
        Eu percebo que alguns autores deste blog, deliram é quando os comentarios são só para vos encher o ego.

        “Aqui debate-se. ”

        Aqui??? onde????

        • Luís Bernardo diz:

          Coitadinho, picou-se, foi? Ao contrário daquilo a que estará habituado, eu não estou aqui para apaparicar gente sem ideias. “Olha outro”? Estamos conversados. O ego é seu. Continue a escrever idiotices, que ninguém lhe liga e eu ainda me divirto a responder-lhe.

          E está desculpado. Sou mesmo um puto. Se tem algo contra, já sabe o que fazer. Este estabelecimento não tem livro de reclamações.

          • Dezperado diz:

            ó Luis eu normalmente pico-me quando vejo argumentos do outro lado. E aí acrescento o debate ao “picanço”…..mas assim……

            Olhe que em termos de escrever idiotices, dou-lhe os parabens, esta muitos passos à minha frente.

          • Luís Bernardo diz:

            Obrigado pelos parabéns, recebidos e arquivados. Quanto ao debate de que fala, apraz-me vê-lo tão preocupado com a qualidade de uma discussão que iniciou com “olha outro”. Pode ir exercer essa preocupação para outra freguesia, já agora. É que não tenho e não me apetece ter paciência para este tipo de comentário.

          • Dezperado diz:

            Luis

            Tem razão, comecei mal a conversa com o “olha outro”, mas é que ainda esta semana um seu colga aqui do blog também veio com essa ideia que a direita é preguiçosa, por isso não pensa….

            Mas será que na direita só há Cesar das Neves?????

          • Luís Bernardo diz:

            Claro que não, Dezperado. Eu digo que a direita portuguesa é abandalhada porque as suas vozes mais importantes mostram péssimos hábitos intelectuais. E o meu ponto, com este texto, é argumentar a favor disto: a desistência de pensar é um problema que não exime os desistentes da exigência de juízos morais. O César das Neves é um desses desistentes. Também os há e houve à esquerda. Basta ler a blogosfera portuguesa.

    • Bolota diz:

      Dezperado,

      Vamos admitir que a nossa direita não é abandalha…então que nome dás ao amuo do Paulinho das feiras que limpou o esforço de 2 anos dos restantes portugas ao ponto da propria Troika o achar culpado???

  5. Dezperado diz:

    ó Bolota, tu que les este blog todos os dias, nestes últimos também tiveste um blog exemplo que a esquerda também se consegue abandalhar, com amuos, embirrações, abandono.

    Já viste, abandalhanços também acontecem nos partidos perfeitos, puros, ideologicamente perfeitos.

    Sabes porquê, porque os partidos são feitas de pessoas, e algumas tens mais dificuldade em aceitar o ponto de vista contrário.

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