Sobre «os dois erros metodológicos de Raquel Varela»

imageAgradeço ao Tiago Mota Saraiva ter feito o link para o texto com o título «Os dois erros metodológicos de Raquel Varela», da autoria de José Ferreira, que discute o livro da citada, A História do PCP na Revolução dos Cravos.

Não sei quem é José Ferreira, mas saúdo a iniciativa de fazer uma abordagem com algum fundamento do trabalho da Raquel Varela (isto descontando a tendência, aparentemente incorrigível, para desqualificar os interlocutores chamando-lhe a «douta historiadora», pondo aspas quando se lhe refere como «analista», os remoques nos comentários sobre «a esquerdalhada», etc.). Com algum fundamento, mas equivocado, como procurarei agora demonstrar.

Vamos lá então aos alegados «erros metodológicos de Raquel Varela». Cito:

«Primeiro: Desde 1970 que os cientistas que estudam a sociedade sabem que as ideias não se distinguem, muitas vezes, entre verdadeiras e falsas. “Se os indivíduos definem as situações como reais, elas são reais em suas consequências” (Robert Merton). Logo, ao historiador não compete saber se o PCP evitou ou não uma guerra civil! Isso é, de facto, contrafactual. Mas compete investigar se Álvaro Cunhal e demais líderes do Partido acreditavam ou não nessa possibilidade. Se eles eram sinceros ou agiam de má-fé. (A possibilidade de uma repetição da contra-revolução chilena é, segundo Varela, um dos argumentos usados no Avante! contra os “esquerdistas”).»

O erro metodológico é de José Ferreira. A História não analisa as cabeças dos protagonistas. É irrelevante especular sobre o que ia ou não ia na cabeça de Álvaro Cunhal ou da direcção do PCP. Interessa qual foi a política do PCP. E essa está explicitada nas páginas do Avante! e nas centenas de comunicados emitidos pelo PCP durante o período em causa (1974-75). Foi essa a fonte principal da Raquel Varela no seu trabalho. E não vejo que pudesse ser substituída por outra.

Um aparte: para José Ferreira, o mérito de «Álvaro Cunhal e demais líderes do Partido» terá sido o de evitar uma guerra civil, por causa do exemplo do golpe de Pinochet em 1973. Ora eu não conheço nenhum exemplo histórico em que a classe dominante tenha abdicado do seu poder sem recorrer a uma guerra civil. Talvez o príncipe do Mónaco, depois de uma revolução triunfante em França, ponha as mãos no ar e diga «Fiquem lá com o Casino e deixem-me fugir, não me batam!» Descontando essa hipótese, uma direcção revolucionária, se quiser defender a revolução, tem de estar preparada para a guerra civil. E o exemplo chileno funciona ao contrário: Allende, um homem cuja coragem me impõe o maior respeito, pôs Pinochet (a contra-revolução violenta) no governo. A 11 de Setembro de 1973, Pinochet chefiou o golpe que derrubou Allende. Em Portugal, a contra-revolução também estava nos Governos provisórios. E, sabemo-lo hoje muito bem, preparou um golpe de estado que previa a divisão do País ao meio e um ataque militar ao «Sul vermelho». A guerra civil foi evitada porque a revolução foi derrotada, primeiro nos quartéis, em 25 de Novembro de 1975, e depois em banho-maria, lentamente, ‘democraticamente’, ao longo de vários anos. Com tanto êxito que esta contra-revolução democrática serviu de modelo para a mudança da política internacional dos governantes dos EUA e da Europa para a Europa do Sul, para a América Latina e para o mundo inteiro. Neste quadro, reclamar que se ‘evitou uma guerra civil’ não me parece propriamente uma medalha para pôr ao peito.

«Segundo [erro metodológico]: É claro que ela não pode ficar por aqui. Tem de provar que a “classe operária” queria fazer uma Revolução socialista.»

Novamente, o erro metodológico é de João Ferreira. Uma revolução socialista não existe porque «a classe operária queria fazer uma revolução socialista». Para avaliar se há ou não uma revolução socialista em curso não se abre a cabeça das pessoas para ver o que há lá dentro. Vê-se o que as pessoas estão a fazer. Se há greves, ocupações de fábricas e empresas, saneamento de administradores, questionamento da propriedade privada, ocupações de terras, e um larguíssimo etc., eu diria que há uma revolução socialista – não apenas uma revolução política democrática, mas uma revolução social – em curso. Como diz um ditado americano: se anda como um pato e grasna como um pato, eu diria que é um pato.

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60 respostas a Sobre «os dois erros metodológicos de Raquel Varela»

  1. um anarco-ciclista diz:

    Paço:

    a História é interpretativa, não é? Costuma haver um capítulo final de conclusões nos livros, certo? Se nos limitarmos à simples compilação de facto, retornamos à historiografia do séc. IXI…

    E finalmente, para avaliar da possibilidade de sucesso duma revolução social (porque é disso que se trata) não basta haveriguar se há greves, ocupações e um larguíssmo etc… É preciso interpretar a correlação de forças. Mesmo admitindo que o PCP não teve as melhores políticas, é no mínimo realista imaginar que 20% da população (soma dos votos do PC + MDP + toda a extrema-esquerda) não fosse capaz de levar o processo até ao fim.

    Finalmente, toda a gente sabe o que a Raquel pensa sobre o PC… LOL! Acha que o PC é um partido tque traiu e trai a classe operária e a revolução socialista. Seria talvez menos maçudo e exigiria decerto menos piruetas epistemológicas, simplesmente admitir o ponto de vista subjectivo da autora – é que esse é (dos outros não sei, pois não li a obra) um erro de palmatória – insistir numa pseudo-impacialidade académica que nunca existiu em historiografia alguma no mundo!

    • António Paço diz:

      Vá lá, ciclista. Em vez de te meteres a especular sobre o que vai na cabeça da Raquel, devias ler o livro. Talvez tivesses algumas surpresas.

      • um anarco-ciclista diz:

        Paço: eu não preciso de especular sobre o que vai na cabeça da Raquel – basta-me ler as postadas que ela aqui escreve (já para não ir mais longe), para saber o que a Raquel pensa sobre o PCP.

        O problema aqui não é o que a Raquel pensa sobre o PCP – tem todo o direito a pensar o que muito bem entende! A questão é a Raquel insistir na afirmação dos seus graus académicos e nas suas muitas horas de estudos, como se isso fosse garante para assumir uma imparcialidade historiográfica que ninguém jamais possuiu ou possui.

        Sobre as questões que te coloquei, retenho que respondeste zero.

        • António Paço diz:

          Não me parece que a Raquel exagere na reivindicação das suas horas de estudo. Mas parece-me natural que o diga quando todo o bicho careta, que nunca dedicou nenhuma hora de estudo a um assunto que ela estudou, se acha no direito de mandar bocas e palpites sem nenhum fundamento. Isto não é discutir se foi penálti ou não!
          E já agora outra coisa: gajos chatos e sectários não são exclusivo de nenhum partido; e todos os partidos que eu conheço têm a sua quota de malucos; mas irrita-me solenemente o tom de gajos que, porque o seu partido teve um papel importante, corajoso, heróico até, na luta antifascista (quando eles ainda não tinham nascido ou, pior, já eram crescidinhos e não fizeram népia), se acham no direito de arrotar postas de pescada como se tivessem sido investidos de algum tipo de superioridade moral em relação aos outros. O PCP, em 25 de Abril de 1974, não teria mais que 2 mil militantes (digo eu com base em várias fontes – a ‘extrema esquerda toda junta teria mais ou menos o mesmo, só que dividida por não sei quantos grupos e nenhum deles com uma direcção tão experiente como a do PCP) e seguramente menos de 5 mil (dixit Cunhal, para quem não confiar na minha palavra). Esses, sim, deram o litro. Os outros fizeram tanto como um espectador nas bancadas do estádio da Luz marcou golos ao Sporting. Quem marcou foi o Cardozo. Os outros, na melhor das hipóteses, apoiaram, encorajaram. Não mais do que isso.

          • um anarco-ciclista diz:

            eu não sou nem militante, nem advogado de defesa do PCP – não tenho porque enfiar essas carapuças. Limitei-me a escrever o que pensava sobre o assunto.
            Mas sim, em última instância, as horas de estudo ou os graus académicos da Raquel não a eximem (como por passe de magia) de subjectividade.

    • proletkult diz:

      ” é no mínimo realista imaginar que 20% da população (soma dos votos do PC + MDP + toda a extrema-esquerda) não fosse capaz de levar o processo até ao fim.”

      Mas estamos a falar de uma revolução ou de um concurso de popularidade? Uma coisa que os revolucionários sabem – logo à partida – é que o seu projecto de ruptura com o capital, de deposição violenta da burguesia do poder e de imposição da ditadura dos trabalhadores nunca vai ser aceite pela maioria da população, previamente. Sabemos que é uma ideia que nunca pode ir a eleições e ganhá-las, nem isso deve estar em causa. De resto, nas condições portuguesas de 1975 isso era ainda mais certo, num país com um proletariado mais reduzido que a pequena-burguesia, para além de todas as condicionantes culturais, sociais e históricas. Ora o que se impunha, então, era uma direcção revolucionária de vanguarda, que emancipasse políticamente o movimento operário e o dirigisse para o confronto com a burguesia. O que o PCP, como maior partido entre os trabalhadores, faz em 74/75 é entregar a vitória À burguesia por falta de comparência da classe operária. Perderíamos a “guerra civil”? Pois, talvez sim. Mas se havia alguma coisa a defender, então que se a defendesse.

      Ainda em relação às percentagens de voto, nunca é demais referir o caso dos Bolcheviques, derrotados copiosamente nas eleições que se realizaram logo a seguir à tomada do poder em Outubro de 1917. Deveriam eles ter entregue o poder aos “legítimos representantes” do povo?

      Para terminar, o momento-chave do PREC é o 11 de Março. Aí sim havia condições para avançar em direcção à tomada do poder, até por ser antes de umas eleições que o PCP sabia que nunca ia ganhar. A partir daí, sobretudo a partir das eleições de Abril, a reacção começou a reagrupar e em meio-ano derrota a revolução, sem precisar de conflito aberto. A vitória fácil de mais do golpe de Novembro é o fim lógico de todo esse processo de contra-revolução, facilitada pela ausência de um partido revolucionário, que deveria ter sido o PCP, naturalmente.

      • António Paço diz:

        «Uma coisa que os revolucionários sabem – logo à partida – é que o seu projecto de ruptura com o capital, de deposição violenta da burguesia do poder e de imposição da ditadura dos trabalhadores nunca vai ser aceite pela maioria da população, previamente. Sabemos que é uma ideia que nunca pode ir a eleições e ganhá-las, nem isso deve estar em causa.»
        Olhe que não, olhe que não!

  2. João Medeiros diz:

    No Verão de 75 tratava-se de saber se a classe operária era capaz de enfrentar o desafio que a História inesperadamente lhe apresentava: reconhecer a morte do MFA, uma vez esgotada a tarefa democrática que lhe dera origem e levar audaciosamente o confronto a um plano superior: pelas nacionalizações, pela reforma agrária à escala nacional, pelo castigo dos contra-revolucionários, pela solução da crise económica – todo o poder às comissões de trabalhadores, soldados e moradores, dissolução da Constituinte, formação de um governo revolucionário, armamento do povo, controlo operário, expropriações sem indemnização, ruptura com a NATO.
    Para se poderem manter, as conquistas de Abril tinham que ser levadas mais longe. O próprio desenrolar dos acontecimentos demonstrava que não havia lugar para qualquer “revolução democrática e nacional”, “revolução socialista de todo o povo” ou “revolução democrático-popular”, todas elas imaginadas na base de um impossível bloco unido operário-burguês. Os factos mostravam que a revolução só se tornaria realidade se rompesse o casulo da aliança Povo/MFA e ganhasse a envergadura de uma luta definitiva dos produtores contra os exploradores, dos soldados contra os oficiais, das comissões contra as instituições – em suma, uma revolução do proletariado contra a burguesia, uma revolução socialista.
    Poderia essa revolução triunfar sobre a ameaça de guerra civil e de cerco e invasão imperialistas? Pode-se duvidar. Mas não restam dúvidas de que era essa a única revolução que havia para fazer. Fora dela, só ficava o que efectivamente ficou – a reorganização da ordem burguesa.
    Saber se a revolução era ou não possível não era questão que tivesse resposta antecipada. Dependia da capacidade do proletariado para assumir a direcção dos acontecimentos, disposto a vencer a todo o preço, e nesse processo arrastar para o seu lado as grandes massas semi-proletárias e retirar margem de manobra à pequena burguesia.
    Essa situação não chegou sequer a esboçar-se . Acima de tudo porque faltou ao proletariado um partido revolucionário, comunista, capaz de se assumir e fazer reconhecer como a direcção política da revolução. Esta é naturalmente a conclusão imediata que se impõe a todo o marxista. Mas é preciso ir mais além e perguntar por que não chegou esse partido a formar-se, nem sequer como embrião, numa situação tão propícia, que não só favorecia como exigia o seu aparecimento.
    E aqui entramos na questão-chave das relações políticas entre proletariado e pequena burguesia. Enquanto o proletariado procurava às apalpadelas o caminho da revolução, a pequena burguesia, dividida num arco-íris de tonalidades, tratou, toda ela, de lhe bloquear esse caminho. Criticar as “vacilações” da pequena burguesia, como habitualmente se faz, é ainda uma maneira de dourar a realidade. A pequena burguesia não vacilou nunca no essencial para a sociedade estabelecida, que era salvar o Estado.
    Isso ficou evidente quanto à massa pequeno-burguesa alinhada atrás do PS e da direita contra a “anarquia”. Mas já não ficou claro quanto à fracção radical da pequena burguesia, precisamente pelo seu comportamento pseudo-revolucionário. Guiada pelo instinto seguro de que o mais vital era ficar junto das massas revolucionárias para evitar uma convulsão irreparável, a pequena burguesia de “esquerda” montou uma fraude política de grandes proporções.
    Todas as reivindicações revolucionárias dos operários e restantes trabalhadores foram por ela esvaziadas em palavras de ordem de fantasia: aliança Povo/MFA em vez de aliança dos operários, camponeses pobres e soldados; “poder popular” tutelado pelos quartéis em vez de poder popular autêntico; “batalha da produção” em vez de expropriação da burguesia; respeito pelos compromissos internacionais em vez de saída da NATO; unidade popular em vez de partido operário revolucionário; “transição para o socialismo” em vez de revolução violenta.
    Face ao bloco da ordem, comandado pela burguesia, forte do apoio imperialista, alinharam-se assim as hostes desgarradas de um “exército operário-pequeno-burguês, cujas energias se esgotaram nas mãos de chefes de empréstimo, mais receosos da vitória do que da derrota.
    Em vez de ser o proletariado a encostar a pequena burguesia à parede e forçá-la a escolher entre dois campos, foi a pequena burguesia que se arvorou em árbitro da crise. O resultado estava traçado de antemão. Nem chegou a haver batalha.
    Hoje, a dez anos de distância, é evidente que a missão histórica da pequena burguesia “revolucionária”, agrupada no PCP e na ala gonçalvista do MFA, era promover a transição do regime fascista-colonialista defunto para a democracia burguesa, afastando o perigo de uma revolução. O que fez com êxito.
    Naturalmente, uma vez cumprida essa missão, a pequena burguesia “revolucionária” foi empurrada sem cerimónia para fora do poder que lhe fora dado provisoriamente pelas forças do Capital. Álvaro Cunhal, Vasco Gonçalves, Costa Gomes têm boas razões para se sentir vítimas de uma injustiça histórica. O serviço que prestaram à “democracia” jamais será reconhecido.
    Resta-lhes uma consolação. É que a sua sabotagem da revolução pôde manter-se oculta aos olhos das grandes massas graças à incoerência e fraqueza da esquerda revolucionária. Ao cair pelo ultimato da direita e não ultrapassado pela esquerda, o V Governo santificou-se com uma enganosa auréola revolucionária que permanece até hoje no espírito do movimento operário. Não admira a crise ideológica em que este se debate: todo o sentido da luta de classes em 75 lhe permanece oculto.
    Tornar claro o antagonismo de interesses entre proletariado e pequena burguesia de “esquerda” é afinal a lição de Abril que continua por tirar. Admitir ou não a necessidade do proletariado se libertar da hegemonia pequeno-burguesa, como questão central da luta de classes nacional, é o que distingue, em última análise, o marxismo revolucionário do reformismo.

    • um anarco-ciclista diz:

      O Vº Governo caiu pro essa estranha aliança que reuniu grupo dos 9 e otelistas.

      • António Paço diz:

        Estás muito enganado. O primeiro a não querer o V Governo, tal como ele foi constituído, foi o PCP. Lê o Avante! daquela época (ou lê o livro da Raquel, que poupas tempo). E olha que eu não era nem otelista nem do Grupo dos Nove.

        • um anarco-ciclista diz:

          Como é evidente, o PC considerava que as bases de apoio ao Vº Governo eram insuficientes e que, por isso, uma sustentação política maior teria de ser encontrada para se sair do impasse em que o país tinha caído. A sério! Tenho-te em melhor conta do que um gajo que vem agora para aqui argumentar que o cunhal provocu a queda do Vasco Gonçalves.

          Quanto ás leituras do avante e outros documentos, tenho feito (ao contrário de outros) o meu trabalho de casa.

          • proletkult diz:

            “sustentação política” e “impasse em que o país tinha chegado”. A sério que é com isto que se justifica o reformismo?

        • proletkult diz:

          Precisamente. Aliás, o PCP isolou o V Governo a troco de poder participar no VI. Para isso recorreu até à manipulação da extrema-esquerda – agrupada na FUR – tendo sugerido aos seus militantes que participassem na manifestação dessa frente (que nunca integrou oficialmente, mas onde já estava o MDP), numa jogada oportunista para chantagear a burguesia (embora, aparentemente, à revelia de Cunhal que tinha ido à URSS nesses dias). No fundo, fez da classe operária uma mera massa de manobra para o estabelecimento do regime burguês. Aí já não houve problemas numa aliança com os “esquerdistas”.

      • João Medeiros diz:

        PORQUE CAIU O V GOVERNO?

        Fracassadas as negociações para um novo governo de coligação, Agosto serviu para a disputa febril do apoio de massas a cada um dos diversos programas de saída da crise. Frente a frente ficaram o V Governo, que apostava no prolongamento da aliança Povo/MFA, e o Documento dos Nove, defensor da passagem à “normalidade democrática”. Tornou-se claro desde logo que a terceira via defendida pelo Copcon com a sua Proposta de Trabalho não dispunha de força para triunfar.
        Quem contasse o número de manifestantes e de moções que se pronunciavam em apoio de cada uma das correntes seria inclinado a atribuir a vitória ao V Governo. O Documento dos Nove foi repudiado e estes foram suspensos do CR. Vasco Gonçalves produzia uma enxurrada de leis “socialistas” e tentava incendiar as massas com discursos sobre a “batalha da produção”. O PCP garantia-lhe o apoio com os Comités de Defesa da Revolução. No Século, Miguel Urbano Rodrigues reclamava “um governo que governe” e que se apressasse a “criação do Poder Revolucionário”.
        Na realidade, as aclamações ao “companheiro Vasco” mobilizavam multidões mas não podiam suprir a impotência real do V Governo. Com as massas operárias desencantadas pela carestia e o desemprego, os camponeses exasperados pela ausência de medidas de apoio à produção, a pequena burguesia em pânico com a desordem, o V Governo só consolidaria uma base de apoio sólida se adoptasse medidas políticas e económicas eficazes em benefício dos trabalhadores à custa da burguesia e as impusesse pela força.
        Só o conseguiu em relação aos assalariados rurais do Sul. No conjunto do país, as suas indecisões, em vez de desarmarem a hostilidade do PS e da direita, como ele esperava, semearam a vacilação nas massas e tornaram cada vez mais afoita a ofensiva unida para o derrubar. A força maioritária aparentada pelo centro gonçalvista era fictícia. Apostar na estabilização da luta de classes no ponto a que esta chegara era puro suicídio.
        Incapaz de desmantelar o ELP e as conspirações militares que fervilhavam, de golpear seriamente os especuladores, os patrões sabotadores, a padralhada, de dissolver a Constituinte, o V Governo revelava-se como um “tigre de papel”.
        Isso mesmo entendiam social-democratas, liberais e reaccionários. O Documento dos Nove e o Programa de Acção Imediata do PS, ao exigir o fim do “anarco-populismo”, das “formas selvagens e anarquizantes do exercício do Poder”, das “usurpações e vandalismo” no Alentejo e a concentração do poder na Assembleia Constituinte, galvanizaram as massas burguesas e permitiam-lhe puxar à sua órbita largos sectores de camponeses pobres, assalariados, desempregados, desejosos do retorno à estabilidade. O PS e os Nove dispunham de vantagem esmagadora: eram os únicos que apresentavam um modelo de organização social, contra o marasmo do centro gonçalvista e as indecisões da esquerda.
        Entrou-se então no penúltimo acto da comédia revolucionária. Sob a fachada das proclamações cada vez mais exaltantes, Álvaro Cunhal começou a procurar uma plataforma de compromisso com o PS e os Nove. As imponentes manifestações de fins de Agosto, em Lisboa e Porto, de apoio ao Copcon, serviram-lhe de capital de negociação. O PCP aderiu à última hora às manifestações, procurando inflecti-las para o apoio ao V Governo. Em seguida, foi mais longe e entrou com alguns grupos da extrema-esquerda na chamada Frente de Unidade Revolucionária (FUR). Os ingénuos incorrigíveis exultaram com o “passo decisivo” que se dava para a unidade da esquerda. Três dias depois, estabelecido um acordo básico com o PS sobre a distribuição de forças no futuro governo, Cunhal negou qualquer apoio à FUR e apelou a uma conciliação entre as três tendências do MFA. Era o fim do V Governo.
        A partir daqui, estava aberto o caminho para golpe de Tancos e para a morte política de Vasco Gonçalves. Os Nove tomaram o controlo do CR e acabaram com as subversivas Assembleias do MFA. O PS redobrou de energia no ataque ao movimento popular. O 25 de Novembro estava em marcha. Nem sequer a extrema-esquerda lhe conseguiu ser obstáculo.

    • Nuno Cardoso da Silva diz:

      Para lá da situação concreta de 1975 que vos tem ocupado, o que é impressionante é ver o desplante com que pseudo-revolucionários põem de lado a vontade de um povo para procurar impor a sua utopia. Criam uma imagem – perfeitamente fantasiosa – do que seria bom para o “Povo” e não têm o menor escrúpulo em a tentar impor, à força se necessário. Há uma realidade que é a exploração da maioria por uma minoria que se serve de um sistema iníquo a que chamamos capitalismo. E há uma vontade da maioria de se libertar, o que não significa mudar de opressor. O povo recusa ser tutelado por um bando de iluminados que diz falar em nome dos “trabalhadores”? Olha que admiração! O povo quer ser senhor dos seus destinos, dos seus instrumentos de trabalho, das suas decisões em como viver, como trabalhar, como consumir. O povo quer a defesa dos seus direitos, não quer ser privado deles em nome de um disparate. O povo quer poder cometer os erros que bem entender e sofrer as consequências daí resultantes, não quer que os iluminados os forcem a fazer o “bem” e a rejeitar o “mal”. Para isso iam a uma qualquer igreja, mesquita ou sinagoga. A liberdade de viver, de morrer, de produzir ou não produzir, de se preocupar ou de se estar nas tintas, é uma liberdade que os comunistas nunca entenderão. Para eles só há uma liberdade, que é de se conformar com os diktats do partido, em nome da fantasia que ocupar os espíritos dos seus dirigentes. Revolução? Sim, mas só se for libertária. Uma pseudo-revolução que apenas nos transfere de uma cela para outra só interessa aos carcereiros. Sejam eles burgueses capitalistas ou marxistas-leninistas. No que me diz respeito recebê-los-ei a tiro, se tentarem.

  3. NL diz:

    Raqual Varela também é useira e vezeira na desqualificação dos adversários (Não pertences à academia? Não tens legitimidade para criticar! Sois todos uns estalinistas disfarçados que mal tomassem o poder usariam da tortura psiquiátrica para impor o pensamento único! …) De resto, o essencial da crítica de José Ferreira fica por refutar: 1) a inadmissão, por parte de Raquel Varela, da hipótese do PCP estar convicto da possibilidade de uma guerra civil com correlação de forças desfavorável (sem precisar de entrar na cabeça dos protagonistas, pois, como bem diz António Paço, e José Ferreira aflora, há factos e documentos que tal sugerem…); 2) a ‘substancialização’ da classe operária em torno de «organismos de duplo poder», porventura minoritários.

    (A História faz-se menos de patos e mais de ornitorrincos…)

    • Olá

      Quando li o texto de António Paço pensei que tinha sido pouco claro. Com esta resposta do NL fico mais descansado. Afinal o problema não está só na minha escrita sem revisão.

      Bom, posto o resumo do NL talvez desista de responder no meu blog. Em todo o caso, só terei tempo para o fazer amanhã.

      Abraço aos dois

  4. Pedro Pinto diz:

    «Revolução política democrática» vs. «revolução social». Não sei de que fala António Paço, mas não é certamente da revolução de Abril. Desde 1964, pelo menos, que o PCP sublinhava que a revolução democrática e nacional que propunha tinha características de socialismo e cumpriria desde logo tarefas que são historicamente da revolução socialista, como a destruição do poder dos monopólios, a reforma agrária, etc. A revolução democrática e nacional não era, como falsamente se infere neste texto e no pensamento (?) de Raquel Varela, o fim da ditadura e a implementação de um regime democrático burguês: era sobretudo a destruição dos sustentáculos do fascismo: os monopólios ligados ao imperialismo e o latifúndio. Este é um “erro” de análise que só a ignorância, a má-fé ou uma leitura estreita do marxismo-leninismo pode explicar.

    • António Paço diz:

      Do que eu disse não se «infere» nada do que você diz. E quanto ao resto: ignorante, admito que seja. E continuarei a sê-lo até morrer. Má fé? Quer explicar-se? E «leitura estreita do marxismo-leninismo»? Prometo que vou tentar ter uma leitura mais larga.
      Quanto ao que o PCP propunha «desde 1964, pelo menos»: os partidos propõem e deus – o povo – dispõe. Ou não é verdade? Acha que há uma revolução assim ou assado porque o partido tal a votou em congresso? Quando há uma revolução, os partidos todos, revolucionários ou reaccionários, andam um bocado aos papéis. E fazem sempre melhor em olhar para o que se está a passar e ajustarem a sua política à realidade, do que ficarem a olhar para as actas de qualquer congresso.

      • Pedro Pinto diz:

        Que leitura maluca do que escrevi. O que eu disse foi que o PCP nunca concebeu a revolução de Abril como uma revolução «política democrática» e não foi isso que de facto se passou no processo revolucionário de Abril: os monopólios foram destruídos, a reforma agrária realizada, o poder local democrático efectivado – como as outras conquistas, aliás – a partir de baixo, pelo povo… Tratou-se de uma revolução social profunda, com características socialistas… Foi derrotada? Sim, foi, mas isso não faz dela menos do que o que foi…

        • João Medeiros diz:

          Salazar e outras histórias

          Francisco Martins Rodrigues (*)

          Houve, naqueles breves dias abrilistas, uma inflação do anti-salazarismo. Todos faziam questão de execrar o ditador, os seus ministros, os seus capangas. Da noite para o dia, a lista dos resistentes antifascistas tomou proporções assombrosas. Descobria-se que o país em peso lutara sem desfalecimentos, ao longo de meio século, contra a ditadura. Só os ingénuos constatavam com vergonha ter sido os únicos a não enfileirar no combate épico de todo um povo.

          Era da praxe chorar Catarina e José Dias Coelho. Espertalhões que tinham sabido governar a vidinha faziam-se passar por ex-perseguidos políticos e relatavam modestamente missões arriscadíssimas e nebulosas. Todos tinham tido um primo ou um amigo nas prisões. A concorrência era tal que o PS teve que recrutar à pressa todos os velhos anarquistas disponíveis, para compor a sua coroa de martírio.

          O PCP estava em boa posição para desmascarar esta reles comédia. Durante 50 anos, ele fora “o partido”, a única força capaz de se organizar na clandestinidade, e conduzir, melhor ou pior, movimentos de massa contra a ditadura. Não lhe seria difícil fazer a verdadeira história do fascismo e do antifascismo e documentá-la de forma esmagadora. Poderia mostrar que o movimento antifascista não fora uma brilhante sucessão de acções espectaculares mas uma interminável, cinzenta, obstinada resistência de algumas centenas de militantes (por vezes apenas de dezenas!), entrecortadas por fugazes euforias de massas. Poderia pôr a ridículo o mito de uma oposição “socialista” que nunca fora além das conspirações de café, revelar a face balofa de “resistentes” como Mário Soares, Alegre ou Almeida Santos, pulverizar a colagem tardia à democracia dos Sá Carneiro e outros fascistóides, provar a colaboração dos bispos com a PIDE, falar das relações amistosas entre o patronato e o regime.

          Só que o PCP não se atrevia a pôr a hipocrisia a nu. Nem lhe convinha. Havia longos anos que se constituíra prisioneiro da democracia burguesa, a quem hipotecara o seu futuro. Tinha portanto que fingir acreditar nos feitos da oposição democrática. Desacreditá-la seria desacreditar toda a sua estratégia. Além disso, esperava poder colher dessa mentira o seu pequeno lucro: tudo o que se dissesse para engrandecer a resistência ao fascismo projectaria maior prestígio sobre o próprio partido que fora a alma indiscutível dessa resistência. E mais: fechando os olhos à falsificação dos atestados antifascistas dos seus parceiros, esperava conservá-los como reféns, atrelados à sua “Unidade”, e levá-los de rastos a caminho do seu “socialismo”. Limitou-se assim a valorizar os seus milhares de anos de prisão, os seus mortos e as suas fugas das cadeias, o que, parecendo muito objectivo, foi uma forma de não fazer a história do fascismo.

          O negócio durou enquanto durou. À medida que a balança de forças foi tombando para o lado da contra-revolução, que o povo se aquietou e que os fracos ventos abrilistas foram dando lugar à bafienta atmosfera da “normalização democrática”, a burguesia começou a olhar para o antigo regime com outros olhos, a frio, já sem os complexos iniciais. Podia-se condenar todo um sistema de manutenção da ordem, ainda que se lhe apontassem alguns “excessos”? Não podia. E os pides foram mandados para casa por falta de provas; aos juízes do Plenário, aos mafiosos do antigamente, aos filhos dos fascistas, por fim aos próprios fascistas, foram dados cargos dignos para que ninguém pensasse que havia qualquer indecorosa discriminação; a Constituição, as leis e a prática diária foram depuradas das excrescências populistas e retomaram a “normalidade”, isto é, a força coerciva sem a qual a extracção da mais-valia não funciona.

          Aí por 1980, começou a descobrir-se que afinal não tinha importância nenhuma ter ou não participado em actos de resistência à ditadura. Passados uns anos já se estava a fazer uma nova descoberta: é que precisamente os servidores do antigo regime eram pessoas de confiança, ao passo que os antigos opositores activos eram na maioria gente marginal. Ou seja: quanto menos precisavam da caução antifascista do PCP, menos paciência tinham os homens do poder para conviver com ele. Hoje parece-lhes um mau sonho que tivessem em 74 acamaradado com Álvaro Cunhal e enxovalhado Franco Nogueira ou Antunes Varela.

          É justo que aqueles que foram elevados ao poder graças ao sacrifício dos membros do partido comunista agora o desprezem? Dentro do universo mítico em tempos sonhado por Cunhal, desse universo moral composto por fascistas e antifascistas, não é justo, evidentemente. Mas no mundo real, no mundo da burguesia e do proletariado, as coisas têm outra lógica: a burguesia precisou temporariamente dos préstimos dos “comunistas” para segurar os operários numa curva difícil e ajudar a estabelecer uma nova relação com as ex-colónias; tolerou-os como iguais, ouviu-lhes os discursos, consentiu-lhes uma certa margem de manobra. Agora, porém, uma vez cumprida a tarefa, volta a pô-los no seu lugar – e para esta burguesia provinciana e tradicionalista o lugar dos capatazes continua a ser na cozinha.

          Cunhal ter-se-á sentido amargurado por esta injustiça histórica. Mas o tratamento que o PCP recebe corresponde ao lugar que ocupa na sociedade – não aquele que diz ocupar mas o que efectivamente ocupa e que voluntariamente escolheu: o partido encarregado de manter a classe operária nos limites do sistema contando-lhe histórias sobre o socialismo.

          A mais divertida destas cambalhotas foi talvez a dos investigadores que começaram a ter sérias dúvidas “científicas” sobre a propriedade de se falar em fascismo português, uma vez que o salazarismo se afastava em muitos pontos do modelo hitleriano. Impacientes com os exageros e com os mitos obrigatórios da propaganda abrilista oficial, começaram a dizer que o salazarismo não fora propriamente o inferno. Salazar tivera os seus lados positivos como economista, apoiara-se sempre mais na Inglaterra do que na Alemanha, mantivera Portugal fora da guerra com arte consumada, fora duma honestidade incorruptível. Por outro lado, a oposição à ditadura nunca fora o furacão popular que se sugerira, o número de vítimas fora afinal reduzido, a PIDE não podia ser comparada à Gestapo.

          Hoje vê-se bem que estes escrúpulos “científicos” eram guiados por um seguro instinto de classe. A burguesia precisava de se libertar da chantagem moral que o PCP sobre ela exercia e elaborar a sua própria crítica do salazarismo, feita à sua medida. Em lugar das histórias sobre os clandestinos, as torturas da PIDE e a miséria dos operários e camponeses, apareceram estudos imparciais sobre a economia, a política e a diplomacia do Estado Novo, crónicas dos amores de Salazar, episódios cómicos sobre as absurdidades da censura. Daí a pouco, a massa dos antifascistas tinha mordido a isco e fazia gala em falar da ditadura como uma saloiada risível e da resistência como uma descontraída prova desportiva. Não tardou a chegar-se à conclusão de que o salazarismo fora apenas um regime autoritário com tintas liberais. Os que teimavam em falar em fascismo eram movidos pela “paixão partidária”.

          O que se tem estado a fazer nesta matéria é apenas traduzir para português escolas americanas e europeias que desde o fim da guerra se exercitaram em criar uma base teórica para justificar a recuperação dos fascistas. À nossa escala, é uma cópia daqueles “revisionistas” alemães, que dão como não provada a existência dos campos de extermínio do nazismo. Assim, viemos das maldições ao “tenebroso regime fascista” até à nostalgia dos “bons tempos” arcaicos e tranquilos; da moda dos resistentes antifascistas, à admiração pela “inteireza moral” dos fascistas que não se arrependeram. E, por fim, chegámos à reabilitação de Salazar. Era inevitável. A burguesia já não suportava mais barreiras morais. Precisava de fazer justiça ao seu velho líder.

          A burguesia estava saturada de Salazar, da sua estagnante teia burocrática corporativa, da sua vigilância maníaca sobre todas as formas de expressão. Mas era uma aversão superficial. No pensamento burguês actual, essa aversão dá lugar a uma cada vez mais profunda admiração. E não há que estranhar.

          Podem nem todos dizê-lo, mas foi com Salazar e só com ele que se tornou realidade o sonho secreto desta burguesia anémica – a estabilidade do poder, a segurança da propriedade, a capacidade de manter a gentinha em respeito. Salazar teve sempre, em contraste com os políticos actuais – novos-ricos labregos e manobradores – um projecto perseguido inabalavelmente; não ia à deriva, não dependia de eleições, não se moldava docilmente às pressões internacionais; era ele que ditava as regras do jogo; ninguém lhas impunha, muito menos a populaça; era o governante que “veio para ficar” – e isso diz tudo da nostalgia com que hoje é encarado por uma boa parte da velha geração burguesa. E se é verdade que o burguês médio de hoje reconhece as vantagens práticas do regime democrático e as limitações que acarretava o salazarismo, ele também sente que a democracia só é hoje possível devido ao meio século de austeras proibições impostas por Salazar. Foi assim que se amealhou o capital donde tudo partiu.

          Um reaccionário assumido como o Prof. António José Saraiva reconhece a Salazar a “limpidez e concisão do estilo”, a “força magnética” dos discursos. E é verdade. Havia em Salazar profundidade de pensamento político porque ele exprimia de forma concentrada um projecto para a burguesia nacional. Salazar gostava de dar nos seus discursos lições de política porque tinha a paixão de educar, unificar, dar confiança a uma burguesia atrasada e insegura.

          É certo que esses discursos são uma amálgama de reaccionarismo fradesco-fascista, mas quem disse que não era essa precisamente a ideologia mais adequada à burguesia nacional da época? E foi justamente por ser o guia e mestre da burguesia que Salazar sobreviveu quase 50 anos no poder, só pontualmente tendo de recorrer a uma repressão maciça. A repressão desatou-se com ferocidade sobre os povos das colónias – e aí também o ditador foi a expressão fiel dos sentimentos dominantes da burguesia portuguesa.

          Esta verdade cruel, ninguém a podia admitir na oposição. Todos, os democratas e o PCP, precisavam de alimentar o mito de uma aspiração democrática universal, que na realidade correspondia a uma pequeníssima fracção da burguesia da época. Porque os burgueses precisavam em esmagadora maioria daquilo mesmo, da ditadura, dos grémios e sindicatos nacionais; e os operários e camponeses precisavam de revolução e dum outro regime, embora não fossem capazes de o exprimir e se vissem obrigados a engolir as mistelas republicanas que lhes davam a beber.

          Numa palavra: a tendência moderna para fazer a psicanálise de Salazar deriva da necessidade da burguesia ocultar a relação social de forças em que assentava o seu regime. Durante muitos anos, Salazar foi pintado como um demónio dotado de poderes quase sobrenaturais porque assim a burguesia podia assacar-lhe apenas a ele a sua própria dinâmica fascista, como classe. Hoje, diz-se que Salazar instaurou uma ditabranda (em vez de uma ditadura) e que injectou uma espécie de letargia no país para se explicar a aceitação que o seu regime teve por parte da maioria da burguesia.

          Todo o sistema de poder tende a retardar sobre as relações de classe que dinamiza. O salazarismo, com a sua rigidez de couraça, tinha fatalmente que se retardar mais do que qualquer outro. Na crise de 58, quando foi contestado por milhões, na esteira de Delgado e do bispo do Porto, o salazarismo revelou-se como obsoleto e iniciou a agonia. Não era só uma questão ideológica: grandes capitalistas modernos começavam a ver mais inconvenientes do que vantagens no sistema da União Nacional/PIDE/Censura e a tomar as suas distâncias em relação a ele. Já se sentiam capazes de iniciar outros voos fora da asa paterna.

          Se não fosse a eclosão das revoltas coloniais em 61 talvez a ditadura tivesse caído mais cedo, ao contrário do que se diz. Mas perante a guerra em África, a burguesia, que não é aventureira, entendeu que todo o regime burguês entrava num perigoso período de prova e que se exigia “unidade nacional” acima de tudo. Adiou portanto a questão da remodelação do regime e dedicou-se com tanto entusiasmo aos negócios da guerra que deixou chegar tudo à beira do abismo.

          Recaiu sobre a pequena burguesia “progressista” o encargo de organizar uma alternativa de regime para lá da fatal derrota militar nas colónias. Era um encargo muito para além das suas capacidades e de que se saiu com o atarantamento que se conhece, mas no fim de contas com sucesso. É o que alguns românticos ainda hoje chamam a “revolução de Abril”, a “hipótese democrático-revolucionária de passagem ao socialismo” e outros nomes épicos. Como se o espectáculo a que se assiste presentemente não fosse a melhor prova de que não existiu revolução nenhuma! Quando uma revolução de verdade varre uma sociedade, poderá a seguir triunfar a contra-revolução, mas o que não pode nunca mais é voltar-se ao tipo de relações sociais de antigamente. O sistema burguês em Portugal teve que levar uma sacudidela para se actualizar e aguentar a amputação do império colonial. Mas a relação básica entre uma burguesia débil, insegura, propensa à tirania, e um proletariado ainda não desperto para a luta pelo poder persiste.

          Porque a questão é esta: uma vez que a ditadura assentava numa decisão férrea de manter a força de trabalho barata sem olhar a meios, a sua duração anormal e a amplitude controlada da repressão significam que a resistência do movimento operário foi limitada, dispersa, frouxa. Se os operários e o seu partido tivessem sabido criar meios de acção eficazes para substituir a liberdade de organização que lhes tinha sido roubada, o fascismo teria sido obrigado a pagar um preço mais alto por tudo aquilo que roubou ao movimento operário, ter-se-ia desgastado mais depressa, a burguesia teria sido forçada muito mais cedo a descartar-se da ditadura.

          Esta discussão tem sido sempre bloqueada pelo PCP, em nome do Tarrafal, dos mortos, dos anos de prisão. Quem tem autoridade moral para criticar que não se tenha feito mais? Mas não se trata de apoucar os sacrifícios e o heroísmo de milhares de militantes comunistas; trata-se de dar o balanço a uma linha política. E esse balanço mostra que o PCP, orientado pelo 7.º Congresso da Internacional Comunista, não podia ser o foco revolucionário capaz de concentrar as lutas de resistência num feixe insurreccional.

          O diagnóstico está feito. A ideia abstrusa de que o fascismo fora “um passo atrás” e de que o objectivo da luta era “repor” a legalidade democrático-burguesa conduzia à preocupação obsessiva de não espantar a burguesia liberal e a pequena burguesia; e esta preocupação eliminava à partida qualquer hipótese de radicalização revolucionária da luta operária e camponesa. Tão simples como isto.

          E aqui chegamos de novo à identidade do salazarismo como forma portuguesa do fascismo europeu Quando as escolas burguesas multiplicam sapientemente as características definidoras do fascismo, elas procuram evacuar a sua base social: a burguesia que se via ameaçada pela revolução proletária vitoriosa na Rússia e estrangulada pela crise económica, tinha que pôr de lado toda a margem de consenso, concentrar-se, entrincheirar-se, negar todas as concessões anteriores ao movimento operário, preparar-se para a guerra com as burguesias rivais. Foi o fascismo.

          Salazar disse-o sempre com a mesma clareza que Hitler ou Mussolini. É certo que usava uma linguagem diferente da deles, mas como não havia de o fazer se exprimia os interesses duma outra burguesia, com outra história, outras particularidades? Será assim tão estranho que haja tantos fascismos quantos os países?

          Usando o chicote do fascismo, a burguesia europeia ensinou os comunistas a porem de lado os sonhos revolucionários dos primeiros anos e a darem-se por muito felizes com as liberdades democrático-burguesas. A “política nova” de Dimitrov significou que a lição tinha sido aprendida e que os comunistas estavam dispostos a converter-se em ponta de lança da restauração democrático-burguesa. Álvaro Cunhal foi, entre nós, o que de forma mais espontânea e calorosa, deu corpo a esta domesticação dos comunistas. A derrocada a que hoje assistimos, começou há 70 anos.

          Mas subsiste uma outra questão: poderia Cunhal arregimentar a classe operária como força de choque da burguesia liberal no duelo contra o salazarismo se a própria classe operária não estivesse vocacionada para essa tarefa? Ou, dito de outro modo: se existisse uma autêntica necessidade revolucionária nos operários, assalariados rurais e camponeses pobres dos anos 30, não se teria ela exprimido em tendências radicais, entrando em choque com a via da unidade democrática do PCP?

          Aqui, os álibis a que ainda hoje se agarram os libertários, deitando as culpas para os “métodos totalitários” dos comunistas, não explicam nada. A verdade é que a combatividade operária dos anos da República, por muito positiva que tenha sido, não tinha ainda verdadeiro arcaboiço anticapitalista (que se mede não apenas pela capacidade de lutar contra a exploração mas na capacidade de lutar pelo poder ), não tinha maturidade politica, ideológica, organizativa, para abordar a tarefa do derrubamento da burguesia. Era uma luta de resistência, corporativa em muitos aspectos, contra o avanço da ordem capitalista.

          O proletariado não trazia qualquer preparação política para responder à escalada fascista. Exceptuando o breve interlúdio de 1930-34, em que o partido comunista pareceu por um momento querer orientar-se para uma etapa superior de preparação da luta pelo derrube da burguesia, os operários conformaram-se a lutar pela restauração da democracia dos capitalistas. Dois ou três passos à retaguarda, que marcam toda a existência da classe operária no meio século e que se reflectiram na timidez das audácias proletárias de 74-75 , com os resultados que se conhecem.

          Talvez uma melhor compreensão do caso de Salazar ajude o movimento a sarar esta ferida e a ganhar confiança em si próprio para pensar no futuro – na luta operária internacional pelo comunismo.

          • Nuno Cardoso da Silva diz:

            Brilhante. Há quem saiba pensar. Já posso morrer em paz…

          • Nuno Cardoso da Silva diz:

            O “há quem saiba pensar” não se dirigia obviamente ao Francisco Martins Rodrigues, mas a quem divulga as suas análises que, essas sim, são realmente brilhantes.

        • proletkult diz:

          Ou seja, o que nos está a dizer é que o PCP fez tudo bem rumo ao socialismo. Só não contou com a oposição da burguesia. Mas a direcção de então era assim tão ingénua?

  5. Bela Ana diz:

    O amor é lindo… O Paço na defesa da sua dama…

  6. JP diz:

    Uma ode ao pensamento da extrema-esquerda onde todas as opções são sempre colocadas no plano dos absolutos mesmo cujo único resultado seja um banho de sangue…

    Vamos ver por pontos:
    Comçando pelo seu ponto 2, diz Paço que a revolução já estava a contecer. Que já era visível na rua através das greves, ocupações, etc… Ora isso leva-me a questionar que se a revolução já era uma realidade então a posição do PCP relativamente à mesma seria sempre indiferente uma vez que as massas já estavam radicalizadas e avançariam com ou sem o PCP.
    Ora o que se assiste é que os acontecimentos que relata foram reais mas não à escala que Paço lhe confere. Por esta razão a revolução ocorreu mas não teve força para ir até ao fim porque foi perdendo força. E esta força perde-se não por um desvinculamento da mesma por parte do PCP mas sim porque o conquistar sucessivo de direitos leva a que o conujunto de grupos socio-económicos a considerarem-se satisfeitos e portanto a não serem forças motrizes das conquistas adicionais (evidentemente co-adjuvadas pela pressão dos reaccionários). Exemplifico: Uma larga maioria dos portugueses está disponível para lutar por um SNS de qualidade ou por educação gratuita. Mas apenas uma minoria está disponível para lutar pela reforma agrária.

    Ou seja, as conquistas não são todas iguais nem defendidas da mesma forma por toda a gente. Conforme se ganha direitos, qualidade de vida e bem estar, o ganho potencial reduz-se e a força revolucionária também.

    O ponto 1 vem por arrasto do ponto 2 (e por isso há um erro metodológico no seu post na ordem dos factores). É que o PCP optou por uma estratégia de não confrontação justamente porque não haveria apoio popular para a sustentar, e não o seu contrário como Paço & Varela parecem querer justificar.

    Gostaria ainda de deixar uma nota adicional para valorizar a posição responsável do PCP ao evitar um banho de sangue com consequências imprevisíveis. Os camaradas que passaram noites inteiras agarrados à espingarda a proteger centros de trabalho sabem do que se está a falar… É claro que enquanto os do costume davam o corpo à luta, nessa altura, como hoje, a extrema esquerda estava sempre noutro lado qualquer, sem mexer uma palha para ajudar…

    • António Paço diz:

      JP, o final do seu post merecia que nem lhe respondesse. Estou farto dessa conversa malcheirosa (e mentirosa) sobre os abnegados militantes do PCP que eram umas formiguinhas trabalhadeiras, enquanto os malandros ‘da extrema esquerda’ não ‘mexiam uma palha’.
      Mas você levanta uma questão importante: a de que a força da revolução vai-se perdendo à medida que «um conjunto de grupos socio-económicos (se consideram) satisfeitos e portanto (deixam de ser) forças motrizes das conquistas adicionais». Convido outras pessoas a pronunciar-se sobre isto. Eu talvez consiga também lá ir, mas agora vou comer qualquer coisa, que ainda nem almocei.

      • JP diz:

        Paço, quanto à sua irritação não posso fazer nada. Se está irritado com a história, a culpa não é minha.

        Agora não espere da minha parte, que tive familiares presos e cuja família passou enormes privações, compreensão e sorrizinhos perante o que a Raquel e o Renato para aqui têm vindo a escrever.
        É que foram essas pessoas que defenderam as conquistas lá nos sítios onde a luta era olhos nos olhos (nos piquetes, nos cortes de estrada, nos centros de trabalho, nas ocupações, na estruturação das cooperativas, nas campanhas de alfabetização, etc…).

        Disse-o e reafirmo: O PCP teve a estratégia que teve para evitar um banho de sangue. Fez bem.

    • Vasco diz:

      Há uma fotografia do Centro de Trabalho do PCP em Braga depois de incendiado (os grupos esquerdistas tinham sedes? Algumas foram incendiadas?) com uma inscrição à porta – do MRPP – contra o PCP. Muitos dos grupos esquerdistas – MRPP, AOC, etc – estavam precisamente aí, ao lado dos fascistas a atacar o PCP. Já agora, porque é que o PCP, que pelos vistos era tão contra-revolucionário, foi o alvo da fúria fascista? Porque não os grupos trotsquistas, maoístas, m-l, etc?

      • António Paço diz:

        Você não devia viver cá, pois não? Então só sedes do PCP é que foram incendiadas? Olhe que a direita trauliteira não fez esse tipo de discriminações. Informe-se, homem!

        • Carlos Carapeto diz:

          António Paço.
          Consegue dizer isso assim tipo Gaspar para se compreender melhor?

          De que lado estiveram esses grupos da extrema esquerda durante esse período conturbado?
          Quais eram os seus alvos preferenciais na propaganda que distribuiam e nos discursos que faziam?
          Olhe que ainda estou bem lembrado que quando começou a campanha eleitoral para as constituintes o primeiro partido a intervir foi o PCP (ml) e o discurso foi todo dirigido do principio ao fim contra o PCP.

          António Paço, uma coisa é não gostar-mos ou simpatizar-mos com alguém outra é recorrer à mentira grosseira para fazer vingar as nossas opiniões.
          Isso é muito feio e tem um nome. Chamasse calunia.

          • António Paço diz:

            Carapeto, de que mentiras está a falar? De que calúnias? E já agora: aparentemente, você está a querer falar comigo. Acha que eu tenho de ter paciência para falar com alguém que fala por enigmas e usa esse tom?

      • proletkult diz:

        Houve instalações de várias forças de esquerda que foram atacadas. Mais, casos houve em que militantes da UDP e outras organizações se juntaram aos do PCP na defesa física dos seus centros de trabalho. Na Nazaré, por exemplo. Em Viseu os reaccionários saíram da missa e foram directos às instalações do MES, da FSP e do MDP e não atacaram as da UDP porque entretanto chegou o COPCON. Agora, não confunda as coisas. MRPP, AOC, PCP-ml, FEC-ml ou PUP eram seitas de uma natureza reaccionária e anti-operária, nada tinham a ver com a UDP, o PRP-BR. a LUAR ou o MES que, independentemente da falta de identidade política e de algumas aberrações ideológicas que apresentavam, eram organizações de cariz revolucionário, presentes na classe trabalhadora.

        Já agora, e o que fez o PCP para contra-atacar o terrorismo fascista? Quando havia ataques a instalações do CDS ou do PPD chamava-lhes “provocações”…

    • Augusto diz:

      JP ou é MENTIROSO, ou desconhece totalmente o que foi a Esquerda Revolucionária , antes e depois do 25 de Abril, os presos em Peniche e Caxias, eram no 25 de Abril SOBRETUDO, dessa Esquerda Revolucionária, e os ultimos a serem Libertados foram militantes dessa Esquerda Revolucionária.

      As Primeiras Ocupações de casas , e de terras, foram feitas por militantes ligados a essas forças, ´PCP só veio depois, e para as COMBATER, ou tentar controlar.

      E muito mais haveria a dizer, sobre aqueles que tombaram na luta no pós 25 de Abril , muitos eram militantes dessa Esquerda Revolucionária.

      E é em memória deles , que eu não deixo passar esta PROVOCAÇÂO.

  7. Pingback: Varelúnias que não o são | cinco dias

  8. Pedro Pinto diz:

    “O PCP preocupara-se sempre em manter a sua direção no interior do país. Forçado a sair para o exílio um ano depois da sua fuga, Cunhal mostrou bem, ao contrário do que os seus adversários sempre dele disseram, ser dirigente de um partido com cabeça própria relativamente a Moscovo, quer quando rejeitou essa espécie de “transição pacífica” que se deduzira para o caso português da política soviética de “coexistência pacífica” à escala internacional, quer na atuação do PCP na Revolução portuguesa. Confundir a radicalidade política do PCP com “ortodoxia pró-soviética”, como sempre por aí se papagueou, é não querer perceber a diferença de fundo entre as políticas seguidas pela direção soviética e a opção de Cunhal, em 1965, pela “revolução democrática e nacional” como “via para o derrubamento da ditadura fascista”. Só um partido comunista com uma identidade própria podia ter sobrevivido, como sobreviveu, à implosão do modelo soviético.”

    Diz o Loff no Público de hoje. A RV, lembre-se, fala na fidelidade a Ialta e Potsdam.

    • um anarco-ciclista diz:

      “revolução popular” versus “revolução democráticao e nacional”
      “aliança operário-camponesa-soldados pobres” versus “Aliança POVO/MFA”
      São tudo chavões! Como se um slogan + à esquerda ou + colorido pudesse fazer a diferença…

      o PCP cometeu 2 erros crassos:
      1) Ir para os governos provisórios com o PS e o PPD – que o manietou a certas políticas que não seriam as suas – veja-se a lei da greve de 74
      2) Um alinhamento absolutamente acrítico com o bloco soviético (que dificultou e de que maneira! a conquista política de classes intermédias).

      De resto… qual é a organização política que não quer conquistar o poder?

    • João Medeiros diz:

      Nem mesmo quando Cunhal aplaudiu a invasão da Checoslováquia, caro Pedro?

      QUANDO CUNHAL APLAUDIU A INVASÃO DA CHECOSLOVÁQUIA

      Disse Cunhal numa entrevista recente que não acredita no comunismo sem fronteiras. Quanto a ele, isso é coisa “só lá para os tetranetos”. Não vamos fora desta ideia. Mas, vinda de Cunhal, a opinião é curiosa, pela mudança radical que revela. Com efeito, quando há trinta anos os exércitos de Moscovo invadiram a Checoslováquia, Álvaro Cunhal aplaudiu calorosamente, sob o argumento de que o socialismo não conhecia fronteiras.

      A 21 de Agosto de 1968 as tropas da URSS e de outros países “aliados” entravam na Checoslováquia para “meter na ordem” o governo de Dubcek cujas iniciativas reformadoras suscitavam esperanças alvoroçadas no Ocidente e alarme em Moscovo. O gesto brutal desacreditou o novo clima de “distensão” e “coexistência” que a direcção russa tentava criar. “O pacto de Varsóvia, observaram com razão os albaneses, passou de tratado de defesa contra a agressão imperialista a um tratado de agressão contra os próprios países socialistas”. Mesmo entre as mais fiéis apoiantes da política da URSS, a agressão causou embaraço e perplexidade. A situação na Checoslováquia era instável e confusa mas não se vivia uma subversão das instituições, como fora o caso da Hungria, doze anos antes.

      CUNHAL PREMIADO POR BREJNEV

      Álvaro Cunhal é que não teve dúvidas, talvez porque, instalado em Moscovo, tinha acesso aos bons argumentos. O PCP ganhou a honra pouco invejável de ser, em todo o mundo, o primeiro partido a apoiar sem reticências a ocupação militar da Checoslováquia. O Comité Executivo do CC emitiu de imediato, a 23 de Agosto, um comunicado de aprovação. Logo a seguir, numa Declaração, o Comité Central do PCP, voltando a aplaudir a invasão, afirmava que “o princípio da soberania tem sido por alguns considerado de forma abstracta e exclusivamente jurídica, fora dum ponto de vista de classe e internacionalista”. “O PCP entende que os marxistas-leninistas não podem contestar em princípio a legitimidade revolucionária de uma intervenção de países socialistas noutros países socialistas a fim de defenderem as conquistas do socialismo”.
      De resto, já na conferência que em Junho reunira os partidos seguidores da URSS, Cunhal justificava antecipadamente a invasão ao afirmar: “Se por agressão do imperialismo ou por acção das forças contra-revolucionárias o poder dos trabalhadores estiver ameaçado num país socialista, é dever sagrado dos demais países socialistas e do movimento operário internacional acorrer em sua defesa”1 Descontada a referência ao “poder dos trabalhadores”, pura questão de estilo, era um aval franco à intervenção russa em qualquer país “desobediente”.
      O prémio por esta fidelidade veio poucas semanas depois, a 23 de Setembro, com uma audiência especial concedida por Brejnev a Cunhal, na qual foi registada a “plena identidade de pontos de vista dos dois partidos.”2 Com notável desfaçatez, o comunicado do encontro não fazia qualquer referência à ocupação da Checoslováquia, ocorrida apenas um mês antes! Não é de estranhar que, a partir daí, Álvaro Cunhal passasse a ser elogiado por Moscovo como “eminente marxista-leninista”…
      Sabendo-se hoje no que deram as tais “conquistas do socialismo” na Checoslováquia como na URSS, há motivo para perguntar se Cunhal não deveria ter uma palavra de autocrítica na passagem do 30º aniversário da agressão russa. Mas o farisaísmo das suas solenes declarações de princípios já se tornou proverbial.

      ALEMANHA NO EPICENTRO DA CRISE

      Nesse Verão de 1968, Cunhal sabia como ninguém que fora a própria URSS a acelerar a crise checoslovaca ao forçar a substituição do “stalinista” Novotny pelo “reformador” Dubcek. De facto, em Janeiro, Novotny fora pressionado para sair de secretário-geral do partido comunista, por se opor às reformas económicas visando a introdução de mecanismos do mercado. Ora, para os russos, a Checoslováquia surgia nessa época como um útil banco de ensaio da “destalinização” – tentar rejuvenescer o poder da burocracia do Partido-Estado com uma abertura controlada ao capitalismo privado. Queriam experimentar num pequeno país aquilo que ainda não se atreviam a pôr em prática.
      Mas os russos queimaram-se no seu próprio jogo. Não previram a dinâmica imparável que iria assumir a “liberalização” num país com uma tradição burguesa fortemente enraizada. Rapidamente, as reformas checoslovacas começaram a transbordar para além dos limites fixados por Moscovo: multiplicação de associações e jornais, libertação dos que antes haviam sido condenados como contra-revolucionários, contestação da autoridade do partido comunista, sinais de abertura ao Ocidente…
      O que isto punha em causa eram interesses económicos e vínculos militares. Os “superiores interesses do socialismo”, solenemente invocados tanto por Moscovo como por Praga, não passavam de uma imagem de retórica. Devia a Checoslováquia continuar a fazer parte da “esfera de influência” reconhecida a Moscovo pelo Ocidente desde o fim da guerra mundial, ou chegara a hora de bascular para o campo do “mundo livre”? Esta era a questão.
      E isto não tanto pela Checoslováquia em si como pela questão alemã. Quem se apercebeu com lucidez da cartada foram mais uma vez os albaneses: “A grande partida que se joga na Europa é a unificação da Alemanha. Este é o objectivo tanto de Bona como do imperialismo norte-americano. Ambos se esforçam por que a República Democrática Alemã seja liquidada sem guerra. A eliminação da RDA do mapa da Europa e a criação do novo Reich constitui o epicentro a partir do qual se visa liquidar a influência soviética sobre os seus satélites europeus e incentivar a aproximação destes a Bona.”3 Na Checoslováquia jogava-se um episódio do leilão da RDA, que viria a consumar-se vinte anos mais tarde.

      CRÍTICA LIMITADA

      Naquela época, a esquerda comunista, representada pelos “pró-chineses” e “pró-albaneses”, teve o mérito de denunciar com igual vigor a farsa liberal burguesa do “socialismo de rosto humano” de Dubcek e a odiosa ocupação militar russa. Contudo, a corrente marxista-leninista estava ainda apegada ao mito de que teriam existido na URSS e na Europa Oriental regimes de ditadura do proletariado e de que se estava perante um “retrocesso ao capitalismo”. Escapava-lhe a natureza de capitalismo de Estado desses regimes desde a origem (como aliás dos da China e da Albânia) e a sua incontrolável tendência para evoluir para o capitalismo concorrencial.
      Daqui resultava a incapacidade para explicar cabalmente os fenómenos do “stalinismo” e da “destalinização” e concretamente o caso checoslovaco. Se punha o dedo na ferida quando denunciava o entusiasmo dos estudantes e da intelectualidade pelas reformas como manifestação pequeno-burguesa social-democrata, não tinha explicação para a inércia do proletariado checo quando teoricamente estariam a ser atacadas as “conquistas socialistas”.
      Deste modo, entre a cínica campanha ocidental em defesa da “Primavera de Praga” e o hipócrita argumento russo da “defesa do socialismo”, a posição dos comunistas de esquerda não ganhou poder de convicção junto dos trabalhadores. Com poucas excepções, os operários avançados do nosso país deixaram-se iludir pela demagogia de Cunhal e do PCP e foram levados a aprovar a ocupação russa da Checoslováquia como um acto anti-imperialista.

      (Francisco Martins Rodrigues, in “Política Operária” nº 66, Setembro/Outubro de 1998)

      1 – Avante nº 404, Julho 1968.
      2 – Avante nº 408, 2ª quinz. Outubro 1968.
      3 – Enver Hoxha ao CC do PTA, 5 de Setembro de 1968, Obras Escojidas, tomo IV, p. 502, Tirana, 1983.

      • António Paço diz:

        Ò João Medeiros, eu aprovo os seus comentários, mas veja lá: isto é um blogue, não dá para espetar aqui com umas obras completas em fascículos (ocupa espaço e as pessoas não lêem, penso eu de que…).

        • João Medeiros diz:

          Folgo em saber que os aprova, caro António! Trata-se tão só de alguns artigos de FMR sobre esta temática e a avaliar pelos restantes comentários as pessoas sempre lêem alguma coisa …. Obrigado! Saudações revolucionárias.

      • proletkult diz:

        Por acaso Cunhal, pessoalmente, até estava contra a invasão. A Comissão Executiva, em Portugal, é que se chegou à frente e publicou o comunicado de apoio à URSS. Nessa altura, Álvaro Cunhal e Santiago Carrillo, ambos em Paris, conferenciavam regularmente para decidir a estratégia a seguir pelos PC’s ibéricos, nesse contexto. De acordo com Alexandre Castanheira, o “diplomata” do PCP, Cunhal acabou por aceitar a opinião dos seus camaradas em Portugal, engolindo um sapo para evitar que acontecesse ao PCP aquilo que estava a acontecer, ao mesmo tempo e também em Paris, ao PCE.

  9. Pedro Pinto diz:

    Outro “erro” da RV é limitar tudo à TAP e aos CTT como se não houvesse mais classe operária revolucionária: e a Mague? E a Covina? E a CUF? E a Siderurgia? Ah, pois é, aqui os comunas eram maioritários… Devem ser burgueses, estes…

    • Como é que se justifica o sucesso da construção da CGTP? A única confederação que apareceu em alternativa foi à sua direita. (No livro da RV há uma resposta pergunta simplesmente estúpida a esta pergunta).

  10. Orlando diz:

    Lembro-me de na altura, o meu pai estar na sede do PCP e estarem prontos para tudo. Esse tudo implicaria um banho de sangue. Sabia-se já na altura que forças estrangeiras, a mando de Soares, invadiriam Portugal. Seria prudente prosseguir com a revolução, quando à partida se sabia que muitos milhares iriam morrer ? O meu pai dizia que não, foi bom não prosseguir, pois seria pior que a guerra civil espanhola. Mas também é verdade, que o combate na altura, dos ditos revolucionários à esquerda do PCP, foi sempre o de combate ao PCP do que combater as forças de direita. E tal como à quase 40 anos atrás, o mesmo se passa hoje. o combate principal é saber se o PCP é um partido revolucionário, ou social fascistas, como dizia o MRPP em 74. E desculpe António Poça, nunca esteja farto: ” Estou farto dessa conversa malcheirosa (e mentirosa) sobre os abnegados militantes do PCP que eram umas formiguinhas trabalhadeiras, enquanto os malandros ‘da extrema esquerda’ não ‘mexiam uma palha’, … Espero NUNCA, nunca mais viver num regime onde policias me batam à porta e levem os meus, por terem um pensamento diferente, desculpe isto não é lamechas, foi lembrar o que sucedeu, isto foi a história que vivi, e não lhe poço admitir que me chame de lamechas quando me lembro das prisões sucessivas do meu …
    Agora sim estou emocionado.

    • António Paço diz:

      Orlando, eu não lhe chamei lamechas. Você é que usou essa palavra. Quanto ao resto, vou repetir o que disse noutro lado ao anarco-ciclista:
      E já agora outra coisa: gajos chatos e sectários não são exclusivo de nenhum partido; e todos os partidos que eu conheço têm a sua quota de malucos; mas irrita-me solenemente o tom de gajos que, porque o seu partido teve um papel importante, corajoso, heróico até, na luta antifascista (quando eles ainda não tinham nascido ou, pior, já eram crescidinhos e não fizeram népia), se acham no direito de arrotar postas de pescada como se tivessem sido investidos de algum tipo de superioridade moral em relação aos outros. O PCP, em 25 de Abril de 1974, não teria mais que 2 mil militantes (digo eu com base em várias fontes – a ‘extrema esquerda toda junta teria mais ou menos o mesmo, só que dividida por não sei quantos grupos e nenhum deles com uma direcção tão experiente como a do PCP) e seguramente menos de 5 mil (dixit Cunhal, para quem não confiar na minha palavra). Esses, sim, deram o litro. Os outros fizeram tanto como um espectador nas bancadas do estádio da Luz marcou golos ao Sporting. Quem marcou foi o Cardozo. Os outros, na melhor das hipóteses, apoiaram, encorajaram. Não mais do que isso.

      • Orlando diz:

        Só mais uma coisa, lá de casa, os meus, não eram militantes do PCP, ajudavam o partido, tal como muitos outros que fui conhecendo antes do 25 Abril. Lembro-me do dinheiro que se juntava todos os meses para ajudar as famílias dos comunistas presos, Vivia ao pé de nós uma dessas famílias. Lembro-me de nós miúdos termos medo de nos chegar-mos à sua casa, com medo de irmos presos também (parvoíce a nossa) . Lembro-me de muita coisa, é a minha memória, são os factos históricos a falarem porque foram vividos naqueles momentos.

      • JP diz:

        Foda-se Paço, estar em casa quando a PIDE te entra pela porta, te prende o pai (operário metalúrgico e único ganha pão da família) e deixa uma mãe com 5 filhos pequenos nos braços é estar na bacada a ver o Cardozo?
        E ter que fazer 200 kms para ir a Caxias ver o teu pai quando tens 4 anos? Também é estar na bancada?

        Não te conheço de lado nenhum, mas neste momento, em verdade te digo: Vai pró caralho!

        Fim de conversa.

      • um anarco-ciclista diz:

        O Benfica ganhou com a ajuda do árbitro, pá! por vezes os campos estão “inclinados”

      • Carlos Carapeto diz:

        A extrema esquerda tinha quantos militantes? Troque de tabuada amigo, ou então tem o ábaco avariado.

        E quantos militantes tinha o PS? O PSD e o CDS é facil saber!

        • António Paço diz:

          Em vez de fazer perguntas e mandar palpites (troque de tabuada) por que não nos esclarece?

          • João Medeiros diz:

            António, trata-se do erro de “transformar o debate político a sério, aquele debate duro que tem divergências e polémicas, num debate moral, sobre pessoas e não sobre ideias”, como refere a Raquel em “Cunhal e Chico Martins: Nem Todos os Nomes” e que subscrevo.

  11. Nuno Rodrigues diz:

    “O erro metodológico é de José Ferreira. A História não analisa as cabeças dos protagonistas.” Poderia ter acabado de ler aqui. Isto é um erro, porque é óbvio que a colocação deste campo é importantíssimo. Eu, que sou estudante de história medieval ainda o faço para personagens cuja mente estou impossibilitado de compreender pela complexidade do contexto em que estavam inseridas. Aliás, não há acções, apenas descrições das mesmas. Os “factos” são coisas bem mais dúbias que as hipóteses

    O Segundo erro metodológico que lhe aponta, é por má leitura sua: O que afirma, é exactamente o que afirma o José Ferreira! Quem faz essa dedução estapafúrdia é a Raquel Varela: Sem dados concretos, afirma que os trabalhadores queriam uma revolução que o PCP inviabilizou, algo que não tem correspondência na prática!

    PS: Eu não tenho culpa de ter nascido bem depois do 25 de Abril e fico feliz por isso. Agora chamar-me treinador de bancada…Não me sinto herói, não me quero sentir, nem quero que me reconheçam por nada. Mas não é preciso de levar paulada da PIDE para ser do “PCP a sério”. Seja mais objectivo na análise.

    • António Paço diz:

      Nuno Rodrigues, peço-lhe que leia o que eu disse, para não aparecer com estas ‘interpretações’ forçadas. Não acho que seja particularmente obscuro a escrever.

      • Nuno Rodrigues diz:

        Tem razão, li mal. Você inventou tanto (você descreveu o que devia estar a acontecer, para acontecer uma revolução socialista, não o que aconteceu nos dois anos referentes!), que eu julguei por descrição de perfeição, não de realidades objectivas. Quanto á primeira parte, li bem. É uma análise sua pouco objectiva.

  12. Pingback: Ainda sobre o livro de Raquel Varela « Fala Ferreira

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