Cunhal e Chico Martins: Nem Todos os Nomes

A politiquice fez muitos neste país esquecerem que a política é a arte de influenciar toda a nossa vida social e por isso individual. Por isso é tão importante. A política é a única coisa que nos move tanto como o amor, e ainda bem – quem não se apaixona, não se move, não sente as correntes que o prendem, disse a magnífica Rosa Luxemburgo. Como nas paixões há sempre qualquer coisa de paixão por nós próprios , de narcisismo auto destrutivo, é preciso aceitarmos que estas têm uma dimensão irracional. Por isso são paixões e por isso são tão fortes. E por isso é tão necessário ter limites, auto-limites. Um dos erros que a geração de Cunhal e Chico Martins nos legou  – ainda hoje reproduzida dentro de todos os partidos, dentro ou fora do arco parlamentar, e também dentro de Todos os grupos políticos quando entram em crise – foi transformar o debate político a sério, aquele debate duro que tem divergências e polémicas, num debate moral, sobre pessoas e não sobre ideias. Enterremos essa era. Nem o Francisco Martins Rodrigues foi um «ladrão» nem Cunhal um «delator» – foram dois dirigentes políticos que devem ser lembrados e discutidos pelas propostas políticas que levaram a cabo, pelos que aos nossos olhos são erros ou acertos.

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17 respostas a Cunhal e Chico Martins: Nem Todos os Nomes

  1. Carlos Gois diz:

    “Pessoas normais falam sobre coisas, pessoas inteligentes falam sobre ideias, pessoas mesquinhas falam sobre pessoas.” – Platão

  2. rg diz:

    ridículo! como se ambos fossem comparáveis.

  3. Bento diz:

    Falso como judas! o PCP e cunhal nunca transformaram o debate político num debate sobre pessoas.

  4. José Luís Moreira dos Santos diz:

    Sempre terei apreço por quem convictamente se expõe, mas o meu apreço atinge máximos e mínimos, quero dizer, não é constante, pois depende do grau de consciência por mim “detetada” da parte de quem se expôe. Daí as minhas oscilações, sempre reversíveis, diga-se, em relação ao que você, Raquel, vai dizendo, defendendo. Mas uma coisa lhe garanto, desde já, NUNCA serei capaz de entender esta sua comparação entre Cunhal e Chico Rodrigues. de que está você a falar? O respeito que você, como alguém que não receia uma peleja, me merece, obsta a que lhe diga que há erros que a um cientista, não se admite. A não ser que esse cientista “suspenda” por breves momentos essa sua condição para assumir outra, sempre legitima, a de ter direito à sua própria escolha. Então….
    José Luís Moreira dos Santos

    • Raquel Varela diz:

      José Luís, como cientista decidi estudar o PCP e não a Política Operária, porque o PCP tem infinitamente mais influência social e histórica que a PO. Como cidadã tenho muitos mais apreço pelo Chico Martins, que conheci, de quem era amiga e, ao contrário do que tantas vezes se escreve, nunca partilhei das suas propostas políticas. Não me revejo nem no PCP nem na PO. Como participante nesta discussão achei por bem lembrar os telhados de vidro, de todos os lados. Cump.

  5. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Talvez nem notes, mas o problema está nos adjectivos:

    “…a magnífica Rosa Luxemburgo…”

    E, portanto

    “…o maravilhoso Marx…”, “…o divino Lenine…”, “…o espantoso Trotsky…”, “…o brilhante Engels…”, “…o adorável Cunhal…”, etc., etc., etc.

    O que interessa não é o que esses disseram ou fizeram no passado, é a nossa capacidade para pensar hoje nos problemas de hoje para lhes dar uma solução de hoje. E podemos reservar um dia por ano para ir pôr flores nas campas desses maravilhosos personagens…

    Por vezes isto parece necrofilia…

  6. André Carapinha diz:

    Subscrevo esta bofetada de luva branca ao seu camarada Renato.

  7. Argala diz:

    ” foi transformar o debate político a sério, aquele debate duro que tem divergências e polémicas, num debate moral, sobre pessoas e não sobre ideias.”

    Dá-me um exemplo concreto de que FMR o tenha feito.

    Cumprimentos

  8. Se a inveja fosse “Tinha”,
    havia muito tinhoso !!!

  9. João Medeiros diz:

    Tem razão a Raquel, “Nem o Francisco Martins Rodrigues foi um «ladrão» nem Cunhal um «delator» – foram dois dirigentes políticos que devem ser lembrados e discutidos pelas propostas políticas que levaram a cabo, pelos que aos nossos olhos são erros ou acertos”.
    Apenas uma ressalva, Cunhal e Martins Rodrigues não pertencem à mesma geração, como sabemos. Cunhal nasceu em 1913 e Martins Rodrigues em 1927. Quando Martins Rodrigues entra no PCP, nos anos 50, Cunhal está preso. Encontram-se apenas na prisão de Peniche, donde fogem com mais dirigentes do PCP em Janeiro de 60.
    Convivi com o Chico durante mais de trinta anos e sou testemunha de que jamais foi capaz de “transformar o debate político a sério, aquele debate duro que tem divergências e polémicas, num debate moral, sobre pessoas e não sobre ideias”, como refere a Raquel e que subscrevo.
    Deixo-vos uma intervenção proferida por um comunista galego em sua homenagem, bem como a sua biografia.

    OS COENTROS DA REBELDIA TAMBÉM SÃO CONDIMENTOS IMPRESCINDÍVEIS DA REVOLUÇÃO

    Carlos Morais*

    Sem perder a calma, com essa serenidade, discreçom, ternura e precisom que ocaracterizavam, transmitiu há dous meses a camaradas e amizades a gravidade do seuestado de saúde. Nesses fulgurantes instantes de ansiedade e profunda tristeza, sem
    tempo a superarmos a natural comoçom que provoca umha notícia assim, constatamosnovamente o que de forma permanente tinha demonstrado ao longo da sua dilatadavida. Francisco Martins Rodrigues era um ser excepcional, umha dessas pessoas que
    nom é habitual encontrarmos nos caminhos da vida, das que deixam umha pegada indelével. Sem desfalecer, com serenidade, discreçom, ternura e precisom, qualidadesdifíceis de achar neste mundo devorado polo stress, a aparência, adesconsideraçom
    e o barulho, embora consciente de nom poder mudar o curso dos acontecimentos, atéo último fôlego combateu pola vida, seguindo com atençom as notícias, a nova PO, osdebates. Assim foi, com dignidade e coragem, o Chico enfrentou a última viagem.
    Ao dia seguinte do seu falecimento em Lisboa, na madrugada do 22 de Abril,os meios de comunicaçom da burguesia –alguns deles dirigidos por medíocrescanalhas carentes de pudor que se consideram “antigos camaradas”– vírom-seobrigados a noticiar que já nom estava connosco, mas obviamente figérom-no com ferocidade, sem respeitar a sua memória e integridade. O Chico já nom podiaresponder. Era necessário acertar contas contra a rebeldia que os desconcertavae irritava. Sabíamos que a imprensa burguesa, simples empresas de alienaçomde massas, carece de moral e de valores, que o seu único código de conduta é
    contribuir para deformar a realidade, para gerar mundos virtuais e multiplicar a acumulaçom de ganho dos seus donos.
    Embora nom fosse aconselhável ocultar a sua morte, como até o momento fijo a direcçom do PCP, devorada polo ressentimento, a infámia do negócio doespectáculo da desinformaçom optou por verter injuriantes falsidades e mentiras sobre umha das biografias mais limpas, genuínas e coerentes do melhor Portugal revolucionário do século XX.
    Sem pretendermos polemizar com renegados complexados, unicamente queremosmanifestar o grave erro de apreciaçom e análise que cometem os Fernandes e Cia. O Chico Martins, contrariamente à definiçom que inundou jornais e outros meios, nom era um velho comunista. Que enganados estám! Francisco Martins Rodrigues combateu sem trégua o capitalismo desde que praticamente tivo possibilidades de o fazer. Assim foi durante longas e adversas décadas, sempre sem desfalecer, com tenacidade e inteligência. Fijo-o basicamente na segunda metade do século XX, mas os ideais que o movêrom a passar meia vida na clandestinidade a combater o fascismo, a resistir as torturas da PIDE, a nom perder o rumo nem o entusiasmo durante cinco detençons que somam doze longos anos nas masmorras da ditadura salazarista, fam parte do século que iniciamos.
    A constância a indicar-nos o caminho para atingir o mundo novo que contribuiu para desenhar, permitiu que nunca deixasse de ser um eterno jovem, carregado de futuro, um de esses horizontes aos quais recorrermos em momentos de dúvida e confusom. Os contributos teórico-práticos do Camarada Campos –nome de guerra empregado na clandestinidade– convertêrom-no na indispensável argila que se deve empregar para a emancipaçom das geraçons futuras de trabalhadorase trabalhadores do Portugal do século XXI.
    Francisco Martins Rodrigues nom é um anacronismo do Portugal de Abril: é umha figura essencial nessa alvorada que dará passagem à cada vez mais necessária Revoluçom Socialista.

    Um legado teórico-prático que devemos valorizar

    Para avaliarmos com rigor e profundidade o legado teórico do Francisco Martins
    Rodrigues, é necessário recorrer à sua admirável biografia de combatente
    revolucionário comunista. Fijo .arte dessa geraçom de homens e mulheres que já
    desde a década de quarenta investiu o melhor da sua juventude na luita contra o
    fascismo, umha das mais brutais formas de dominaçom que adopta o capitalismo.
    Obviamente, iniciou-se militando no PCP, a única força antifascista organizada que
    na altura combatia o Estado Novo com eficácia, entrega e capacidade. Foi no seu
    seio que aprendeu a pensar por ele próprio, onde descobriu a teoria marxista, o
    seu insuperável método dialéctico de análise, a integridade da sua escala de valores,
    a superioridade moral que move um/ha revolucionári@. Aqui foi onde onde se
    converteu no indomável rebelde que sempre foi, só vencido pola morte.
    Mas, contrariamente ao acrítico seguidismo aos ditados de Moscovo que
    promovia a direcçom cunhalista, e movido sempre polo abc do comunismo, por
    essa “arma secreta de ódio e desprezo polos poderosos, pola necessidade de os
    combater sempre”, que lhe transmitiu o Chico Miguel –tal como magistralmente
    desvendou na sua última intervençom pública na festa do vigésimo segundo aniversário
    da revista Política Operária a 19 de Janeiro– tivo a coragem suficiente
    para questionar a estratégia política do levantamento nacional, da “unidade dos
    portugueses honrados”, essa mimética adaptaçom à realidade lusitana da doutrina
    soviética da coexistência pacífica convertida em dogma após o XX Congresso
    do PCUS de 1956.
    A madurez militante e intelectual permitia começar a dar as primeiras batalhas
    contra a capitulaçom revisionista que tinha penetrado até o cerne do partido,
    apoderando-se da sua natureza de organizaçom revolucionária. O Chico iniciava
    o desafio ao oportunismo reformista que Álvaro Cunhal tam bem disfarçava de
    marxismo original e criativo, sentando as bases para a recuperaçom do projecto
    revolucionário sem as deturpaçons impostas pola ortodoxia.
    Ainda assim, após ter participado na mítica fuga de Peniche a 3 de Janeiro
    de 1960, junto a outros dez destacados dirigentes do PCP, de manter heroicamente
    a estrutura clandestina comunista na margem sul do Tejo, passa a integrar a
    Comissom Executiva, máximo organismo de direcçom no interior do país, conformada
    por só três pessoas. O Chico assume mais responsabilidades, riscos e compromissos
    pola sua íntegra consciência comunista, mas contrariamente à lógica
    interna de um partido dogmático como o PCP nom renuncia a analisar a realidade
    sem depender das orientaçons emanadas de Moscovo. Seguindo as ensinanças
    leninistas, considera erróneo abandonar a insurreiçom popular armada, converter
    o proletáriado em simples massa de manobra da pequena burguesia republicana
    aplicando a linha centrista emanada da doutrina dimitroviana, manter umha posiçom
    ambígua a respeito da guerra colonial.
    Embora nom tenham eco as suas posiçons, nem tenha possibilidades de as
    transmitir ao conjunto de camaradas, o Chico nom desiste, nom se rende. Insiste
    em abrir debates, questionar umha linha geral que considera errónea. Mas o modelo
    e a concepçom organizativa do PCP –amparando-se nas difíceis condiçons de
    repressom– nom permitia exercitar a democracia socialista no seu seio.
    E tal como fijo ao longo da sua coerente trajectória militante, nom cede às
    pressons, tampouco às sedutoras ofertas, nem se deixa deslumbrar pola estadia
    de vários meses na URSS, que realiza em 1963. Cunhal nom admite os questionamentos
    e o Francisco Martins Rodrigues sabe que já nom é possível continuar no
    PCP mantendo umha coerente linha marxista revolucionária. Nom vacila!
    Com a coragem e a audácia que aprendeu de Marx e Lenine, opta por abandonar,
    promovendo a primeira organizaçom marxista que rompe com o reformismo
    do PCP. Assim nasce a FAP e o CMLP. Era necessário começar de novo. Aplicar às
    específicas condiçons de Portugal umha coerente estratégia revolucionária.
    Após visitar Pequim e Tirana para conhecer directamente as posiçons contrárias
    a Kruchev, podendo ter ficado comodamente em Moscovo ou P
    aris como fun- cionário, o Chico opta polo mais difícil mas também polo mais honesto e coerente:
    enfrentar a repressom salazarista, entrar de novo em Portugal para reconstruir o
    comunismo revolucionário. Após uns meses na clandestinidade, em 1965 é capturado,
    torturado e condenado com já 38 anos a 19 anos de prisom. Transgessor dos
    dogmas, das verdades inquestionáveis, indomável e incorruptível é, perante as
    resistências de Spínola a assinar a amnistia, o último preso político a abandonar
    Peniche 27 de Abril de 1974.
    Já em liberdade, foi determinante na convergênca dos grupos maoistas que
    dérom lugar à criaçom da UDP em Dezembro de 1974, e à constituiçom do PCR
    aos poucos meses do contragolpe revolucionário do 25 de Novembro de 1975, que
    enterrou o PREC inaugurado no 25 de Abril.
    Mas o Chico, com essa sólida formaçom marxista, com um profundo conhecimento
    teórico, com umha dilatada experiência militante fraguada em adversas
    condiçons, voltou a demonstrar a sua enorme capacidade analítica. Consciente
    das limitaçons do maoismo, da degeneraçom do modelo chinês, da reproduçom no
    seio da UDP-PCR das piores deturpaçons do modelo de partido estalinista provocado
    polo contaminado ADN importado do autodenominado “movimento marxistaleninista”,
    da linha oportunista que se tinha imposto no seu seio polas parciais
    readaptaçons –mais retóricas que reais– das bases fundacionais bolcheviques,
    nega-se a renunciar aos objectivos estratégicos e aos princípios fundamentais do
    marxismo revolucionário. Novamente, opta por questionar de maneira implacável
    o presente, sem concessons nem falsas saídas que impossibilitassem compreender
    e solucionar as causas do estagnamento e do retrocesso.
    É necessário continuar na procura do antídoto. A magnífica experiência da
    derrotada Revoluçom de Abril em que tivo o privilégio de viver e intervir contribuiu
    para avançar e acelerar na segunda grande ruptura política com o marxismo
    estalinista, agora na versom da matriz sino-albanesa. Consciente das invisíveis
    limitaçons políticas geradas pola inexperiência, das dificiências teóricas, da superficial
    ruptura com o marxismo soviético virtualmente realizada pola entusiasta
    geraçom militante fascinada polo radicalismo que Mao exercia na juventude durante
    o confronto ideológico sino-soviético, questiona elementos fulcrais da linha
    política da UDP e do adulterado modelo albanês. Consciente que o proletariado
    é quem se tem que emancipar com as suas próprias forças, fugindo de qualquer
    forma de colaboraçom de classes, da necessidade de construir umha corrente
    comunista caracterizada por umha clara demarcaçom entre a linha operária e a
    pequeno-burguesa, da necessidade de empregar todas as formas de luita para tomar
    o poder, sem ceder ao “respeito supersticioso polo parlamento e pola ordem
    burguesa”, o Chico estuda em profundidade as teses do VII Congresso da Internacional
    Comunista que lhe tinham solicitado da direcçom. E as conclusons a que
    chega som contrárias às que pretendia o Diógenes Arruda para justificar a linha
    de moderaçom e aplicaçom do modelo frentepopulista. O Chico novamente nom
    comunga com rodas de moinho. Agora já nom é com as directrices de Moscovo,
    sim com as de Tirana via PCB.
    Como nom podia ser de outro jeito pola sua lucidez, profundo conhecimento
    das ferramentas proporcionadas polas leis da dialéctica materialista, pola capacidade
    analítica e capacidade crítica e autocrítica, nom só nom secunda as teses
    dimitrovianas, impulsiona um revulsivo que culmina no “Anti Dimitrov. 1935-1985
    meio século de derrotas da Revolução”, com o posterior abandono da UDP em
    1983. Mas, como bom marxista militante, como magnífico polemista armado desse
    sentido autocrítico da procura permanente do rigor analítico para a sua aplicaçom
    na intervençom política, era consciente das sombras que possuía esta reflexom
    sobre as origens da penetraçom do reformismo no movimento comunista internacional.
    Por este motivo, afirmava que, coincindo no essencial nos dias de hoje com
    o seu ensaio, mudaria alguns argumentos e apreciaçons sobre a etapa estalinista.
    Assim era o Chico!! Inconformista, procurando sempre o caminho certo, pois
    “nom nos deve impressionar a acusaçom de “sectarismo” que os reformistas nos
    lançam, nem a impaciência dos militantes que nom se resignam a um trabalho
    apagado e querem resultados palpáveis em pouco tempo”.

    O projecto estratégico da Política Operária

    Mas, novamente, contrariamente ao que teria feito a maioria, nom desiste,
    nom abandona, nom se rende. Prossegue, com a bússula que o Lenine e o Chico
    Miguel lhe tinham mostrado, o caminho de construir a ferramenta defensiva
    e ofensiva que necessita a classe operária. Assim nasce a Política Operária em

    1984. “O partido comunista, corpo estranho na sociedade burguesa que pretende
    derrocar, sofre umha tremenda pressom da parte desta para ser digerido e
    destruído: pressom policial e militar quando necessário, mas também política e
    ideológica, na actividade legal de todos os dias. Pressom que provém nom apenas
    do aparelho de poder burguês mas também das camadas pequeno-burguesas contíguas
    ao proletariado e das flutuaçons no seio do próprio proletariado, hoje em
    grande medida desarticulado e desmoralizado polas derrotas que tem sofrido”.
    A Política Operária dirigida polo Chico é umha revista teórica de grande qualidade,
    a partir da qual analisou e prognosticou as contínuas mudanças da sociedade
    portuguesa das duas últimas décadas, mas também os fenómenos e a conjuntura
    internacional, sempre sob um único objectivo: armar ideologicamente a classe
    obreira e assim contribuir para promover a Revoluçom socialista indispensável
    para atingir a sua emancipaçom. Nom é, nem nunca tivo essa concepçom inofensiva
    caractrística do marxismo académico. Desde as suas origens, tem a vocaçom
    de ser o germe do partido comunista revolucionário. Ainda nom foi possível atingir
    este objectivo porque todas as cousas som pequenas quando começam.
    Contrariamente ao que figérom os grandes partidos “comunistas” oficiais de
    meio mundo, mas também prestigiosas organizaçons revolucionárias com apoio
    social, a queda da URSS e do socialismo realmente inexistente nom surpreendeu
    o Chico nem a PO. A acertada caracterizaçom do modelo imperante, esse
    “estado operário burocraticamente degenerado”, permitia prever e compreender
    com suficiente anterioridade que irremediavelmente estava condenado a abalar
    e desaparecer. Era mera questom de tempo. Tampouco o actual modelo misto de
    capitalismo de estado e economia de mercado sem mais regras que as que impom
    a lógica neoliberal, em que derivou a China, podia ser alternativa algumha. O integral
    questionamento do delirante regime albanês tinha contribuido já três lustros
    antes para a ruptura com o PCR.
    O Chico acompanha e denuncia sem concessons a procura de terceiras vias
    –“o trabalho comunista entre as massas requer muito esforço e brilha pouco”–
    a ofensiva global do imperialismo contra as massas oprimidas e empobrecidas,
    contra os povos, o discurso do pensamento único, a imposiçom pola força do neoliberalismo
    e da globalizaçom. E como brilhante marxista que era, sem renunciar
    aos princípios e aplicando o pensamento dialéctico, comprendeu as profundas
    mudanças operadas na luita de classes, os novos fenómenos que nem Marx nem
    Lenine prevêrom ou aos quais nom dérom atençom suficiente. Isto permitiu que,
    procedendo de umha área político-ideológica impermeável a qualquer discurso
    incómodo ou de difícil acomodo com o economicismo, mas que paulatinamente
    foi superando, tenha permitido realizar com enorme coragem um percurso tam
    genuíno e original.
    A partir de claras coordenadas anticapitalistas e anti-imperialistas, foi capaz
    de incorporar à arquitectura teórico-pratica da PO o conjunto de rebeldias geradas
    polo capitalismo ao património teórico-prático de que, sem lugar a dúvidas, é alicerce
    insubstituível do comunismo revolucionário português. A PO, nestes quinze
    anos, demonstrou a enorme capacidade para compreender que o antagonismo da
    contradiçom Capital-Trabalho é o cerne da luita contra a dominaçom, a exploraçom
    e a opresssom, mas sem se deixar tingir polas cores das diversas rebeldias específicas
    geradas polo modo de produçom capitalista, ou simbiotizadas por este, nom
    é possível avançar na reconstruçom e desenvolvimento do comunismo do século
    XXI. A específica opressom da mulher, o internacionalismo militante, a plena liberdade
    e direito à independência dos povos, a defesa do meio-ambiente e combate à
    destruiçom da natureza, a superaçom do poder adulto exercido sobre a geraçons
    jovens, a libertaçom sexual, a denúncia de toda forma de autoritarismo e defesa do
    permanente exercício da autodeterminaçom, quer queiramos, quer nom, atravessam
    transversalmente a luita de classes. Nom se reduzem nem se simplificam ao
    discurso e à reflexom da contradiçom principal emanada dos manuais soviéticos
    que posteriormente reproducírom diversas correntes da esquerda revolucionária.
    Igual que desde criança sabia que sem o aroma dos coentros nom é possível elaborar
    a magnífica gastronomia do seu Alentejo, o Chico soubo compreender com
    mestria que sem o lilás da luita feminista contra o machismo e o patriarcado, sem
    o arco iris da libertaçom sexual, sem as cores das bandeiras negadas das naçons
    e povos oprimidos, sem a simbologia da rebeldia juvenil, do antiautoritarismo, sem
    o verde ecologista, a bandeira vermelha de libertaçom integral está orfa e incompleta.
    Porque na Revoluçom Socialista confluem as luitas parciais e só ela pode dar
    soluçom plena e satisfatória às reivindicaçons parciais negadas, desconsideradas
    polas experiências revolucionárias do século XXI e XX.
    Esta imensa capacidade para se libertar dos espartilhos, dos anacronismos,
    da anorexia e comodidade ideológica de boa parte da esquerda, essa insaciável
    curiosidade e firme decisom para explorar novos caminhos sem perder nunca o
    objectivo estratégico de superar a propriedade privada, foi o que permitiu que o
    proletariado português posterior à crise revolucionária do 25 de Abril, que tam
    lucidamente soubo interpretar e explicar, tenha contado no seu seio com um militante
    tam destacado e difícil de substituir.
    Como bom conversador gostava de ouvir e de perguntar. Com umha voz
    suave e um tom sereno era umha pessoa dialogante, mas nunca desfaleceu na
    hora de questionar com intransigência toda forma de desigualdade e injustiça.
    Era conciliador e respeitoso com a diversidade e o pluralismo ideológico d@s que
    combatemos o capitalismo, permeável e aberto com os excluídos, audaz frente às
    inércias e o conservadorismo; mas também era dos que nom toleram enganos e
    tretas na hora de justificar com discursos moles e edulcorados a dominaçom capitalista.
    “Claro que a participaçom nas eleiçons pode ser necessária, mas numha
    condiçom: termos a certeza de que vamos utilizar as instituiçons burguesas e nom
    deixar-nos utilizar por elas”.
    Tinha esse dom para lograr que dúzias de jovens aos quais podia superar
    em mais de seis décadas seguissem com atençom e fascinaçom as suas opinions
    de veterano combatente que nem capitulava nem renunciava a tomar o céu por
    assalto.
    O Chico era dessas pessoas que continuamente nom deixa de surpreender. A
    sua ruptura com os dogmas e os fetiches do passado, a permanente adequaçom
    teórica às mudanças do presente foi o que permitiu evoluir a partir desse refractário
    marxismo característico das potências imperialistas, permanentemente
    contaminado polo chauvinismo, a compreender a justeza da luita de libertaçom dos
    povos oprimidos europeus. Isto foi o que converteu –inclusive superando incompreensons
    e contradiçons na sua própria corrente– o Francisco Martins Rodrigues
    no melhor amigo da causa nacional galega em Portugal, no permanente embaixador
    da independência da Galiza.

    A melhor homenagem é proseguir a inacabada obra que iniciou

    Hoje é um dia de combate contra o Capital, mas também de imensa alegria e
    orgulho de pertencer a esta classe, de satisfacçom colectiva e afirmaçom comunista.
    Mas este 1º de Maio é também de enorme tristeza porque, após 34 anos consecutivos,
    o Chico nom desfilou nas ruas de Lisboa. O seu corpo lamentavelmente
    nom está connosco. Mas sim o seu legado, o seu entusiasmo, a sua vitalidade, a
    suas contribuiçons para o sucesso da Revoluçom portuguesa e internacional.
    Errou no discurso com que finalizava a intervençom na última festa da PO
    ao afirmar que “podemos ainda ser poucos e fracos. Mas as tempestades que aí
    venhem vam-nos obrigar a ser muitos e muitas. O partido que dizem que já passou
    de moda -nom o partido-empresa, nom o partido-administraçom, nom o partidonegócio,
    mas o partido d@s revolucionári@s, esse há de voltar. Porque é preciso
    acabar com o pesadelo e começarmos a viver como seres humanos”. Errou
    pola sua modéstia ao desconsiderar na sua análise a importáncia da sua obra, o
    imenso capital teórico concentrado e acumulado na PO na hora de contribuir para
    reconstruir o partido comunista revolucionário nesta singular e específica luita de
    classes chamada Portugal.
    A melhor homenagem que se lhe pode tributar é continuar avante como
    projecto revolucionário a que consagrou inteiramente a sua vida. Está na hora
    de recuperar, centralizar, ordenar e publicar as suas reflexons, mas também de
    evitar o menor sintoma de desmoralizaçom e dispersom que provoca a sua grande
    ausência. A sua memória nom deve ficar encerrada só entre @s que fomos
    afortunad@s de compartilhar momentos e combates com um militante comunista
    da sua dimensom e capacidade, entre quem tivemos o imenso orgulho de o conhecer,
    de compartilhar com ele as alegrias e insatisfaçons da luita por esse novo
    mundo. É preciso difundir o legado que nos deixou e a melhor maneira é polo único
    caminho em que sempre apostou: a luita organizada comunista.
    Nom queria finalizar estas breves reflexons de homenagem da Galiza rebelde
    e combativa que tem umha dívida impagável com o Chico sem umha confessom.
    Nunca tivem, nunca tivemos oportunidade de lho podermos dizer pessoalmente.
    Agora reconheço que estou arrependido. Mas por pudor, por um respeito mal entedido,
    embora em mais de umha ocasiom estivesse a ponto de o fazer, nunca fum
    capaz de transmitir que sempre gostei e admirei muito o mestre, o companheiro,
    o amigo, o irmao, o camarada Chico Martins Rodrigues.

    *Carlos Morais é Secretário-Geral de “Primeira Linha”, Partido Comunista Galego

    HERESIA REVOLUCIONÁRIA, MARXISMO GENUÍNO
    (Uma biografia de Francisco Martins Rodrigues)

    “O abc do comunismo é o ódio e desprezo polos poderosos. A necessidade de os combater. Sempre. Essa é a nossa arma secreta”

    A biografia de Francisco Martins Rodrigues [FMR], é um exemplo admirável do integral combatente comunista que nunca, nem nas mais adversas condiçons, claudica nem capitula, defendendo sem concessons os princípios inquestionáveis da Revoluçom Socialista.
    Nasceu em Moura, na regiom portuguesa do Alentejo, a 14 de Novembro de 1927. O seu pai foi oficial do exército, de onde foi expulso por ser oposicionista ao governo, e sua mae era filha de pequenos proprietários. Porém as dificuldades económicas de umha numerosa família de cinco irmaos provoca a mudança para Lisboa onde estuda até ao 6º ano do liceu, empregando-se primeiro numha livraria para posteriormente trabalhar como “aprendiz de mecánico”, na TAP.
    Nesse mesmo ano de 1949 adere ao MUD Juvenil [Movimento de Unidade Democrática], tendo sido preso 3 meses por participar numha concentraçom contra a NATO, e posteriormente expulso da TAP. É libertado em 1951, arranja emprego num estabelecimento de venda de frigoríficos, mas passa depois a dedicar-se totalmente ao activismo e à militáncia política no MUD Juvenil, formando parte da direcçom. É de novo preso em Maio de 1952 por realizar graffitis políticos e distribuir panfletos contra a NATO. Depois de ser libertado condicionalmente em Novembro do mesmo ano volta a ser detido, por fazer “campanha contra a vinda a Lisboa do general Ridgway, o criminoso da guerra bacteriológica na Coreia”. Dadas as sucessivas prisons e o facto de viver com os pais, abandona a casa, passando a residir em diferentes moradas e sob nomes falsos.

    Revolucionário profissional
    Em 1953, com vinte e seis anos, o “camarada Campos” passa definitivamente à clandestinidade, ingressando como funcionário do PCP, mas umha doença pulmonar provoca que passe praticamente todo 1954 num sanatório para o restabelecimento.
    Em 1956 quando está “recuado” numha tipografia clandestina do partido em Lisboa editando o material teórico sobre o XX Congresso do PCUS, começa a questionar a viragem do PCP resultado da tese da “coexistência pacífica” soviética. A nova linha “cheirava a conversa social-democrata”, o que unido à saída nos jornais do relatório Kruchev [onde Estaline é acusado de crimes e atrocidades, bem como do culto da personalidade] provocava ainda mais dúvidas entre um Chico Martins que estava configurando, seguindo os ensinamentos da dialéctica materialista, critérios de opiniom, de análise e de pensamento próprio.
    Em 1957 é preso de novo, por quarta vez, por denúncia de um infiltrado no partido, passando três meses de prisom. Na cadeia de Peniche, onde estuda e começa a confeccionar textos de análise e reflexom teórica, conhece vários dirigentes do partido, como Álvaro Cunhal, Francisco Miguel e Jaime Serra, tendo a oportunidade de debater com eles a “linha do partido”, que considerava se estava afastando do leninismo.

    Fuga de Peniche
    No dia 3 de Janeiro de 1960 participa na espectacular fuga da prisom de Peniche, -umha das mais duras prisons políticas de Portugal, umha fortaleza antiga, à beira do mar, a meio caminho entre Lisboa e Coimbra-, da que se evade junto a outros nove dirigentes do PCP: Álvaro Cunhal, Francisco Miguel, Joaquim Gomes, Jaime Serra, Pedro Soares, José Carlos, Guilherme da Costa Carvalho, Rogério de Carvalho e Carlos Costa.
    A fuga converte-se num mito na luita contra o regime salazarista reforçando o prestígio do PCP como motor e principal força de combate ao fascismo.
    De novo em liberdade é colocado numha tipografia clandestina em Carnide, nas redondezas de Lisboa, onde passa um ano sem pisar a rua. Em Maio de 1961 é incorporado ao Comité Local de Lisboa e torna-se membro suplente do Comité Central para passar a formar parte já em 1962 da Comissom Executiva com Blanqui Teixeira, na altura membro do Secretariado no interior, mais Alexandre Castanheira.
    A repressom provoca importantes e numerosas quedas de militantes comunistas no final de 1961 polo que o trabalho desses três membros da Comissom Executiva do Comité Central envolvia todo o país, competendo a FMR a margem sul e arredores de Lisboa.

    Oposiçom radical à guerra colonial
    Com o início da guerra colonial africana foi-lhe pedido “escrever um manifesto em nome do Comité Central”, mas o escrito nom chega a sair da tipografia pois o Álvaro Cunhal considerou-no “muito vermelhusco”, fora do “espírito do partido” e é censurado. FMR aplicando os princípios leninistas optava por promover a insurreiçom popular armada como melhor mecanismo de oposiçom à luita colonial. A mais eficaz forma de contribuir à causa da libertaçom dos povos oprimidos polo colonialismo portugês era derrubando o governo fascista.
    Novamente som solicitados debates sobre a “linha do partido”, basicamente no referente à questom sobre a estratégia frente à guerra colonial, ou a posiçom sobre as críticas feitas pola China à URSS. Embora a clandestinidade e a repressom dificultava e limitava a discussom FMR questiona a linha política tomada, escreve várias cartas à direcçom solicitando debate, sem obter resposta. Na audiçom da rádio Pequim vai assistindo às críticas feitas à linha do PCF [de Thorez], do PCI e as divergências da linha chinesa face ao titismo.

    Ruptura com o reformismo
    No verao de 1963 vai a Moscovo para participar numha reuniom do Comité Central do exterior, para levar e apresentar um relatório do Secretariado do interior com o que “discordava”, e para debater as suas “incompreensons” perante a linha do partido. Encontra-se com Álvaro Cunhal e Francisco Miguel, mas as divergências mantêm-se ao fim de três dias de debate. A decisom que sai da reuniom estabelece que FMR ficaria como membro do CC no exterior, deixando a Comissom Executiva. Para acautelar possível actividade cisionista propugérom a FMR ser secretário de Álvaro Cunhal, mas perante a negativa de Cunhal ao que tinha acusado de oportunista, é enviado para Paris.

    Promotor do maoísmo português
    Em Outubro de 1963 chega a Paris para integrar umha organizaçom do PCP. Em reunions partidárias assiste a debates criticando a linha seguida polo PCP contra a guerra colonial, a “passagem pacífica ao socialismo” ou a crítica feita à “revoluçom democrática e nacional”. O maoísmo começava também a ter eco na estrutura do PCP na capital francesa.
    Inicia ligaçons com João Pulido Valente e Rui d’Espiney, exiliados na Argélia e em dissidência com o PCP. De seguida abandona o PCP e funda, em Janeiro de 1964, a FAP [Frente de Acção Popular]. Questons de estratégia em torno do aparecimento da FAP e as criticas levantadas sobre o facto de existir umha frente popular sem a direcçom política de um partido de vanguarda, provoca a fundaçom do CMLP [Comité Marxista Leninista Português], onde se procurava “reconstruir” ou “refundar” o PCP, enquanto motor dirigente da frente popular de massas contra o fascismo. O CMLP editou [1964-65] o jornal Revolução Popular.
    Depois de visitar China no verao de 1964 e posteriormente a Albánia para conhecer de primeira mao os modelos “socialistas” alternativos a Moscovo, em 1965 entra clandestinamente em Portugal para reconstruir o partido comunista desde posiçons revolucionárias.
    Nos primeiros dias de Dezembro de 1965 Francisco Martins Rodrigues e D’Espinay identificam no CMLP e na FAP ao infiltrado Mário Mateus, colaborador da polícia política, da PIDE, e “quando ficamos com a certeza que ele era mesmo provocador pago pola polícia, demos-lhe dous tiros”. Mateus, que trabalhava em ligaçom com o agente da PIDE de nome Cleto, lograra dar à polícia secreta pistas para a prisom de Pulido Valente.
    A FAP reivindicou esta acçom que tivo enorme repercussom na esquerda portuguesa.
    Com 38 anos FMR é cercado e detido pola PIDE em Janeiro de 1966. Nas instalaçons policiais sofre malheiras e aplicam-lhe a tortura do sono, sofrendo duas sessons consecutivas de sete dias sem poder dormir até atingir o delírio e perder a consciência. Neste estado naturalmente decifrou nomes que estavam escritos num papel que nom tinha logrado destruir durante a sua captura. Este facto provocará que durante muitos anos decline fazer parte da direcçom política da esquerda revolucionária portuguesa. “É umha ferida muito grande. Isso colocou-me numha situaçom que influenciou toda a minha posiçom no PCR, influenciou toda a minha demora em fazer a ruptura. Todo o percurso que figem estivo vinculado a isso”.
    Posteriormente num juízo farsa é condenado em pena cumulativa (política e penal) de 20 anos de prisom junto aos 12 de Pulido Valente e aos 15 de Rui d’Espiney.

    O último preso político do 25 de Abril
    Spínola finalmente cede e a liberdade definitiva chega às 20h45 do 27 de Abril de 1974 para os três últimos presos políticos da Cadeia do Forte de Peniche. Os do PCP há dias que tinham sido libertados. A essa hora, o major Azevedo, mandatário da Junta de Salvação Nacional, comunicou a Francisco Martins Rodrigues, Rui Pires de Carvalho d’Espinay e Filipe Viegas Aleixo que podiam abandonar livremente a casa dos advogados onde tinha sido fixada a residência após o 25 de Abril.
    Já em liberdade participa no grande movimento de massas gerado pola queda do fascismo após ter passado 20 anos na clandestinidade, 12 dos quais nas masmorras salazaristas.

    A reconstruçom do partido comunista revolucionário
    Logo ao 1º de Maio de 1974 passa a integrar-se num dos grupos da fragmentada constelaçom maoísta que se auto-qualificava como marxista-leninista, no CARP (M-L), jogando um papel destacado no processo de confluência, primeiro como ORPC (Organizaçom para a Reconstruçom do Partido Comunista), que posteriormente dinamiza a criaçom da UDP em Dezembro de 74, a única organizaçom à esquerda do PCP que atinge representaçom parlamentar e conta com um importante apoio entre o proletariado fabril.
    Após o contragolpe reaccionário do 25 de Novembro de 1975, com o qual finaliza a crise revolucionária de Abril, o PREC (Processo Revolucionário em Curso), é constituído o PCR (Partido Comunista Reconstruído) no qual passa a formar parte da sua direcçom.
    FMR, consagrado já como um dos mais destacados teóricos da esquerda revolucionária portuguesa, caracteriza o 25 de Abril como umha “crise revolucionária”. Destaca como as principais causas da sua derrota a fraqueza estrutural das organizaçons revolucionárias, o subdesenvolvimento teórico e político da corrente M-L, mas especialmente o reformismo do PCP, que nom quijo aprofundar na via socialista procurando unicamente umha transformaçom a fundo do capitalismo português para situar Portugal entre as democracias ocidentais, como conseqüência da estratégia do levantamento nacional, da “unidade dos portugueses honrados”.
    Numha entrevista realizada em Agosto de 2004 o Chico Martins afirmava que “a linha de Cunhal assentava num erro clamoroso que era ele convencer-se que a democracia burguesa feita com a ajuda de um forte PC teria que ser umha democracia burguesa progressista, de esquerda, que deixaria um grande lugar ao PC. Acreditava que o PC ia ser reconhecido e ter umha grande participaçom no governo. Verificou-se que isso era um sonho, umha completa utopia, porque a burguesia estava assustada com o processo revolucionário. A burguesia portuguesa é conservadora ao máximo, estava habituada a cinqüenta anos de tranquilidade, de segurança, ficou apavorada com o processo”.

    Em 1983 rompe com a UDP-PCR constituindo o Colectivo Comunista Política Operária que passa a editar a revista Política Operária da qual foi director até o seu falecimento em 22 de Abril em Lisboa.
    Embora a Revolução Popular sentasse as bases para a formaçom de umha nova corrente questionando a linha estratégica do PCP de aliança com a burguesia liberal, depois nom continuou nessa linha, sendo a causa que posteriormente, no 25 de Abril, nom existisse umha corrente com firmeza ideológica e força suficiente para poder intervir no processo revolucionário. “Sobretodo nas questons relativas à Uniom Soviética a gente nom fijo a ruptura”. O Chico reflectia sobre a deriva reformista da UDP-PCR afirmando que “em relaçom ao que é o socialismo, compreender o fenómeno da Uniom Soviética, ser capaz de apoiar a Revoluçom Russa a cem por cento, mas reconhecer que a Uniom Soviética nom era socialista, nom era possível. Aqui a UDP e o PCR formárom-se completamente com essa herança, “o grande camarada Estaline”. Isso nom é todo, mas acho que isso foi fundamental. Toda a ideia do partido, como funciona o partido, a disciplina interna, a paranóia das fracçons. Havia um ambiente muito fechado no PCR porque nom se discutiu se o partido do tempo de Estaline era o mesmo do tempo de Lenine, se a vida do partido era igual. Só depois é que a gente quando saiu do PCR começou a discutir isso.
    Os grupos M-L vinham numha crítica de esquerda ao PC por cousas que eram evidentes, mas nom se pode dizer que tivessem toda umha estrutura ideológica, ter base para fazer um programa comunista completamente renovado, autónomo”.

    Destacado legado teórico da política Operária
    Praticamente até semanas antes do seu falecimento, durante as últimas três décadas, boa parte da sua reflexom teórica estivo centrada na necessidade de construir umha corrente operária comunista caracterizada por umha demarcaçom clara entre a linha proletária e a linha pequeno-burguesa. No ensaio Anti Dimitrov 1935-1985 meio século de derrotas da revoluçom, publicado em Março de 1985, realiza um demoledor balanço do relatório do Jorge Dimitrov ao 7º Congresso da Internacional Comunista que defendia a unidade de todas as forças operárias, populares e democráticas sob umha mesma estratégia, convertendo o proletariado numha simples força de reserva da burguesia liberal, contrariamente ao defendido por Lenine.
    Para FMR substituir a luita de classes pola colaboraçom de classes, defender a unidade em torno das reivindicaçons limitadas da pequena burguesia, comuns a todo o povo, leva automaticamente a “sacrificar as reivindicaçons revolucionárias da classe operária” pois solicitando “muito ao proletariado, muito esforço, muito sacrifício, muita organizaçom, mas todo sem passar os limites daquilo que o programa liberal considerava aceitável. Todo o que no proletariado tendesse a ultrapassar esse limite e em falar em seu nome próprio e dos seus interesses próprios a longo prazo era chamado “sectarismo”, “obreirismo”, que só prejudicava a unidade. Portanto, criárom-se geraçons de operários muito luitadores, muito combativos, com um espírito de sacrifício tremendo, e que politicamente eles nem sabiam que a linha política que defendiam era contrária ao interesse a longo prazo da sua classe”.

    “O sistema capitalista nom vai evoluir, nem vai desaparecer por si, nem vai entregar o poder, a única perspectiva que existe é o seu derrubamento pola força”

    A sua lucidez e aplicaçom dialéctica e criativa do materialismo histórico, mas também a coragem de militante comunista, nom só o levou a se afastar ao longo da sua dilatada trajectória militante das derivas reformistas, mas a prognosticar a capitulaçom e o fracasso das terceiras vias. Assim considerava que para ter a sua identidade própria o proletariado “tem que se demarcar dos outros, e dos mais próximos é que é preciso se demarcar, como dizia o Lenine, que som aqueles com os que a gente se confunde. A gente nom se confunde com os banqueiros, a gente confunde-se com a pequena burguesia que está ao nosso lado. Temos que fazer essa demarcaçom. A nossa política nom pode ser a deles. Tem que ser diferente, mesmo que eles nom gostem”.
    O FMR sempre mantivo umha enorme flexibilidade táctica, umha grande permeabilidade discursiva inserida na inquestionável defesa dos princípios estratégicos cuja ausência provocou tantos aggiornamentos e capitulaçons. “Claro que a participaçom nas eleiçons pode ser necessária, mas numha condiçom: termos a certeza de que vamos utilizar as instituiçons burguesas e nom deixar-nos utilizar por elas”.

    “Nom temos inimigos entre os que se batem contra o capitalismo e o imperialismo. A esses desejamos êxitos, venham de onde vinherem. Porque os seus êxitos som também os nossos êxitos”

    Umha obra a resgatar e difundir
    O Chico Martins nunca renunciou ao objectivo de reconstruir o partido comunista revolucionário, porém considerava que nom se podia reproduzir seguindo velhas receitas, utilizando mimeticamente modelos adulterados. “Tenho recusa absoluta em criar umha organizaçom nos moldes antigos, que acho que alguns camaradas espontaneamente tendem a fazer. Moldes antigos de vida interna e de pôr de lado o aprofundamento das questons políticas que nos trouxérom até aqui”. O trabalho paciente e constante define a sua dilatada trajectória militante: “nom nos deve impressionar a acusaçom de “sectarismo” que os reformistas nos lançam, nem a impaciência dos militantes que nom se resignam a um trabalho apagado e querem resultados palpáveis em pouco tempo”.
    Polemista infatigável, com umha curiosidade intelectual insaciável, sempre estivo à frente das luitas pola defesa dos interesses da classe operária, contra o neoliberalismo, a guerra e o imperialismo, contra o racismo e a xenofobia, a favor dos direitos das mulheres, da juventude e da classe trabalhadora imigrante, procurando a necessária confluência.

    Com umha boa parte dos seus trabalhos ainda inéditos tem publicado diversos ensaios políticos, entre os que destacamos “Anti Dimitrov. 1935-1985 meio século de derrotas da revolução” (1985); “O futuro era agora. O movimento popular do 25 de Abril” (1994); “Abril traído” (1999).
    Francisco Martins Rodrigues é um dos mais qualificados protagonistas e teóricos do movimento revolucionário português. Iconoclasta e herege com dogmas e fetiches, sempre na procura do caminho certo, adequando e incorporando ao método de análise marxista os fenómenos e mudanças do presente, representa o melhor do marxismo criador, é umha das expressons mais elaboradas da acçom teórico-prática do movimento operário do país irmao.
    Praticamente até semanas antes do seu falecimento boa parte da sua importante reflexom teórica, durante as últimas três décadas, estivo centrada na necessidade de construir umha corrente operária comunista caracterizada por umha demarcaçom clara entre a linha proletária e a linha pequeno-burguesa. Mas as suas análises e reflexons teóricas som muito mais amplas abordando o fracasso do 25 de Abril, a história e actualidade do movimento revolucionário em Portugal, o profundo dano causado polo estalinismo e o modelo burocrático soviético ao projecto revolucionário comunista.
    A necessidade de incorporar as diversas cores da rebeldia à luita pola hegemonia socialista som um exemplo a seguir pola esquerda independentista galega.

    “O trabalho comunista entre as massas requer muito esforço e brilha pouco”

    Amigo da causa nacional galega
    Autor de dúzias de artigos de opiniom, parte deles recolhidos no livro “O comunismo que aí vem” (2004), foi sem lugar a dúvidas um dos grandes amigos da esquerda independentista galega em Portugal, o nosso embaixador em Lisboa, defendendo sem ambigüidades o direito de autodeterminaçom da Galiza. Desde inícios de século o Francisco Martins Rodrigues estabelece profundas relaçons de camaradagem e amizade com a Galiza combatente, colaborando assiduamente com o MLNG.
    Participa nas jornadas patrióticas do 25 de Julho de NÓS-UP e nas iniciativas unitárias, discursando sempre a favor do direito à independência nacional da Galiza; publicando as suas lúcidas análises no jornal comunista Abrente, e assistindo como conferencista nas VI, VIII e X ediçom das Jornadas Independentistas Galegas organizadas por Primeira Linha em 2002, 2004 e 2006.
    O Chico preocupou-se por divulgar entre a esquerda portuguesa a luita pola independência nacional da Galiza, sendo um firme defensor do direito de autodeterminaçom das naçons peninsulares, convertendo-se num grande amigo da causa galega, aplicando mais umha vez os ensinamentos de Lenine quem dedicou grandes esforços teóricos nos últimos anos da sua vida a reflectir sobre a necessidade de o proletariado se implicar a fundo na luita nacional.

    “Podemos ainda ser poucos e fracos. Mas as tempestades que aí venhem vam obrigar-nos a ser muitos e muitas. O partido que dizem que já passou de moda -nom o partido-empresa, nom o partido-administraçom, nom o partido-negócio, mas o partido das e dos revolucionários, esse há de voltar. Porque é preciso acabar com o pesadelo e começarmos a viver como seres humanos”

  10. Augusto diz:

    Se conhecessem o Francisco Martins Rodrigues, a sua entrega total aos principios que sempre defendeu, a sua capacidade de analisar as situações, e de as debater, talvez fossem um pouco mais comedidos na forma como escrevem sobre ele.

    O Chico se se tivesse mantido no PCP , seria certamente um adversário TEMIVEL de Cunhal. pois era dos poucos elementos do CC que sabia discutir IDEIAS, e não ía em cartilhas.

    • um anarco-ciclista diz:

      Estás a falar dos princípios “chineses” ou dos princípios “albaneses”…?

    • João Medeiros diz:

      Raquel, um(a) amigo(a) do Chico meu amigo é … No entanto, o “Partido com paredes de vidro ” é um exclusivo do PCP, como se sabe! Permita-me que deixe em contraponto mais duas posições de FMR. Os leitores que tirem as suas conclusões.
      Saudações revolucionárias.

      “O Partido com paredes de vidro”. Álvaro Cunhal, Ed. Avante, 1985.

      A que vem esta espécie de manual escolar, cansativa recapitulação das ideias de Cunhal sobre o centralismo democrático, a unidade e a disciplina, as normas do aparelho, dos órgãos de direcção e dos quadros?
      Seria um erro ver nela um mero trabalho de propaganda. Cunhal procura fixar princípios, codificar a sua herança, defendê-la. De quê? Obviamente, da ameaça de dissolução em que lentamente se esvai a escola tradicional do PCP. Não é difícil distinguir, na argumentação com que defende a fidelidade às normas e ao estilo do passado, os ecos de um debate oculto. Todo o livro é percorrido por uma polémica velada, contida mas evidente, com a direita moderna e tecnocrática, cínica e liberalizante, que ascende no PCP.
      Essa polémica gira à volta da política geral do partido. O que está em questão no PCP é o próprio projecto de chegar ao poder sem romper a solidariedade incondicional com a União Soviética. É isso que preocupa os jovens quadros, fartos de se verem escorraçados de um lugar no governo do país, em nome da fidelidade a “mitos”. Será preciso ficar à espera que se repita o “milagre” de 75? E, mesmo que isso venha a acontecer, não será o poder do partido tão inseguro e ilusório como foi nesse ano? A perspectiva da Revolução Democrática e Nacional não estará ainda presa ao dogmatismo? Naturalmente, esta batalha pela reformulação da política exige uma batalha preliminar pelo direito ao debate no partido. Eis o que está em jogo neste momento. Cunhal, com a sua reconhecida bravura, enfrenta o desafio e tenta demonstrar que nada há a reformar nos métodos organizativos do PCP.
      Como se consegue a assombrosa unanimidade dos congressos e conferências, com a “exaltante floresta de cartões vermelhos no ar”? É fruto apenas, garante-nos, de uma vida profundamente democrática e colectiva, em que as ideias são sucessivamente trabalhadas e enriquecidas, até se tornarem património comum. Os debates acesos que se observam noutros partidos (a alusão visa sobretudo o PCE) é que seriam prova de falta de democracia…
      O paradoxo não convence. É bem conhecido que abalos como o 25 de Novembro, a candidatura de Otelo em 1976 ou a invasão “libertadora” do Afeganistão produziram no interior do PCP fortes correntes de opinião divergentes. Que não foram harmonizadas num novo consenso (como poderiam sê-lo?) mas abafadas e reabsorvidas por todo o mecanismo meticulosamente montado de pressão interna.
      Os instrumentos dessa pressão transparecem através das explicações tranquilizadoras de Cunhal. Quando diz que as opiniões divergentes não podem transpirar para fora dos organismos respectivos; que são proibidas, não só as fracções organizadas, mas também as tendências ideológicas, as plataformas, os grupos (pág. 229); que as votações são boas para despachar questões práticas, mas já não tão boas “no que respeita a questões mais importantes, nomeadamente a decisões políticas” (!) (pág. 113); quando exige a votação de braço no ar, mesmo nos casos em que isso acarreta uma inegável coacção (eleição dos corpos dirigentes) – ficamos com uma imagem mais terra-a-terra do lírico consenso exaltado por Cunhal.
      A unanimidade forçada é a verdadeira “regra de ouro”, a pedra angular em que assenta a organização do PCP. Quem quer militar nas suas fileiras mentaliza-se na ideia de que é mau discordar, de que isso enfraquece o partido e a luta do povo, e habitua-se a “assimilar” as ideias que lhe servem já feitas. Só isso explica a perda gradual de independência, de espírito crítico e de capacidade criadora dos membros do PCP. Pergunte-se pela produção teórica ou ideológica deste exército de 200 mil militantes de “vanguarda”: encontra-se o deserto.
      Essa pressão, note-se, não tem nada de brutal ou de ditatorial. Cunhal é suficientemente hábil para conhecer os riscos de ruptura que isso acarretaria, bem documentados noutras experiências. O seu estilo é a moderação e o equilíbrio. Sabe que uma pressão “fraterna”, atenta, amiga, pode ser a mais imperativa e eficaz. E fica à vontade para valorizar o seu método em contraste com a corrupção, o caciquismo, os clãs e as jogadas baixas a que se resume a fictícia democracia interna dos partidos burgueses.
      Uma outra peça não pequena deste mecanismo unanimitário é o mito de uma sabedoria e de uma vontade colectivas que seriam como que um espírito pairando no ar e não se exprimiriam através de pessoas especialmente aptas a condensá-las. Para incutir esta ideia, Cunhal vai ao ponto de tentar apagar aquilo que todos sabem, dentro e fora do PCP – o seu papel individual como a alma, o cérebro pensante, o árbitro do colectivo dirigente do PCP desde há perto de meio século. Fá-lo, não por falsa modéstia ou hipocrisia política mas para se assegurar de que ninguém ousará defender opiniões próprias. “Se o camarada Cunha! diz que é só uma peça da engrenagem, o que serei eu então?”
      *
      Mesmo assim, é um facto que este sistema está em crise. A vida não perdoa. Cunhal não pode fazer mais do que erguer trincheiras defensivas face a uma avalancha que cresce. Já lá vai o tempo em que as suas noções de política e de partido se impunham naturalmente como a solução indiscutível para o reformismo operário em Portugal. O “cunhalismo” consumou-se, triunfou e começou a morrer na experiência de 74-75. Os seus herdeiros exigem ir mais longe na integração na sociedade burguesa.
      Deste “ficar para trás” sai em linha recta a pobreza metafísica do pensamento de Cunhal. O maior erro dessa cabeça tonta que é o Sr. Miguel Urbano Rodrigues é querer descobrir nele à viva força (no Diário de 6/9) um pensamento dialéctico. Se há coisa que falta em absoluto ao secretário-geral do PCP é precisamente a dialéctica. O mais que consegue, graças a um longo treino, é ocultar a estreiteza das ideias sob uma floresta de retórica.
      A argumentação desdobra-se numa chata enumeração de categorias, em que tudo se subdivide no primeiro aspecto, no segundo aspecto, no terceiro aspecto, no “por um lado” e “pelo outro lado”, nos seis critérios, os quatro fundamentos, e por ai fora. Até nos conduzir às subtis distinções escolásticas entre o partido de “novo tipo” e o partido de “tipo novo”, os problemas dos quadros e os problemas de quadros, ou os dois significados da palavra “organização”… Estamos em pleno S. ‘Tomás de Aquino.
      Daí também o tom de moralismo sentencioso desta obra, que traz à ideia o famoso “Para ser um bom comunista” do falecido Liu Chao-chi. Como os velhos sábios chineses, Cunhal tenta segurar o passado atrás de normas de conduta minuciosas. Lá vem o elogio da modéstia e da pontualidade, a prevenção contra a arrogância, a condenação da lisonja, o amor pela verdade… Não estamos perante um livro pedagógico, como lhe chama caridosamente Baptista-Bastos (no Diário Popular de 4/9), mas perante um insuportável catecismo de preceitos virtuosos.
      Ao mesmo tempo, este velho moralista tenta desastradamente mostrar-se moderno, para não afugentar os jovens. Tal qual como os padres da nova vaga que abrem a igreja ao rock. “Um comunista não deixa por isso de ser um ser humano”: pode-se rir, fumar, beber um copo, “viver mais ou menos intensamente o amor”. Pode-se harmonizar a militância com a vida pessoal. Que ninguém tenha vergonha de ser feliz. Não é necessário confundir dedicação com sacrifício. Etc., etc. Seria bem bom se o problema da modernização do revisionismo português se resolvesse com aberturas destas.
      *
      Como nos bons velhos tempos, Cunhal aposta no entusiasmo caloroso e contagiante. Mas mesmo os seus adeptos mais fiéis não podem esconder o desencorajamento e a frustração que lhes provoca este novo escrito. É só isto afinal o “marxismo-leninismo” que há para opor ao eurocomunismo? Até Baptista-Bastos, apesar da admiração indefectível que por ele mantém, é forçado a admitir que este “ainda não é o livro por que muitos esperam”.
      Cunhal desaponta porque já não tem alternativa. O pilar social da sua política, a pequena burguesia democrática e patriótica, idealista e radical, que buscava o apoio do movimento operário para deitar o fascismo abaixo e modernizar Portugal – esse pilar dissolveu-se nas andanças destes dez anos. O tempo agora é de negócio, carreira, governo, participação. E de um partido de “tipo novo”.
      Por isso, Cunhal sente-se emparedado. Para a frente, fica um revisionismo moderno, sem preconceitos, “à italiana”, que ele, por formação e instinto, se sente incapaz de adoptar. Lá muito para trás ficou o marxismo revolucionário dos tempos heróicos, com que ele há muito cortou, faz agora precisamente meio século. Com esta obra, ele tenta dar continuidade a uma das suas melhores criações, um sistema firme, equilibrado e elástico de vida partidária que fez do PCP um dos mais eficazes partidos pequeno-burgueses para operários. Parece muito duvidoso que o consiga.

      (Política Operária nº 1, Setembro/Outubro 1985)

      O DIREITO À REVOLUÇÃO
      (Primeiro Editorial da revista Política Operária)

      O lançamento de “POLÍTICA OPERÁRIA” depara com uma pergunta quase certa: que utilidade tem uma revista que se propõe levar aos operários a discussão dos grandes temas da política?
      A maioria dos trabalhadores não verá interesse prático numa iniciativa destas. Hoje, porque estamos envolvidos numa série de campanhas eleitorais e todos querem saber em quem votar; amanhã, porque será necessário prosseguir a luta contra os despedimentos, os salários em atraso, a carestia, a exploração capitalista.
      E, contudo, não têm faltado à classe operária, nos últimos onze anos, ocasiões para fazer sentir o seu peso, em eleições, em greves, em manifestações. Como se compreende que a sua situação seja cada vez pior? É que lhe faltou o principal: uma linha de rumo coerente, que só poderia ser conseguida através da reflexão e do debate entre os operários conscientes. Desgraçadamente, está enraizado no nosso movimento operário o preconceito de que reflectir, debater, teorizar seria uma ocupação para intelectuais. Aos operários caberia só actuar, lançar acções de massas. Este praticismo entranhado – que se mascara de dinamismo e até chega a exibir-se como uma marca de classe! – é o maior responsável pelo atraso do movimento operário português.

      Fazemos parte de um movimento operário lutador mas privado de independência política, afogado em preconceitos pequeno-burgueses. Esta é uma conclusão que pode parecer dura mas que tem de ser dita. Um movimento operário que, há mais de meio século, reconhece como seu partido político o PCP e que admite como expressão dos seus interesses, sucessivamente, o “levantamento nacional dos portugueses honrados”, a “revolução democrática e nacional”, a “aliança povo/MFA”, a “via do desenvolvimento não-capitalista” e o “governo de salvação nacional”, e que considera o derrubamento da burguesia como uma miragem impossível – este movimento só pode ser classificado como atrasado, desprovido de objectivo próprio. Ou seja, um apêndice do reformismo pequeno-burguês.
      Hoje, quando o desabar das ilusões de Abril faz crescer o número de operários que se voltam para o PS como alternativa ao PCP, que procuram no colaboracionismo da UGT aquilo que não obtiveram da paralisia da CGTP, que se convencem de que a social-democracia pode ser melhor do que o fracassado “comunismo” soviético – hoje, sobretudo, é preciso procurar no marxismo uma explicação para o descalabro e um caminho de saída, virar costas por uma vez à esperança na colaboração de classes. Foi o que o PC(R) anunciou mas não se atreveu a fazer. Daí o seu fracasso actual.

      A verdade é que ninguém, a não ser a burguesia, tem sabido aproveitar as lições dos desaires da classe operária. E sustentar-se da sua própria podridão.
      Porque este mundo de pesadelo que o capitalismo criou – a barbárie e a lei da selva dos países “avançados”, a agonia da miséria do chamado “Terceiro Mundo”, as guerras, os genocídios, os fascismos, o banditismo internacional dos Estados Unidos, o obscurantismo hipócrita da União Soviética, a ameaça permanente de destruição nuclear, o esbanjamento dos frutos do progresso científico – nada disto pode ser varrido com condenações morais, nem com pequenas reformas nem com ambíguas “revoluções nacionais-populares” para contentar toda a gente.
      É preciso que a classe operária tome finalmente em mãos a tarefa que a História lhe destina e de que mais ninguém se pode encarregar: pôr fim ao capitalismo, o ocidental e o oriental, criar uma sociedade de produtores livres e iguais – o comunismo.
      Mas, para isso, é preciso que a vanguarda operária se torne capaz de criticar todas as classes, derrubar todos os tabus, libertar-se de todas as dependências, compreender tudo, ousar tudo. Só assim poderá guiar o conjunto do proletariado para a conquista do poder. Isto significa, entre outras coisas, que é preciso saber porque se perdeu a revolução russa de 1917, o maior acontecimento revolucionário de todos os tempos, e depois dela a revolução chinesa; porque se afundou a Internacional Comunista e entrou em eclipse o movimento operário revolucionário no último meio século; por que meios corrompe a burguesia a consciência dos operários, ajudada pelo seu capataz pequeno-burguês; que natureza tem o novo capitalismo implantado na URSS e no Leste; porque é que os movimentos de libertação dos povos colonizados naufragaram num novo capitalismo sórdido; porque faliu a tentativa de reconstruir o movimento internacional marxista-leninista; como pode o proletariado libertar-se da hegemonia pequeno-burguesa, derrubar o Estado burguês e instaurar a sua ditadura de classe? É preciso, afinal, redescobrir com Lenine que sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário.

      Procurar respostas marxistas actuais para o movimento operário actual é a única maneira de o proletariado readquirir o pensamento de classe que lhe falta e libertar-se da servidão política e ideológica a que a pequena burguesia o submete.
      Recuámos tanto que hoje parece estranha, mesmo à maioria dos operários, a ideia de que o proletariado deva ter o seu pensamento independente, as suas próprias posições políticas. Os operários, como os restantes cidadãos, podem filiar-se num partido, votar livremente, informar-se na imprensa, protestar. Que mais lhes falta? Acontece, porém, que governos, parlamentos, partidos, tribunais, sindicatos, imprensa, todos dão como indiscutível a ordem social reinante. A burguesia reconhece o direito de mudança desde que sejam acatadas as regras do jogo que ela própria estabeleceu… O jogo está viciado e 1975 bem o mostrou. “POLÍTICA OPERARIA” surge precisamente para expor aos operários o direito que ninguém lhes reconhece – o direito à revolução. Em que se funda esse direito? Neste facto elementar: os produtores, que são o sustentáculo da sociedade, não riscam nada nas decisões de fundo, limitam-se a vender a sua força de trabalho, são joguetes das leis de acumulação do Capital.
      Só afirmando o seu direito à revolução socialista pode o proletariado sair das trevas do reformismo e começar a intervir como força independente na luta de classes. É este o ponto de partida para uma política operária; é este o alicerce para aquilo que os operários avançados de Portugal procuram desde a revolução dos sovietes – um autêntico partido comunista.
      Como se pode, nos dias de hoje, construir o partido e fazer a revolução em Portugal, é questão que não tem resposta fácil. É preciso procurá-la. Mas para a procurar é preciso começar por querer encontrá-la. Essa vontade não nos faltará.

      O futuro de “POLÍTICA OPERÁRIA” depende do apoio dos operários que buscam respostas para a confusão política reinante na classe; dos sindicalistas que se esforçam por levantar o combate de classe contra classe; dos revolucionários que se empenham em renovar o marxismo como corrente de pensamento vivo e como instrumento de acção política; dos comunistas que não se conformam com as imitações grosseiras de partido comunista que por aí se vendem e aspiram a um partido à imagem dos bolchevistas russos.
      É com todos esses que contamos, não apenas na qualidade de leitores, mas na de participantes activos, colaboradores, difusores, para relançar o debate sobre as questões verdadeiramente decisivas para a classe operária. Um debate que ajude a nascer uma corrente política imparável.

  11. closer diz:

    Por muito que possa divergir de FMR, nunca deixarei de prestar homenagem à sua coragem e coerência política. Denunciado nas páginas do Avante no tempo do fascismo, supostamente em reeducação pela UDP/PCP (R),, a vender o Bandeira Vermelha na estação do Rossio, para expiar fraquezas na prisão, FMR escolheu sempre o caminho mais difícil, aquele em que acreditava.. Mesmo que isso implicasse uma ruptura corajosa e pioneira com o PCP, quando tal era muito difícil, ou o afastamento posterior dos modelos albaneses e a ostracização por parte de Eduardo Pires e dos outros dirigentes do PCP(R).

    Talvez não tivesse o brilhantismo de Cunhal (embora os seus textos do Revolução Popular devam ser historicamente revalorizados) mas foi daqueles que falou sempre de forma desassombrada, ao contrário de outros que só abriram a boca para denunciar a fraude que foi a URSS, depois dela se ter desmembrado

  12. Pingback: Desmentido em nome da Revista Rubra | cinco dias

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