O mais recente “Marco do Correio”, do decano jornalista moçambicano Machado da Graça

gorongosa

«Espero que estejas de saúde. Do meu lado está tudo bem, felizmente.

E, aparentemente, o nosso país também está bem. Pelo menos a avaliar pelas declarações dos nossos principais dirigentes que, dia sim, dia sim, nos garantem que o país está em paz e sossego. E quem somos nós para duvidar dessas declarações?

No entanto, temos que reconhecer que a nossa paz tem características muito bizarras:

É uma paz em que a principal estrada do país, numa extensão considerável, só pode ser feita com escolta militar. E, mesmo com escolta, por vezes as viaturas são atacadas por homens armados que ninguém reconhece como seus.

É uma paz em que numerosas forças milita­res e policiais, com o uso de artilharia pesada, atacam e destroem locais onde vivem outros moçambicanos, igualmente armados.

É uma paz em que somas significativas são gastas na compra de todo o tipo de armamen­to, incluindo aviões de guerra, para um país que não tem conflitos com nenhum dos seus vizinhos.

É uma paz em que, até onde sei, só na “pa­cífica” ocupação de Marínguè causou mais de 50 mortos, de ambos os lados.

É uma paz em que, nos diversos outros confrontos, que se sucedem desde há vários meses, já foram mortas mais algumas dezenas de moçambicanos, civis e militares.

É uma paz em que o número de feridos já é impossível de contabilizar.

É uma paz que começou a ser conturbada na província de Sofala mas em que os confrontos já se repetem em Nampula e já se registam pequenos focos em Cabo Delgado.

Em resumo, é um raio de uma paz esta que o Primeiro-ministro anunciou em Luanda, que o porta-voz do Presidente da República anuncia em todo o lado e que o próprio Chefe de Es­tado não se cansa de anunciar nos sucessivos comícios das suas intermináveis presidências abertas.

É óbvio que Armando Guebuza não quer ficar, nas páginas da nossa História, como o Presidente que trouxe a guerra, de novo, para o país. Daí que tente negar isso, negando que a guerra já existe e já está a matar gente. O que talvez não convença muita gente, para além dele próprio…

Portanto, para mim, este já não é o momento de tentar evitar a guerra. Este já é o momento de fazer tudo para parar a guerra.

Um abraço para ti do

Machado da Graça»

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3 respostas a O mais recente “Marco do Correio”, do decano jornalista moçambicano Machado da Graça

  1. JgMenos diz:

    Lá como cá a luta por uma fatia do orçamento é o motor ideológico primeiro dos paridos.
    Tudo e sempre em nome do povo…

  2. Ao comemorarmos 20 anos dos acordos de Roma, seria de bom tom que Dhlakama viesse nos responder as seguintes questões:
    1. Onde anda o cidadão Bernardo Eugénio Saiete, capturado pelos seus homens em Mocoduene, distrito de Morrumbene em 1985?
    2. Esta ele vivo ou morto? Se morreu, onde é que o sepultaram?

    • paulogranjo diz:

      Infelizmente, está longe de ser o único caso em que essas perguntas se impõem, e continuam sem resposta.

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