Um sol enganador

Depois do verão de S. Martinho, abracemos o Inverno que aí vem

Comecemos com a “notícia do dia”, parece que saímos da recessão, na verdade o PIB desceu em relação ao ano passado (-1%). No entanto é verdade que o PIB subiu 0.2% em relação ao trimestre passado, porquê?

A procura interna apresentou um contributo menos negativo para a variação homóloga do PIB, devido sobretudo à diminuição menos acentuada das Despesas de Consumo Final das Famílias Residentes. Em sentido oposto, o contributo da procura externa líquida diminuiu, refletindo principalmente a aceleração das Importações de Bens e Serviços. INE

Este magro crescimento ocorreu porque o Tribunal Constitucional mandou devolver as pensões e salários roubados e assim injectou dinheiro e alguma confiança na economia real. E quais são as perspectivas futuras?

Ajustamento irá além dos 3 anos definidos no memorando

FMI diz que reformas não são suficientemente ambiciosas

AVALIAÇÃO FMI: Portugal precisará de dose significativa de austeridade para meter contas em ordem

FMI insiste que há margem para baixar salários nos sectores dos serviços

Outro ponto essencial, é a redução de salários, defende o Fundo que sublinha que uma maior “flexibilização de ordenados” também iria aumentar a criação de postos de trabalho, particularmente nos empregos com rendimentos mais baixos. Daqui

A política de empobrecimento geral da população é para prosseguir e em força.

E no resto da Europa? Hoje também saiu o boletim do Eurostat. Em relação ao ano passado o PIB da zona euro  decresceu -0.4%, em relação ao trimestre passado cresceu 0.1%. De referir que a França, país central, recuou este trimestre. Portanto, neste campo as perspectivas são, na melhor das hipóteses, de uma estabilização.

Entretanto, por mais que os mandarins do regime exijam silêncio, a data para firmar um segundo acordo/memorando/programa com a Troika (talvez sem o FMI?) aproxima-se. A realidade impõe-se por mais que a queiram esconder, o Pires de Lima já tinha dito que se estava a negociar um novo programa, o Machete disse o óbvio (com estes juros da dívida é impossível regressar aos mercados)  e outros mandarins cometem inconfidências Renegociar dívida é “inevitável” e obriga a mais impostos. Entretanto a Miss Swaps é mais uma vez apanhada na curva, ou seja a mentir de forma flagrante no parlamento, desta vez negando que se está num processo de negociação para um novo programa.

Portugal não está, nem vai estar em condições de regressar aos mercados, no máximo pode conseguir isso com um forte apoio da UE, mas esse apoio terá um custo elevadíssimo. Independentemente disso, como se viu pelas recentes declarações do FMI e da Ministra das Finanças, a austeridade é para continuar em força. Estes frágeis sinais de retoma serão esmagados pelo peso da crise. Até porque a manutenção da crise tem certas vantagens, mantém a pressão para que prossiga a contra revolução em marcha que tem como objectivo estratégico subjugar o trabalho ao capital e destruir o estado social (canalizando capital que agora é controlado por instituições estatais para os amigos).

Àqueles que dizem que a saída euro iria produzir uma desvalorização dos rendimentos disponíveis pergunto, em quanto desde o início da crise já se diminuí o rendimento da generalidade da população? E quanto se ainda reduzirá mais com a prossecução destas políticas? A saída do Euro não é uma solução mágica, mas 1) não é a catástrofe que pintam, 2) sem nos livrarmos desse colete de forças não vejo hipótese de implementar políticas que nos permitam sair de forma digna da crise, como por exemplo a nacionalização da banca (porque é que se continua a alimentar esse poço sem fundo com capital público?).

Tudo isto terá profundas consequências políticas e sociais, a assinatura de um novo programa, embora só aconteça daqui a 7-8 meses já causa ondas de choque. A população vai sentir a degradação de serviços essenciais e ter de viver com menos rendimento. Em Maio há eleições em toda a Europa e os seus resultados irão causar um abalo por essa Europa fora.

A débacle de 19-26 significou que depois do “Outono quente de 2012”, teremos um “Inverno de chumbo de 2013”. Mas, de uma forma ou outra, com uma direcção ou outra, ou mesmo sem nenhuma (pelo menos de início), existirá uma resposta popular à contra-revolução em marcha. Neste momento, uma das tarefas fundamentais da Esquerda (aqui não incluo aqueles que entregaram o povo à Troika e assinaram os acordos de submissão) é fazer um balanço do que tem sido a luta social, do que correu bem e do que correu mal. É fazer uma profunda auto-crítica e não inventar desculpas esfarrapadas. Há derrotas e recuos que resultaram de decisões erradas, de erros de avaliação e, para usar um eufemismo, de falta de ousadia.

E depois, o Inverno

depoisoInvero

A obra acima foi retirada da Artact Qc, um espaço no Facebook onde se podem encontrar, na palavras dos autores, “várias pinturas digitais de apoio à luta contra o neo-liberalismo que está a erodir a sociedade do Quebeque”. O pano de fundo e motivação para estes desenhos/pinturas foi a grande luta estudantil contra o aumento de propinas que teve lugar no Quebeque em 2012. Encontrei isto através desta outra página Guilhotina.info.

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7 respostas a Um sol enganador

  1. As medidas ou «receituário» do FMI – há uns trinta anos atrás eram designados por «Programas de Ajustamento Estrutural» – foram aplicadas ao longo dos anos em dezenas de países da África Sub Sahariana, na América Latina e na Ásia do Sudeste.
    Não há um único exemplo – NEM UM SÓ PARA AMOSTRA – onde se possa dizer que resultaram.
    Pode ser que em Portugal descubram petróleo, gás natural ou ouro em grandes quantidades.
    Seria uma espécie de «milagre de Fátima».
    Mas, à falta desse «milagre», a coisa vai acabar por estoirar, mais tarde ou mais cedo.
    «Fatal como o destino»…

  2. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Gosto muito deste neo-realismo socialista com uns pozinhos de banda desenhada japonesa… É quase tão pífio como a versão antiga…

  3. josé sequeira diz:

    Respeito as opiniões.
    No entanto quero salientar que o meu primeiro comentário no 5Dias, há alguns meses, defendia a seguinte “tese”:
    A vontade de convocar eleições antes do tempo (após 2 anos de governo) essencialmente do lado da esquerda (o PS só se chegou à frente mais tarde), quando a legislatura é de 4, radicava no medo de que a coisa desse a volta a nível internacional e o governo, a partir do 3º ano de vida começasse a aliviar a canga.
    Parece que é isso que pode estar a acontecer. Não se esqueçam: o Cavaco levou um amasso em 89 e 90 e depois teve a maior maioria absoluta de sempre. Não subestimem.
    Cumprimentos.

  4. Meu caríssimo, Neste momento, uma das tarefas fundamentais da Esquerda (aqui não incluo aqueles que entregaram o povo à Troika e assinaram os acordos de submissão) creio que se refere ao Partido Xuxialista, e se se refere a esse partido, ele não tem nada de esquerda, e já vai bem instalado na extrema-direita a par do CDS e do PSD. É bom e importanto por as coisas no seu devido lugar!

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