Portugal regressa aos mercados mas os portugueses não

Hoje quando ouvi um ministro dizer qualquer coisa como «Portugal vai conseguir, com mais austeridade, regressar aos mercados» pensei que se «Portugal regressar aos mercados» quem vive do trabalho em Portugal vai deixar de ir ao mercado.
É que Portugal (leia-se a banca) só «regressa aos mercados» se os salários forem transferidos para pagar a dívida – que os bancos contrairam e perante a impossibilidade de a pagarem, perante o calote com que ficaram nas mãos, pediram ao Estado que a assumisse através dos salários e reformas. Ora, a lógica consequente é que os salários caem, o consumo interno cai e portanto os portugueses que vivem de salários deixam de ir ao mercado comprar peixe, azeite, nozes e figos. Deixam de ir almoçar ou jantar fora, deixam de fazer férias, deixam de comprar roupa, medicamentos, deixam de viajar, tudo isto para «Portugal regressar aos mercados».
O Governo não o diz mas o que tem para nos oferecer é isto –  no Portugal deles só se regressa aos mercados se maioria dos portugueses ficar de fora.
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7 respostas a Portugal regressa aos mercados mas os portugueses não

  1. proletkult diz:

    Eu não percebo muito destas coisas, mas se Portugal “regressar aos mercados” – e aqui parto do princípio que é já no pós-troika – no estado cataclísmico em que a economia ficará após mais um ano, ou dois, ou três ou dez disto, não será pior ainda? Isto é, sem as regras de controlo, nomeadamente nos juros da “dívida”, não estará a economia portuguesa sujeita a um saque ainda pior?

    Não quero que entendam esta dúvida como alguma coisa parecida com um sentimento positivo em relação à troika, não se trata disso de modo algum. É só mesmo uma dúvida que me aparece em relação à propaganda burguesa em questões macro-económicas.

  2. m. diz:

    Pelo que percebi do seu excelente texto, afinal, são «os portugueses não regressam aos mercados» e vão morrer porque não vão conseguir regressar a uma vida normal e decente.

    Os ditos banqueiros, os grupos económicos e financeiros, esses regressam aos mercados para nos roubar ainda mais indecentemente.

    Até quando é que vamos aguentar isto? Quando é que esta «tortura lenta», acaba? Até quando é que vamos permitir isto?

    Aproveito para «agradecer» a este Governo e ao Presidente da República Portuguesa, o facto da minha amiga ter morrido na semana passada de um cancro sem ter tido o conforto que os nossos governantes, banqueiros e a gente do capital teria tido.

    Agradeço o facto da minha amiga não ter tido dinheiro suficiente porque lhe cortaram na pensão de 40 anos de trabalho: por não ter tido uma peruca decente para lhe cobrir a falta de cabelo; um creme para a pele ressequida dos tratamentos de quimioterapia; um creme para as unhas que lhe tinham caído; uns sapatos mais confortáveis para os pés e uma meias ortopédicas para as pernas inchadas; uma cadeira suficientemente cómoda para se sentar, sem ficar com dores nasa costas; um colchão que lhe não fizesse doer os ossos; não ter comido fruta que gostava porque eram muito cara; por não ter comido bacalhau que adorava e era muito caro; por quase nunca ter saído de casa porque andar de táxi era muito caro; pelo frio que passou porque as contas de electricidade eram muito caras e ela metia-se dentro da cama para ficar mais quente.

    Por último, agradeço o facto do Ministro da Saúde a ter passado de doente prioritária para doente normal: pelas suas longas esperas pelos tratamentos sentada nas escadinhas do hospital porque havia falta de cadeiras (nem de rodas tinham, a Administração do hospital dizia que não havia dinheiro).

    Os médicos e o pessoal clínico do hospital PÚBLICO fizeram TUDO o que puderam.

    Pois a este Governo e ao Presidente da República: desejo-vos a mesma sorte que a minha amiga teve convosco.

    A minha amiga é uma heroína desconhecida.

    Vocês, os do Governo e o Sr. Presidente da República são uns traidores da Pátria e bem nossos conhecidos.

  3. JgMenos diz:

    Enfim a plena compreensão do futuro: menos consumo no mercado para voltar a ter crédito nos mercados. Elementar!

  4. dona diz:

    e não há aí valente dos que matam mulher e filhos, como a si mesmos, de seguida, que antes limpe uns mafiosos ?

  5. Vasco Almeida diz:

    “… contrariam …”, ou “… contraíram …”?

  6. E entretanto matam-se mais uma data de portugueses para que eles possam continuar podre de ricos e ir aos mercados.

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