A MAC é um exemplo de saúde pública e universal, por isso a querem encerrar

Vejo com espanto e, confesso, alguma repugnância, as notícias de primeira página sobre a Maternidade Alfredo da Costa. E vejo-as não como uma notícia sobre a saúde mas como uma guerra do Governo a uma direcção de um hospital que não lhe segue os passos, de coelho, e de destruição do SNS.

Em Portugal não há «classe média» que consiga suportar a medicina privada porque os salários são baixos. Por isso a privatização desta, seguindo aliás directrizes do Banco Mundial, dá-se pela transferência de recursos do sector público para o sector privado (como a ADSE a pagar aos Mello e à Siemens Medical Care). Mas estas políticas muitas vezes esbarram nas direcções locais. Na verdade este governo teve que acabar com as direcções democráticas nas escolas e nos hospitais não porque os gestores são melhores tecnicamente a fazer contas mas porque eles são afectos ao Governo e não bloqueiam as decisões que vêm de cima. Para levar a cabo as políticas de mercantilização dos serviços públicos é preciso afastar quem nas escolas, nos hospitais, resistia.

É aliás caso de estudo na ciência politica este facto de medidas que não são aplicadas no local onde chegam porque as direcções, clínicas, de serviço (como nas escolas os conselhos directivos), jogam um papel fundamental em dar a volta, no plano concreto e não aplicá-las ou só o fazer parcialmente. A direcção clínica ou de serviço – desconheço o termo correcto – da MAC tem sido um exemplo de resistência a estas políticas, logrando ainda por cima a mobilização social da comunidade. Sendo uma direcção à abater por este Governo, tudo vale, inclusive notícias que cavalgam tragédias para retirar dividendos políticos.

Soubemos que a Entidade Reguladora da Saúde informou primeiro os jornais do que a direcção da MAC do resultado da avaliação que fez à MAC. Só isto já diz muito sobre a seriedade, ou a falta dela, deste processo. Mais, a ERS o que diz, e que vem nos jornais – só isso conheço – é que a MAC recebe casos de risco elevado e por isso deve adaptar-se melhor a este dado.

Fui mãe de gémeos e de risco na MAC. Passei 9 meses por lá, uma parte internada. Não percebo nada de saúde, tecnicamente, e portanto pouco mais sei do que a minha experiência que se saldou numa verdadeira peregrinação onde ou estive algumas semanas internada ou onde ia todas as semanas fazer uma panóplia de exames. Fui acompanhada por duas obstetras especialistas em gémeos e que não me foram «recomendadas» por ninguém. Não as conhecia. Tinha, diziam pelos corredores, o melhor médico de ecografias, ao qual efectivamente as minhas amigas iam pelo privado, pagando balúrdios. Eu fazia parte das grávidas «com menos risco» porque havia outras – mulheres com problemas de saúde ou algum tipo de problema com os fetos, gémeos fruto de tratamentos, sucessivos abortos, etc, etc. – que eram acompanhadas muito mais de perto do que eu, que me cansei, cansei-me muito, de ir semanalmente a caminho da MAC e de lá passar horas a ouvir os batimentos cardíacos dos meus futuros filhos. Ouvi muitas vezes, quando estava exausta de tanto acompanhamento e timidamente protestava, a palavra é «por precaução».

Tive más experiências na MAC mas interpreto-as à luz da falta de recursos sobretudo no que diz respeito aos cuidados de enfermagem e ao pessoal administrativo, justamente aqueles que o Governo ou não contrata (enfermeiros) ou quer despedir (administrativos). Os enfermeiros sucediam-se em turnos de 16 horas, iam dormir 8 e regressavam, e os administrativos não conseguiam dar vazão a coisas simples como o transportes dos processos – isto foi há 10 anos e nada do que vi ali, do ponto de vista da falta de recursos, não vi, infelizmente, em todos os hospitais onde fui na vida. Recordo que estes enfermeiros e administrativos são formados nas nossas escolas e que despedi-los ou mandá-los emigrar é uma perda de riqueza para todos nós.

É uma experiência pessoal. Não se fazem relatórios nem com base na minha nem com base noutra – fazem-se com base em levantamentos exaustivos, eliminação de erros de análise, amostras representativas, dados analisados cuidadosamente. Mas também não se fazem relatórios que chegam primeiro aos jornais do que aos médicos da MAC.

O SNS, já o provámos no livro Quem Paga o Estado Social em Portugal?, é totalmente sustentado pelos impostos de quem trabalha e sustenta mais, sustenta uma parte dos  hospitais privados. Sustenta por via de subsídios, mas também sustenta por algo que muitos se esquecem e que é o grande investimento público na saúde – a formação dos seus profissionais. É nos hospitais como a MAC que se formam os melhores profissionais que jamais o privado conseguiria formar porque o sistema privado, é preciso repeti-lo as vezes que forem necessárias, é para dar lucro – não é para cuidar nem das mães nem dos bebés.

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3 respostas a A MAC é um exemplo de saúde pública e universal, por isso a querem encerrar

  1. Dezperado diz:

    “É nos hospitais como a MAC que se formam os melhores profissionais que jamais o privado conseguiria formar porque o sistema privado, é preciso repeti-lo as vezes que forem necessárias, é para dar lucro – não é para cuidar nem das mães nem dos bebés.”

    Concordo inteiramente, os hospitais privados sao feitos para dar lucro, mas o que ta errado aqui neste paragrafo tem haver com a formação. Se ha concorrencia entre os hospitais privados, os seus trabalhadores tambem tem formação para se tornarem cada vez melhores profissionais, porque se o objectivo do hospital é maximizar o seu lucro, se nao apresentar um bom serviço, os pacientes fogem para outro hospital privado onde tenham um serviço de melhor qualidade.

    E tambem concordo que os hospitais estatais nao sao feitos para dar lucro, mas tambem nao são feitos para darem N milhoes de prejuizo todos os anos. Uma coisa que se devia ensinar aos gestores dos hospitais publicos é que os orçamentos são para cumprir, e não passarem o ano a fazer orçamentos rectificativos, porque ainda não ha petroleo em Portugal.

    • Mário Afonso Franco diz:

      Caro Dezperado, parece-me que vai uma grande confusão nessa argumentação (cabeça?) pois os hospitais públicos, em função das suas baixas receitas, têm que apresentar normalmente prejuízos. Muito embora isto não deva impedir uma procura constante duma gestão eficiente, eficaz e honrada de modo a minimizar os custos (mas não a maximizar os lucros). Muito mais haveria ainda a dizer mas, para não me alongar, por aqui me fico.
      PS: Mero preciosismo mas suponho que devia ter escrito ”tem a ver com a formação” e não ”tem haver com a formação”. Já agora fica também esta correcção.

  2. Carlos Gois diz:

    Fora do Tópico
    Não é demais esta tomada de consciência.
    http://gawker.com/russell-brand-may-have-started-a-revolution-last-night-1451318185

    Cumprimentos

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