Chile, há 40 anos atrás

Texto originariamente publicado no site Arte-Factos.

“Onde tomba um revolucionário, há dez mãos para apanhar a sua arma”

A edição deste ano do Doclisboa dedica uma das suas secções especiais à história recente do Chile, apresentando um conjunto de documentários a propósito dos 40 anos passados sobre o golpe militar de 1973. Eis algumas das propostas da secção “Foco”.

Descomedidos y Chascones (Carlos Flores del Pino, Chile, 1972)

descomedidosProduzido pelo departamento de cinema da Universidade do Chile, Descomedidos y Chascones retrata a juventude chilena durante o governo de Salvador Allende no início dos anos 70. Rompendo totalmente com a narrativa linear e convencional, a estrutura e propósito do trabalho desenham-se ao som da banda-sonora da lendária banda chilena Los Jaivas (especialmente produzida para o filme), que depois do golpe militar de 1973 se exilou na Argentina; experimental, difuso e valorizando o recurso à imagem em detrimento da palavra – incorporando colagens, desenho, animação e pequenos sketchs de comédia, alternados com depoimentos – o documentário examina de, uma forma muito crítica, as profundas diferenças entre os jovens de classes sociais contrastantes – burguesia e proletariado – e espelhando a posição política do próprio realizador a propósito: o mito da juventude chilena enquanto entidade uniforme, rebelde e idealista é falso, já que é preciso ter dinheiro para ser um hippie contestatário; se assim não fosse, porque não existem hippies nas fábricas ou nas minas? A estreia do filme em Santiago, prevista para o dia 11 de Setembro de 1973, foi naturalmente proibida e nunca chegou a acontecer. Temendo a destruição do material, Carlos Flores del Pino manteve o filme escondido na Embaixada da Suécia até à década de 80, e apenas nessa altura começou a exibi-lo em pequenas mostras. O título cita um verso do poema de um poema de Floridor Pérez, célebre poeta chileno da Geração de 60, intitulado “Fim-de-semana do fim”:

Por otra parte, queridos ancianos
si bailamos desesperadamente
hasta las 3 las 4 – 5 – 6 de la mañana
nunca regresaremos tan bebidos
como para ignorar 
que pudiera ser este domingo
el último del mundo
por culpa vuestra, 
queridos ancianos.

Texto de Edite Queiroz

Septembre Chilien (Bruno Muel, Théo Robichet e Valérie Mayoux, França, 1974)

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Documentário onde se retratam os dias imediatamente após o bombardeamento do Palácio La Moneda e o assassinato de Allende, abrindo com uma declaração de resistência e continuidade da luta contra o regime fascista do General Pinochet por Isabel Allende, filha do Presidente assassinado.

Histórias na primeira pessoa de violações de mulheres, de crianças que assistiram ao fuzilamento de toda a sua família, de familiares desaparecidos nos dias imediatamente posteriores a 11 de Setembro. No estádio nacional, para onde levaram a resistência e, particularmente, as classes operárias e mais pobres e onde estariam mais sete mil presos políticos sem quaisquer condições, faziam-se filas intermináveis de gentes à procura dos seus que haviam sido levados pelos militares em noites anteriores. E lá dentro, os repórteres passeavam como se estivessem a assistir aos animais no zoo. Seres humanos desnutridos, encostados em compartimentos para 15 onde permaneciam 200, já sem esperança, sabendo que seriam violentamente torturados e espancados e, talvez nessa noite ou noutra, fuzilados.

Estrangeiros que eram alvos só por não serem chilenos, filas de gente no racionamento, um silêncio ensurdecedor nos olhos dos chilenos que se baixavam à passagem de uma câmara para não serem identificados. Os estudantes contam como na universidade os membros da Unidade Popular e do Partido Comunista Chileno eram brutalmente espancados e, presos, acabavam por desaparecer. Victor Jara, conta uma estudante, assim que apanhado cortaram-lhe as articulações das mãos e disseram-lhe que tocasse agora para o seu povo.

O funeral de Neruda é o primeiro momento em que, em catarse geral, o povo grita na rua, sempre com medo da prisão e da violência mas de cabeça erguida: camarada Neruda presente. O povo unido jamais será vencido. Um filme que ainda hoje não pode ser exibido no Chile. E que nos chega a semanas das eleições chilenas que oporão descendentes de Pinochet a descendentes de Allende.

“onde tomba um revolucionário, há dez mãos para apanhar a sua arma”

Texto de Lúcia Gomes

La Spirale (Armand Mattelart, Valérie Mayoux, Jacqueline Meppiel, França, 1976)

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A ideia de realizar um documentário sobre os três anos da Unidade Popular no Chile surgiu do encontro do falecido cineasta Chris Marker e do sociólogo belga Armand Mattelart, em França, logo após o golpe militar de 1973 (Mattelart fora expulso do país depois de 11 anos a viver no Chile, onde colaborava com a Universidade de Valparaíso, dedicando-se ao estudo dos meios de comunicação e sua utilização política). Em colaboração com Jacqueline Meppiel e Valérie Mayoux (responsável pela montagem de Septembre Chilien), Marker e Mattelart dedicaram dois anos à construção de um documentário incontornável que analisa, de forma detalhada, a história sociopolítica do Chile desde a eleição do presidente Salvador Allende em 1970 até ao golpe militar e subida ao poder do general Pinochet, em 1973. La Spirale é um impressionante e engenhoso trabalho de montagem, construído a partir de matéria-prima pré-existente e de natureza muito diversa – documentos e imagens de arquivo, sequências de filmes de autor, imagens televisivas, entrevistas, fotografias (de capas de jornais, cartazes) – que confere uma verdade absolutamente palpável aos acontecimentos. Destaque-se ainda outro tipo de registo, a canção chilena, na voz do seu cantor e poeta maior, Vitor Jara. À força das imagens e da música, juntam-se as palavras de Chris Marker, mentor do projecto, autor e voz off dos comentários na versão original (o Doclisboa apresenta uma versão traduzida por Susan Sontag, com narração de Donald Sutherland).

La Spirale não é um mero relato contemplativo dos acontecimentos desses anos, mas antes um trabalho eminentemente político – que mais do que espelhar a posição política dos seus intervenientes, obriga o espectador a reflectir a posicionar-se em relação ao que observa. Ao longo de sete capítulos, os 128 minutos de filme contemplam, passo a passo, a ascensão do governo da Unidade Popular, os mecanismos de destabilização da continuada campanha apoiada pelos EUA para derrubar Salvador Allende e, por fim, a destruição do seu projecto socialista. O Plano, O Jogo, A Frente, A Abordagem, A Arma, O Ataque. E enfim, O Golpe. La Spirale é uma espécie de puzzle, complexo mas com uma mensagem perfeitamente evidente, construído a partir de uma panóplia de recordações e esquecimentos em vários formatos, através dos quais os autores criaram a textura da narrativa, lhe conferiram uma sequência, uma composição, um significado, uma memória sem dúvida impregnada de um carácter partidário e militante. Não é, portanto, uma abordagem neutra; o filme restitui uma verdade história, homenageia a sua memória e estimula a reflexão e o questionamento político. Perigoso documento este, que apenas pôde ser exibido no Chile em 2006, trinta anos depois do seu lançamento.

“Decir que la estrategia de la derecha fue la única razón de la caída de Allende es un argumento extraño, sería decir que el enemigo es invencible. Los que no toleran ninguna crítica de la up no se dan cuenta de esta cara oscura de su fidelidad. Pero hay dos cosas. Desde el inicio, un plan inspirado por Estados Unidos y organizado por la derecha chilena, realizado por la movilización de la pequeña burguesía, se fijó como objetivo la destrucción por todos los medios de la tentativa socialista. Otra cosa, esta tentativa expuso al pueblo chileno a una irradiación política que la monstruosa dictadura de los generales no se borrará fácilmente de su conciencia”.

Texto de Edite Queiroz

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11 respostas a Chile, há 40 anos atrás

  1. Argala diz:

    Não basta carpir as mágoas. Não basta fazer bons filmes e documentários. É preciso retirar as devidas lições da golpada e preparar o movimento operário para vencer.

    As experiências históricas como a chilena demonstram à saciedade a necessidade de preparar o destacamento militar que desarme a última válvula de segurança sobre a qual toda a ordem burguesa assenta: o fusil. Desarmar a burguesia daltabaixo e impôr a ditadura do proletariado.

    O facto de nos pedirem para recordar o caso chileno, sem que isso soe a autocrítica, sem suspitar que as pessoas poderão ver esse elefante na sala de jantar, espelha o estado em que está o movimento operário.

    Cumprimentos

    • Lúcia Gomes diz:

      Não compreendo qual é o mal de se recordar a história chilena nessa mesma perspectiva – histórica. E a história compreende a dialéctica.

      • De diz:

        O conhecimento da História é fundamental para que.
        O folclore das leituras sobre o Chile por parte de alguns intelectuais europeus espelha bem quão grande é o afastamento da realidade que estes têm.

        O Chile ensinou-nos muito.Ainda nos continua a ensinar. Fora das trajectórias semi-fatalistas de opereta de alguns mas que servem de lições passadas, actuais e futuras.
        Com o respeito devido a quem se bateu na altura.Com um enorme respeito tal como Lenine teve perante a Comuna.

        É preciso mais filmes, mais documentários,mais material para que o estudo continue e o debate prolifere.É preciso mais informação sempre.E obrigado a “m”. pelo que acrescenta.

        As cenas melodramáticas de alguns que do alto da sua prosápia têm a prosápia de dizer que a luta nem começou, são o que são.Cenas à espera de público.E de autorização prévia para armar exércitos.
        Já o disse aqui.Nem sequer é esquerdismo.É algo bem mais requentado

  2. miguel cunha diz:

    Existe no Chile uma comissão constituída por diversas organizações que procura expor perante a sociedade todas as pessoas que praticaram atos criminosos durante a ditadura do Pinochet. Este movimento identifica-se através da utilização de uma palavra chilena: “funa”. A funa é então uma manifestação de denúncia que procura trazer para a luz do dia torturadores e assassinos que estão bem instalados na sociedade chilena. Implica ir à residência do criminoso, ao seu local de trabalho, ao café que mais frequenta, etc. Existe um documentário que mostra a funa de Victor Jara: forma de atuar, confirmação da identidade, etc. Pode ser visto em: http://www.youtube.com/watch?v=kP89xawEFf4.

    • De diz:

      Brilhante.
      Obrigado por esta informação preciosa.

      Torna ainda mais patente o patético do patético dos que ousam falar do Chile como um processo fechado a suplicar por uma autocrítica imperial.

      A luta parece que para alguns nem começou.

  3. m. diz:

    Muito obrigada pela informação.

    Se calhar não é muito correcto fazer isto. Mas para quem não puder ir, como é o meu caso, os documentários estão no YouTube. Penso que são estes.

    (1) – Descomedidos y Chascones –
    Descomedidos y Chascones: http://www.youtube.com/watch?v=1nB2ecYXBdI

    (2) – Septembre Chilien –
    Septembre chilien 1/3: http://www.youtube.com/watch?v=INm7h_VIAhE
    Septembre chilien 2/3: http://www.youtube.com/watch?v=SpD5x77m0_E
    Septembre chilien 3/3: http://www.youtube.com/watch?v=CdkW5YlghgE

    (3) – La Spirale –
    La Spirale: http://www.youtube.com/watch?v=3OpnJfcW-Fg

  4. José António Vieira Sousa diz:

    O CHILE VENCERÁ !

  5. m. diz:

    Este documentário é longo, mas parece-me que vale a pena ver. Fica a sugestão. Apanhei uma desilusão com João Paulo II. Sou ingénua? Pois, parece que sim.

    Chile, Las Imágenes Prohibidas – Capitulo 1 – Chilevision:

    Chile, Las Imágenes Prohibidas – Capítulo 2 – Full Internacional

    Chile, Las Imágenes Prohibidas – Capítulo 3 – Full Internacional

    Chile, Las Imágenes Prohibidas – Capítulo 4 – Full Internacional

  6. m. diz:

    Esta minisérie chilena é baseada num acontecimento verídico: La Caravana de Muerte.

    «ECOS DEL DESIERTO es una miniserie chilena —dirigida por Andrés Wood y cuya avant premiere se realizó el 3 de septiembre de 2013—, que relata la vida de la abogada de derechos humanos Carmen Hertz.»

    Ecos del Desierto – Capitulo 1

    Ecos del Desierto – Capitulo 2

    Ecos del Desierto – Capitulo 3

    Ecos del Desierto – Capitulo 4 Final

    P.S. Espero ter acertado em todos os links. Os capítulos por vezes são bloqueados e daí as diferentes origens dos vídeos.

    • m. diz:

      Correcção: Esta minisérie chilena é baseada num acontecimento verídico: La Caravana de «La» de Muerte.

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