A descer, todos os santos ajudam

A nossa sociedade converteu-se numa espécie de pequena mesa redonda onde se agigantam uns quantos que, volta e meia, se vestem de sabedores e propagam a sua opinião sobre tudo.

Não raras vezes a sua base não é científica, académica, literária ou de experiência empírica sequer – é feita de ouvir dizer. O que, e bem, aprendemos em Direito, não é um depoimento válido. Mas é desse depoimento que a nossa quota de comentadores se tem vindo a construir.

A blogosfera, claro, tem um papel importante no difundir dessas coisas que se ouvem e que, passadas a letra escrita acabam por criar a ilusão de que são tratados ou documentos sociológicos importantes.

A receita é fácil: dizer um ou dois nomes que se conhecem (para dar a impressão da ligação à realidade), introduzir o artigo com a ideia condescendente de que “até se gosta” e depois impregnar o escrito com análises pessoais (empolando-as assim para o estilo científico) e sempre, mas sempre, escrever as coisas com sobranceria.

Logo vem o Expresso ou o Público dar à prensa a letra. Para credibilizar a coisa.

Mas na verdade, espremido, não tem nada a não ser um grau de frustração incompreensível.

Do que falo? De muita coisa, mas desta vez de um texto do Daniel Oliveira sobre Álvaro Cunhal. É um texto pobre, de má qualidade. Usando a sua fórmula, às vezes é capaz de escrever coisas verdadeiramente brilhantes. Não neste caso. Este texto apouca-o na sua gabada inteligência e capacidade de análise. Demonstra tacanhez na forma de pensar e de analisar. Escrever que Álvaro Cunhal foi «político extraordinário, ao artista plástico e escritor apenas, e com alguma simpatia, mediano, passando pelo antifascista corajoso, o teórico de arte medíocre, o tribuno cauteloso e hábil e o homem misterioso, sedutor e manipulador.» é tão só demonstrar uma mediana, com alguma simpatia, inteligência e, claramente, a falta de estudo e investigação sobre escritos políticos, literários e sobre os seus desenhos ou análise das artes.

Nada tem a ver com o endeusamento de quem quer que seja. Como se analisa a vida e a obra de Álvaro Cunhal (que nunca conheci nem imagino que fosse sedutor ou misterioso), analisa-se a obra e a vida de outros tantos que pela sua obra, pela sua intervenção, pela sua arte foram transformado o país. O mesmo se pode fazer com Fernando Pessoa (poeta) , Natália Correia (figura política) , Manuel de Oliveira (cineasta)…(poderia continuar). Independentemente da observação e opinião que se tenha, é legítimo que qualquer estrutura, qualquer grupo, qualquer um, na verdade, faça congressos de análise, de crítica, até mesmo de evocação pura. Como de Miguel Portas.

Mas para Daniel Oliveira o PCP não tem esse direito. Porque se trata apenas de propaganda pura. Trata-se de um partido sem gente capaz. E trata-se de uma figura mediana.

O texto é suficientemente mau para envergonhar o seu autor. Eu apenas posso lamentar que se preste a esse papel. E se reduza a si mesmo a coisa tão pouca.

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3 respostas a A descer, todos os santos ajudam

  1. m. diz:

    Muito obrigada pelo seu texto. Sou uma pessoa insuspeita na medida em que não percebo muito de política, mas percebo de gente honesta. Para mim, o Daniel Oliveira é mais um desonesto, e só quando lhe convém é que se «arma» em honesto. É uma das razões que já não compro o Expresso que comprei durante décadas.

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