Os rankings que verdadeiramente interessam

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Fiz há uns anos um «ranking» pessoal das escolas, em que introduzia nos resultados de cada estabelecimento de ensino critérios diferenciadores, como a localização geográfica ou o perfil sócio-económico dos alunos em causa. Resultados desse «ranking»: as escolas públicas ficavam maioritariamente nos primeiros lugares.
Mas para comprovar a pouca fiabilidade dos actuais rankings de escolas que a nossa imprensa vai publicando, nem é preciso ir tão longe. Peguemos num exemplo objectivo e rigoroso: o «ranking» da Universidade do Porto, que por acaso é a maior do país.
De onde vieram os melhores alunos que entraram na Universidade do Porto? Os resultados do estudo são claros: os estudantes que provinham de escolas públicas apresentavam melhores resultados académicos do que os provenientes das privadas. Dois exemplos na cidade do Porto separados por menos de um quilómetro: do Colégio do Rosário, transitaram 56 alunos para a Universidade do Porto, mas 3 anos depois, apenas 4 alunos estavam entre os melhores 10% da instituição. Da Escola Secundária Garcia de Orta, mesmo ao lado, entraram na Universidade 114 alunos e, desses, 14 faziam parte dos melhores 10% ao fim de 3 anos.
por aqui sugeri que fizessem uma experiência deste género: colocar os alunos da Escola Secundária de Santo António do Barreiro a estudar no Colégio de S. João de Brito e vice-versa. Ao fim de um ano, como é óbvio, a escola do Barreiro iria estar no topo do ranking e o Colégio de S. João de Brito num dos últimos lugares.
Entre as privadas e as públicas, há um ponto a separá-las nas médias – 10 contra 9. É pouco, mas de fácil explicação. As escolas públicas são obrigadas a aceitar todos os alunos de todos os estratos sócio-económicos – ricos, pobres, miseráveis. As escolas privadas só aceitam os melhores, logo, estranho seria se os resultados finais não reflectissem essa realidade.
É o que pretendem todos aqueles que defendem o cheque-ensino. Que as famílias possam escolher mas que, em simultâneo, as escolas privadas continuem a poder escolher também. Os melhores, claro. Para não lhes estragar as médias.
Os rankings que verdadeiramente interessam são, pois, outros que não aqueles que sucessivamente a nossa imprensa vai debitando sem preocupar em questionar ou interpretar. Faz mal. É que, recuperando o estudo da Universidade do Porto acima referido, ««as escolas privadas têm grande capacidade para preparar os alunos para entrar, mas o que se verificou é que, passados três anos, estes alunos mostraram estar mais mal preparados para a universidade do que os que vieram da escola pública.»

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Sobre Ricardo Ferreira Pinto

ricardosantospinto@gmail.com
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17 respostas a Os rankings que verdadeiramente interessam

  1. Bom dia, dei só uma vista de olhos na lista ainda não li, mas tenho uma dúvida, um Externato é público ou é privado?

  2. JgMenos diz:

    Estatísticas constroem-se para todos os gostos, basta introduzir os adequados critérios diferenciadores!
    Enchem a boca com o facto de a escola pública ter que aceitar a todos.
    Nenhum problema se não os misturarem todos à molhada, tendo por prioridade cultivar a mediocridade geral.

  3. JP diz:

    Não me parece que uma estatística obtida com base num universo de 600 pessoas relativa a um ano lectivo de há 5 anos possa permitir o tipo de leituras que o Ricardo apresenta.

    Apenas como referência, em 2009, a UP tinha 31.000 alunos inscrito (em 700 cursos), o que significa que esta amostra representa menos de 2% dos alunos inscritos !?!

    Ainda por cima esta amostra só considera instituições que colocaram mais de 30 alunos na UP. Ou seja, se um colégio tiver colocado 100% dos seus alunos no ensino superior mas se apenas 29 deles tiverem ido para a U.P. (mesmo que tenham sido os 29 melhores), não aparece nesta listagem.

    O Ricardo é lesto a concluir acerca de uma infografia que é tudo menos conclusiva e altamente parcelar (por via de uma amostra que além de reduzida nem sabemos se é representativa do universo). No entanto recusa-se a concluir (uma vez que diz que esta é que interessa) acerca de uma estatística de valores totais, em bruto e corrigidos.

    Deixo as conclusões para si, mas palpita-me que são independentes de quaisquer considerações objectivas…

    • De diz:

      “De onde vieram os melhores alunos que entraram na Universidade do Porto? Os resultados do estudo são claros: os estudantes que provinham de escolas públicas apresentavam melhores resultados académicos do que os provenientes das privadas”

      Só alguém ignorante na matéria ou de má fé pode falar em “estatística de valores totais, em bruto e corrigidos”
      Comparar universos que não são comparáveis dá esta cena operática que é logo replicada em parangonas pelos media ( está em jogo muito dinheiro) e amplificada pelos filiados na agremiação governamental.

      Um caso paradigmático referido por uma professora .Era (não sei se ainda é) clássico agrupar os alunos por idades na feitura das turmas dentro do mesmo ano ( logo com uma maior prevalência de repetentes).Ora se se fizesse um ranking entre as turmas dentro da própria escola adivinhem-se os resultados.

      Agora leia-se uma das conclusões do estudo da Universidade do Porto:
      ” O documento (que surge como um alerta contra o facilitismo na utilização dos rankings e que procura rebater a ideia de falência do ensino público) sublinha que o melhor desempenho dos estudantes das escolas públicas é ainda “mais relevante pelo facto de as escolas privadas de maior prestígio fazerem uma selecção social dos seus estudantes”

      Leia-se também a propósito o comentário sobre o tema de Paulo Granjo

      Parabéns.Muitos e sinceros ao Ricardo pela sua paciência e saber

      • JP diz:

        Como percebeu (?) eu questionei as conclusões do Ricardo, no contexto daquele estudo.
        Com base naqueles elementos nem ele (nem o jornalista) podem concluir o que quer que seja quanto à prevalência de uns e outros.
        De resto “só por ignorância ou má fé” se podem ignorar os aspectos técnicos que indiquei e a reduzida representatividade do estudo. Sobre isto, vossa excelência, nada disse (porque nada pode nem consegue dizer).
        Fico à espera que o “De” (e outros) se pronunciem para além do nível de uma birra de 4ª classe.
        Agradecido.

        • De diz:

          Mas claro que eu percebi.Então não percebi?
          Percebi que o estudo do Ricardo aponta para as mesmas conclusões do da Universidade do Porto
          Percebi que JP funciona em forma de birra de 4ª classe e quer que todos se portem como ele
          Percebi que por mais voltas que se dê os dados estão ai para desespero e frustração do JP.
          Percebi que JP não percebeu que os resultados do estudo da faculdade do Porto não resultam da apreciação de qualquer jornalista , mas do próprio pro-reitor da UP, um tal de S.Cabral por quem eu não nutro particular estima.

          E percebi que JP num processo de cabotinismo,má fé,ignorância e de mais outros qualificativos que não interessam agora ao caso, continua a querer comparar coisas que não podem ser comparadas.O próprio ministério tem graça que afirma o mesmo.

          Eu repito para que JP não se esconda atrás do “jornalista”:

          “As escolas privadas têm grande capacidade para preparar os alunos para entrar, mas o que se verificou é que, passados três anos, estes alunos mostraram estar mais mal preparados para a universidade do que os que vieram da escola pública”, adiantou ao PÚBLICO José Sarsfield Cabral, pró-reitor da UP para a área da melhoria contínua.

          Em termos globais, por cada 100 estudantes provenientes das escolas públicas que concluíram pelo menos 75% das cadeiras dos três anos, havia 10,69 no grupo dos melhores. No caso das escolas privadas, esse número era de 7,98.
          Este estudo (o primeiro do género e que foi repetido no ano lectivo seguinte, sendo que estes últimos resultados deverão ser conhecidos dentro de dois meses) partiu de uma amostra inicial de 4280 alunos. Destes, 954 abandonaram os estudos, 83 tinham-se recandidatado a outros cursos, 131 tinham concluído menos de 45 dos 180 créditos do curso, 303 tinham completado entre 45 e 90 créditos, 583 entre 90 e 135 créditos e apenas 2226 tinham completado mais de 135 créditos, ou seja, o equivalente a 75% das cadeiras do curso. Foi no desempenho académico destes últimos que a análise se baseou”

          Mais uma vez,parabéns ao Ricardo

        • De diz:

          Mas não acabou aqui o desmascarar deste peditório dos rankings patrocinados pelos moços privados

          http://samuel-cantigueiro.blogspot.pt/2013/11/ranking-de-escolas-receita-para-uma.html

          É ver também os links do post.

  4. Rafael Ortega diz:

    ««as escolas privadas têm grande capacidade para preparar os alunos para entrar, mas o que se verificou é que, passados três anos, estes alunos mostraram estar mais mal preparados para a universidade do que os que vieram da escola pública.»

    Ai é isso que a estatística lhe diz?
    Dá lhe jeito comparar a escola pública que enviou para a UP 12% dos alunos no grupo dos 10 melhores 3 anos depois com a privada que tinha 7%.
    Pode claro pegar nas privadas que têm 10% e comparar com as públicas que têm 7, ou 3 ou 0.

    Também tem graça que para esta estatística só entrem escolas que fizeram mais de 30 exames. Assim podem deixar de fora um colégio privado da zona do Porto que ficou em 1º lugar do ranking de exames há uns anos mas que só foram a exame 20 alunos.

    • De diz:

      Este babar contínuo não é mais do que um babar contínuo.
      Ortega no seu papel..Nem sequer sabem ler, na sua fúria de justificar os desmandos privados na educação.

      «as escolas privadas têm grande capacidade para preparar os alunos para entrar, mas o que se verificou é que, passados três anos, estes alunos mostraram estar mais mal preparados para a universidade do que os que vieram da escola pública.»
      A frase é do pro-reitor para a área da melhoria contínua.

      A burrice elevada ao grau do pulha neoliberal que atende pelo nome de relvas?

  5. Surprese diz:

    Fui aluno do Garcia de Orta e entrei na Universidade do Porto, e todos sabíamos que era assim, mas também sabíamos o porquê de ser assim:
    – a escola pública funciona num sistema tipo capitalismo selvagem, cada um por si e salve-se quem puder. Quem conseguia entrar na Universidade era mesmo muito bom, pois tinha sobrevivido a um sistema triturador em que os alunos são estatísticas.
    – a escola privada ajudava os alunos menos “sobreviventes”, seja com estudo assistido, aconselhamento aos país, etc., para que estes conseguissem entrar na Umiversidade.
    Quando cheguei ao 10º ano lembro-me de os colegas ricos mudarem de escola (para aquelas que aparecem na imagem) para conseguir entrar na Universidade, enquanto que nós, os que ficávamos, por na altura não existirem contratos de associação ou cheque ensino que nos permitissem ter liberdade de escolha, tínhamos a sensação de ter sido deixados para trás numa zona de combate, onde iríamos ter de matar ou morrer.
    Qual é o melhor sistema???

    • Ricardo Ferreira Pinto diz:

      Também fui aluno do Garcia durante 7 anos e também entrei na Universidade do Porto. Tenho pena que tenha sofrido tanto. Eu felizmente nunca me senti assim, sempre adorei aquela escola. Independentemente disso, e mesmo não sabendo em que altura passou por lá, sabe perfeitamente que a escola pública hoje em dia está muito diferente.

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