Pela estrada fora com Álvaro Cunhal

Na primeira e única vez que visitei Veneza, acabei sentado num banco de jardim com um velho comunista que me descrevia a admiração por Álvaro Cunhal. Para mim, que não tive mais do que duas oportunidades de assistir a iniciativas políticas com a presença do histórico secretário-geral do Partido Comunista Português, soava impactante que alguém numa rua qualquer de um outro país o conhecesse. E em boa verdade, as viagens ajudaram-me a compreender melhor o alcance mundial de Álvaro Cunhal.

Na semana passada, tive a oportunidade de participar em dois debates sobre a revolução e a contra-revolução portuguesa no País Basco. Num dos subúrbios de Bilbau, uma sala encheu-se de jovens interessados em conhecer a história portuguesa dos últimos 40 anos. Não fui como membro do PCP e este partido não foi sequer o tema central das iniciativas. Foram os mais velhos que recordaram o papel de Álvaro Cunhal na defesa dos princípios ideológicos que mantiveram o PCP afastado do eurocomunismo e da social-democratização que presidiu a funerais de históricos partidos comunistas.

Há dois anos, em Vigo, eram os galegos que me recordavam o impacto da revolução portuguesa e de Álvaro Cunhal entre os comunistas e independentistas. Quando visitei Istambul, em 2007, dezenas de jovens quiseram tirar uma fotografia ao lado da edição turca do Até amanhã, camaradas. Também não esqueço o médico sírio que havia estudado na Bulgária, o taxista cubano e o histórico secretário-geral do Partido Comunista da Venezuela. Pessoas tão diferentes, de distintos países e aos quais cheguei de várias formas falaram-me de Álvaro Cunhal como uma grande referência política.

Admito que não seja fácil para muitos dos que se dizem de esquerda tropeçarem de forma contínua em mulheres e homens que nunca deixaram de admirar Álvaro Cunhal. Pablo Neruda não escreveu sobre os Teixeiras e as Varelas do seu tempo mas somou-se a intelectuais de valor inquestionável – como Jorge Amado – pela defesa de Álvaro Cunhal. Que o histórico secretário-geral do PCP seja ainda hoje alvo de ataques é belo. É assim que o vejo. Ainda agora, mesmo depois de morto, “os maus temem as tuas garras” como escreveu Bertolt Brecht. É belo que também os nossos inimigos o façam viver. E fazem-no porque nós nunca o deixámos morrer.

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21 respostas a Pela estrada fora com Álvaro Cunhal

  1. Ricardo M Santos diz:

    taaaaaaaaaaaaaaau no Wando.

  2. J. diz:

    É uma pena que textos tão rasteiros como este não façam justiça ao valor do nome que pretendem homenagear. Em vez de homenagem este tipo de elogios transformam a memoria de um revolucionário com a importância histórica de Cunhal em algo pequenino e torpe. É uma pena.

    J.

  3. I.Tavares diz:

    Clarinho,clarinho.

  4. Kirov diz:

    Bom texto! Apenas conspurcado com a presença dos insignificantes Teixeiras e Varelas.

  5. samuelquedas diz:

    “Pablo Neruda não escreveu sobre os Teixeiras e as Varelas…” … é mauzinho!!! 🙂

    Ainda assim, acho que Neruda só não o fez porque não chegou a ter o privilégio de os conhecer… ou teria escrito odes… em vários volumes… com títulos a remeter para as grandes centrais eléctricas e não para uma simples “lámpara marina” 🙂 🙂 🙂

  6. proletkult diz:

    “o papel de Álvaro Cunhal na defesa dos princípios ideológicos que mantiveram o PCP afastado do eurocomunismo e da social-democratização”

    Permite-me discordar. Ideológicamente, Álvaro Cunhal pouco divergia de Berlinguer, Marchais ou Carrillo. Aliás, era mais próximo deles do que da própria URSS. Os conceitos chave do “eurocomunismo” podem ser encontrados no programa e na acção política do PCP: aceitação das normas e insitituições democrático-burguesas, aproximação aos anseios da pequena-burguesia, alianças com os partidos socialistas/sociais-democratas, a defesa do chamado “estado social”, o abandono de linguagem e prática revolucionária etc. Se formos ao esqueleto teórico do “eurocomunismo”, encontramos os mesmos ossos que encontraremos no PCP: as teses de Gramsci sobre a aliança de classes, as de Dimitrov sobre as alianças políticas ou as do PCUS sobre a coexistência pacífica. O “eurocomunismo” é a síntese destas teses. Ora o PCP aceitava isto, o pensamento de Cunhal era este. Porque razão o PCP não se juntou àqueles três partidos? Por uma questão de conjuntura. Por um lado, no final dos anos 70 o PCP vivia, ainda, num contexto político (o português) bastante diferente do de Itália, Espanha ou França: havia uma constituição progressista, um forte sector industrial e financeiro centralizado, uma reforma agrária, o próprio partido estava em expansão, controlava o mundo sindical e o PS era mais hostil (e mais à direita) do que nos outros países. Em suma, era um partido que estava numa posição ainda não, necessariamente, defensiva e de retracção política. Por outro lado, alinhar com o “eurocomunismo” era deitar ao lixo um património histórico, político, retórico e iconográfico de alinhamento com a URSS, algo a que o PCP não se podia dar ao luxo, sob pena de perder a sua fundamental coesão interna. Mais, o PCP dependia materialmente da URSS como nunca antes. Por exemplo, não era de lá que vinha a maquinaria agrícola usada nas UCP’s?

    Mas voltando a Cunhal, não tinha sido ele quem, por exemplo, não concordara com a invasão da Checoslováquia? Quem criticava, pela direita, “certos aspectos” da URSS e dos seus satélites? Já nos anos 80 Cunhal vem apoiar a perestroika e a glasnost. Suponho que Gorbachov foi um grande suspiro de alívio para Cunhal. Assim, conseguia apoiar o “eurocomunismo” através da URSS.

    • samuelquedas diz:

      ” Mais, o PCP dependia materialmente da URSS como nunca antes. Por exemplo, não era de lá que vinha a maquinaria agrícola usada nas UCP’s?”

      Ora aí está uma coisa valentemente pateta para se dizer!
      De facto, algumas máquinas, uns tractores e uma camionetas, em número meramente residual e simbólico, foram oferecidas a algumas UCP e cooperativas pela URSS.

      Partir daí para a generalização, dizendo que “era de lá que vinha a maquinaria”… ou é fruto de uma espessa ignorância, ou então, o que será muito mais triste, tem um nome muito feio!

      • proletkult diz:

        “De facto, algumas máquinas, uns tractores e uma camionetas, em número meramente residual e simbólico, foram oferecidas a algumas UCP e cooperativas pela URSS.”

        Pois, está bem. É que não há mal nenhum em assumir isso, mas pronto. De resto, isso foi tudo o que conseguiu replicar do meu comentário?

        • samuelquedas diz:

          Depois da “boca” da dependência e das máquinas agrícolas que vinham todas da URSS, tudo o que estava escrito antes deixou de me interessar… retroactivamente! 🙂

        • De diz:

          Há mais.Claro que há mais.
          Mas a paciência tem limites.E torna-se inútil o aprofundar da coisa perante quem profere tais boçalidades reaccionárias.
          A reforma agrária ainda causa muitos engulhos a

    • De diz:

      Não há pachorra.
      Pouco divergia de marchais ou de carrillo?
      Gorbachov um alívio para Cunhal?

      Tenho provas vivas dos disparates deste Proletkult.Os seus sonhos de trazer as boas práticas aos revolucionários esbatem-se com a realidade A burguesia de resto sabe distinguir bem as coisas neste aspecto.E sabe classificar com a devida frieza de onde lhe vem o perigo e de onde pode surgir a mossa.

      Porletkult opta pela versão em espelho da mesma burguesia.Dum lado a versão de pró-soviético.Do outro a versão euro-comunista.Causa-lhe jeito o aleijão, já que precisa de espaço para respirar e promover o PC a um partido euro-comunista.
      Só mesmo quem andou a beber em carrillo e pensa que todos são como este.

      Ele que vá estudar os textos da internacional comunista.Ele que veja até os encontros cancelados entre delegações de.Ele que veja os estudos, escritos,polémicas, comentários, conclusões
      Ele que vá procurar outro argumentário porque o que serve precisa de mais do que estas confabulações para ficarem de pé.,
      Porque apesar de aparecer aqui com argumentos em espelho da burguesia fascista e conservadora, há algo em que Proletkult coincide com a tal burguesia:: O PC dependia materialmente da URSS como nunca…e da maquinaria vinda do PCUS
      Mete nojo este babar em que os dois lados da moeda se unem.Nem sabe a história do movimento comunista , incluindo a atitude do PCUS para com os partidos irmãos ( ele que se mostra tão defensor de ) nem respeita o esforço enorme de quantos e quantos comunistas que se viram privados de quase tudo
      Um vómito este final

      Proletkult precisa de facto de maquinaria para maquinar desta forma.Há uma coisa que o trama.São os factos. E estes são muito mais rigorosos do que as pequenas estoriazinhas montada por proletkult enquanto repete o estribilho dos latifundiários portugueses

      • proletkult diz:

        “Dum lado a versão de pró-soviético.Do outro a versão euro-comunista.”

        Mostre-me lá porque é impossível conjugar as duas coisas.

        A questão da reforma agrária e da maquinaria soviética foi referida apenas a título de exemplo. É claro que boa parte das frotas de tractores, debulhadoras e outras alfaias vinham da Europa de Leste, e onde é que está o mal disso? Se os governos da direita queriam acabar com a reforma agrária, impedindo os financiamentos aos camponeses, é normal que estes fossem procurar ajuda a outros lados. Se a reforma agrária funcionava, se as explorações produziam, a isso se devia também a ajuda da URSS. E isto serve também para o apoio prestado pelo PCUS ao PCP ao longo da história, acho normal e não critico de forma alguma. Criticável era o PCUS por não prestar apoio ou o PCP não o pedir.

  7. De diz:

    Pois é.
    É pena.
    O 5 dias convertido nisto.Renato (pelo qual eu tinha alguma consideração) a ir buscar à Pide argumentos para atacar Cunhal.
    O que sobra é um espectáculo feio sujo e triste.Já lá iremos , se tiver pachorrra para tal.

    Varela a ser igual a si própria e intrinsecamente desonesta..

    Varela postou há 2 dias um post miserável sobre as greves.O meu comentário sobre o tema foi simplesmente anulado pela dita senhora

    Já o não tenho .
    Mas enquanto lá fora os vampiros uivam e fritam , é necessário de facto colocar alguns pontos nos is.
    Mais uma vez cabe ao Bruno postar ou não este meu comentário, já que o que vou dizer só indirectamente se relaciona com este post.

    • Caetano diz:

      Não foi só a si, também me cortou o meu comentário, que por sinal era bem simples, lembrava à Varela que se alguém tinha que devolver o dinheiro dos passes sociais a quem dele não pôde usufruir seria certamente a empresa que recebeu o respectivo pagamento e nunca os trabalhadores, fossem eles grevistas ou não. É valente a senhora…

  8. um anarco-ciclista diz:

    então somos 2 censurados, pois eu limitei-me a constar que “alguns como Cunhal Fidel Castro, Mao Tsé Tung ou Ho Chi Mihn ficarão para a história… outros ficarão no histórico da NSA…”

  9. De diz:

    Os «fura-greves»
    Posted on Novembro 9, 2013 por Raquel Varela

    Eis o post de Varela.
    Antes de mais referi que me parecia escrito sobre o joelho, fruto provavelmente do rancor e dum certo desnorte perante a figura de Álvaro Cunhal.
    Mas aprofundemos a questão::
    Varela escreve 5 parágrafos.O tema é sobre os “fura-greves”.Varela dedica o primeiro parágrafo a ir buscar uma pergunta a um anódino personagem,espécie de justificação para o que escreve a seguir.
    O último parágrafo é uma espécie de álibi, simultaneamente anzol, para repescar os “insurgentes” e os companheiros destes. Precisa de uma prova do seu pensamento “revolucionário” .E necessita que no post com este tema (fura-greves) não surja como objectivo final o objectivo que Varela de facto procura. E o que procura é tão somente acusar o PC e os comunistas de fura-greves.O que só por si demonstra o que a faz mover
    Perante o contexto em que vivemos, neste Portugal sitiado e miserável é de salientar tal facto, tal acusação torpe e desmedida.Varela prefere dedicar os três parágrafos substanciais do seu texto a montar uma espécie de vómito lançado perante quem devia ser seu aliado.As circunstâncias obrigarão Varela a agir assim:Mas o seu carácter também.

    Mas Varela manipula.E tal é muito grave para quem se assume como historiadora.
    Varela cita uma intervenção de Cunhal O link para que nos remete nem sequer abre.
    Eis o texto em causa
    http://www.marxists.org/portugues/cunhal/1974/10/20.htm
    Li-o e achei-o coerente.Um escrito de Outubro de 1974 de uma clareza notável. Não transcrevo nenhuma linha mas quem quiser que o compare com o debitado por Varela. A tal expressão entre aspas colocada por Varela nem aparece lá. Aparece é uma outra coisa que quem quiser ter a paciência pode identificar.

    Varela quer “absolutizar” uma forma de luta.Sacraliza-a porque precisa de tal liturgia para defender um seu livro sobre a história do PC? Porque precisa destas camuflagens para justificar o que vai dizer a seguir? Ignora ou finge ignorar que tudo,incluindo as formas de luta, por mais importantes que estas sejam, são também atravessadas pela luta de classes. Não são virgens inocentes que pairam sobre esta luta de vida ou de morte que se trava contra o capital. Nem vale a pena falar nos exemplos práticos que comprovam o que disse, porque a teoria só por si é esmagadora.E Varela sabe-o ou devia sabê-lo.

    Agora repare-se na forma como Varela, formada em História e com responsabilidades, aborda as questões.A mitologia que diz não ser com ela,aparece aqui pelos interstícios da sua forma de agir.
    Fala nas primeiras greves.em Maio de 74.Num golpe de mágica passa para a nacionalização da CP em 1975…”as lutas sociais impuseram…”,escreve.
    Ora bem.A nacionalização da CP deu-se em 16 de Abril de 1975 – Decreto-Lei n.º 205-B/75. Resultou do fluxo revolucionário depois do golpe fracassado do 11 de Março.Para tal concorreram o movimento popular e a facção progressista do MFA. Concorreram os partidos organizados ( com especial relevância para o PC) e a massa anónima dos trabalhadores.A expressão “lutas sociais” escamoteia objectivamente tal facto.E tal não é de facto inocente. Porque a seguir a tal afirmação Varela irrompe de novo a discorrer sobre uma greve em concreto. Como se o que resultasse da acção do PCP fosse a sua actividade anti-grevista, que veja-se bem,parece até que tinha obstaculizado a nacionalização da CP.Ora os factos provam exactamente o contrário. A nacionalização foi prévia à greve citada por Varela e resultou doutro tipo de lutas muito mais violentas e decisivas.
    Varela mistura expressamente as duas coisas.Quer dar mais um realce dramático às suas acusações? O que sobra é o oportunismo
    Quer sobretudo a propósito de greves falar que o PC tem telhados de vidro. Pelo que mostra, pelo que revela pode-se dizer que para o pensamento político de varela e para o seu posicionamento ideológico tal é um facto,Infelizmente a objectivação histórica com que Varela quer validar as suas posições sai frustrada.E a julgar por este jogo sinuoso de insinuações e de corte e costura….

    Varela fala em hagiografia. Curioso que quem utilize esta palavra seja alguém que pratica a auto-hagiografia.Basta ver a sequência dos seus comentários,alguns bons,alguns muito bons, mas quantos e quantos como que a encher chouriços.E quantos com aquelas conclusões e afirmações, fora do texto,fora do contexto que se admitem em muitos mas que não são admissíveis em alguém que devia pautar a sua actividade com o rigor científico indispensável

    De facto Carlos Vidal tinha razão

  10. Argala diz:

    Desculpa Bruno, mas tu não queres discutir as ideias e obra de Cunhal. E isso é uma pena.

  11. moby diz:

    a ânsia do poder é tramada. assisto a toda esta trágico-comédia como mero observador uma vez que a verdade está sempre do lado de certos sujeitos. houve aqui uma tentativa de assalto ao poder bem a rua serve os interesses de indivíduos que preparam as suas “cadeiras”. a natureza humana é tramada.

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