E depois da Revolução?

Queria falar-vos do dia depois da revolução. Esse dia vai ser límpido e novo ou uma cave com torturadores?

Circulou um post na internet de um senhor chamado José Ferreira que me atribui declarações/afirmações que não proferi. Atribui-me a frase de que «teria havido uma revolução socialista em Portugal vitoriosa se não fosse travada pelo PCP». Em momento algum disse isso porque isso é uma afirmação especulativa e eu como historiadora não adivinho o que não aconteceu. Disse, escrevi, sim, que o PCP tinha como estratégia manter o equilíbrio de Yalta e Postdam e que isso – muito mais do que o propalado então medo do Chile – determinou uma opção política por parte da direcção do Partido centrada na participação nos governos e na gestão de ganhar cada vez mais espaço dentro do Estado por oposição a fortalecer ou coordenar nacionalmente organismos de duplo poder como as comissões de trabalhadores, que fossem alternativa a esse Estado e  no limite o derrubassem.

Confesso que acho a polémica interessante. O que não acho interessante é agregar a essa polémica uma desqualificação do meu trabalho usando inclusive termos da área da psiquiatria e da ofensa pública. Também por defeito de trabalho conheço bem as formas de levar a cabo uma polémica. As ditaduras caracterizam-se por discutir pessoas e não ideias – muitos regimes o fizeram. Quando havia polémica ou oposição era pessoa que tinha uma «psicose», uma «mania» ou era «falsa», «moralmente desqualificada», «traidora», «agente daqui ou dali». Muitos acabaram, aliás, torturados em hospitais psiquiátricos. Trazer para a praça pública suspeitas morais sobre as pessoas, para as destruir política ou profissionalmente, também foi feito em Portugal muito recentemente, estava na altura uma coligação CDS/PSD no Governo – haja memória.

Antes de deixar a citação do meu livro onde se pode ver que jamais afirmei tal coisa, deixo uma nota pessoal, essa como cidadã e não como historiadora. O capitalismo trouxe-nos a esta crise e outra está engendrada no sistema de acumulação para daqui a uns 14 meses, sensivelmente. Entretanto fomos afogados numa dívida que cria os superavits com que a Alemanha vai fazer face a essa crise, dentro de 1 ano e meio. Cá teremos cofres vazios se assim continuarmos.

Também fomos e estamos nesta crise porque, infelizmente, a oposição organizada que existe em Portugal não tem coragem de romper com o sistema e de erguer sonhos que derrubem esta espiral em que tudo se transforma em mercadoria. Mas romper com o capitalismo é também romper com o passado de regimes que não souberem proteger as pessoas – não há igualdade sem liberdade e não há liberdade sem igualdade. Tenho por opinião que ainda bem que o muro de Berlim caiu e vejo com muita tristeza afirmar-se que «quando o muro existia viva-se bem no ocidente». Porque isto é o mesmo que afirmar que «os outros que se lixem, que vivem sob as botas de uma ditadura para nós termos assegurado o pacto social». Ainda bem que o muro caiu. Falta agora cair o outro muro, o que determina que uma sociedade produz não para as necessidades mas para o lucro. E, como produz para o lucro, desemprega 25% da força de trabalho. Só vale a pena derrubar este sistema se for para viver com respeito e em liberdade. Contarão sempre comigo para lutar contra esta gente sem medo de propor as medidas mais realistas – expropriação das fortunas obscenas acumuladas à sombra de negócios com o Estado, isto é, com o trabalho e com os nossos impostos. Não contarão comigo um minuto para ter saudades de uma ditadura que ainda bem que está enterrada.

A citação do meu livro onde se pode ler que jamais fiz tal afirmação:

«Mas importa, e com isto terminamos este capítulo, voltar a frisar o grau de incerteza que preside a estes processos. A democracia liberal, nos termos em que se consolidou em Portugal, foi o resultado da luta de classes, da revolução e da contra-revolução (Sousa Franco, 1994: 207; Rosas: 2003:142), mas não era o seu resultado inevitável. Poderemos ponderar, no caso português, os factores que pendiam a favor da consolidação de Portugal como uma democracia representativa: o País está geograficamente inserido na Europa Ocidental e, portanto, no quadro da partilha de zonas de influência feita em Ialta e Potsdam, na esfera de influência da NATO; o peso das classes médias portuguesas e a qualidade das direcções políticas das classes trabalhadoras. E também os factores que faziam perigar essa hipótese, o mais importante deles a existência de uma revolução, que se dá no meio de uma profunda crise económica e de uma mais grave crise do aparelho militar do País; o prestígio, ainda nesta altura, das sociedades onde a propriedade privada dos meios de produção tinha sido expropriada e que representavam 2/3 da humanidade, portanto o alcance mundial do socialismo como hipótese estratégica para as classes trabalhadoras; a existência de países onde a contrario dos factores internacionais, essa expropriação se deu, como Cuba; ou ainda a «vaga revolucionária» aberta com o Maio de 1968 em França» (In Varela, Raquel, História do PCP na Revolução dos Cravos, Bertrand, 2011).

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2 respostas a E depois da Revolução?

  1. João Medeiros diz:

    No Verão de 75 tratava-se de saber se a classe operária era capaz de enfrentar o desafio que a História inesperadamente lhe apresentava: reconhecer a morte do MFA, uma vez esgotada a tarefa democrática que lhe dera origem e levar audaciosamente o confronto a um plano superior: pelas nacionalizações, pela reforma agrária à escala nacional, pelo castigo dos contra-revolucionários, pela solução da crise económica – todo o poder às comissões de trabalhadores, soldados e moradores, dissolução da Constituinte, formação de um governo revolucionário, armamento do povo, controlo operário, expropriações sem indemnização, ruptura com a NATO.
    Para se poderem manter, as conquistas de Abril tinham que ser levadas mais longe. O próprio desenrolar dos acontecimentos demonstrava que não havia lugar para qualquer “revolução democrática e nacional”, “revolução socialista de todo o povo” ou “revolução democrático-popular”, todas elas imaginadas na base de um impossível bloco unido operário-burguês. Os factos mostravam que a revolução só se tornaria realidade se rompesse o casulo da aliança Povo/MFA e ganhasse a envergadura de uma luta definitiva dos produtores contra os exploradores, dos soldados contra os oficiais, das comissões contra as instituições – em suma, uma revolução do proletariado contra a burguesia, uma revolução socialista.
    Poderia essa revolução triunfar sobre a ameaça de guerra civil e de cerco e invasão imperialistas? Pode-se duvidar. Mas não restam dúvidas de que era essa a única revolução que havia para fazer. Fora dela, só ficava o que efectivamente ficou – a reorganização da ordem burguesa.
    Saber se a revolução era ou não possível não era questão que tivesse resposta antecipada. Dependia da capacidade do proletariado para assumir a direcção dos acontecimentos, disposto a vencer a todo o preço, e nesse processo arrastar para o seu lado as grandes massas semi-proletárias e retirar margem de manobra à pequena burguesia.
    Essa situação não chegou sequer a esboçar-se . Acima de tudo porque faltou ao proletariado um partido revolucionário, comunista, capaz de se assumir e fazer reconhecer como a direcção política da revolução. Esta é naturalmente a conclusão imediata que se impõe a todo o marxista. Mas é preciso ir mais além e perguntar por que não chegou esse partido a formar-se, nem sequer como embrião, numa situação tão propícia, que não só favorecia como exigia o seu aparecimento.
    E aqui entramos na questão-chave das relações políticas entre proletariado e pequena burguesia. Enquanto o proletariado procurava às apalpadelas o caminho da revolução, a pequena burguesia, dividida num arco-íris de tonalidades, tratou, toda ela, de lhe bloquear esse caminho. Criticar as “vacilações” da pequena burguesia, como habitualmente se faz, é ainda uma maneira de dourar a realidade. A pequena burguesia não vacilou nunca no essencial para a sociedade estabelecida, que era salvar o Estado.
    Isso ficou evidente quanto à massa pequeno-burguesa alinhada atrás do PS e da direita contra a “anarquia”. Mas já não ficou claro quanto à fracção radical da pequena burguesia, precisamente pelo seu comportamento pseudo-revolucionário. Guiada pelo instinto seguro de que o mais vital era ficar junto das massas revolucionárias para evitar uma convulsão irreparável, a pequena burguesia de “esquerda” montou uma fraude política de grandes proporções.
    Todas as reivindicações revolucionárias dos operários e restantes trabalhadores foram por ela esvaziadas em palavras de ordem de fantasia: aliança Povo/MFA em vez de aliança dos operários, camponeses pobres e soldados; “poder popular” tutelado pelos quartéis em vez de poder popular autêntico; “batalha da produção” em vez de expropriação da burguesia; respeito pelos compromissos internacionais em vez de saída da NATO; unidade popular em vez de partido operário revolucionário; “transição para o socialismo” em vez de revolução violenta.
    Face ao bloco da ordem, comandado pela burguesia, forte do apoio imperialista, alinharam-se assim as hostes desgarradas de um “exército operário-pequeno-burguês, cujas energias se esgotaram nas mãos de chefes de empréstimo, mais receosos da vitória do que da derrota.
    Em vez de ser o proletariado a encostar a pequena burguesia à parede e forçá-la a escolher entre dois campos, foi a pequena burguesia que se arvorou em árbitro da crise. O resultado estava traçado de antemão. Nem chegou a haver batalha.
    Hoje, a dez anos de distância, é evidente que a missão histórica da pequena burguesia “revolucionária”, agrupada no PCP e na ala gonçalvista do MFA, era promover a transição do regime fascista-colonialista defunto para a democracia burguesa, afastando o perigo de uma revolução. O que fez com êxito.
    Naturalmente, uma vez cumprida essa missão, a pequena burguesia “revolucionária” foi empurrada sem cerimónia para fora do poder que lhe fora dado provisoriamente pelas forças do Capital. Álvaro Cunhal, Vasco Gonçalves, Costa Gomes têm boas razões para se sentir vítimas de uma injustiça histórica. O serviço que prestaram à “democracia” jamais será reconhecido.
    Resta-lhes uma consolação. É que a sua sabotagem da revolução pôde manter-se oculta aos olhos das grandes massas graças à incoerência e fraqueza da esquerda revolucionária. Ao cair pelo ultimato da direita e não ultrapassado pela esquerda, o V Governo santificou-se com uma enganosa auréola revolucionária que permanece até hoje no espírito do movimento operário. Não admira a crise ideológica em que este se debate: todo o sentido da luta de classes em 75 lhe permanece oculto.
    Tornar claro o antagonismo de interesses entre proletariado e pequena burguesia de “esquerda” é afinal a lição de Abril que continua por tirar. Admitir ou não a necessidade do proletariado se libertar da hegemonia pequeno-burguesa, como questão central da luta de classes nacional, é o que distingue, em última análise, o marxismo revolucionário do reformismo.

  2. Nuno Cardoso da Silva diz:

    “…não há igualdade sem liberdade e não há liberdade sem igualdade…”

    E não há nem uma nem outra sem “fraternidade”, ou solidariedade, se quiserem. Pode parecer um pormenor dentro da questão que a Raquel discute, mas, quanto a mim, não é. A natureza desigual das pessoas – que não na sua dignidade – fere de morte a liberdade porque a põe ao serviço dos mais aptos, gerando não só desigualdade como opressão. Só a solidariedade – que tem de ser sistémica e não caritativa – permite a coexistência da liberdade e da igualdade. Mas só a liberdade pode garantir que a solidariedade não é mais um instrumento de opressão. Em resumo, não há respostas fáceis a esta triplice relação, não há marxismo-leninismo nem trotskismo que nos valha. A esquerda, de uma forma geral, pensa pouco nisto, e prefere as cartilhas gastas e desbotadas de um passado que, esperemos, nunca mais volte.

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