A greve prejudica, ou então não é greve

Parte dos jornalistas em dia de greve, há anos, repetem a mesma pergunta e só essa: «O Sr ou a Srª foi prejudicado pela greve?». Resposta do transeunte/passageiro/utente – «Sim, fui!». Normalmente é à porta do hospital ou do transporte.

Esta pergunta tem o mesmo valor que perguntar a um tipo encharcado no meio da rua debaixo de uma chuvada se «O Sr sente-se molhado pela chuva?». Não diz nada, nem acrescenta nada. Ficaríamos a saber mais se à mesma pessoa os jornalistas perguntassem: «Mas concorda ou está contra a greve? E está contra ou a favor porquê? Em que é que trabalha? Gosta do seu trabalho? Acha que recebe de acordo com o que trabalha? Consegue chegar ao fim do mês com o ordenado que tem? Está empregado ou desempregado? Tem filhos a estudar? Onde? Num privado com 15 alunos ou numa escola pública com 30? Já esteve em listas de espera para ser operado ou costuma ir ao privado? E no privado, paga você ou o SNS? Concorda com estas políticas? Se sim, se não, porquê?».

Resumir a opinião de alguém com a pergunta «foi prejudicado pela greve?» é uma ocultação do que essa pessoa pensa e um atestado de estupidez a nós pobres leitores e ouvintes deste fado que é a maioria da comunicação social hoje em dia.

A greve foi feita para prejudicar. Uma greve é um acto de conflito social, não é um jantar romântico. Uma greve que não prejudica é porque não é greve. E se uma greve não prejudicou nem devia ter sido feita, porque pode ter como consequência a desmoralização em vez da mobilização social.

Podem e devem-se discutir os sujeitos da greve, o tipo de greve, o papel desta, o resultado, o tempo em que foi convocada, a organização, a mobilização, o efeito de arrasto ou não, a desmoralização ou o seu contrário. Mas as greves não se medem nem pelo que fazem na hora nem pelo que fazem aos indivíduos, medem-se pelo impacto social e político e pelo que fazem ao colectivo. Ninguém gosta de ser operado, ninguém adora a broca do dentista e ninguém toma medicamentos porque sabem bem.

Há muitos lugares que entraram em greve só com paragem da produção. Mas há lugares neste país em que a greve foi algo mais do que isso. Há espaços onde os trabalhadores estão há 2 semanas a fazer plenários, a preparar fundos de greves solidários e a discutir o que querem para as suas vidas. Chegaram-me a mim vários testemunhos pessoais, uns que conheço bem, outros anónimos, outros de «amigos» das redes sociais. Conheço um fundo de greve feito pelos professores aos funcionários que nasceu nesta greve numa escola de Lisboa; conheço uma comissão de trabalhadores da função pública que nasceu nesta greve – em ambos os casos partiu de pessoas de base que nunca tinham feito nada semelhante. São 2 exemplos, das centenas por esse país fora, de gente que no anonimato e na maioria dos casos em total voluntariado, depois do trabalho, depois de cuidar dos filhos ou depois de cuidar dos pais, telefonou aos seus colegas, preparam textos, fizeram panfletos, mandaram emails, colaram cartazes, chamaram plenários, umas vezes com o apoio entusiástico de um sindicato outras vezes contra, lidando com resistências e entraves de quem os devia ajudar.

Todo este esforço consubstancia algo que parece esquecido – os trabalhadores não são animais que funcionam por reflexo. São pessoas que têm uma opinião e querem poder decidir como trabalham, para que é que trabalham, para quem trabalham e em que condições trabalham. Isso não pode ser matéria de «especialistas». Essa é a democracia, o exercício da opinião, do decidir no lugar de trabalho, do agir colectivamente, do tomar decisões sobre a sociedade. Isso merecia uma nota, creio.

Conheço vários destes heróis que «prejudicaram» a sua vida 15 dias e com gosto dou o contacto a qualquer jornalista que o queira.

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8 respostas a A greve prejudica, ou então não é greve

  1. Dinis Evangelista diz:

    As greves são, por princípio, a última “arma” a ultilizar pelos trabalhadores assalariados para defenderem os seus direitos. Infelizmente, nem todos os assalariados/trabalhadores por conta de outrém têm consciência da importância dessa arma. Por outro lado, alguns desses trabalhadores, porque estão (quase) no fim da linha, sentem-se prejudicados, porque lhes afecta a vida familiar e causa-lhes prejuízos a nível laboral, devido à precaridade que grassa neste país. Concordo, por princípio, com a utilização deste meio para pressionar e pôr em causa decisões políticas, e penso que se todas as pessoas tivessem salários que lhes proporcionassem uma vida digna, não seriam necessárias greves. Nesta última greve ocorreu-me uma ideia de como se faziam greves na Carris antes do 25 de Abril – A greve da mala, ou seja, se houvesse greve apenas sectorial, que se traduzisse na não cobrança de títulos de transportes, e que estes continuassem activos, sem causar transtornos à população, talvez se conseguisse opinião mais favorável por parte das populações e mais apoio, que às vezes (ou nem sempre) tem a melhor aceitação.

  2. JgMenos diz:

    «… querem poder decidir como trabalham, para que é que trabalham, para quem trabalham e em que condições trabalham»
    Pleno direito!
    Entre ‘poder decidir’ e ‘poder impor’ vai a diferença entre cooperativismo e tudo o mais.
    Não surpreendemente, só se fala nos esforços da segunda opção, poque a primeira – a que efectivamente requer significativo esforço colectivo – fica sempre para mais tarde, num etéreo paraíso de sovietes.

  3. josé sequeira diz:

    Boa noite Raquel
    Tentando responder:
    Mas concorda ou está contra a greve?
    Contra a greve!
    E está contra ou a favor porquê?
    Porque uma greve deve prejudicar um patrão, fazendo-o perder dinheiro. Estas greves (da administração e empresas públicas) não levam a nada. Banalizam esse direito. O patrão além de não pagar os salários poupa combustíveis e energia e coloca do seu lado camadas da população que se sentem prejudicadas. Como as pessoas percebem que os trabalhadores do privado não fazem greve começam a defender as privatizações
    Em que é que trabalha?
    Consultor independente na área das Tecnologias de Informação.
    Gosta do seu trabalho?
    É um dos que fui capaz de obter. Habituei-me a gostar.
    Acha que recebe de acordo com o que trabalha?
    Claro que sim. Todos recebemos de acordo com o que valemos. Se valermos mais do que recebemos haverá certamente quem nos pague o que é justo. Uma das grandes falácias que se ouvem tem a ver com a diferença entre o que gostaríamos de receber para termos o que desejamos e o que valemos.
    Consegue chegar ao fim do mês com o ordenado que tem?
    Uns meses sim (até porque os meus recebimentos são irregulares), outros meses não. Hoje em dia há mecanismos de equilíbrio. Mas fui educado para não gastar acima do que tenho.
    Está empregado ou desempregado?
    Nem estou empregado, nem desempregado. Trabalho, normalmente sem horários, de dia, de noite e fins-de-semana, quando é necessário.
    Tem filhos a estudar? Onde? Num privado com 15 alunos ou numa escola pública com 30?
    Sim, numa escola pública com 30 alunos numa turma.
    Já esteve em listas de espera para ser operado ou costuma ir ao privado?
    Felizmente a única vez que fui operado foi numa urgência em 1969 a uma fractura.
    E no privado, paga você ou o SNS?
    As únicas vezes que fui ao privado foram ao dentista (depois do 25 de Abril porque antes havia dentistas nos centros de saúde, antigos postos da Caixa) e fazer alguns exames. Paguei eu sempre. As minhas filhas têm seguro de saúde pago por mim mas também vão preferencialmente ao SNS.
    Concorda com estas políticas?
    Como em tudo na vida, concordo com algumas e com outras não.
    Se sim, se não, porquê?
    Concordo por exemplo que um maquinista da CP, que, com as tecnologias actuais se “faz” em 3 meses, não deva ganhar 6.000€, ainda por cima com um ordenado base muito mais pequeno.
    Acho errado que o governo retire retroactivamente pensões ou subsídios e não tenha coragem para enfrentar os lobbies das PPPs.

    Satisfeita?

    Já fui assalariado e nunca fiz greve. O facto de não ter feito greve não faz de mim um cobarde, até porque as greves que outros fizeram nunca me beneficiaram. Diga-se de passagem que também não me prejudicaram. Como nunca tive aqueles horários fixos nunca pude ser daqueles consumidores pendulares, casa/trabalho/casa.

    Cumprimentos.

    • João Oliveira diz:

      Parece-me que essa foi uma resposta muito virada para o seu umbigo.
      É preciso ter a noção que a sociedade não se resume à nossa vivência e experiência de vida.
      Todos recebemos de acordo com o que valemos?? Desculpe, você vive cá em Portugal? Você acha que ganhar o ordenado mínimo ou pouco acima por uma profissão especializada ou não é ganhar de acordo com o que valemos? Um exemplo, um ordenado base de um(a) caixa do supermercado é o mínimo, você acha que ela recebe em consonância com o que produz? Qual é o retorno do hipermercado pelo trabalho desse funcionário, na sua opinião a repartição é justa? Se não estiver satisfeito com o ordenado e não o aceitar, vai trabalhar para onde? Para outro com as mesmas condições? O desemprego não é uma falácia e quanto maior ele for mais baixam os ordenados e as condições de trabalho. Com certeza não ouviu que a cadeia da McDonald despediu 53 funcionários, que como sabe ganham ordenados fabulosos, com o argumento que não se encaixavam no “perfil”, somente para colocarem outros mais “económicos”. Quem ganha 600€, não tem dinheiro para seguros de saúde, mal terá dinheiro para comer, mas paga impostos. Colégios privados?? Nem dinheiro para os livros há. O ordenado nunca deveria ser inferior ao mínimo que nos permitisse viver condignamente, ou seja, ter uma casa com o mínimo de condições, comer, vestir e ter o básico para manter um nível “higiénico” de vida. Você acha que é isso que acontece? Ou também “embarca” nesta “estória” da Carochinha, que andámos a viver acima das nossas possibilidades? Que ganhava um ordenado e pagava as suas contas nunca viveu acima das possibilidades. Aliás há uma tendência, provocada, de querer misturar as águas, a “austeridade” que estamos (quase) todos a viver, não é porque o vizinho do lado comprou um frigorífico novo, é porque consequência de uma voragem de corrupção, de há dezenas de anos a esta parte, se foi deslapidando o erário público, somente em beneficio daqueles, que mesmo em tempo de grande crise continuam a enriquecer, daqueles que querem menos Estado, mas que à mínima dificuldade se servem do dinheiro do Estado para manterem os lucros, daqueles que diariamente nos dizem que não há alternativas.
      Faça uma busca e confirme que aqueles que eram os donos de Portugal no Sec.XIX, são basicamente os mesmo de hoje em dia.
      O que o devia pôr a pensar e a reflectir era como é que nesta sociedade onde vivemos e temos de empobrecimento generalizado, “temos de empobrecer” o número de milionários aumentou cerca de 12% só no último ano, o 6º país no mundo. Serão assalariados? Serão maquinistas da CP?

      Cumprimentos

      • Caro João Oliveira, não pude deixar de ler o seu comentário e responder. Não em defesa do Sr. sequeira, mas sim para esclarecer alguns pontos. Refere o exemplo de uma caixa de supermercado. Mau exemplo. ainda ontem fui a dois (como vou todos os meses tentando poupar aqui e ali) 1º fui a uma marca sobejamente conhecida e Portuguesa e as filas nas caixas eram enormes e porque ? Porque as empregadas andam a paso de caracol, devagar, devagarinho. até enervam. Ora isto é um ciclo vicioso (temos é de saber onde ele começou, se no patronato ou no empregado) o certo é que se o empregado não produz, não pode receber muito mais….A seguir fui a outro, este de origem Alemã e ai até mete impressão a rapidez com que as caixas trabalham que nem dá tempo de colocar as coisas no carrinho e ainda estamos a colocar o resto das coisas no dito, ja ela esta com o ticket na mão e a dizer: – é (x) por favor…Não sei quanto ganham estas ultimas. as primeiras sei que a maior parte delas ganham pouco mais do ordenado mínimo e o resto é por objectivos (objectivos esses que parece não quererem atingir) as ultimas, têm uma obrigação. Ou cumprem ou dão lugar a outros. Não vamos falar da Alemanha actual, pois essa está a viver actualmente a custa dos países como Portugal, Grécia, _Irlanda e Espanha tudo o que nos é roubado através da Troika BCE e FMI, vai para lá, Falemos da Alemanha antiga, onde era uma super-Potência. Era-o porquê ??? Porque lá trabalha-se, quer do privado ao Funcionário Publico. Lá trabalha-se ainda hoje por objectivos. Trabalha-se muito, mas ganha-se bem…E não se trabalha muito, pois não vê ninguém morrer por trabalhar. Trabalha-se o que se deve para dar rendimento e ser recompensado por isso.
        Em Portugal criou-se dois hábitos maus que têm de ser irradicados. O trabalhador quer fazer quanto menos melhor e o Patrão pagar o menor salário possível. Mude-se a Politica Laboral. Adapte-se aqui a tão famosa regra Utilizador/Pagador neste caso aletrada para Trabalhador bom/Salario adequado que é isso que não se vê actualmente em Portugal. Como referi acima estou desempregado. Ha dias fui a uma entrevista de emprego e tiveram a LATA de me oferecer 245 euros/mês para andar 8 horas a bater a porta das pessoas para se fidelizarem na TV por Cabo. Perguntei ao entrevistador : – Então e se ninguém aderir ? Resposta nua e crua : – Problema seu. Já lhe estamos a dar 245 euros para não fazer nada.
        Não o mandei a M*r*a porque tenho 52 anos e sou mais educado que ele, mas virei-lhe as costas e fui-me embora. Outra que vi com os meus proprios olhos, foi oferecerem um emprego a um Engenheiro Civil (/mas tinham montes de requisitos para a função) ofereciam-lhe 485 euros e subsídio de almoço 4.47 euros /dia agora digam-me; estas duas situações têm logica ??? Como querem que o País progrida com PULHAS desta índole ?? são possivelmente esse 12% que referiu Sr. Oliveira, que têm de ser atacados e banidos da Sociedade e não o Sr. Sequeira que talvez se tenha feito interpretar mal em alguma das suas expressões, mas ele tem razão. Cada vez que há uma greve é prejudicial, somente para o Estado (Nação) porque o Privado até ganha com isso como referido acima…Eu repito, sou contra Greves e Manifestações sindicais. Era a favor da “Que se lixe a Troika ” até ao momento que que percebi que de POPULAR nada tinha, mas sim era um dos tentáculos das Centrais Sindicais (aliás só se viu confusão quando foram essas manifestações) sinal de que havia gente interessada em destabilizar o POVO vs Forças Policiais e deitar as culpar para outros. Fiz-me entender ? ainda bem.
        Por aqui me fico com uma ultima nota.
        Este País só vai para a frente quando deixar de haver coligações ou maiorias. Só com um Governo do tipo Suiça, onde todos mandam e não manda nenhmu. Há um presidente que é eleito de entre todos, mas que só serve para representar o País, pois as decisões têm de ser tomadas em conluio com todos. Assim, acabam-.se os Corruptos, Boys, Familiares e amigos, PPP, Swaps, Submarinos, Robalos, _BPN etc etc. Acorda Povo. Sigam este exemplo: http://www.zeitgeistportugal.org/capitulo/index.php?option=com_kunena&func=view&catid=16&id=6068&Itemid=86

  4. Antonio Mendonça diz:

    Bom dia Raquel, era para lhe dar resposta mas o Sr. José Sequeira (a quem dou os parabéns pelo belíssimo texto) prejudicou-me 🙂 pois disse quase tudo o que eu queria dizer, pois somente difere numa coisa ele está empregado e eu desempregado, mas mesmo na situação em que estou, sou contra as greves e as manifestações Sindicais, pois está mais que provado que tanto uma como a outra não levam a lado nenhum de melhor, antes pelo contrário, afundam cada vez mais o País. O Povo fala muito mas age pouco. ainda agora estive a ver aqui na TV que o movimento de apoio ao militar da GNR tinha 1500 subscritos e apoiantes, contudo só apareceram 150. As Manifestações,e greves regra geral é sempre a Função Publica que as sustenta e com isto acabo. Já disse de mais.

  5. Dei ha pouco o exemplo da Alemanha, como poderia ter dado da Escandinávia, da Suécia, da Noruega etc etc todos os Países Nórdicos, produz-se mas ganha-se. A mentalidade em Portugal tem de mudar, mas a mudança tem de vir de cima do TOPO. Um gestor qualquer , numa qualquer empresa em Portugal, ganha acima de 5000 euros, sem lá por os pés a maior parte do tempo, porque tem de ir marcar o ponto noutra onde ganha o mesmo e possivelmente ainda vai a AR ou a um qualquer Partido porque tem lá mais um tachito, enquanto o trabalhador ganha o ordenado mínimo ou pouco mais. Isso é uma das desmotivações Laborais.Eu digo-lhe estive a trabalhar no Estrangeiro e o Patrão comia todos os dias a mesa com os empregados. Vê isso cá em Portugal ?? Na maior parte dos Países que referi acima, os dividendos Anuais são repartidos pelos empregados. Vê isso cá em Portugal ? Na Suécia os Políticos deslocados vivem sem mordomias. Ver aqui http://www.youtube.com/watch?v=GkD9jvqpNto vê isso cá em Portugal ^? antes pelo contrario. São do Norte, têm casa cá em Lisboa, mas estão a receber subsidio de ajudas de custo como se vivessem no Norte. Ou então o famoso caso da Inês de Medeiros. Cada vez que vinha de Paris, pagava-se-lhe a passagem de avião ida e volta. Mas isto cabe na cabeça de alguém com os 5 bem medidos ?? Só em Portugal mesmo. Isto para não falar dos _Juizes do TC que tê carro, motorista e RENDA DA CASA PAGA. Isto tem de acabar, mas como disse o exemplo tem de vir de cima, caso contrario nunca chegaremos a lado nenhum. GREVES ??? É para o lado que os Politicos dormem melhor. Manifestações ??? é musica para os ouvidos deles enquanto almoçam ou jantam. Quando o Povo PT se convencer disso e partir a ação dura e crua, Portugal volta a ser o Portugal do Viriato. Passem bem.

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