O Empreendedorismo e os seus descontentes

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O texto sobre empreendedorismo que aqui apareceu há umas semanas suscitou algumas críticas que podem ser reunidas em duas categorias.

Na primeira é sugerido que as críticas ao empreendedorismo se centram numa sua caricaturização que apenas corresponde às suas expressões mais medíocres, ignorando uma série de iniciativas mais sérias, credíveis e socialmente úteis que para muita gente representarão uma possibilidade emancipatória ou um escape ao desemprego. A promessa de engenharia social do empreendedorismo é que mil cabeças em competição produzem melhores ideias do que em colaboração, algo dúbio à partida já que, até ver, grande parte do que é vendido enquanto empreendedorismo é apenas a multiplicação de patamares de distribuição, gestão ou promoção de produtos. Paralelamente é vendida uma libertação das estruturas monolíticas da grande empresa ou do grande estado em que o empreendedor conquista a sua liberdade tornando-se o patrão de si próprio, moldando as mercadorias e métodos à sua personalidade e conquistando assim um lugar à sua medida na selva do mercado. Que tudo isto seja incomparavelmente mais apelativo do aturar um merdas qualquer oito horas por dia a fazer uma patetice inútil é inegável, mas há consequências implícitas bastante problemáticas. Dá-se em primeiro lugar uma atomização do trabalho que destrói laços políticos, já que os indivíduos deixam de ser colegas para ser rivais perdendo força enquanto classe, sendo questionável que força política conseguirão ter os empreendedores para lá de uma representação vaga e oportunista pelos partidos “governáveis”. A consequência directa é que o pequeno empreendedor é na verdade uma presa fácil para todas as mega-instituições, públicas ou privadas, que lhe vendem os produtos ou serviços necessários para o seu negócio. A questão então não é moral, seria absolutamente cretino julgar alguém por começar um pequeno negócio, mas política. Do mesmo modo que a compra de casa foi promovida de modo a estimular o crescimento de uma pequena classe de micro-proprietários que votasse enquanto macro-proprietários, o empreendedorismo serve a criar uma classe de pequenos empresários que vote em sentido semelhante ao conselho de administração da Jerónimo Martins. Sendo inegável que o capitalismo é responsável por uma mobilização de recursos inédita na história com a óbvia consequência de uma sofisticação material e técnica fenomenal também começa a ser demasiado óbvio que essa aceleração é responsável não só pela criação de contradições sociais brutais como por uma inevitável catástrofe ecológica. Mas a estas contradições, hoje “clássicas”, acresce uma nova: foi a relativa prosperidade das sociedades capitalistas que lhes permitiu criar e libertar certos sectores, como a cultura e a ciência por exemplo, da tirania da escassez, precisamente por considerar que os saberes por elas produzidos eram centrais para a reprodução e sofisticação das relações de produção. Ironicamente, um dos segredos do capitalismo é ter criado espaços não-capitalistas, ou seja, colectivos, colaborativos e não sujeitos a uma lógica de lucro imediato, nos seus núcleos e espaços híper-capitalistas, de exploração brutal, nas suas margens. A inversão deste paradigma e a crescente entrega à lógica do lucro de todos os sectores da produção e de todos os campos da existência implica a médio prazo a falência do modelo “aberto” e “liberal” de sociedade que o capitalismo até agora afirmou defender. O agente ideologicamente empreendedor produzido pelo neoliberalismo já não é a pequena-burguesia na qual tanto o seu conservadorismo como o seu progressismo eram baseados numa forte identidade humanista tangencialmente cristã, mas sim uma mini-burguesia (ou “lumpen-burguesia” como disse António Guerreiro recentemente) que encontra em Passos Coelho, na JSD  e em grande parte dos comentadores televisivos o seu mais flagrante exemplo: pequenos trastes vaidosos cujo único engenho, trágico e abjecto, é o de conseguirem ser extremos na mediocridade banal.

A segunda observação presumia que uma crítica à ideologia do empreendedorismo significaria necessariamente uma defesa do estado enquanto principal empregador e gestor da economia, com os resultados totalitários ou burocráticos que se conhece. Numa vertente menos iluminada, foi ainda sugerido que sem o empreendedorismo a humanidade estaria condenada a um pesadelo orwelliano, obrigada a penar na interminável e labiríntica repartição de finanças que se tornaria o mundo, subentendendo portanto que foi ao abrigo do programa impulso jovem que o macaco aprendeu a falar e que a revolução agrícola se deu quando um segmento do “next big idea” da SIC notícias sobre jovens agricultores nas margens do rio Nilo se tornou viral. Pelo contrário, recuperando a grandiloquência patética do empreendedorismo, o desafio contemporâneo dos jovens ansiosos por entregar o peito às balas será o de criar, ou de reinventar, espaços de produção e troca que consigam colocar-se fora das esferas privadas e públicas ao mesmo tempo que respondem de modo autónomo a necessidades concretas e materiais. Não faltam exemplos de projectos que de modo mais ou menos militante sigam esta lógica: o modo como certas subculturas musicais funcionam de modo colaborativo, o punk ou o hip-hop por exemplo, partilhando recursos, momentos e espaços, tornando indistinto uma satisfação individual de um ganho colectivo e construindo redes difusas e internacionais de circulação de ideias sem qualquer centralidade ou mercado regulador; ou as cicloficinas que têm surgido onde uma série de voluntários ensina de modo gratuito e colaborativo qualquer pessoa a construir ou arranjar a sua bicicleta. (Há uma nos Anjos e acaba de abrir uma outra na Adroana.)

Sendo evidente que nenhum destes projectos é um programa político, ou se propõe resolver em si contradições e conflitos sociais, cumprem no entanto o louvável propósito de inaugurar hipóteses colaborativas e produtivas que a serem desenvolvidas e enriquecidas adquiririam uma substância política que se poderia tornar extremamente decisiva e pertinente nos tempos que correm.

dream team cicloadroana

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13 respostas a O Empreendedorismo e os seus descontentes

  1. João Santos diz:

    “algo dúbio à partida já que, até ver, grande parte do que é vendido enquanto empreendedorismo é apenas a multiplicação de patamares de distribuição, gestão ou promoção de produtos.”

    Não, manifestamente não consegue mesmo escapar à caricatura do Miguel Gonçalves e do cupcake.

  2. Antónimo diz:

    acho muito interessante o texto excepto na parte em que descubro que ciclistas se unem para arranjar as armas que montam e nos poderem continuar a extropiar abalroando peões nos passeios e nas passadeiras. preferia que batessem o punho ensinando os ciclistas a deixarem a condução taxista e atentatória da integridade do próximo.

  3. Argala diz:

    Boa malha.

    Vendem a ideia de que é possível tornarmo-nos pequeno-burgueses precisamente quando a pequena-burguesia está a desaparecer. Milhares de pequenos negócios a desaparecer e nós, contra a corrente, entramos e abrimos o nosso. Há espaço? claro. Abrir uma casa de penhores, por exemplo.

    Estes projectos de cooperação são o nosso empreendedorismo, porque se a burguesia monopolista fecha completamente o cerco, e não surgem formas alternativas de produção e distribuição, ficamos sem espaço de manobra para criar algo verdadeiramente subversivo. Tu dás-me legumes da horta e eu arranjo-te o carro, trocamos directamente trabalho entre nós, fugimos aos esquemas de monopolização e aos impostos (que servem hoje para transferir rendimento do trabalho para o capital). Eles chamam a isso “economia paralela” ou “economia informal”.. venha ela.

    Contudo, isto não resolve o problema. Não vamos usar isto como desculpa para fugir à raíz do problema só porque temos o nosso “quintal libertado”. A prioridade é tomar pela força aquilo que é nosso.

    Cumprimentos

  4. Khe Sanh diz:

    Entre o empreendorismo individual e o Stakhanovismo coletivo prefiro o segundo.

    O primeiro desumaniza, afasta as pessoas umas das outras, provoca uma competição desleal.
    Ao passo que o segundo aproxima-as, torna-as solidárias entre si, gera confiança nos membros do grupo.

    Porque é totalamente diferente ter como objetivo aumentar os lucros da entidade patronal que aumentar a produção em beneficio da sociedade, do bem comum.

    Vivi essa experiência maravilhosa daquilo que é o coletivismo durante a Reforma Agrária.

  5. um anarco-ciclista diz:

    Belo texto, caralho!

  6. proletkult diz:

    “Sendo evidente que nenhum destes projectos é um programa político”

    Há uns anos atrás um punk dizia-me que o seu projecto político era, precisamente, a “cena DIY”. 😀

  7. JP diz:

    Entre esta “argumentação” e o guião do Portas há, infelizmente, semelhanças.. Nenhum dos dois sabe do que está a falar.

  8. JP diz:

    Aliás, para terminar a minha participação aqui, deixo um link que pode ser-lhe útil. São uma pequeníssima amostra de projetos válidos e que não têm praticamente visibilidade nehuma. Fico à espera (sentado) do seu comentário:

    http://www.bes.pt/sitebes/cms.aspx?plg=a4c6c4f3-bd7a-4078-af9b-69cc4523f8e5

    • presumo que o projecto com 4M de euros de investimento tenha sido financiado por um desempregado que escolheu receber o subsidio todo de uma só vez. E um link para os projectos falhados não se arranja?

  9. Cibelle diz:

    Só discordo num sentido: não é uma atomização da economia aquilo a que assistimos, mas à sua concentração. Toda esta história do empreendorismo não passa de folclore, de uma cenoura raquitica e bolorenta que vai mantendo a classe média ocupada, a tentar transformar os seus hobbies em negócios destinados à falência. O objectivo claro e explicito de ‘modernizar a economia’, tanto aqui como na Grécia, passa por transformar uma economia em que as pequenas e médias empresas são prevalecentes numa de grande escala. Para que esta guerra aberta a boa parte da população portuguesa não seja tão explícita, criou-se toda esta história do empreendorismo (que no máximo funcionará como bolsa de ideias para grandes empresas).
    Quanto à escala desejável para uma economia, são outros quinhentos, é um bocado macabro desejar a miséria alheia para que a revolução tenha onde surgir, ou que o ppd perca uns quantos votos. Ou seja, o papel do pequeno proprietário que salientas-te é importante, de todo o modo, a transformação que está em curso não é nada amena, e não acredito que baste voltarmos às condições de trabalho do inicio do século passado para vermos o resurgir do movimento operário. É hoje, neste contexto (neste deserto) que nos cabe encontrar as respostas.

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