Coisas que importam (este texto não é sobre Cunhal)

Não vou perder tempo a reflectir sobre a Helena Matos e o facto de ser uma caricatura retirada dos escritos de Albert Hirschman. Se a senhora quiser, que experimente ir ler isto ou o quarto capítulo disto. Ou até isto. Parabéns ao João por ter tido o discernimento e a disciplina necessários para responder-lhe. Eu cá não.

Prefiro concentrar-me nas coisas que incomodam gente como Helena Matos. O austeritarismo é carcinogénico e as metástases estão a surgir. Há estudos sobre a interpretação literal desta frase e admira-me que a esquerda, pró- ou anti-parlamentar, ainda não tenha usado isto como mote para o seu combate. O austeritarismo é assassino e, apesar de concordar com a abordagem da Sara, também me parece que convém deixarmos de ver os dados epidemiológicos como implícitos ou de contexto e invertamos a relação entre dados epidemiológicos e dados macroeconómicos. Não é o PIB que interessa – nem sequer devemos estar certos de que o crescimento é a solução, porque, muito provavelmente, não é. O mega-furacão Haiyan não surgiu do acaso; surgiu porque as sociedades contemporâneas se transformaram em mega-máquinas produtoras de alterações climáticas.

O austeritarismo é carcinogénico. Mas isso já o sabemos. O problema é que este neoliberalismo militarizado também é iatrogénico. Se Helena Matos não sabe o que é iatrogénese, pode ver aqui ou aqui. Resta dizer que a probabilidade de emergência de um efeito iatrogénico é tanto maior quanto menor a noção de que esse efeito pode surgir.

É isso que faz de coisas como esta notícia, intitulada “Interior do país pode perder um terço da população em 30 anos”, importante. Estes são os problemas que interessam. Com toda a sinceridade, não percebo como podemos gastar tráfego blogosférico em postes contínuos sobre uma figura histórica como Álvaro Cunhal sem que gente como eu, leiga e pouco informada acerca do tema, consiga aprender a ponta de um corno. Por isso, fico-me com este estudo, que aponta para um problema que já sigo desde muito novo. Uma nota pessoal: toda a minha família provém da Serra da Estrela. Estamos habituados a levar com interioridade, mas afianço, a quem possa não sabê-lo, que a interioridade da Serra da Estrela é menor que a interioridade de Trás-os-Montes.

Porque é que isto é importante para a esquerda, mesmo a esquerda anti-estatista? Entre outras coisas, por causa disto:

“Eduardo Castro garante que o despovoamento do interior é um processo que não se vai resolver naturalmente. «O problema tem de ser resolvido através de políticas fortes que decorram de decisões de investimento naquelas regiões», afirma o investigador que aponta «as auto-estradas com portagens, o fecho de hospitais, de tribunais, de escolas e de outros tantos serviços» como o alimentar do ciclo vicioso do despovoamento. «Quanto mais se fecha menos gente há. Isto é um ciclo vicioso que é preciso romper», diz.”

E porque é que é importante para a direita, mesmo a direita parva? Porque esta direitinha portuguesinha não percebe dois dados muito simples:

1) A distribuição de favores que a sustenta desde a década de 20 é directamente proporcional à força do Estado, e as privatizações, ao transformarem a relação entre público e privado, acabam por reduzir o número de favores a distribuir. Porquê? Porque resultam no fecho de estruturas relevantes, a coberta da redução de custos. Um hospital fechado não é apenas menos camas e menor stock de saúde para a comunidade; também resulta na diminuição dos tachos para apparatchiks.

2) À medida que este processo se intensificar, as comunidades desprezadas pelo Estado central sentirão uma pertença diminuída ao que pode chamar-se de comunidade política; a direitinha não sabe, porque é parva, mas, em Portugal, o Estado social tem uma ligação umbilical à democracia; não sobrevivem um sem o outro. Confisquem pensões, confisquem salários, fechem centros de saúde, escolas e universidades; as consequências ficarão à vista em poucos anos. E consta que comunidades com pouco sentido de pertença a uma comunidade que inclui uma autoridade central tendem a ser mais recalcitrantes. Podem dizer aos agentes que bateram palminhas na AR para trotar até focos insurreccionais, mas é capaz de não chegar. A falta de sentido de pertença pode resultar em auto-gestão, se a presença humana nestes territórios resistir. E isso não será boa notícia para a direita dos favores, para a esquerda estatista ou para a esquerda misantrópica (aquela que insiste no merecimento da austeridade dada a “legitimidade” dos governos que a aplicam).

É evidente que também pode haver uma implosão demográfica violenta. Assim fica tudo resolvido.

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