Umas dicas de interpretação histórica e textual (1)

Overcoming-obstacles

Como bem lembra o Ricardo Ferreira Pinto, o mundo continua a girar lá fora, a cada dia com novas medidas de destruição do contrato social por que nos regemos, por vezes acompanhadas por laivos bastante espessos de tráfego de influências. Isto, enquanto o pessoal se entretém com questões que não diria «secundárias» (pois é óbvio que não o são, nem para quem as levanta, nem para quem se sente ofendido por elas), mas certamente, em termos comparativos, de lana caprina.

(Entretanto, quanto à nova pseudo-liberalice à conta dos dinheiros do Estado que o Ricardo aborda – o cheque-ensino – aproveito para sugerir que complementem a leitura do que ele diz com a deste post e a visualização desta reportagem.)

Também já aqui deixei escrito, de uma forma suficientemente jocosa para evitar agressividades desnecessárias, que Álvaro Cunhal não precisa, para nada, de ser defendido do Renato, ou de qualquer um de nós.

Acontece, não obstante, que este meu último companheiro de blog fez questão de argumentar a partir de documentos a sua afirmação de que Álvaro Cunhal «na noite fascista, abraçou convictamente a delação». E que ao fazê-lo, para além de passar a merecer um pouco mais de atenção e eventualmente debate, mete os pés pelas mãos.

Mete, porque na sua interpretação há a omissão de um dado factual essencial, e volta a meter porque, no próprio post, introduz uma nova conclusão que se baseia numa interpretação de texto (aquela cena que tínhamos que fazer nas aulas de português e de filosofia, no secundário) claramente errónea.

Partindo eu do princípio de que o Renato não o terá certamente feito de má-fé (pelo que as suas conclusões decorrerão, num dos casos, de ignorância histórica e, no outro, ou de uma limitação de competências específicas de interpretação de texto ou de uma dissonância cognitiva que conjunturalmente as limitou), dou-me ao trabalho de escrever este post, com a fraternal intenção de lhe fornecer umas dicas que possam contribuir para o desenvolvimento das suas capacidades interpretativas e analíticas, de que espero venham a beneficiar o próprio e os seus leitores.

RR até amanhã camaradas

É-me contudo necessário um esclarecimento prévio:

Considero evidente que a resitência do PCP à ditadura foi uma extraordinária epopeia, que honra não apenas os que a viveram, esse partido e todos os que são ou foram seus membros, mas todos os portugueses, por anti-comunistas que possam ser. Isto porque, da mesma forma que só a existência da resistência francesa permitiu que esse país saísse da 2ª Guerra Mundial encarado como uma potência vencedora (em vez de miseravelmente vencida e colaboracionista de crimes contra a humanidade), só a continuada resistência anti-fascista do PCP (acompanhada de outras, mais fragmentares ou limitadas no tempo) justificou que os portugueses se pudessem encarar colectivamente, desde 1974, como outra coisa que não uma carneirada submissa e subserviente.

Também sei que essa apopeia não é imaculada, contendo diversos casos que (surgindo em pontual rodapé à hagiografia oficial ou mantendo-se tabu; decorrentes dos constrangimentos da luta clandestina ou de visões da prática política que aquela não justifica), foram muitas vezes mais graves e relevantes do que aquele que o Renato levanta.

Não quer isto dizer que este caso possa ser considerado menor ou irrelevante, quer em termos abstractos quer na perspectiva da organização política envolvida. Prova dessa relevância e gravidade aos olhos dos próprios é o facto de, em condições de clandestinidade, ele ter sido criticado e objecto de resolução no Secretariado,  ratificada pelo Comité Central e integrada no relatório a um Congresso que nada tinha de business as usual.

Mas, antes de se começarem a disparar dedos acusadores a este ou àquele, convém lembrar um dado público e sabido de qualquer pessoa que disponha do conhecimento básico que lhe permita opinar para além do “eu cá acho que…”.

Nesse período, o Avante! era era dirigido e redigido no interior do país, ao passo que Álvaro Cunhal e parte da direcção estavam no exterior. Comunicados centrais e pontuais artigos doutrinários vinham de fora, mas esse não é certamente o caso (pela dimensão, conteúdo e estilo – aliás, reconhecível) do pequeno texto afixado pelo Renato.

O percurso, dinâmica e tom da crítica partidária transcrita pelo Renato, aliás, retiraria quaisquer renitentes dúvidas. Aquilo não é, num contexto como esse, uma auto-crítica imposta ao chefe máximo por ter metido a pata na poça, mas um puxão de orelhas do organismo máximo de chefia a dirigentes subordinados, re-confrontados com ela no seu próprio organismo. É uma crítica que (com ou sem outros eventuais usos na gestão de poder interno) pretende fazer do ocorrido um caso exemplar daquilo que não deve ser feito, segundo a perspectiva da liderança máxima.

Conclusões lógicas da dica de contextualização factual e interpretação histórica:

Álvaro Cunhal (e os restantes dirigentes na altura no exílio) só poderia ser responsabilizado pelo texto publicado no Avante! na medida em que era responsável máximo da organização da qual esse jornal era orgão central.

Os dados disponíveis indicam que não só Álvato Cunhal (e a direcção no exterior) não redigiu o texto, como só terá tomado conhecimento dele após a sua publicação.

A reacção do organismo que Álvaro Cunhal dirigia directamente, embora assumisse um imagem auto-crítica em nome da habitual abstracção de “O Partido” (que diz, decide, faz), contitui uma clara crítica e repúdio em relação à publicação do texto. Essa crítica teve uma circulação demonstrativa da elevada importância que lhe foi atribuída.

A afirmação do Renato de que Álvaro Cunhal «na noite fascista, abraçou convictamente a delação» não é, em si, uma opinião – hiperbólica e atrevidota, mas resultante duma valoração pessoal dos factos e merecedora de debate. É, sim, factualmente uma mentira – ao que quero crer, não resultante de má-fé ou de desonestidade intelectual, mas da ignorância acerca de um dado fulcral, público e conhecido, que inviabiliza a interpretação que poderia basear a sua “opinião”.

(continua depois,

com as dicas fraternais

sobre interpretação textual,

que a minha vida não é isto)

 

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3 respostas a Umas dicas de interpretação histórica e textual (1)

  1. E será que o Renato quer aprender alguma coisa? Ou mudar a linha do seu discurso miserável?!

  2. Tiago diz:

    Há muitos tipos de pessoa de direita. Fascistas, nazis, gajos conversadores, libeirais, muita coisa. Todos eles defendem que a exploração do homem pelo homem é uma realidade que não pode (alguns não deve) ser colocada em causa.

    Mas há outros tipos de direita, tão asquerosos como os anteriores. Os lambe-botas que assumindo uma fraseologia de esquerda, são na prática agentes de divisáo perfeitamente organizada.

    Eu gosto muito de vir aqui e ler o que o capital pensa que poderá criar divisáo nos trabalhadores. O centenário de Álvaro Cunhal era uma escolha óbvia.

    Nada de novo, apenas a satisfaçáo por ver um lambe botas, na ânsia de agradar… cair no meio das suas próprias mentiras. Ser confrontado com factos… e insisir. O texto de um tal Renato Teixeira sobre Álvaro Cunhal, a mim leva-me às lágrimas de tanto rir.

    Sim eu rio-me com os lambe-botas… mais vale rir que chorar. A luta essa… continua.

    Lembro-me de uma vez me terem dito, um velhote que segundo a Raquel Varela não pode discutir Álvaro Cunhal, porque é demasiado ignorante para isso. Antes e depois do 25 de Abril, dizia ele, levava porrada da direita porque diziam que eu queria uma ditadura, e da “esquerda” porque não queriamos a revolução… e dava por mim a pensar o que é mais nojento (sim… foi essa palavra…)?E respondia… nojento… é quando perco que poderia dedicar à luta a pensar nestas coisas.

    Aprendi tanto com aquele homem, que sobre Álvaro Cunhal me disse: ninguém na vida deveria ter suportado o que ele aguentou… porque muitos caíriam e não mereceriam levar essa cruz no seu interior para o resto da vida.

    Aí das últimas vezes que falei com ele… já neste século disse-me, os tais “esquerdistas” desapareceram do mapa, não se ouvem… mas espera que a coisa engrosse que eles vão aparecer de novo, em força, cheios de razáo.

    O homem não era adivinho, tinha a 4 classe, mas percebeu o que era a vida numa sociedade capitalista. Não andou na universidade, não estou (mas queria muito tê-lo feito), mas se alguém lhe dissesse não podes analisar a vida de Álvaro Cunhal ele certamente diria, como o ouvir dizer tanto sobre outras questões: Eles diziam que de política náo vale a pena falar, que é só para os entendidos, badamerda com eles, eu falo, penso, do que me apetecer, menos de gente que náo interessa para nada.

    Fica este contributo para aprendermos a náo demasiada importància ao que náo merece…

    • Oh Tiago desculpa lá mas estás errado, nazis, fascistas, conservadores não são de direita. Isso é menorizar completamente os actos, o pensamento, e a política dessas pessoas.

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